The Reason Is You
31 Capítulo 31 - As Consequências Da Solidão
Notas iniciais

Mama, take this badge from me
I can't use it anymore
It's getting dark, too dark to see
Feels like I'm knockin' on Heaven's door
RAIGN — Knocking On Heaven's Door
Como foi que Leigh havia se metido em uma enrascada daquele tamanho em menos de três dias, ela não sabia. Ela, literalmente, havia acabado de desobedecer uma ordem direta de Lexa, mesmo sabendo que isso haveria consequências sérias. Porém, sinceramente, ela não podia acreditar que a Comandante havia cometido uma traição daquele tamanho.
O que havia dado errado? Estava tudo certo e combinado, apenas algumas horas atrás. Leigh finalmente estava começando a se sentir melhor, ao finalmente conquistar a afeição de Raven e ao passar uma quantidade considerável de tempo ao lado de Lexa. Era mais que uma relação de mestra-aprendiz, elas eram amigas.
Lexa se compadeceu da garota ao ouvir que o garoto que ela amava a abandonou. A Comandante foi muito complacente em relação a esse assunto, e disse a ela que o amor não era uma coisa fácil, por isso era considerado uma fraqueza. Que também foi difícil quando ela perdeu sua antiga namorada Costia para Azgeda. Porém, com o tempo, a dor passava.
Claro, ela tinha todo esse discurso sobre “amor ser uma fraqueza”, mas não conseguia tirar os olhos da irmã da loira, que sempre estava por perto. Quando não estavam treinando, ou discutindo sobre a montanha, Lexa sempre tirava um tempo para falar com a guarda skaikru. Uma vez, após uma reunião para discutir estratégias de resgate, Leigh entrou na tenda de Lexa e a viu beijando Juliet.
No momento, ela ficou feliz pela irmã. A Comandante era uma boa pessoa, elas ficavam bem juntas. Contudo, algumas coisas aconteceram depois disso. A traição na entrada da montanha foi o estopim do desentendimento. Leigh não teria certeza se Lexa a aceitaria de volta depois disso. Nem se queria ser aceita de volta.
Agora, ela estava com Octavia, dentro dos túneis de Mount Weather, esperando que a porta se abrisse por um milagre. Aconteceu que, após todo o povo terrestre sair de dentro da montanha, depois que toda uma emboscada já estava armada para libertar os prisioneiros, Lexa ordenou que todo e qualquer terrestre batesse em retirada. Tanto Lincoln quanto Leigh foram levados à força. Mas sendo o bom irmão que era, Lincoln fez com que ela tivesse uma oportunidade de fugir.
— Não podemos ficar aqui para sempre, eles vão nos achar e vão nos matar, O! — Leigh reclamou — E se eu voltar para lá, a Heda vai me matar...
— Se acalme, ficar nervosa não vai nos ajudar a bolar um plano! — Octavia respondeu, analisando melhor o lugar em que as duas estavam. — Aquele túnel ali, talvez seja uma saída de lixo. Você é pequena, eu posso te ajudar a subir e você escala para dentro da montanha.
Nesse momento, um alarme soou, e as duas se afastaram da tal rampa de lixo. Poucos segundos depois, o corpo de uma garota desceu por ali. Octavia a reconheceu como Fox, uma dos delinquentes que estavam presos em Mount Weather. Ela estava morta, cheia de ferimentos no corpo.
— O, tem alguém chegando! — Leigh exclamou, empunhando seu arco, assim que ouviu o barulho de passos vindos de fora do túnel.
Octavia automaticamente empunhou sua espada. As duas abaixaram suas armas quando perceberam quem estava vindo.
— Octavia... você e a Leigh ficaram. — Clarke disse, se aproximando das duas. — Vocês estão bem?
Leigh ainda estava zangada com Clarke por um incidente que havia acontecido dias antes, em sua aldeia. Os Homens da Montanha bombardearam toda a área de Tondc e suas proximidades. Muita gente morreu, e muitos foram feridos. Apenas Clarke e Lexa sabiam que a aldeia seria atingida por uma bomba, e não contaram para ninguém.
Por causa desse segredo, Kane, Abby e Juliet foram feridos. E foi naquele momento em que Leigh começou a questionar a autoridade de Lexa, e até que ponto, proteger uma estratégia de guerra era mais importante que as vidas de seu exército. Ela deixou Juliet ser ferida... a garota com quem estava trocando beijos momentos antes. Foi exatamente por isso que Leigh se recusou em segui-la quando as tropas terrestres foram ordenadas a bater em retirada.
— Estamos qualquer coisa, menos bem! Eu juro, Lincoln e eu não sabíamos de nada sobre o plano da Heda. — Leigh respondeu, não perdendo uma oportunidade para alfinetar a outra loira. — Ao contrário de você, que sabia da bomba e não contou para a gente.
— Leigh, se eu tivesse contado sobre a bomba para alguém, o Bellamy poderia estar morto lá dentro! — Clarke rebateu, se defendendo.
Claro que ela ia defender o bem-estar de Bellamy, eles ainda estavam juntos, apesar de tudo. Leigh começou a andar de um lado para o outro, impaciente com tudo aquilo. Realmente, ela ainda tinha muito o que aprender sobre táticas de batalha. Quer dizer, até Octavia sabia que manter a calma era fundamental.
— O Lincoln conseguiu sair de perto deles? — Octavia perguntou, esperando que Clarke soubesse de algo.
— Não, eu não o vi desde que ele foi levado. Também não sei onde estão a minha mãe, o Kane e a Juliet. — Clarke respondeu, sacando sua arma. — Precisamos abrir essa porta.
— Espere aí, o seu plano é nós três invadirmos a montanha quebrando tudo?! — Octavia perguntou, finalmente se alterando. — Porque, se você atirar nessa porta, toda a nossa furtividade vai para o espaço!
— Se for preciso para resgatar nossos amigos e o Bellamy, sim! Eles já sabem que estamos aqui, de qualquer maneira. — Clarke respondeu, apontando a arma para a porta. — Se afastem, vocês duas. Eu vou abrir a porta.
Bem quando Clarke estava pronta para atirar, elas ouviram outro alarme. Pensaram que outro corpo seria atirado para o lixo, mas viram que se tratava de outra coisa quando a porta abriu e Bellamy passou por ela. E ele não estava sozinho.
— Bell, ainda bem! — Octavia o abraçou. Outros vieram por trás dele. Logo, a figura de Monty tomou os braços de Octavia, para que Bellamy pudesse ir até Clarke.
Leigh logo reconheceu Jasper, o “garoto do graveto”, como ele sempre seria na mente dela. Contudo, ela pensou que ele, talvez, não a reconheceu, pois demorou algum tempo para reparar na presença dela. Compreensível, eles haviam conversado poucas vezes, e já havia algum tempo que não se viam.
— Ei... é você! Achei que nunca fosse te ver de novo! — Jasper disse, finalmente notando que ela estava ali.
— Oi, gravetinho... — Ela o cumprimentou, o abraçando de leve.
— Esses dois são literalmente dois gravetos, por isso nem pensaram em extrair medula deles. — Octavia brincou, soltando Monty.
Ainda não eram todos os presentes ali. Logo atrás dos garotos, surgiu uma figura usando um traje protetor contra radiação. Era um dos moradores da montanha. Leigh não demorou em erguer seu arco. Octavia fez o mesmo com a espada.
— Esperem, é a Maya, ela está conosco! — Jasper disse, impedindo as duas de atacarem a garota no traje.
De repente, o medo voltou a tomar forma. Leigh mirou a porta da montanha aberta e um calafrio percorreu sua espinha. Ela havia se dado conta de onde estava. Aquela montanha foi responsável pelos piores dias da vida dela, trancada em uma jaula minúscula, sendo picada e drenada o dia todo.
Leigh deixou seu arco cair, sem querer. Ela não tinha certeza se havia tomado a decisão certa ao fugir do exército de Lexa, agora que estava de frente com o perigo. Octavia percebeu a tensão da amiga, e pôs uma mão em seu ombro.
— Você precisa estar bem, se vamos fazer isso. Não pode entrar aí se estiver com medo. L, olhe para mim. — Octavia tentou confortá-la. Era verdade que, desde que começou a treinar com Indra, ela havia se tornado mais racional. — Nós duas vamos contar até cinco, e depois você vai deixar todo o medo aqui, do lado de fora.
Era um exercício simples, que ela havia aprendido com Indra, para controlar seus instintos. Octavia ajudou Leigh a respirar fundo e contar até cinco, segurando os ombros dela o tempo todo. No final, o pânico passou, e a loira conseguiu acalmar seus nervos.
— Como é que o oxigênio pode estar acabando se nós trocamos o tanque agora pouco?! — Jasper perguntou, nervoso, verificando o tanque de oxigênio que Maya estava usando.
— Não tem mais tanques, todo o resto do oxigênio suplementar está no Nível Cinco. — Maya respondeu, preocupada. — E o Nível Cinco é onde todo mundo está agora, não é seguro irmos para lá.
— Precisamos achar o Dante também. Ele é o único com poder para soltar o nosso povo. — Bellamy respondeu. — Ele está na quarentena.
— Ok, então temos um plano. Clarke, Bellamy e Monty vão atrás do Dante. Jasper, Leigh e eu iremos levar a Maya até o Nível Cinco. — Octavia respondeu. — Usem o rádio da Raven para nos contatar se precisarem de alguma coisa.
Deixe o medo aqui fora, você não vai entrar sozinha. Leigh repetia para si mesma, em sua cabeça, segundos antes de Octavia a puxar para dentro da montanha, juntamente com Maya e Jasper.
*~*
Murphy não estava em uma situação melhor. Ele já havia chegado ao ponto de se arrepender amargamente de não ter voltado e pedido perdão para Leigh enquanto podia. Agora, estava pagando por seus erros dentro de um barco, no meio do oceano, indo para lugar nenhum.
Depois de ter passado por um perrengue atrás do outro, ele concluiu o que já sabia desde o começo. Se enfiar no meio do deserto com Jaha era uma péssima ideia. E então eles cruzaram com Emori... o começo da tragédia. Se ele cogitou que aquela garota pudesse ter algo familiar com Leigh, ele estava completamente enganado. E ela conversou com ele como se fossem amigos...
~~
— Por que você está nessa? Não me parece ser do tipo que encara uma viagem no deserto em busca de um “lugar melhor”. — Emori comentou, andando ao lado dele.
— Era o único lugar que eu tinha para ir depois de tudo. As pessoas do meu povo não me suportam, os outros terrestres também não me suportam, eu matei duas pessoas, além de tentar matar mais duas. Tive meus motivos, mas ninguém deu a mínima. E para fechar com chave de ouro, parti o coração da única garota que eu amei na vida. — Murphy respondeu, com pesar. — E agora estou contando tudo para a única pessoa no planeta inteiro que não me odeia...
— Sabe, você não é o único com uns segredos feios no armário. — Emori respondeu, retirando a luva que usava em sua mão esquerda, revelando sua mutação para ele.
Ela tinha dedos em um tamanho maior que o normal, além de alguns serem grudados um no outro. De certa maneira, a mão dela lembrava uma garra de lagosta. Murphy estava se perguntando por que Leigh nunca havia falado de pessoas com mutações causadas por radiação para ele.
— Meu povo me via como uma mancha na linhagem. Algo que não deveria estar entre eles. Por isso, deixaram a mim e ao meu irmão para morrer no deserto. — Emori respondeu, continuando a andar.
— Se eu fosse você, não cobriria isso. Achei bem poderoso. — Murphy respondeu, fazendo com que ela o encarasse, surpresa, por um milésimo de segundo.
— Mentiroso... — Emori respondeu, com um sorriso de canto, se virando para a frente.
Mais tarde, ela perguntou sobre a tal garota que ele tinha magoado. Ele disfarçou, disse que não tinha certeza se deveria entrar nesse assunto. Ela usou o argumento de que tinha revelado seu segredo mais pessoal, agora era a vez dele.
— O que posso falar sobre isso... já estava na cara que nada de bom iria resultar disso desde o começo. Ela é perfeita... e eu sou um lixo. Ela foi a única que viu algo de bom em mim, e quis me ajudar, ao invés de vir com paus e pedras, como todos os outros. — Murphy disse, tentando ser o mais breve possível. — Ela era tudo de bom que alguém possa imaginar. Gentil, inteligente, amava ajudar os outros, mesmo que os outros a tratassem mal... até que eu apareci na vida dela e estraguei tudo. Mas acho que não dá para escolher por quem se apaixonar...
— Se ela era tão boa, por que você a deixou? — Emori perguntou, curiosa. — Me parece que uma figura dessas não se acha em qualquer lugar...
— Exatamente por isso. Ela é boa demais para mim. Minha influência começou a trazê-la para o mal caminho. Antes que ela fosse para o “lado sombrio” por completo, eu decidi me afastar, para ela poder se desintoxicar. — Murphy respondeu, com a voz distante. — Os outros viviam se metendo entre nós. Colocando ela contra mim...
— Mas você amava mesmo essa garota? — Emori perguntou outra vez, desta vez, mais séria.
Eu não a amava, eu ainda a amo. Ele pensou. Porém, resolveu guardar para si. Acabou que guardar para si foi melhor, pois Emori traiu e assaltou o grupo, juntamente com seu irmão, alguns momentos depois. Ela levou todos os pertences e toda a água deles. Contudo, ainda com uma pequena reviravolta. Segundos antes de nocauteá-lo, ela o disse para seguir Kara e ir para o norte.
Seguir Kara... ela tem o nome da estrela. Até quando ela não estava ali, ela causava algum impacto na vida dele. Agora, toda vez que ele fosse procurar o norte, olhando para a estrela, ele se lembraria dela.
~~
Murphy e os outros seguiram a estrela... e foram parar em um campo minado, enfrentaram uma tempestade de areia, encontraram um cemitério de painéis solares, e agora estavam em um barco, no meio do nada, seguindo um drone misterioso.
Para piorar, tinha um monstro bizarro atacando o barco. Já havia devorado um tripulante, e mordido o braço de Murphy, de brinde. Como se não bastasse, Jaha jogou o outro tripulante na água, para servir de comida e afastar o animal.
Aquela mordida estava doendo muito, e ele não tinha como tratá-la ali. Além disso, estava perdendo muito sangue. O máximo que podia fazer era estancar com a própria jaqueta. Se ela estivesse ali, ela poderia dar um jeito naquilo...
Por fim, quando finalmente alcançaram terra firme, Jaha o abandonou para perseguir o drone sozinho, floresta adentro. Era o fundo do poço mesmo. Abandonado, em uma terra desconhecida, com o braço dilacerado... e Jaha ainda dizia que estavam indo para a “terra prometida”.
— Sua “terra prometida” é uma droga! — Murphy gritou com toda a força de seus pulmões, sentindo que não tinha como estar em uma situação pior.
*~*
Clarke, Bellamy e Monty haviam acabado de sequestrar o ex-presidente Dante Wallace, e estavam se juntando a Octavia, Leigh e Jasper, para levar Maya ao Nível Cinco, antes que o oxigênio dela acabasse.
— Me ajude a tirar o traje dela! — Jasper pediu, assim que alcançaram uma zona segura o suficiente para ela poder respirar.
Maya estava prestes a desmaiar. Provavelmente teria, se Leigh não tivesse tirado o capacete dela a tempo. Maya respirou fundo, ofegante.
— Está bem, ela consegue respirar e vocês o pegaram. — Octavia disse, apontando para o homem idoso. — Qual o próximo passo?
— Precisamos achar o Cage. Ele está no comando agora, e duvido que não faça o que mandarmos ao saber que estamos com o pai dele. — Clarke respondeu.
— Não é bem assim, ele sabe que eu ajudei vocês, não estamos seguros aqui no Nível Cinco. — Maya disse. — Vai nos matar assim que nos encontrar.
— Não se o matarmos primeiro. — Jasper respondeu.
Octavia encarou Leigh, esperando uma confirmação da mais nova. Assim que ela assentiu, a morena se voltou para Jasper.
— Leigh e eu estamos nessa. — Octavia respondeu.
— Pessoal... estamos com um problema. — Monty se pronunciou. Ele estava monitorando as imagens de segurança, dentro da sala de controle. – Essas imagens são ao vivo...
O local que antes fora usado como dormitório pelos delinquentes que foram capturados pela montanha, agora era um centro para extração de medula. Que mais parecia uma câmara de tortura, obviamente. Todos os prisioneiros eram familiares. Todos membros do povo do céu. Entre os prisioneiros, estavam Kane, Abby, Juliet... e Raven, que era a vítima da vez.
— Jules... Raven! — Leigh exclamou os nomes delas, ao vê-las sendo torturadas naquela imagem. Juliet estava algemada em uma parede, muito ferida, enquanto Raven estava sendo perfurada em cima de uma maca.
Novamente, Leigh teve aquele pressentimento de perigo. Momentos tenebrosos de quando ela esteve sob o cativeiro dos Homens da Montanha voltaram a vir à tona. Ver sua irmã e sua amiga passando pela mesma coisa era ainda pior. Ela não tinha certeza se seria forte para continuar com aquilo.
— Vamos, temos que entrar naquela sala! — Octavia exclamou, a puxando pelo pulso novamente.
Octavia já tinha reparado que algo que Indra comentou alguns dias antes fazia sentido. Enquanto treinavam, ela disse “a Heda perde tempo em querer treinar essa garota. Ela nunca vai conseguir se manter firme em uma situação real de batalha”. Não queria admitir, mas sua mestra poderia estar certa. Talvez o talento de Leigh fosse mesmo para a medicina, não para guerras...
Maya sugeriu de ir encontrar outro aliado, dos Homens da Montanha, e convencê-lo a entrar no esquema. Eles já tinham todo um plano montado. O tal aliado iria levar Jasper como uma “isca”, para que ele tivesse acesso ao dormitório, enquanto Leigh e Octavia iriam atrás, como boas guerreiras furtivas, para dar cobertura.
Enquanto esperavam, Leigh se mantinha abaixada, nos cantos de uma passagem, enquanto Octavia estava no outro. Ela ficava repetindo o mantra que a morena havia lhe ensinado antes de entrarem. Ela não podia ter medo em uma hora dessas. Respirava fundo e contava até cinco, silenciosamente, várias vezes.
— Jasper, um guerreiro não se preocupa com o que ele não pode controlar. — Ela ouviu a voz de Octavia. – Por que não vem aqui e faz companhia para a Leigh. Vocês dois estão precisando se acalmar. Eu vigio a porta.
Octavia estava certa. Não adiantava de nada ficar martelando a cabeça por algo que nenhum dos três tinha poder para mudar. Jasper se rendeu e se juntou à loira, se abaixando ao lado dela. Por um instante, aqueles antigos pensamentos dele sobre ela voltaram. E ela estava ainda mais bonita que antes. Não, não iria dar certo. Ele já tinha Maya. E ela... estava com Murphy.
— Tudo bem, é normal sentir medo. A Maya já vai voltar, vai dar tudo certo. — Leigh disse, tentando confortá-lo. Na verdade, ela estava mais tentando confortar a si mesma.
— Por que o Murphy não está com vocês? — Jasper perguntou. Ele realmente precisava tocar nesse assunto agora? — Ele também não está no dormitório, não o vi nas imagens.
— Não vamos vê-lo por um tempo. Ele foi embora... — Leigh respondeu. Pelo tom entristecido da garota, ele não precisou perguntar mais nada para entender o que havia acontecido.
Nesse momento, a porta à frente deles foi aberta, e Maya entrou, acompanhada pelo aliado que ela havia ido buscar. Ele, claramente, estranhou a presença das duas garotas de aparência selvagem.
— Maya, você não disse que havia forasteiras com você! — Ele disse, sacando sua arma e apontando para as duas.
— Espere, não atire! Elas não são forasteiras! — Maya interviu, se pondo à frente dele, impedindo de atingir as garotas.
— Elas são sim! — Octavia rebateu, já com sua espada na mão, pronta para contra-atacar.
— Parem com isso! Estamos perdendo tempo, minha irmã está naquela sala, e eu não vou deixar que ela morra enquanto vocês brigam! — Leigh exclamou, assumindo a dianteira.
— Ela tem razão, estamos perdendo tempo. Quantos soldados estão no dormitório com o Cage? — Jasper perguntou.
— Uns seis, por quê? — O soldado aliado perguntou.
— Não são muitos... só preciso conseguir chegar perto o suficiente. — Jasper respondeu, estendendo as mãos para serem algemadas.
— Não esqueça disso aqui. — Octavia disse, estendendo uma faca para ele. — Direto na garganta. Rasgue, não apunhale. Faça um corte profundo naquele desgraçado.
A morena aproveitou que ele havia ido se despedir de Maya, e puxou Leigh para sussurrar em seu ouvido. Os planos haviam mudado. Ela havia dito para a mais nova seguir Jasper, pois não estava tão segura se ele conseguiria fazer aquilo sozinho. Enquanto isso, ela iria ficar com Maya, para garantir que a garota da montanha não fosse pega, ou morta.
Os dois foram e Leigh os seguiu, sorrateiramente. Se havia algo que ela sabia fazer bem era se esconder. Seu corpo pequeno lhe dava uma vantagem enorme quando o assunto era furtividade. Contudo, em certo ponto, ela encontrou um empecilho. O salão de jantar do Nível Cinco estava lotado de pessoas. Ela precisava encontrar outro jeito de chegar ao dormitório, sem ser vista.
Era difícil e arriscado, mas o único jeito era ir pelos dutos de ventilação entre os cômodos. Como ela era pequena o suficiente, não precisava se encolher muito para entrar. O problema era abrir aquela coisa. Ela não tinha ferramentas. O máximo que ela tinha de algo com ponta fina e afiada eram suas flechas. Sem perder tempo, ela se pendurou próxima ao duto, pegou uma flecha da aljava e usou a ponta para desparafusar as grades.
Assim que ela encontrou o canal que dava para o dormitório, não chutou a grade imediatamente. Ela se apoiou e deu uma boa observada no que estava acontecendo. Abby estava na maca, sendo drenada. Por um lado, Leigh se sentiu mal por vê-la assim, porém, por outro, agradeceu por não ser Juliet no lugar dela.
O momento mais difícil foi quando Jasper finalmente foi trazido para o dormitório. Era agora ou nunca. Leigh teria atirado uma flecha no pescoço de Cage ali mesmo, se as grades não fossem tão estreitas. Ela só esperava que ele entendesse a deixa e agisse quando ela chamasse atenção...
Depois que Leigh chutou a grade, a coisa toda virou um pandemônio. Guardas da montanha começaram a atirar na direção da grade. Se Jasper não fizesse algo depressa, ela seria baleada. Bem quando o desastre estava para se completar, um alarme alto ecoou pelos cômodos da montanha. Gritos abafados também chegaram aos ouvidos da terrestre encolhida nos dutos. Assim que ela se levantou e voltou para perto da grade, ela viu o que estava acontecendo. Os Homens da Montanha estavam morrendo... por radiação.
Ela voltou a chutar a grade, até a atingir com força o suficiente para quebrá-la. Logo após quebrar, ela pulou para o dormitório, sendo reconhecida por vários rostos. Porém, o fato de os Homens da Montanha estarem todos morrendo irradiados estava preocupando alguém...
— Maya! — Jasper exclamou, correndo para fora do dormitório, sem soltar os outros.
— Leigh! Solte a gente, procure a chave nos bolsos deles! — Juliet a chamou, assim que ela pulou no cômodo.
Ela pegou a primeira chave do primeiro guarda que viu pela frente, e libertou a irmã.
— Aqui, solte os outros. — Leigh disse, dando a chave para Juliet. — Cadê o Cage?!
— Ele fugiu pouco depois do alarme soar. — Juliet respondeu, começando a soltar os outros.
Essas pessoas são muito sensíveis ao ar lá fora, por isso precisavam da medula dos skaikru. Talvez ainda dê tempo de salvar a Maya! Leigh pensou, rapidamente pegando uma ampola contendo medula e correndo para o salão.
Bem como esperado, Maya estava agonizando nos braços de Jasper, com a pele queimada de radiação, assim como os outros membros de seu povo. Leigh o mandou se afastar e atingiu o peito de Maya com a ampola, injetando medula skaikru na garota.
— Vamos, Maya... você precisa reagir! — Leigh exclamou, esperando que a medula fizesse algum efeito.
Jasper já estava aos prantos, antes mesmo da garota morrer. Ele realmente a amava. Leigh, por experiência própria, sabia o quão doloroso era perder uma pessoa amada. Jasper iria precisar de muito apoio em um momento desses. E ela não demorou a abraçá-lo quando Maya faleceu, incapaz de reagir à medula.
Ela não disse nada. Não era momento de falar. Apenas ofereceu seu ombro para que ele pudesse chorar. Ele pareceu reagir ao gesto de afeto, colocando uma das mãos sobre a dela, enquanto mantinha a outra segurando o corpo de Maya. Leigh só voltou a ouvir a voz de Jasper quando Clarke, Bellamy e Monty apareceram no recinto.
— O que você fez?! — Jasper perguntou, cheio de raiva.
— Não tivemos escolha. — Clarke respondeu, com pesar.
Ele estava tendo um ataque de fúria. Leigh não o culpava. A garota que ele amava havia acabado de morrer em seus braços, e pelo que parecia, Clarke tinha culpa no cartório. E ela não era a única...
— Eu ia matar o Cage, se vocês tivessem me dado só mais um minuto, isso teria acabado! — Jasper exclamou, completamente exaltado.
Foi nesse momento que Leigh percebeu que era hora de deixá-lo sozinho um pouco. Pelo menos por cinco minutos. Ele precisava respirar. Ela se levantou e voltou para o dormitório, ouvindo a voz de Bellamy ao fundo.
— Jasper, eles nunca teriam parado...
No fundo, ela sabia que Bellamy estava certo. Os Homens da Montanha atormentavam o povo dela desde antes dela nascer. Nada iria impedi-los de lutar por sobrevivência a qualquer custo. Infelizmente, um dos lados teria que perecer, mais cedo ou mais tarde.
— Tudo bem, irmãzinha? — Juliet perguntou, se aproximando dela. — Acho que sim, você está até mais inteira que eu...
— Eu só quero ir para casa agora, Jules... — Leigh respondeu, abraçando a mais velha. — Esse lugar é do mal.
— Nós já vamos. Quem sabe no caminho eu vá tirar satisfações com a Lexa. A garota beija bem, mas isso não a livra de levar um chute na bunda bem dado por ter nos abandonado na porta da montanha! — Juliet respondeu, descontraindo para tentar melhorar o humor da irmã.
— Só você para me fazer rir em uma hora dessas. — Leigh respondeu. — Tem que chutar pela bomba na aldeia também, eu te ajudo com esse.
Apesar do momento de descontração, a situação era grave. Muitas pessoas estavam feridas, precisando de cuidados médicos. Leigh sabia que teria um grande trabalho pela frente, pois Abby também estava ferida e incapacitada. Bem, ao menos ela teria a ajuda de Jackson.
Na saída da montanha, uma surpresa estava esperando. Lincoln estava ali, bem e com boas notícias. Ele havia matado Cage na floresta, o que significava que os Homens da Montanha estavam oficialmente extintos. Nada mais de drenagens, nem medo da montanha. Ao menos, era o que achavam.
*~*
— Então, estamos proibidos de colocar o pé para fora do território skaikru? — Leigh perguntou, enquanto andava de volta para o Acampamento Jaha, ao lado de Lincoln, Octavia e Juliet.
— É isso. Caso contrário, a Heda tem liberdade para matar nós dois. Você e eu desrespeitamos as leis do nosso povo quando nos aliamos a skaikru contra a montanha, depois que ela ordenou a retirada. — Lincoln respondeu.
— Ela não faria isso... ela é minha amiga, além de ser minha mentora. Se eu explicar a situação para ela... — Leigh foi interrompida.
— É muito arriscado. Não vale a pena, eu não vou deixar você ser morta por causa de uma ordem dela. — Lincoln respondeu.
— É, ele está certo. Além disso, sua família e seus amigos estão aqui, o que tanto você quer fazer lá fora? — Juliet perguntou, tomando a palavra.
— Nem todos estão aqui... — Leigh respondeu, cabisbaixa.
— Ah, não. Se você está falando do Murphy, eu vou ter que te bater até tirar esse garoto da sua cabeça! — Octavia rebateu.
— É a primeira paixão dela, não há nada de errado em sentir falta. — Juliet a repreendeu. — Mas irmãzinha, você precisa entender que o mundo lá fora é grande demais. E não temos certeza se vamos vê-lo, ou algum dos que partiram com ele, outra vez. Se eu fosse você, apostava em alguém diferente.
— Juliet está certa. Falando em apostar em alguém diferente, por que você não vai dar uma força para o Jasper? — Octavia perguntou, acenando com a cabeça para o garoto, alguns metros atrás deles.
Ele não estava nada bem. E era completamente compreensível. Sim, ela ouviu o conselho de Octavia e foi até ele. Mas não por algum desejo romântico, e sim, por empatia. Ela sabia pelo que ele estava passando...
— Não devia passar tanto tempo sozinho, gravetinho. Não faz bem. — Leigh disse, se aproximando dele, e colocando uma mão em seu ombro. — Olhe, eu sei que você está mal. E sei que não quer falar sobre isso agora. Mas quando se sentir pronto, e quiser falar com alguém... eu estou aqui, viu?
— Olhe só, a Pocahontas... ou eu deveria dizer, Madre Teresa? — Era impressionante como, mesmo machucada ao extremo, Raven ainda tinha forças para fazer comentários sarcásticos. Ela entrou no acampamento, sendo carregada por Wick. — Jasper, estou com algo que é seu.
Raven entregou a Jasper os famosos óculos de aviador que ele costumava usar nos primeiros dias na Terra. Ele os pegou, como se tivesse acabado de receber um presente nostálgico, e realmente, era.
— Meus óculos... obrigado. — Jasper agradeceu. Antes de Raven ir, ela ainda chamou a atenção da loira mais uma vez.
— Te vejo na ala médica, Pocahontas. Vamos ter horas de diversão enquanto você limpa os ferimentos do meu quadril! — Raven disse, quando já estava afastada. Leigh também estava prestes a sair, porém, para sua surpresa, Jasper a abraçou.
— Você foi a única que tentou salvá-la. Eu não vou esquecer disso. — Jasper disse, enquanto a soltava, lentamente.
Leigh suspirou enquanto Jasper prosseguia, sem ela. Ao olhar acampamento adentro, ela só conseguia pensar em uma coisa. Tenho muito trabalho pela frente.
*~*
Murphy acordou com os raios de sol da manhã batendo em seu rosto. Ele ainda estava na praia, na tal ilha misteriosa. Porém agora, com a luz do dia, ele conseguia ver o que tinha a sua frente. Parecia ser um farol, julgando pela grande lâmpada que girava na noite anterior. Andando mais um pouco, ele achou outra daquelas placas de painéis de energia solar. E ao tirar areia de cima, ele havia acabado de descobrir sua mina de ouro particular.
O farol possuía um bunker. E não era um bunker qualquer. Estava equipado com comida, bebida, incluindo alcoólica, e equipamentos de lazer, como uma mesa de sinuca e uma TV. Aquele lugar deveria estar abandonado desde o fim do mundo, mais de cem anos atrás.
Depois de vários dias horríveis, ele finalmente teve um pouco de sorte. Era uma pena ter encontrado aquele lugar sozinho. Seria muito melhor se ela estivesse ali com ele. Afinal, os dois tinham um histórico com bunkers.
Não. O motivo de ele estar ali era justamente para ficar longe dela e deixá-la em paz. Então, para pensar em outra coisa, ele pegou o controle remoto e apertou um botão, desligando a música e ligando a TV.
O vídeo passando era de um homem, sentado no sofá daquele mesmo lugar. Ele parecia desesperado, como se tivesse feito algo de errado. O tempo todo, ele repetia frases como “eu a deixei escapar”, e “foi ela quem fez isso”. De quem diabos ele estava falando? Acabou que não deu tempo de descobrir, pois o tal homem cometeu suicídio em pleno vídeo, atirando em sua própria cabeça. No que ele havia se metido?
“Porta do confinamento selada.” Uma voz feminina ecoou pelo bunker.
Não foram necessárias muitas batidas na porta para perceber que ele estava trancado ali dentro... sem previsão para sair.
*~*
TRÊS SEMANAS DEPOIS
— Me dê um bom motivo para não executá-la agora mesmo. — A voz firme de Lexa ecoou pela sala do trono da torre, em Polis.
— O que aconteceu na montanha era um assunto pessoal meu, eu tinha uma dívida com skaikru. Não foi minha intenção desonrá-la, Heda. — Leigh respondeu, praticamente ajoelhada aos pés da Comandante.
Ela sabia que uma viagem à Polis era arriscada, ainda mais, com a ordem de execução sobre ela. Mas Leigh não aguentava mais ficar presa...
— Você tinha que escolher, ou nós, ou eles! E você escolheu a eles... — Indra disse, em tom de repúdio.
— Eu não os escolhi, eu escolhi os dois. Ainda sou tão parte de Trikru quanto vocês. Já disse, e vou repetir, o que aconteceu na montanha foi uma dívida que eu tinha com eles, não foi nada pessoal contra a Heda ou a coalizão. — Leigh continuou, alternando olhares entre Indra e Lexa.
— Por que você veio sozinha? Onde está seu irmão? — Lexa perguntou, calmamente.
— Ele não sabe que estou aqui. Ele está se estabilizando entre os skaikru. É o melhor lugar para ele agora, mas não para mim. — Leigh respondeu. — Quero voltar a ser treinada por você, Heda.
— Uma vez a cada dez dias. É o tempo em que você será recebida aqui em Polis sem a ordem de execução. Se aparecer por aqui fora desse período, não posso fazer nada por você. — Lexa respondeu, como sendo a sábia Comandante de sempre.
Leigh agradeceu e se retirou, pegando seu cavalo e partindo de Polis. A viagem de volta levava quase um dia inteiro à cavalo, mas não é como se ela estivesse com pressa para voltar. As coisas por lá não estavam das melhores. Aliás, ela torcia muito para que Lexa tivesse a deixado viver com ela em Polis, como era o plano à princípio.
Algumas horas depois, ela parou próxima a um lago, para matar sua sede. Um barulho suspeito de seu cavalo fez com que ela ativasse seu lado alerta e pegasse seu arco, se virando para dar de cara com a suposta ameaça.
— O que você quer? — Ela perguntou, no idioma terrestre, usando um tom de raiva. — Não tem motivos para me matar, eu não te fiz nada!
— Você tem cabelos claros. Pensei que fosse a Wanheda. — O homem respondeu. Ela não o conhecia, sequer o tinha visto antes.
Ele tinha o mesmo porte físico de Lincoln. Tinha cabelos longos, na altura do pescoço, e usava uma espécie de camuflagem no rosto, como se estivesse fugindo. Wanheda... não era a primeira vez que Leigh escutava esse nome, e com certeza não seria a última. Mas não lhe interessava saber o paradeiro dela. Entretanto, havia algo naquele homem que a intrigava...
— Se me contar por que está atrás da Wanheda, eu o ajudo a achá-la. — Leigh respondeu, notando a escarificação na lateral do rosto dele. — Espere um pouco... você é Azgeda!
Ela voltou a empunhar seu arco contra ele, que não levou aquilo como grande coisa.
— Garota Trikru, você não quer lutar comigo. — Ele respondeu, em tom de deboche, pegando sua espada.
— Ah, quero. E como quero. Vamos ver o que um Azgeda consegue fazer! — Ela respondeu, o desafiando.
Continua
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