The Prophecy
6 Capítulo 6
Notas iniciais
– Podíamos ter arrumado um lugar melhor. – Clarisse murmurou se jogando no sofá
Ficamos no hotel mais próximo da rodoviária. Não era um lugar ruim, mas era bem pequeno. Uma sala com um frigobar no canto, uma televisão pequena que só pegava dois canais e uma mesa de jantar com quatro cadeiras, e o único sofá de três lugares. Não tinha cozinha. Um banheiro minúsculo que só cabia uma pessoa por vez, tinha dois quartos, mas se juntasse os dois não daria nem o tamanho do meu quarto no Acampamento. Um deles tinha uma cama de casal, e o outro um beliche.
Mas nosso apartamento era privilegiado com uma sacada, pois ficava no último andar, deixamos a porta dessa sacada aberta para amenizar o calor e o cheiro de mofo do apartamento.
– Não temos tanto dinheiro para algo melhor. – Annabeth rebateu
Clarisse ficou apertando os botões do controle da televisão, passando pelos canais que pegavam e pelos outros quinze que ficavam fora do ar, como se tivesse esperança que ao fazer isso os canais simplesmente resolvessem pegar.
A filha de Atena andava de um lado para o outro no apartamento minúsculo. Eu tomava um ar na sacada e comemorei internamente quando eu ouvi o chuveiro desligando.
Alguns minutos depois Thalia saiu do banheiro, de banho tomado e passava a mão no cabelo molhado o sacudindo.
– Conseguiram entrar em contato com o Acampamento? – perguntou e eu saí da sacada, me sentando em uma das cadeiras, ela me acompanhou
– Nenhuma novidade. – Clarisse resmungou ainda zapeando os canais de televisão
– Isso é impossível! Como ela pode estar entre nós e ninguém tenha sentido? Pior, como alguém pode ter hospedado ela sem que os deuses percebessem? Estão escondendo algo de nós... Se pelo menos minha mãe ouvisse minhas preces...
Annabeth pareceu frustrada por não conseguir as respostas para as próprias perguntas e foi para sacada, se apoiando na mureta. Thalia suspirou e massageou as têmporas, como se já tivesse pensado naquilo e isso houvesse causado uma dor de cabeça extrema. Clarisse por outro lado parecia totalmente alheia a discussão e estava mais interessada nos canais da televisão.
– Mas que droga Clarisse! Será que dá pra você parar com isso? – disse elevando o tom de voz, me arrependi no mesmo instante, não tinha motivos para me estressar
Mas ao contrário do que imaginava, a filha de Ares apenas deixou em um canal que funcionava e colocou o controle de lado como se estivesse satisfeita por ter irritado alguém. Thalia mandou um olhar de censura pra mim e suspirei.
Mais ou menos vinte minutos depois Nico voltou. O garoto tinha saído para andar pela cidade, dizendo que precisava ficar um pouco sozinho.
– Olhem o que eu achei. – disse e colocou algumas sacolas na mesa
Nelas tinham três caixas de Mc Lanche Feliz, duas porções de batatas fritas e alguns x salada e latas de refrigerante. Clarisse se levantou num pulo e pegou uma das porções para ela, Annabeth já se juntava a nós, tirou a porção nas mãos de Clarisse e a colocou sobre a mesa. Ajudei ela a organizar os alimentos ali.
– Vocês não tem ideia da fome que eu estava. – Thalia disse comendo desesperadamente algumas batatas frita
– Temos que comprar algumas coisas antes de partimos amanhã. Não sabemos se vamos ter as mesmas mordomias de hoje...
– Mordomias. – Clarisse ironizou, cortando a fala de Annabeth
Comemos em silêncio por algum tempo, Thalia pegou um guardanapo e passou na minha bochecha tirando uma mancha de ketchup dali, fiz uma careta o que a fez dar um sorriso.
– Achei que fosse uma cidade pequena, nunca esperava um McDonald's aqui. – disse e Nico deu de ombros
– Tem em todos os lugares. E essa cidade parece ser uma cidade histórica. Tipo um cenário de algum filme da época da independência dos Estados Unidos. Acho que mais uma cidade de estadia parra viajantes, parece ter poucos habitantes... – deixou a frase morrer ao perceber que somente eu prestava atenção ao que ele dizia
O silêncio se instalou sobre nós novamente. Nico abria o pacote de um brinquedo que veio em uma das caixas de Mc Lanche, pareceu animando ao ver um chaveiro de um esqueleto. Depois sua expressão se fechou e olhou ao redor para ver se alguém tinha percebido sua reação, desviei o olhar a tempo de não ser pega por ele.
– Tentaram o Acampamento Romano? – Thalia perguntou, se dirigindo mais para mim do que para os outros
– Sim. Estão sabendo da missão, vão pensar sobre o assunto e entrarão em contato de volta. – respondi e ela pareceu desanimada
– Achei que iríamos ter uma ajuda maior.
– Não precisamos de ajuda. – Clarisse resmungou
– É claro que precisamos. – Nico rebateu
– Não podemos deixar todos nervosos com isso, vamos segurar as pontas até não aguentarmos mais e se eu perceber que meus planos não vão dar cert...
– Seus planos? Quando foi que você assumiu a liderança dessa missão? Até onde eu sei somos uma equipe. – Annabeth interrompeu Clarisse que pareceu irritada com isso
Eu, Thalia e Nico trocamos olhares, prontos para agir caso a discussão continuasse.
– Olha aqui Annabeth, somos uma equipe sim, mas até você sabe que precisamos de alguém para liderar...
– E por que esse alguém tem que ser você? Ah claro, porque adora se aparecer e se vangloriar por missões bem sucedidas. – Annabeth se levantou irritada, mas Clarisse se colocou na frente dela bloqueando o caminho
– Acho que você está me confundindo com aquele idiota do seu namoradinho. – rebateu sustentando o olhar firme da filha de Atena
– Quem você...
– Deixe eu terminar! – ergueu o tom de voz, Thalia ia se levantar para separar as duas, mas a segurei, a última coisa que precisávamos era uma briga entre as três – Todos nós sabemos aqui que Rachel e Nico não liderariam a missão, sem ofensa. – acrescentou para mim e Nico que fizemos sinal indicando que concordávamos com ela – Thalia passou três dias apagada e não parecia emocionalmente estável para tomar nenhuma decisão. Eu bolei os planos e algumas estratégias, mas mostrei pra ela antes de decidir alguma coisa, ela sabe de tudo que planejei.
– Mas...
– Nico e Rachel sabem o básico, não tive tempo de passar tudo a eles. E você Annabeth, eu teria te informando se você não tivesse me ignorado e se não tivesse usado o dia que tínhamos para planejar tudo para confortar seu namoradinho que estava em crise, mas sem ressentimentos, sabemos que Jackson deve ser mais importante para você do que uma missão contra Gaia.
Clarisse tremia ao terminar de falar tudo, Annabeth pareceu magoada com aquelas palavras finais e empurrou a filha de Ares de seu caminho, entrando no quarto da beliche.
– A cama de cima é minha! – gritou antes de bater a porta, um soluço veio de lá, pela expressão dos outros todos tinham ouvido
– Você não devia ter feito isso. – Thalia sussurrou – Precisamos ficar unidos e não divididos. Acho que você deveria pedir desculpas...
– Desculpas? – Clarisse rebateu – Thalia, foi ela que começou.
– Mas você não precisava ter chegado a esse ponto. – disse e me arrependi pois todos me encararam
– Você tocou um ponto fraco dela. – Nico concluiu e Clarisse respirou fundo, como se estivesse se controlando para não gritar conosco também e foi para a sacada
Os soluços de Annabeth tinham sido abafados, e o quarto dela estava silencioso.
– Annie... – Thalia bateu na porta dela
– Agora não. – a loira respondeu
Passamos alguns minutos em silencio, Nico encarava a televisão, mas parecia não prestar atenção nela. Thalia ainda tentava convencer Annabeth a falar com ela, mas a loira já tinha parado de responder. E eu só conseguia distinguir a silhueta escura da filha de Ares na sacada.
– Essa história me deu dor de cabeça. – murmurei – Vou deitar.
Disse e não esperei resposta de ninguém, entrando no quarto de casal.
–x—
– Eu não devia ter deixado toda essa responsabilidade nas mãos de Clarisse. — Thalia sussurrou enquanto me aconchegava no abraço dela
– Shh. – pedi – Não é sua culpa.
– Eu devia ter assumido a liderança, Annabeth, Nico e até você esperavam isso. – murmurou e era verdade – Ou eu devia ter evitado essa briga, Annabeth ficou magoada de verdade e me sinto mal por isso, há anos Luke prometeu que cuidaria dela... E hoje sinto que tenho que cumprir essa promessa no lugar dele. E cada vez que ela fica assim sinto que não estou fazendo isso direito.
Não pude deixar de sentir uma pontada de ciúmes ao ouvir aquilo, mesmo sabendo que não tinha motivos para isso. A mão dela deslizou pelo meu rosto e puxou meu queixo até encostarmos nossos lábios. Deixei que ela guiasse o beijo no ritmo dela. Depois de alguns minutos trocando beijos e carinhos ela suspirou e fechou os olhos.
– É melhor descansar, algo me diz que nos próximos dias não vamos ter tantas mordomias.
Segui o conselho dela e fechei os olhos. Esperando que o sono viesse logo.
–x—
Quando acordei olhei para o velho relógio de corda que estava no criado mudo. Ainda era de madrugada. Thalia dormia e sua respiração estava calma e a expressão serena, sentia seu braço a minha volta mesmo depois de nos mexermos durante o sono.
Minha boca estava seca e resolvi levantar para pegar algo do frigobar. Tomei cuidado para não acorda-la enquanto me levantei, mas seu sono estava tão pesado que ela não percebeu nada. Apenas virou na cama e murmurou algo que eu entendi como “Eu preciso ir ao próximo show daquela banda”. Tive que segurar para não rir.
Saí do quarto na ponta dos pés, contornei o sofá onde Nico dormia, usando seu casaco como travesseiro, enquanto dormia o garoto não tinha aquela expressão de indiferença. Quase ri mais uma vez quando vi que ele segurava contra o peito o chaveiro de esqueleto que veio no lanche, como se fosse um bichinho de pelúcia.
Peguei uma garrafa de água no frigobar e tomei cuidado para não tropeçar em nada, mas quando estava retornando ao quarto ouvi algumas vozes na sacada. Resolvi ir até lá tomando cuidado para não ser pega ali espionando. Reconheci a voz de Annabeth e abri a porta de vidro, Annabeth agitou a mão na névoa a frente dela e ela se dissipou, virou para trás assustada e pareceu aliviada ao me ver.
– Escondendo algo, Annie? – perguntei, mas ela sorriu ao ver o tom de divertimento na minha voz
– Não. Só me assustei. – explicou e assenti
Na frente dela havia uma bacia pequena com água, ela segurava uma lanterna, isso era o suficiente para formar um arco-íris. Ela estava falando com alguém.
– Está melhor? – perguntei e ela assentiu – Sabe que pode falar comigo se quiser né?
– Sei, Rachel. – suspirou e se debruçou sobre a mureta, fiz o mesmo e fiquei encarando a rua deserta lá embaixo
– Eu e Percy... Tivemos uma discussão no dia em que tudo aconteceu. Na verdade, ultimamente estamos brigando muito, e isso me deixa mal.
– Algum motivo específico?
– Por tudo. – ela deu de ombros – Ele está estranho comigo... Uma hora me ignora e na outra está carinhoso e protetor... Não sei o que fazer.
– Falou com ele sobre isso?
– Ele desvia o assunto. Agora mesmo tentei mandar uma Mensagem de Íris para ele. A mensagem me mostrou que ele estava no chalé, mas não estava dormindo, estava acordado olhando para o teto, não sei se não viu a mensagem ou apenas ignorou. – coloquei a mão no ombro dela num gesto de conforto
– Sinto muito.
– Então eu decidi falar com Piper em Nova Roma, era com ela que estava falando antes de você chegar. Perguntei se ela sentiu algo entre eu e Percy... Por ela ser filha de Afrodite, sabe... Mas ela desconversou e disse que não tem nada de errado. – a loira pareceu infeliz e reprimi a vontade de abraçá-la, não sabia como ela receberia aquilo
– É por isso que está distante da missão? Por isso que não queria vir?
– Também. Mas sabe, o fato de Gaia estar se erguendo novamente me fez pensar se todo o esforço na última missão valeu a pena, tanta gente morreu nessa luta e agora temos que evitar isso. Tenho medo de falhar. Mas também não queria vir por causa de Percy, é estranho ir numa missão sem ele. E com os problemas atuais eu sinto que por apenas esse tempo separados ele iria me esquecer, me substituir. – ela deu um sorriso triste – Pareço uma adolescente normal frustrada com o namorado.
– Esse tempo vai ser bom para vocês refletirem. Confia em mim. E Annie, todos nós precisamos de inseguranças e medos, é isso que nos movem e nos encorajam.
Ela sorriu em resposta e olhou para baixo, como se estivesse se controlando para não chorar.
– Se sente melhor por botar isso pra fora em vez de guardar para si? – perguntei
– Sim. Obrigada Rachel.
– Sempre que precisar estou aqui.
– Sabe... Quando você conheceu Percy eu odiei você. Não sei como fui capaz disso. – ela disse e ambas rimos
Aquilo parecia tão distante, minha vida tinha mudado totalmente e mudado para melhor. Notei que ela me encarava e agitei o meu pulso para ela.
– Disse que queria vê-lo melhor. – expliquei e ela analisou o bracelete, todos os detalhes, me senti um pouco tímida ao olhar clínico da filha de Atena
– Não me lembra nenhum deus, e muito menos li ou ouvi falar algo a respeito dele. Sinto Rachel, mas acho que não passa de uma invenção de algum semideus que acabou parando no depósito, e que por alguma razão gostou de você.
– Já imaginava que fosse isso. – murmurei mas estava um pouco decepcionada, o bracelete não tinha nada de mágico, passei a acreditar nisso depois do incidente no ônibus
– Mas mesmo assim pode ser útil. – disse tentando me animar
Ficamos alguns minutos em silêncio e decidi dizer o que estava pensando.
– Annabeth, sugiro que das próximas vezes você não caia nas provocações da Clarisse, ela só quer te tirar do sério.
– Eu sei. – assentiu – Vou ignorar das próximas vezes.
– Faça isso, vai facilitar a convivência e a nossa missão também. – disse e aguardei alguns minutos, resolvi entrar pois o sono me consumia
– Rachel... – ela chamou e me virei
– Você é uma boa amiga. Obrigada por cuidar da Thalia, ela merece ser feliz com alguém e você é a melhor pessoa pra isso.
Annabeth sorriu para mim e entrou também, indo direto para o quarto. Eu fiquei parada em frente a porta do meu quarto, enquanto as palavras dela ainda soavam na minha mente.
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