The Queen
2 Capítulo 1 — The winter ends

Elleanorah Mansilla fora quem encontrara as pétalas vermelhas em meio a neve. Suas mãos, cobertas pela luva de courino, afastaram o gelo para encontrar a tão esperada flor, a qual marcava o início da primavera. Sorriu ao se levantar, apontando para a flor e chamando a atenção de todos ao redor com uma tosse forçada.
— Eu encontrei a primeira flor! — Ela gritou em alto e bom som, indo em direção ao interior do castelo, diretamente para os aposentos da corte.
Seu vestido era de um tom de azul extremamente claro e seu tecido era de ótima qualidade, o que mostrava sua parte dentro da Nobreza. Parou em frente ao guarda que cuidava das largas portas de madeira, pedindo para ser anunciada, procurando ser também a primeira a contar o seu feito, sem deixar que algum servo tomasse seu lugar.
— Vossa Majestade? — A voz do guarda ecoou no aposento, tirando os olhos de Marie-Claire de sua leitura. — É sua dama, Elleanorah. Ela diz ser urgente.
— Mande-a entrar.
O corpo esguio da dama de companhia alcançou a rainha em pequenos pulos de alegria, parando a poucos metros e fazendo-lhe uma rápida reverência antes de ajoelhar-se ao chão. Marie negou com um gesto de cabeça rápido, batendo na almofada ao seu lado, pedindo para que sua amiga se sentasse junto a ela. Não havia motivo para distância, afinal de contas, as duas se conheciam desde que eram crianças inocentes e alegres.
— Qual o motivo de tanta urgência? — A jovem sorriu, fechando seu livro e o colocando sobre a cômoda ao lado de sua larga cama. — Não me diga que encontrou mais um pretendente de Castile, eu já lhe disse que aqueles homens só querem poder...
— Eu encontrei a primeira flor, Marie! — Elleanorah exclamou, mostrando as pontas dos dedos manchadas com um leve tom vermelho, mancha causada pela tinta solta da pétala da rosa que crescera em meio a neve. — É o início da primavera, o que significa que temos de comemorar esta noite no Baile de Equinócio.
Marie-Claire Vaillancourt sorriu, se levantando de imediato. Ainda utilizava sua camisola, o que não era surpreendente, já que a jovem rainha era conhecida por trocar o dia pela noite. Andou até sua penteadeira, começando a escovar seus longos cabelos negros.
— Isso é deveras maravilhoso, Elle. — Ela prendeu parte dos fios para trás, prendendo sua tiara fina e dourada ali. — Será útil para meu anúncio, assim terei mais uma desculpa para trazer todos os Nobres para o castelo de Navarre sem que precise oferecer dinheiro ou um casamento. Eles precisam saber que estou manejando cuidadosamente o problema que nos aflige.
Elleanorah se aproximou, pegando a escova das mãos de sua rainha e começando a pentear a parte de trás de seus cabelos, onde a garota não alcançaria. Era possível ver em sua face a dificuldade que estava passando para controlar a curiosidade, as constantes mordidas em seu lábio inferior e a mania de desviar o olhar de Marie-Claire deixavam a situação óbvia.
— Me desculpe ser intrometida, mas que anúncio seria esse? — Ela sussurrou de forma quase inaudível, fazendo com que a rainha risse. — Perdoe-me, majestade. Escapou.
— Peça para meus guardas chamarem Fleur, Genevieve e Arabella, por favor? — Ela abriu a gaveta, tirando dali um colar de pérolas simples e brancas, o prendendo ao redor do pescoço caucasiano. — Acredito que seja a hora de fazê-las um convite.
Não se passaram nem dez minutos até que as quatro damas de companhia de Marie estivessem paradas atrás da penteadeira, encarando-a através do espelho. Todas utilizavam vestidos pesados, com capas, luvas e até mesmo gorros. O inverno havia chegado com força aquele ano, o que prejudicara alguns campos e trouxera fome para algumas vilas.
— No que podemos ajudá-la? — Fleur perguntou com seu leve sotaque francês, adquirido de sua mãe. Um sorriso se estabeleceu em seus lábios descoloridos. Todas sabiam que os convites de Marie-Claire eram sempre extraordinários, lotados de riqueza, viagens e diversão.
— Minhas damas, eu irei partir para a França daqui a dois dias. — A Rainha forçou um sorriso, se levantando e juntando as mãos em suas costas. — Navarre passa fome e nossos campos estão comprometidos. Preciso ir para os aliados mais próximos em busca de ajuda e gostaria da companhia de vocês. Talvez possa apresentar-lhes alguns barões, talvez até mesmo duques.
As quatro se entreolharam, animadas. A França sempre fora a recepção de grandes bailes, festividades e, para a sorte das solteiras, de uma grande chance de arranjar um bom casamento. Mesmo todas com aproximados dezesseis anos, suas famílias já as consideravam velhas para estarem sem um marido e filhos, sem trazer novas terras e títulos. Já haviam estado no país antes, quando ainda eram crianças, e se lembravam de como era um país maravilhoso.
— Acho que nossa resposta é óbvia, Marie, é claro que vamos com você.
— Antes que se decepcionem ao chegarem ao país, preciso avisá-las. Os Bourbons assumiram o trono alguns anos atrás, como devem se lembrar, e seu atual governante é Elliot Bourbon. Ele pode ser um bom governante, mas não é um bom recepcionista. — A morena desamarrou o laço de sua camisola, ficando semi-nua em frente a suas amigas. — Não teremos nenhuma festa de boas vindas ou jantares como convidadas de honra. Será algo rápido, mas uma boa oportunidade de conhecer pretendentes. Algo extremamente restrito a políticas.
As damas concordaram com um gesto de cabeça, pegando um vestido apropriado para a ocasião, começando a vestí-lo em sua majestade. Era de branco, como a frieza do inverno, mas com detalhes vermelhos na cintura e em sua barra, representando a beleza e a cor da primavera. As cinco conversavam animadas sobre os planos que tinham para conquistar jovens nobres para subirem de classe social em suas vidas, enquanto Marie fazia comentários sobre cada um dos pretendentes que elas sugeriam.
— Soube que encontraram o símbolo do fim do inverno. — Uma voz rouca e naturalmente irônica fora ouvida logo ao lado da porta. — Chegou o tempo de esperança e felicidade.
— Mãe, o que está fazendo aqui? — Marie-Claire se virou para encarar Henrietta, cruzando os braços abaixo dos peitos. — Garotas, podem ir agora. Preparem suas malas.
As quatro saíram sem dizer uma palavra sequer, apenas fazendo uma breve reverência a antiga rainha, a qual as encarou com desprezo. A mulher bateu a porta com força, andando até a filha com os punhos fechados, visivelmente irritada.
— Quando você pensava em me contar sobre sua visita a França, Marie-Claire? — Ela bufou, parando a centímetros da Rainha. — O que você estava pensando? Nós estamos tentando uma aliança com os Ingleses, não podemos irritá-los com nossa presença no país de seus maiores inimigos! Você não tem ideia de como governar um país, nunca conseguirá governar um império.
— Eu fiz o melhor para o meu povo. Eles passam fome e nossos campos foram comprometidos com o frio, precisamos de grãos. — Ela disse em um tom calmo, tentando não perder o controle.
— Poderíamos consegui-los com os Ingleses, mas você estragou tudo. Você sempre foi uma estúpida, uma burra que nunca pensou no que fazia...
— Eu sou sua Rainha e eu exijo respeito. — Ela disse em um grito, sem se importar com quem poderia estar ouvindo. — Eu estou farta da forma que vêm me tratado desde que você deixou de ser regente, desde que perdeu seu poder sobre mim. Não sou um fantoche que você poderá controlar, mamãe, eu vou governar do meu jeito.
— E eu não vou deixar você afundar este país. — Ela deu um passo para trás, diminuindo seu tom agressivo. Sabia que não tinha mais poder que a própria filha e que agora deveria respeitá-la como havia sido ordenada. — Escute a mulher que governou Navarre com sucesso por onze anos. Não devemos irritas as potências, principalmente as que estão com um grande exército a postos em Castile, prontos para avançar em nosso território.
— E o que você sugere que eu faça, Henrietta? Espere a boa vontade do Rei Louis, um protestante, a aceitar esta aliança enquanto o meu povo passa fome ou aceitar os grãos de nossos antigos aliados Franceses, que dividem fronteira conosco e são Católicos?
— Você não pode pensar no que é mais fácil, isso é algo para amadores, não governantes. Pense no quanto poder terá se conseguirmos esta aliança com a Inglaterra, você se casará com o próximo Rei, Henry, e terá poder o suficiente para invadir a França e governar um Império.
Marie revirou os olhos em desdém, descruzando os braços. Não importava o quanto sua mãe falava ou se ela estava certa, a jovem já havia tomado sua decisão.
— Está decidido. Irei para a França, não irei terminar uma aliança que meu pai construiu há tantos anos atrás. Conseguirei os grãos que precisamos e, com sorte, conhecerei o pretendente que fora destinado por meu pai antes de você almejar pela Inglaterra. — Ela andou até a porta, abrindo-a e sorrindo para as reverências dos servos que passavam. — Sorria, mãe, é o fim do inverno, uma chance para derreter o gelo que bloqueia seu coração. Como você mesma disse, é um tempo esperança e felicidade.
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