The Protective
9 O começo
Notas iniciais
Violet Katherine Mitchell McClary
Era de madrugada e estava escuro quando ouvi o barulho de alguém chorando, desci as escadas e fui até a cozinha ver o que era. Meu irmão Eric, dormia no berço ao lado da minha cama e estava em um sono profundo então imaginei que não fosse ele. Conforme eu descia as escadas o barulho aumentava, ela estava sentada de cabeça baixa e com algo em sua mão, suas lágrimas escorriam com tanta pressa de seu rosto que algumas faziam barulho quando batiam no papel. Coloquei levemente minha mão em seu ombro e perguntei:
— Mamãe? Você está bem?
— Sim querida, não é nada...volte para sua cama. — Ela disse enquanto enxugava suas lágrimas.
— Se está tudo bem então por que está chorando? O que é esse papel? — Perguntei enquanto puxava uma das cadeiras para sentar-me.
— Seu pai...— Pude ver em seus olhos que não era algo bom — Eu não acho que ele irá voltar, querida.
Há dois anos antes disso, meu pai havia entrado para o exército. Eu tinha apenas 3 anos de idade e nunca tive muito tempo para me relacionar com ele, pois o mesmo estava sempre ocupado. Ele e minha mãe eram muito ligados, dava para ver pelo olhar dos dois o quanto eles se amavam, quando eu os via juntos eu sabia que em algum momento de minha vida eu iria querer alguém para ter uma relação como a deles. Meu pai se chamava Jonas McClary, e tudo que eu me lembro sobre ele era o que minha mãe me contava e o que eu assistia em seus vídeos caseiros. Ele gostava de se aventurar, diferente da minha mãe, ele também gostava de escalar e de ir ao cinema, seus filmes favoritos eram os de ação, alguns ele até fazia remakes caseiros com seus amigos. O pouco que eu sabia sobre ele, era o bastante para sentir falta de sua presença e também o bastante para me fazer imaginar o que poderíamos ter feito como pai e filha.
— Mas o passarinho preto disse que ele iria voltar. — Falei inconformada.
— Que passarinho? Não seja boba amor, você sabe que animais não conseguem falar.
— Mas ele me prometeu. Falou também que minha titia iria voltar.
— Que tia, meu amor? Você não tem tias. — Minha mãe não estava chorando, mas ela parecia preocupada.
— Eu disse o mesmo, mas ele disse que eu tenho e ela se chama Olivia.
Depois dessa conversa que tive com minha mãe, ela me convenceu de que era apenas um sonho. Alguns meses depois, continuei vendo o pássaro mas ainda achando que eram sonhos ou truques da minha imaginação. Um ano depois, meu irmão já estava com dois anos de idade, então minha mãe decidiu que era hora de fazer uma mudança, não apenas de local, mas também remover o sobrenome McClary das nossas vidas. Eu não fazia a mínima ideia do porquê minha mãe estava fazendo isso.
Sarah Rose e Alexander Williams
Eu não fazia a mínima ideia do porquê meus pais estavam fazendo isso. Alex e eu sempre fomos os filhos perfeitos, tirávamos notas altas, fazíamos atividades extracurriculares e nunca recusávamos nada que meu pai e minha mãe nos pedia, então por que nos levar para um lugar cheio de árvores, bichos e sem nenhum tipo de segurança? Eu nem ao menos sabia que aquele lugar existia.
Suas explicações também não foram nada convincentes:
— Um acampamento? — Eu e Alex perguntamos — Vocês querem nos matar?
— Não, queridos. Nós só queremos que vocês saiam para algum outro lugar que não seja tão movimentado e cheio de tecnologia.
— Então vocês querem nos matar. — Falei emburrada.
— Senhora Williams? Você tem visita. — Avisou a empregada.
Minha mãe era uma mulher de negócios, assim como o meu pai. Eles dois estavam sempre ocupados e nunca tinham tempo para eu e meu irmão, tentavam recompensar com dinheiro e viagens, o problema é que eles nunca viajavam com a gente.
Lembro de uma viajem à Califórnia, foi a primeira vez que me conectei com o mar. Era tão lindo e tão relaxante, quando Alexander me avisava que era hora de ir eu sempre implorava para ficar mais um tempo, depois daquele dia eu soube que nadar era uma de minhas paixões. Em outra viagem, nadei com golfinhos e foi uma das melhores experiências da minha vida, tanto que quando voltei para minha cidade decidi fazer natação e daquele dia em diante, aceitei a ideia de que ir para um acampamento não poderia ser tão ruim:
— E aí? Estamos combinados? — Perguntou minha mãe animada.
— Tanto faz. — Retruquei.
— Não, não estamos. — Alexander disse me olhando feio.
O principal motivo para eu não querer ir para um acampamento, deixe-me ver...matagal, hippies, natureza, sem tecnologia, gente nerd, esquisitões que dormem com bichos, insetos e muitas outras coisas. Eu não me importava com a falta de atenção dos meus pais, diferente de Sarah, eu até achava que era um tipo de vantagem.
Entrei na escola cedo então sempre fui muito social com qualquer tipo de pessoa principalmente com as garotas, eu chamava atenção delas em todos os lugares, na praia, na escola e até mesmo na igreja.
Futebol e Lacrosse eram duas de minhas paixões, esportes no geral, meu pai nunca aprovou a ideia de levar isso como profissão, pois ele queria que eu fosse um homem de negócios como ele e minha mãe. Meus pais sempre falaram que Sarah e eu deveríamos seguir os passos deles.
Eu nasci apenas 2 minutos mais cedo que Sarah, e sempre tivemos uma grande conexão mesmo longe um do outro. Ela passou por uma cirurgia de risco quando tinha apenas 5 anos de idade e eu estava o tempo todo com ela, não conseguia dormir ficava pensando que se ela morresse eu também iria morrer, achei que era assim com os gêmeos e por esse motivo eu prometi sempre ficar com ela não importasse onde ela fosse. Percebi quando ela me olhou que queria agradar a nossa mãe e ir para Lostwood, comecei a pensar na promessa que fiz a mim mesmo e finalmente concordei:
— Tudo bem, mas se depois de 1 mês eu ainda não estiver gostando iremos voltar.
Sarah sorriu, assim como minha mãe, eu não a via sorrindo daquela forma há muito tempo.
Nicole Thompson
Meu pai sorriu, eu não o vi sorrindo daquela forma há muito tempo desde a morte da minha mãe. Eu tinha 9 anos quando ela morreu de câncer, antes disso eu não sabia o que a palavra significava, eu achei que fosse algo como gripe ou um resfriado. Eu tentava preencher a falta que eu sentia dela com roupas, sapatos e comprando tudo que eu via em minha frente, eu era nova e não sabia que coisas materiais não podiam tomar o lugar do amor, uma coisa tão sentimental. Meu pai sempre me dava dinheiro e fazia tudo que eu pedia, mas eu nunca conseguia ver um sorriso no rosto dele, em uma tarde nublada eu o encontrei com uma arma virada para sua própria cabeça, eu observei por trás das cortinas e não sabia o que fazer então joguei um urso de pelúcia em sua cabeça. Hoje eu sei porque aquilo o fez desistir de tirar sua própria vida, se ele fizesse isso ele também estaria tirando a minha vida da dele.
Comecei a achar formas de cuidar de mim mesma. Com o tempo fiquei mais confiante e independente, meu pai sentia orgulho de sua filha e agora ele não me dava presentes por tentar preencher a falta que minha mãe fazia e sim por ter orgulho da pessoa que eu me tornei conforme fui crescendo e demonstrava isso todos os dias com beijos, carinhos, viagens, brincadeiras e acima de tudo a presença dele em minha vida. Confesso que quando ele me falou que o último desejo de minha mãe era me colocar em um acampamento foi algo estranho:
— Você já tem 12 anos querida, e já é mais independente do que muitos adultos que conheço, talvez até mesmo do que eu. — Ele disse me entregando uma carta.
— O que é isso papai?
— O último desejo da sua mãe. — Pude ver uma lágrima escorrendo em seu rosto pálido.
Quando li a carta, sorri lembrando da voz dela e da sua risada. Minha mãe odiava acampamentos ela dizia que tinha medo de acabar virando Tarzan ou algo do tipo se ficasse muito tempo na floresta, quando contei ao meu pai ele sorriu. Nesse momento eu percebi que ele não via a morte da minha mãe como motivo de tirar sua vida como antes, e sim como mais um motivo para lembrar da pessoa extraordinária que ela era e sorrir, este era seu verdadeiro último desejo.
— Querida, precisa se lembrar que não poderá usar nenhum tipo de tecnologia lá.
— E como eu vou poder falar com você? — Questionei desanimada.
— Por cartas. Não é tão ruim, você vai ver.
— É sim, cartas não podem reproduzir mensagens de voz.
— Tudo bem então, falarei com a diretora para deixar por pelo menos um ano.
Nos abraçamos tão forte que parecia que não nos víamos há anos. Na semana seguinte eu fui para Lostwood e foi a última vez que vi meu pai, só consegui falar com ele por telefone por um ano como prometido, depois disso foram apenas cartas, mas a conexão com ele nunca acabou e nem com minha mãe.
— Não vire Tarzan. — Ele disse enquanto me abraçava.
— Eu também te amo. — Falei — Tudo vai ficar bem.
Julia, Meredith e Olivia Mitchell
''Tudo vai ficar bem'' foi o que eu disse quando nossa mãe morreu e eu fiquei tomando conta das minhas irmãs mais novas. Nosso pai estava sempre bêbado porque não sabia o que fazer com nossa irmã caçula Olivia, ela sofria de um transtorno e todo o tratamento era muito caro, ele acabou percebendo que não iria conseguir pagar por muito tempo então começou a beber e deixou ela por minha conta. Em seu aniversário de 13 anos, eu e Meredith resolvemos que era melhor interná-la em um hospício local.
Um ano depois descobrimos que Olivia sofria de Transtorno de Personalidade, ela agia como se fosse outra pessoa em alguns momentos, falava como outra pessoa, ela criava uma identidade completamente nova e diferente da Olivia que conhecíamos. No hospício, sofria de ataques e acabava atacando os outros pacientes, foi levada para uma sala isolada mas aquilo só fez seu transtorno aumentar e ficar cada vez mais forte. Ela ficou violenta e incontrolável.
Desde pequena Olivia agia diferente em alguns momentos e dizia que sua amiga imaginária mandava ela agir de tal forma. Quando éramos pequenas e íamos para a casa de nossa avó, ela maltratava o gato e alguns minutos depois agia como se nada tivesse acontecido, nem ao menos se lembrava que havia cometido tal ato. Não achei que fosse algo sério, mas ao passar dos anos aquilo aumentou, até que chegou em um certo ponto que não dava para controlar, não conseguíamos ajudar nossa irmã caçula. Eu sei o que eu fiz, mas foi para o bem dela e o bem de todos ao seu redor. Eu não matei Olivia, eu matei uma criatura totalmente diferente, algo que estava fora do meu conhecimento. Aquela não era minha irmã, aquele era um monstro.
Depois de finalmente acabar com o sofrimento de nossa irmã, eu e Julia resolvemos mudar nossos nomes e mudar de cidade. De certa forma fizemos o que Olivia fez, criamos uma nova identidade, a única diferença é que tínhamos controle sobre isso, diferente dela. Continuei recebendo visitas da minha falecida irmã em meus sonhos, quando minha filha Violet finalmente nasceu os sonhos pararam, mas um pássaro preto pousava em nossa janela e logo lembrei de uma música que Olivia cantava quando eu e Julia íamos visitá-la no hospício:
''Blackbird singing in the dead of night, take these broken wings and learn to fly...''
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