The Reason Is You
29 Capítulo 29 - O Término - Parte 1
Notas iniciais

I've been dying inside
Little by little
Nowhere to go
But going out of my mind
In endless cyrcles
Runnin' from myself until
You gave me a reason for standing still
Nick Lachey — What's Left Of Me
O dia seguinte não foi nada fácil. Finn havia sido morto, mas Lexa somente oficializaria o tratado de paz, depois que o corpo do skaikru fosse levado para a aldeia de Tondc e queimado em uma pira, no mesmo lugar dos mortos do massacre.
Inicialmente, Kara Leigh não queria ir junto. Apesar de não morrer de amores por Finn, não queria participar do resto do ritual terrestre. Além disso, Raven iria junto, e a loira não tinha vontade de ficar no mesmo ambiente com ela naquele momento. O clima entre as duas já não andava nos melhores, depois da morte de Finn, mesmo...
Ela concordou em ir apenas em consideração à Lincoln, para não deixá-lo retornar à aldeia sozinho, sob a mira dos olhares e julgamentos dos outros terrestres. Mesmo que ela estivesse passando pela mesma situação, não era tão ruim quanto passar por aquilo sozinho.
A pior parte era ter que ir sem Murphy. Abby e Kane chegaram a um acordo, onde trazê-lo junto, somente iria atiçar ainda mais a ira dos terrestres. Então, ele teve que ficar para trás, aguardando o retorno dela. Aquilo somente a fez mergulhar ainda mais fundo em seus próprios pensamentos, ficando quieta e distante quase a viagem toda.
Na verdade, ela não prestou atenção em quase nada, apenas nos momentos mais impactantes. Como, por exemplo, quando pararam para dormir, e ela acabou ouvindo ao longe uma acalorada discussão entre Clarke, Bellamy e Raven.
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— Vocês dois não tem um pingo de sensibilidade? Como é que conseguem se agarrar com o corpo do Finn a menos de três metros?! — Uma enfurecida Raven perguntou, quase gritando.
Kara Leigh estava deitada ao lado de Juliet, dividindo a fronteira entre os territórios dos clãs. Enquanto a mais velha dormia serenamente, a terrestre permanecia com os olhos abertos, incapaz de cobrir os ouvidos e não ouvir a discussão.
Aparentemente, Clarke e Bellamy adentraram a floresta para ter um pouco de privacidade, como ela mesma fazia de vez em quando com Murphy, e foram pegos por Raven. Não era segredo para ninguém que a mecânica estava completamente irritada com Clarke pelo que ela havia feito com Finn, e só estava esperando o momento certo para explodir. Talvez, esse fosse o momento.
— É exatamente o motivo pelo qual nos afastamos da fogueira, queremos ficar um pouco sozinhos! — Bellamy exclamou. Ele estava tentando não soar irritado, por tudo o que a mecânica estava passando, mas aquilo estava começando a passar dos limites.
— Raven, sabemos que o que você está passando agora não é nada fácil. Mas isso não muda o fato de que... – Clarke foi interrompida de forma brusca.
— Nem precisa terminar, eu já sei o que você vai dizer, Clarke. Querem saber? Vocês dois que se danem! — Raven respondeu, saindo de perto dos dois com passos pesados e apressados.
A revolta de Raven iria ter que passar, alguma hora. Afinal, agarramento na floresta não era algo exclusivo de Bellamy e Clarke naquela noite. Se ela olhasse para outra direção, veria Octavia e Lincoln na mesma situação. Pela trigésima vez naquele dia, Kara Leigh desejou que Murphy estivesse ali com ela.
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E, claro, não dava para não prestar atenção no clima fortíssimo entre Juliet e Lexa durante o trajeto do dia seguinte. Aparentemente, Raven não era a única que estava segurando vela nessa jornada...
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O grupo estava próximo da aldeia, faltavam apenas alguns minutos. A Comandante ia na frente, acompanhada de seus guardas. Atrás dela, estavam alguns dos outros guerreiros, que não pareciam exatamente felizes com a situação de estarem marchando ao lado do povo do céu. Alguns até olhavam para trás com expressão de ameaça, para intimidar os membros do outro povo.
Aquilo estava irritando uns mais que outros. Kara Leigh nem estava ligando, já era acostumada com aquele tipo de tratamento. Porém, Juliet não estava tendo a mesma reação, e estava se irritando cada vez mais. Uma hora, atingiu o ponto limite onde ela conseguia aguentar, e ela perdeu a noção do perigo, indo até Lexa pessoalmente.
— Preciso dar uma palavrinha com você, comandante. — Juliet disse, com ironia ao chamá-la assim. Os guardas ao redor dela começaram a afastá-la bruscamente, até o momento que Lexa os interrompeu.
— Deixem-na passar. — Lexa ordenou, e os guardas se afastaram. — É tão importante que não pode esperar o tratado começar oficialmente?
— Não vai fazer sentido termos um tratado se nossos povos não conseguem ao menos se respeitar. Olhe ao seu redor, todos parecem raivosos o suficiente para atacar a qualquer instante! — Juliet exclamou, tocando o ombro de Lexa.
Tal ato fez com que a Comandante parasse de andar, se virasse lentamente para encarar a guarda e segurar sua mão. Por um segundo, Juliet pensou que Lexa iria feri-la sem demora. Contudo, sem interromper o contato visual, a comandante dos terrestres retirou a mão dela de seu ombro pacientemente. O olhar de Lexa estava tão... indecifrável. Não dava para saber se ela estava furiosa ou impressionada. Porém, a primeira opção era mais plausível.
— Não tem ninguém atacando. Estamos todos mantendo a calma e marchando para a aldeia normalmente. Quanto aos olhares tortos, irão acabar após oficializarmos o tratado de paz. — Lexa respondeu, em seu usual tom calmo e superior.
Juliet pareceu considerar a ideia por um momento. Lexa conseguia ser bastante persuasiva quando queria, agora ela entendia o porquê dos terrestres seguirem ordens de alguém tão jovem sem questionar. Lexa parecia ser poucos anos mais velha que Kara Leigh, e já estava em uma posição de poder que exigia muito esforço.
O clima carregado entre as duas já estava chamando atenção de outras pessoas ali presentes, incluindo a própria Kara Leigh, que estava se mantendo calada há horas. Ela até tinha parado de caminhar quando Lexa também parou, prevendo uma tragédia. Contudo, estava indecisa se iria em defesa da irmã ou não. Afinal, teria que desobedecer a Comandante para fazer isso.
Era estranho pensar nessa possibilidade. Pois tudo havia começado com um desacato a uma ordem de alguém em uma posição superior. Kara Leigh havia desobedecido Anya várias vezes para proteger Murphy. E se ela não era apta a seguir ordens, não estava destinada a ser uma guerreira. Portanto, ser a segunda de Lexa já estava fora de cogitação.
Entretanto, ela não percebeu que essa fora exatamente a característica pela qual Lexa a enxergou no meio de vários outros terrestres. Ela era especial exatamente por questionar ordens. Por pensar fora da caixa. Porém, ela tinha que reconhecer que tudo havia um limite. Qualquer coisa em excesso podia ser ruim nesse mundo. Tanto bondade, que a levou a sofrer todos aqueles abusos, quanto maldade poderia levá-la a um caminho violento sem retorno. O certo seria aprender a balancear os dois para formar um equilíbrio, e Lexa poderia ajudá-la com isso.
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Agora, Kara Leigh estava de volta ao Acampamento Jaha, sentada no meio dos destroços do lado de fora, com Murphy. Ela estava contando a longa história de como havia sido o trajeto até a aldeia e todos os absurdos que aconteceram nesse período.
— As coisas já estavam ruins antes. Quer dizer, a última vez que eu vi tanto desprezo no mesmo lugar foi durante uma reunião com Azgeda. — Kara Leigh disse, explicando sobre as desavenças entre os dois clãs. — A Juliet ficou tão irritada que ela enfrentou a Heda pessoalmente. Mas é claro, não foi nada comparado ao nível de estresse da pobrezinha da Raven.
— Você ainda se preocupa com ela depois do jeito que ela te tratou naquela noite... — Murphy indagou, se lembrando do escândalo de Raven na noite em que Finn foi morto.
Aquela não tinha sido uma noite fácil para ninguém. Quando os terrestres removeram o corpo de Finn do poste, Raven ainda estava caída, colocando toda sua energia para fora, em forma de prantos. Ninguém conseguia se aproximar dela. E a última pessoa que ela queria ver em sua frente, fora Clarke, era a terrestre de cabelos loiros.
Mesmo assim, ao passar ao lado de Raven, Kara Leigh sentiu sua tristeza outra vez. Há poucos minutos, ela também estava chorando, imaginando se toda aquela situação estivesse acontecendo com Murphy. Kara Leigh tentou confortá-la, mas a reação da morena foi brusca, lhe dando um tapa no braço, a impedindo de chegar mais perto.
A terrestre não fez muita questão de voltar a tentar se aproximar de Raven outra vez. Esse incidente a havia deixado magoada. Quando Murphy viu a cena acontecendo ao vivo e em cores, ele se irritou e quis tirar satisfação com Raven imediatamente, mas Kara Leigh o impediu. Não era o melhor momento para brigar com quem estava passando por um processo de luto.
— A culpa não é dela, ela precisa de um momento para sentir a morte do Finn. Eu fui estúpida em tentar me aproximar assim... ela já não morre de amores por mim. — Kara Leigh respondeu, cabisbaixa.
— Ei, nem tente se culpar. O que você tentou fazer foi nobre. Me fez lembrar dos velhos tempos... — Murphy respondeu, com um ar de nostalgia.
Aquela situação era mais um indício de que Kara Leigh ainda poderia ter salvação. Que ainda não havia sido corrompida pelo espírito sanguinário terrestre. Talvez, ainda houvesse uma chance dele não precisar fazer o que estava pensando...
Ele já estava pensando sobre isso há algum tempo, desde a conversa com Raven. As exatas palavras da morena pairavam por sua mente. “Se ela está assim, é por causa de você”. Aquilo o atingiu em cheio, pior que um soco.
E depois da discussão com Clarke, ele se pôs a pensar ainda mais. Ele era um lixo aos próprios olhos. Um lixo contaminado e radioativo, que infectava todos ao seu redor. E ela era a garota pura que não via maldade nos olhos de ninguém. Talvez o melhor a fazer fosse um processo de descontaminação completo. Seria necessário, porém somente a ideia de deixá-la ir iria ser extremamente doloroso.
— Ainda sou a sua garota, John. Sua garota, um pouquinho mais independente. – Kara Leigh respondeu, com um riso tímido.
Em resposta, ele a abraçou mais forte, depositando pequenos beijos na bochecha rosada da terrestre. Ela fechou os olhos, sentindo todo o amor sendo compartilhado naquele momento. Ela poderia ficar nos braços dele para sempre...
— Tente não ficar independente demais, vai acabar não precisando mais de mim. — Murphy respondeu, brincando. — E o que aconteceu depois? Fiz bem em ter ficado de fora?
— Fez muito bem, eu agradeço por você não estar lá naquele momento. O que houve depois foi uma das piores coisas que eu já vi em toda a minha vida. — Kara Leigh respondeu, recostando a cabeça em um dos ombros dele.
Ela começou a contar sobre a tentativa de assassinato de Lexa, sob pretexto de incriminar alguém de skaikru. Por fim, descobriram um frasco de veneno entre os pertences de Raven. Como se o dia da mecânica não pudesse ficar pior.
— John, o que eles fizeram com essa garota... você viu ela chegando, mas eu a vi amarrada naquele tronco. — Kara Leigh disse, com o olhar distante. Não era uma cena bonita de se lembrar. — Eles a cortaram várias vezes... como iriam fazer com o Finn, caso a Clarke não tivesse dado uma morte piedosa a ele. Os gritos dela...
Aquilo trazia diversas lembranças. Assim que a terrestre viu o corpo de Raven sendo mutilado, ela automaticamente quis pegar seus suprimentos médicos para tratá-la. Bem como fazia com Murphy, nos velhos tempos da jaula.
— Descobriram que foi uma armação, e o verdadeiro culpado foi revelado. Mesmo assim, ela já estava muito machucada. Se ela ao menos me deixasse chegar perto, eu poderia ter feito algo. — Kara Leigh continuou. — Fiquei surpresa de não terem implantado aquele frasco de veneno nas minhas coisas. Afinal, entre eles, eu sou quem melhor entendo de venenos e ervas. E ainda sou uma traidora aos olhos deles... bem, menos aos olhos da Heda.
Depois que as coisas na aldeia se acalmaram, e a aliança entre os povos foi oficializada de vez, Lexa chamou Kara Leigh para conversarem à sós outra vez. Tanto Lincoln quanto Juliet não gostaram muito da ideia de deixá-la sozinha no meio de um bando de guerreiros, mesmo com a comandante por perto. Entretanto, ela foi mesmo assim.
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— Você ainda quer ser treinada? — Lexa perguntou, enquanto as duas caminhavam para mais longe dos outros.
— Sim, Heda. Apesar de alguns serem contra, eu não posso mais ficar de braços cruzados observando as pessoas que eu gosto serem feridas. Especialmente depois do que aconteceu aqui hoje... — Kara Leigh respondeu.
— Seu irmão e sua irmã, eu suponho. — Lexa disse, se referindo àqueles que eram contra o treinamento dela.
— Não apenas eles. Eu vejo como alguns dos guerreiros olham para mim. Muitos deles eram subordinados de Anya, os que não presenciaram o anel de fogo. Sei que ela já a treinou, e não tenho intenção de desrespeitar a memória dela, mas o jeito que ela me tratava... bem, não é exatamente o jeito que se trata alguém que cuida dos seus soldados feridos. — Kara Leigh respondeu, se lembrando de sua falecida líder. Lexa segurou seu ombro e as duas pararam de andar.
— Deixe eu contar um segredo. Desde pequena, quando eu sabia que estava destinada a ser uma futura comandante, fui treinada a ser cruel e impiedosa, assim como meus adversários do conclave. E viviam nos dizendo que o amor é fraqueza. — Lexa disse, encarando a mais nova. — Antes da ascensão, eu considerava pessoas como você ingênuas e fracas. Agora... você não sabe, mas pode ser a mais forte entre todos aqui. Porém, precisa tomar cuidado. Tudo em excesso pode ser perigoso. Se você não controlar a quantidade de amor e fúria dentro de você, um dos dois vai acabar te matando.
— Todo mundo se preocupa tanto que eu possa acabar virando um monstro sanguinário, que esquecem que as pessoas crescem. Pode demorar, ou ser rápido, mas crescem. Eu gostava de pensar que todo mundo tinha sequer o mínimo de bondade dentro de si, mas a montanha me arrancou desse pensamento ingênuo. — Kara Leigh respondeu, com o máximo de seriedade. — Eu ainda estou aprendendo, mas acho que consigo me controlar. Ainda não me acostumei com toda essa ideia de violência... mas tem vezes que ela é necessária, infelizmente.
— Você vai aprender. Agora que a aliança está formada, Indra e outros guerreiros irão até o território skaikru para treinar e unir os povos. Você pode treinar com eles, por enquanto. Depois que retirarmos nosso povo de dentro da montanha, quero que você me acompanhe até Polis. Lá, começaremos seu treinamento de verdade. — Lexa respondeu, deixando a loira um pouco perplexa.
Polis era a capital terrestre, onde todos os povos se reuniam em um lugar só. Kara Leigh esteve lá apenas duas vezes, nenhuma das duas recentemente. Na verdade, ela não era de sair do território Trikru. O único outro lugar que ela já tinha visto, além de Polis, era o território Floukru, quando conheceu Luna. Ela nunca tinha visto lugares como o território Azgeda, ou a Zona Morta.
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— Espere um pouco, você vai embora?! — Murphy perguntou, um pouco mais nervoso. — Já pensou no colapso nervoso que o seu irmão, a sua irmã, a Octavia e eu vamos ter?
— Vai ser só depois que tirarmos as pessoas de dentro da montanha. Isso ainda vai levar um tempo, é preciso reunir os clãs, formar um plano de ataque, treinar o exército e um monte de outras ideias malucas que saírem da cabeça da Clarke. — Kara Leigh respondeu. — E ninguém disse que você não pode vir comigo. E todos podem visitar, Polis não é tão longe quanto pensam.
— Você realmente acha que os terrestres irão me aceitar? Nem o meu próprio povo me suporta... — Murphy respondeu, cabisbaixo.
— Você precisa parar com essa negatividade, está te fazendo mal. — Kara Leigh respondeu, segurando uma das mãos dele. — Você já provou, mais de uma vez, que pode fazer muita coisa. E a Heda é diferente dos outros. Sim, ela é agressiva quando precisa ser, mas olhe só o que ela fez por mim. Acho que dá para dizer que, fora o Lincoln, ela é a primeira Trikru que não me julgou como uma inútil. Se ela viu potencial em mim, com certeza vai ver em você também.
Ele amava o jeito que ela o descrevia, quase como um herói. Por um tempo, ele acreditou que realmente podia ser um. A admiração dela já era o suficiente. Contudo, o escárnio gratuito dos outros, que não conseguiam deixá-lo se redimir em paz, o fazia se questionar se aquilo valia a pena.
— Um dia, todos vão perceber o quanto você é importante e necessário, do mesmo jeito que eu o vejo. — Kara Leigh continuou. — Eu sei que já devo ter dito isso mil vezes, mas vou continuar repetindo até você concordar.
Ele usou uma das mãos para afastar o cabelo dela e começou a trilhar beijos em seu pescoço, como sempre fazia, sabendo o quanto ela gostava. Ele a amava com todas as forças do universo. Tanto que chegava a doer. Doía imaginar que tantas pessoas estariam dispostas a destruir um amor tão puro e especial quanto o deles. E que, por um momento, estavam prestes a conseguir.
— Eu amo você, John. — Ela disse, de maneira suave. Ouvir a voz dela falando aquelas três palavras era como a mais linda melodia para ele. Ali estava a garota por quem ele se apaixonou.
— Se não parar de ser tão linda, eu vou ter que te levar para o quarto e não te deixar sair até que eu tenha terminado de te devorar inteira. — Ele respondeu, entre os beijos.
— Então não vou parar, gostei dessa ideia. — Ela brincou, mantendo um sorriso malicioso no rosto.
E aquela foi outra noite em que os dois se isolaram em sua zona de conforto, fingindo que todo aquele conflito entre os povos e a montanha não existia. Mal sabiam que aquela podia ser a última noite antes de seus sentimentos serem esmagados pela guerra.
*~*
O dia seguinte foi o primeiro dia oficial da aliança entre skaikru e Trikru. Logo cedo, os portões foram abertos para que Indra e seus guerreiros entrassem no Acampamento Jaha. Octavia estava apreensiva, e conseguiu roubar Kara Leigh de Murphy por dois minutos, para falar sobre isso.
— Já faz dois dias. Ele já deveria ter voltado. — Octavia disse, em um tom preocupado.
Ela se referia a Lincoln. Ele não havia voltado para o território skaikru com elas. Ele havia levado Bellamy para a floresta, em busca dos túneis dos Ceifadores, que levavam para dentro de Mount Weather.
— Eu sei, também estou preocupada. O, não vai ser nada bom para o Lincoln ficar perto dos Ceifadores outra vez. Ele disse que a droga que usam neles vicia ao extremo. Se aplicarem nele outra vez, é capaz de... — A terrestre foi interrompida.
— Não. Se começarmos a pensar assim, vamos ficar malucas. É melhor esperarmos mais um pouco. – Octavia respondeu. — Se ele não voltar amanhã, você e eu vamos atrás dele.
Kara Leigh assentiu, e as duas se dispersaram, assim que os guerreiros terrestres começaram a entrar na Estação Alpha. A loira avistou Murphy bebendo água, com cara de poucos amigos. Ela entendia perfeitamente o motivo. Era possível de alguns daqueles guerreiros ali presentes serem os mesmos que o torturaram durante a época da jaula.
— Ei, não fique assim. Eles só vieram para treinar com os skaikru, nada de mais. Ninguém vai fazer mal a você. — Kara Leigh disse, suavemente, chamando a atenção dele para si.
Em resposta, ele pôs uma mão ao redor da cintura dela e a beijou na bochecha. De modo que o cômodo começou a encher cada vez mais, logo os olhares para cima dos dois também aumentaram. Os terrestres falavam coisas pejorativas em língua nativa, e ela entendia tudo. Era algo como “por que ela está abraçada com um deles?”, “ela já tinha cara de traidora desde criança” e “o prisioneiro e a inútil, mas que piada”.
De princípio, ela não se importou. Não era problema dela se o amor incomodava os outros. Contudo, as coisas pioraram quando um terrestre, residente da aldeia dela, se aproximou dos dois.
— Como é que você consegue ficar com ele, sabendo que ele ficou assistindo nossa aldeia ser massacrada? — O terrestre perguntou, no idioma deles, alternando olhares entre os dois.
— Não é problema seu, Penn. E ele não ficou assistindo, ele tentou parar o Finn. — Kara Leigh respondeu, em idioma terrestre, se colocando entre os dois.
— Claro que você vai defendê-lo. Já está se tornando uma deles! — Penn respondeu, se voltando para Murphy, e falando no idioma normal. — Há quanto tempo você está se enfiando entre as pernas dela? Acho que ela não é tão inocente quanto pensávamos.
Kara Leigh arregalou os olhos e sentiu seu rosto ficar vermelho com o comentário. Ela nunca havia se sentido tão exposta. Não dessa maneira. Enquanto ela estava envergonhada, a reação de Murphy foi muito pior. Ele desferiu um soco contra o terrestre, fazendo-o cair no chão.
— Continue falando dela desse jeito e você vai morrer ainda hoje, filho da mãe! — Murphy exclamou, furioso, enquanto Penn se levantava e partia para cima dele.
Os dois começaram a trocar golpes um contra o outro. Logo, a situação já estava completamente fora de controle. A briga havia se transformado em uma bagunça. Enquanto uns tentavam agravar o caso ainda mais, outras pessoas estavam chegando para separá-los. Incluindo Kane, que conseguiu separar os dois por uma brecha de tempo.
— Sr. Murphy, mas o que é isso?! — Kane perguntou, visivelmente irritado. — Peça desculpas agora mesmo!
— Esse cretino falou mal da minha namorada! Eu devo pedir desculpas por ele ofendê-la?! — Murphy perguntou, quase tão irritado quanto Kane.
— Está tudo bem, foi só um mal entendido. — Kara Leigh disse, tentando afastar Murphy daquela confusão. — Não foi, John?
— Mal entendido ou não, isso ainda conta como dois dias de trabalho para o Sr. Murphy. — Kane respondeu, com uma voz autoritária. — E que isso sirva de exemplo para todos vocês! Estamos aqui porque temos um inimigo em comum, não porque somos inimigos! Qualquer um que faltar com respeito aos nossos convidados irá receber a mesma punição!
Ela sabia que Kane estava tentando ser educado, mas naquela situação, o povo dela estava errado. Murphy não merecia pegar qualquer tipo de punição, ele só havia tentado defender a honra dela. Ela encarou Penn com um olhar mortal. O mesmo olhar o qual ela costumava usar quando encarava Finn.
— Você vai ser o primeiro a cair perante mim durante o treinamento. — Ela o ameaçou, no idioma terrestre.
— Eu ia dizer a mesma coisa. Cuidado, garotinha. Você é uma ovelha no meio dos leões, nunca se esqueça. — Penn respondeu, no idioma terrestre, virando as costas quando ouviu o chamado de Indra.
Os outros terrestres também responderam ao chamado dela e começaram a se dirigir para fora. Octavia alcançou Kara Leigh, segurando-a pelo braço.
— Você está bem? — Octavia perguntou. — Vi o que houve. O Murphy não toma jeito mesmo...
— O Penn começou. Sabe, vocês deveriam parar de culpar o John por tudo. É por isso que ele não se esforça para mostrar que é mais do que aparenta. — Kara Leigh respondeu, ainda emburrada com tudo aquilo. — Vamos para o treinamento.
Ela foi na frente, sendo seguida pela morena. Precisava distrair a cabeça por uns minutos. Não queria brigar mais com Octavia, ela era a única que ainda estava ali para ela. Lincoln já devia estar nos túneis com Bellamy uma hora dessas. Juliet havia ficado em Tondc, para proteger Clarke, junto com sua superiora, a Major Byrne. E Murphy... iria passar as próximas horas limpando os cômodos da Estação Alpha. Então, o treinamento seria bom para ela extravasar qualquer tipo de raiva que estava reprimindo naquela hora.
*~*
Murphy estava cansado de passar por momentos desagradáveis. E estava ainda mais cansado de outras pessoas atrapalhando sua felicidade. Sua raiva não diminuía enquanto passava o esfregão pelo chão de um dos cômodos com janela. A vista dava para o portão e a parte da frente, onde os terrestres estavam treinando. Ele encarou aquilo com ódio. Depois do que havia passado mais cedo, agora ele tinha certeza. Os terrestres eram uma raça imunda e desalmada. Todos, com exceção dela.
Por que as pessoas cismavam tanto com o relacionamento dos dois? Afinal, qual era o problema? Ele nunca a maltratou, pelo contrário, a relação deles era composta puramente por amor e carinho. Tanto preconceito apenas por ele ser do céu e ela da Terra? Se fosse assim, por que ninguém olhava torto para Lincoln e Octavia?
Talvez, porque nenhum dos dois seja um pilantra duas caras igual a mim. Ele pensou. E então, ele viu a figura de uma cabeleira loira se movimentando pelo campo de treinamento improvisado. Ela estava treinando com eles. E estava levando uma surra...
Ele não conseguia mais assistir a aquilo, se afastando da janela. Ela havia concordado em ser treinada pelo desejo de proteger aqueles a quem amava, depois do que viveu dentro da montanha. E ela só foi parar na montanha porque ele fugiu com ela pela floresta depois de quase matar Bellamy. Se eles não estivessem juntos naquela hora, ela não teria sido forçada a lutar no exército, não teria sido machucada pelo anel de fogo e não teria sido capturada pelos Homens da Montanha.
E então, ele se lembrou de quando ela foi mantida na nave, e torturada por Bellamy e Raven. Ela só foi capturada porque estava procurando ervas para curar o resfriado dele. Isso, misturado com tudo o que os outros falavam sobre mantê-la longe dele, porque iria machucá-la, só aumentavam as paranoias em sua mente. Ele não conseguiria permitir que aquela garota se machucasse por causa dele. Nunca mais.
Ele sentiu seus olhos marejarem enquanto pensava nisso. Talvez fosse a hora. Ele a amava muito, e como amava. Mas amar também significava deixar livre. E era isso que ele iria fazer. Libertá-la de mais sofrimento.
Continua
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