The Prophecy
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Prometi a mim mesma que nunca mais viajaria pelas sombras. Estava de olhos fechados, embora soubesse que isso não fazia diferença alguma. Sentia o vento batendo contra mim e mais uma vez senti aquela sensação ruim voltando novamente.
Abracei Thalia com mais força, tinha medo que somente aquelas correias não me mantivessem no cão infernal.
A brisa ficou ainda mais forte, escondi meu rosto nas costas de Thalia, e se fosse possível a apertei ainda mais.
– Desculpa. – pedi com medo que estivesse a machucando
Mas ela não respondeu, e nem sei se chegou a me ouvir. A intensidade dos ventos foi diminuindo aos poucos, mas mesmo assim não ousei abrir os olhos.
– Rachel... Acabou. – ouvi a voz de Annabeth, mas não abri os olhos
– Amor... está tudo bem, pode abrir os olhos. – era Thalia, diminui um pouco o aperto em volta dela
Senti a correia que me prendia se soltando, alguém deve ter aberto ela.
– Rachel... – era Thalia de novo – Você precisa me soltar.
A soltei devagar e senti seu corpo se afastar do meu.
– Abre os olhos. – ela pediu e eu neguei, por algum motivo me sentia segura com os olhos fechados – Não estamos mais na escuridão, nós chegamos, eu juro.
Aos poucos abri meus olhos, estava sozinha em cima do cão, olhei para o lado e Thalia estava logo abaixo de mim, estendendo os braços. Escorreguei pelo animal e ela me pegou. Então percebi que os outros três nos encaravam, senti vergonha por aquilo, e de repente minhas pernas amoleceram.
– Preciso sentar. – disse e ela me abaixou, sentei no chão poeirento
– O que houve? – ouvi Clarisse perguntar, Thalia deu de ombros e apoiei minha cabeça com minhas mãos
– Algumas pessoas passam mal, é normal, não é, Nico? – Thalia perguntou
– Não chegam a esse ponto. – o garoto respondeu
– O Oráculo é de Apolo... Apolo também é o deus da luz... Viajamos pelas trevas... Acho que deve ter alguma ligação. Por isso Rachel fica abalada. – Annabeth se pronunciou
– Na primeira viagem ela não ficou assim. – Clarisse opinou
– Na primeira viagem ela estava distraída, pensando em outras coisas, isso deve ter afastado a sensação que as sombras trazem. – Thalia respondeu
Era verdade, na primeira viagem eu estava justamente pensando na filha de Zeus. Mas não estava aprovando eles falarem sobre mim como se não estivesse presente, afastei ao máximo aquela sensação e me levantei cambaleando.
– Estou bem. – murmurei
Clarisse deu de ombros, Annabeth me observou por alguns instantes, Nico ordenou que Sra. O’Leary voltasse ao Acampamento e Thalia percebeu que eu estava mentindo, mandando um olhar de reprovação para mim.
Então percebi onde estava, inicialmente achei que tínhamos parado no meio do nada, mas então percebi que estávamos no alto de uma montanha, abaixo dela havia uma espécie de fazenda abandonada.
Clarisse apontava um binóculo em direção da fazenda, não fazia a mínima idéia de como ela tinha conseguido aquilo.
– Uma fazenda. – Annabeth murmurou – É sério isso?
– Olha com mais atenção. – Clarisse passou o binóculo para a loira – Uma fazenda.... Que em vez de gado se criam monstros. – concluiu
– Na época que desativamos, era só a fazenda. – Thalia disse e a encaramos — Queriam o que? Uma base militar com uma placa “Base secreta das Caçadoras de Ártemis”? – ironizou, eu e Nico fomos os únicos que riram
– Mas a base é só isso? – perguntei e Thalia fez uma expressão como se quisesse me bater após eu ter feito àquela pergunta
– Claro que não, Rachel. – ela acabou rindo – Isso é só um disfarce, a base toda ocupa aquela área lá embaixo e parte dessa montanha.
– E precisamos achar um Receptáculo neste lugar e nem sabemos como ele é. Que moleza. – Nico murmurou
– Os monstros lá embaixo não vão nos perceber aqui? – perguntei
– Estamos a uma distância segura. – Annabeth respondeu, devolvendo o binóculo para a Filha de Ares
– Vamos seguir o plano? – Thalia perguntou e Clarisse assentiu
– Você e Nico vão. Com cuidado pois deve haver mais monstros no subterrâneo. – Clarisse murmurou
Thalia assentiu e então olhou para mim, me aproximei dela e passei os meus braços ao redor da cintura dela, apoiei meu queixo em seu ombro e senti seus lábios na minha bochecha. Ela queria aquele abraço, mas a conhecia bastante para saber que Thalia não tomaria nenhuma atitude, achava que ser carinhosa comigo em situações assim, só demonstraria ainda mais que eu era a fraqueza dela, então tive que expor que esse ato partiu de mim.
– Volta logo. – pedi
– Vou voltar. – respondeu
Quando nos separamos, Annabeth fitava a fazenda, Nico estava de olhos fechados, se concentrando para mais uma viagem nas sombras, Clarisse polia a ponta lança dela.
– Está pronto? – Thalia perguntou a Nico e ele assentiu, permanecendo de olhos fechados
– Se não voltarmos em vinte minutos...
– Vamos mesmo assim porque é nossa missão, mas vamos ter que passar pelos monstros do modo tradicional. – Clarisse murmurou ainda concentrada na lança dela
Thalia olhou para mim pela última vez e foi para perto de Nico, então os dois desapareceram.
– Eles vão voltar. – Annabeth sussurrou para mim — Está melhor?
– É bom que esteja. Se não, não podemos levar você até lá. – Clarisse disse antes que eu pudesse responder
Assenti, forçando a mim mesma a controlar o que sentia durante as viagens.
– Rachel. – Annabeth fez sinal para que eu me aproximasse dela, obedeci e sentamos numa elevação rochosa que tinha ali
Clarisse passou a organizar a mochila dela.
– Não precisa ter medo lá dentro, vamos estar juntas. – Annabeth disse – Sei que lá está cheio de monstros, você não precisa se preocupar com isso, mesmo sendo o Oráculo acho que você não os atrai da mesma intensidade que nós, semideuses, atraímos. Como Nico e Thalia foram na frente, filhos dos Três Grandes tem mais influência ainda. Esperamos que isso faça os monstros se distraírem, aí como vamos nos dividir na hora que formos, os monstros vão ficar perdidos.
Assenti entendendo o plano.
– Quer saber por que separamos você e Thalia na hora de dividir as equipes. – ela perguntou
– Sim. Mas não me importo tanto com isso quanto Thalia... – expliquei
– Nico a convenceu que era o certo. Vamos perder menos tempo se nos separarmos. Mas como ela é filha de Zeus, atrai mais montros para si, isso colocaria vocês duas em perigo em perigo, ela faria de tudo pra te afastar de monstros lá dentro, até daria a própria vida para te salvar. A situação não vai chegar a esse ponto... Mas poderia acontecer.
Então eles tinham pensado em tudo, inclusive no nosso bem, dei um sorriso de gratidão.
– Obrigada. – sussurrei
– Sabe o que seria legal? – ela perguntou mudando o tom pra descontração, acho que para tirar o estresse da missão
– O que? – perguntei
– Seria legal se nós encontrássemos o Receptáculo antes da Clarisse e da Thalia. Elas têm praticamente cem por cento de certeza que elas vão conseguir. – ela abriu um sorriso e ri
– Vamos fazer o possível. Por que Nico vai sozinho? – ela deu de ombros
– Ele disse que prefere assim.
Continuamos a conversa até Clarisse nos interromper, dizendo que tínhamos que nos preparar para entrar na base. Alonguei minhas pernas e preparei a aljava de flechas, era certeza que iria usá-la.
Aguardamos mais alguns minutos e eles voltaram, Nico parecia mais pálido que o normal, Thalia se apoiou nele para não desequilibrar.
– Deve ter centenas de monstros lá, mas não passa disso, não chega a ter mil... Nem nos notaram lá, seja o que for essa magia, influencia mais eles do que nossa presença. – Nico sussurrou
– O problema vai ser passar pelos monstros que devem ficar perto de onde o Receptáculo fica. – Thalia completou e olhou para mim – Ah, alguns corredores não tem iluminação... Se Rachel está mesmo se sentindo mal por causa da escuridão eu acho melhor ela ficar...
– Thalia. Ela vai. Não vamos discutir mais isso... – Clarisse resmungou antes que eu pudesse dizer algo
– O escuro não me incomoda. – disse tentando colocar o máximo de certeza na minha voz – Essa missão também é minha, Thalia.
Ela olhou para o chão, como se decidisse que rebatia aquilo ou não, por fim, suspirou e assentiu.
– Programei uma viagem pra daqui uma hora e meia. Se todos nós estivermos no limite dessa montanha seremos transportados, por isso peço que fiquem na base mesmo se alguma de vocês conseguir completar a missão. Pois se alguém sair da base, não vai ser transportado, limitei as sombras somente lá dentro. – Nico murmurou – E se der uma hora e meia e nenhum de nós obtiver sucesso, tentamos de novo. E... O salto nas sombras só será possível se nada tiver acontecido comigo.
Todos concordamos. Clarisse pareceu impaciente para começar logo aquilo.
– Se despeçam agora, ninguém sabe o que pode acontecer. – ele murmurou – Vou mandar cada equipe para uma direção.
Clarisse, apertou a mão de Nico e de Thalia.
– Clarisse... – Annabeth chamou enquanto Thalia se aproximava de mim – Boa sorte.
A loira deu um sorriso tímido.
– Pra você também, Annie. – a filha de Ares de repente pareceu sem graça – Para todos vocês. – acrescentou
Thalia me envolveu num abraço, e me beijou, um beijo rápido, que me fez ter vontade de mais um.
– Você sabe que aquele sonho pode acontecer agora. – ela sussurrou no meu ouvido
– Eu sei me cuidar.
– Queria ir com você... Poderia te proteger.
– Não poderia. Você sabe, visões não podem ser mudadas. – respondi – Vou me cuidar.
– Eu te amo.
– Eu também te amo. – dei um beijo na testa dela e nos separamos
Thalia se aproximou de Clarisse.
– Estão prontos? – Nico perguntou
Annabeth apareceu do meu lado, e todos assentimos.
– Essa viagem, vai ser rápida, Rachel, não precisa se preocupar. – Nico disse pra mim
– Annie! – Clarisse disse quando Nico já estava quase nos mandando para a viagem nas sombras
– O que? – Annabeth encarou a filha de Ares, na verdade todos nós a encaramos
– Se cuida. – Clarisse disse simplesmente
Annabeth não pode responder, a escuridão nos engoliu. Antes que aquela sensação ruim se apoderasse de mim, a escuridão se dissipou. Onde estava ainda estava escuro, mas não era tão assustador quanto o breu das trevas. Cambaleei para trás, parando só quando senti a parede atrás de mim.
– Annabeth? – chamei, ela não respondeu, por um segundo tive medo de ter me separado dela e ter vindo parar em outro lugar
Mas então, uma luz picou, iluminando o local que estávamos. Era um quarto, tinha quatro beliches, estava perto de um deles.
A filha de Atena estava parada na porta, estava com a mão no interruptor.
– Deve ser a área dos dormitórios. – disse e percebi que era um comentário óbvio
– Fica com o arco na mão. – ela sussurrou
Obedeci, tirando o arco da mochila e deixei uma flecha preparada. Saímos do quarto, Annabeth acionou o interruptor que achou e algumas luzes fracas piscaram iluminando o caminho.
– Acho que as luzes vão chamar atenção. – murmurei e Annabeth concordou
Ela tirou uma lanterna da mochila e a ligou. Andamos pelos corredores cinzas, nenhum monstro apareceu, embora eu sentisse um odor horrível... me lembrou muito o... O Labirinto de Dédalo.
– Annabeth... – chamei – O cheiro não parece o...
– Labirinto? – me cortou e sorriu quando eu assenti – Também me lembrei disso.
Dei um riso abafado, se alguém me dissesse naquela época que eu e Annabeth iríamos para um lugar parecido com o Labirinto e que nos daríamos bem, eu chamaria e pessoa de louca.
A base me lembrava muito uma instalação militar, depois que tudo isso acabasse perguntaria para Thalia como era a vida de caçadora de Ártemis, aquilo tinha me deixado curiosa. Caminhamos até o fim da área iluminada pelas lâmpadas. O caminho seguia em frente, mas havia um corredor para a esquerda e outro para a direita.
– Consegue ver algo igual via no Labirinto? – ela perguntou e balancei a cabeça
– Pra mim, os três caminhos são iguais. Qual você quer seguir? – ela pensou por alguns segundos
– Esquerda. A escuridão te incomoda?
– Podemos seguir só com a lanterna. – respondi – Cadê os monstros? – perguntei estranhando o fato de nenhum ter cruzado nosso caminho, ela riu
– Vamos aproveitar os minutos de sorte.
Viramos para esquerda, aos poucos minha visão se acostumou com a escuridão. Annabeth alternava o feixe de luz entre as paredes, chão, e o caminho a nossa frente.
Entre uma dessas alternâncias, vi um volto a nossa frente, não hesitei em atirar uma flecha na direção do vulto, um urro rouco veio de lá. Annabeth iluminou a área, a tempo de vermos um monstro com uma flecha na cabeça se esvaindo em cinzas, não conseguir definir que espécie era.
Annabeth assobiou.
– Reflexo rápido. Parabéns. – pude sentir algo na voz dela, acho que era orgulho
– Tive os melhores treinadores. – respondi – Minha mira não chega aos pés da mira dos filhos de Apolo e das Caçadoras.
– Mesmo assim, é melhor que a minha. – ela riu
Continuamos caminhando pela escuridão, aquilo estava sendo tedioso, cruzamos com alguns monstros, mas eles foram abatidos facilmente. Annabeth tinha razão, o Receptáculo era mais forte para eles do que nossa presença.
Viramos para a direita, esquerda, direita, direita, esquerda e direita novamente. E nada nos surpreendeu mais do que o primeiro monstro.
Até agora.
Annabeth tinha iluminado uma sala que encontramos, mas aparentemente ela estava vazia, quando seguimos caminho, algo agarrou a loira por trás, ela soltou um grito e derrubou a lanterna que rolou para o canto do corredor. Não pude atirar uma flecha pois podia acertar a loira. Ela fincou a adaga em seu agressor, devia ser um monstro, pois logo ela deu uma risada vitoriosa.
– Você está bem? – perguntei
– Sim. – respondeu meio ofegante
Me virei para frente e vi um vulto, preparei a flecha e quando ia atirar Annabeth gritou.
– Rachel, não! – hesitei e não atirei- É uma pessoa. – ela disse e correu para pegar a lanterna
– Você vai se arrepender de não ter deixado ela atirar em mim, Annabeth. – uma voz masculina soou na escuridão
Então algo prendeu meus braços e arrancou o arco da minha mão, me erguendo do chão, algo também fazia o mesmo com Annabeth, nós duas nos debatíamos, mas seja lá o que segurava nós era muito forte.
Tentei acertar uma cabeçada no meu agressor mas, isso não o feriu, só me deixou mais atordoada.
Na escuridão, discerni a forma humana se aproximando, mas não pude reconhecer quem era.
– Você?! – Annabeth gritou incrédula
E a pessoa riu na escuridão, um arrepio percorreu meu corpo. Então a sensação que sentia quando viajava pelas trevas me inundou, paralisei nos braços do meu agressor.
Então senti mais medo do que nunca tinha sentido na minha vida.
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