The Prophecy

23 Capítulo 23


Notas iniciais
Hey! Resolvi adiantar um capítulo..



– É sério que vão distribuir todos os semideuses em ônibus para partirmos? Querem atrair todos os monstros do planeta?

Clarisse resmungava de mau humor enquanto caminhávamos até o local onde os ônibus estavam estacionados, Quirón havia providenciado alguns para voltarmos para o Acampamento, ele garantia que era seguro, mas isso preocupava alguns semideuses.

Fomos até um dos ônibus e procurei o penúltimo acento, colocando minha mochila do lado para ninguém sentar ali. Clarisse ficou mais ou menos na metade do ônibus, sentando ao lado de um irmão dela, logo a frente estavam Nico Di Angelo e Will Solace, não procurei outros amigos, ficando quieta no meu canto com a minha melhor expressão de:

“Não pergunte se estou bem, pois você sabe que não estou.”

Apoiei a cabeça na janela e observei os semideuses que passavam ali, de relance vi Reyna e Piper conversando, as duas estavam sérias e a pretora assentia conforme a filha de Afrodite falava, as duas trocaram um breve abraço e Piper caminhou até o ônibus a nossa frente, onde Jason a esperava, voltei meu olhar para Reyna novamente e ela caminhava para o interior do Acampamento de cabeça baixa e com o manto roxo tremulando atrás de si.

– Annabeth, me deixe explicar! – um grito chamou atenção de todos, inclusive a minha

A filha de Atena passou por Reyna, dando passos firmes e determinados, mas o seu rosto estava vermelho e ficou nítido que ela tinha chorado.

– Me deixa em paz, Percy, você mesmo disse que acabou! – ela gritou de volta, mas o filho de Poseidon continuou a seguindo

Eles pararam bem ao lado do ônibus, tive uma visão de camarote da briga, os semideuses que estavam do outro lado se levantaram e vieram até as janelas com olhares atentos e curiosos.

– Não é minha culpa, não tinha como recusar! – ele argumentava desesperado, Annabeth o encarava com mágoa e fúria

– Então vai ter a sua vida de imortal no Olimpo, nunca mais me procure! – ela cruzou os braços e deu as costas, entrando no ônibus

Murmúrios ecoaram pelo local, Percy iria se tornar um deus? O garoto entrou no ônibus também.

– Annabeth, precisamos conversar. – ele falava – Como duas pessoas civilizadas, e longe de olhares curiosos.

Ele terminou a frase com a voz carregada de raiva, fuzilando cada semideus ali com o olhar, mas antes que ele pudesse seguir a filha de Atena alguém se colocou no caminho, Annabeth passou por mim e se sentou no último banco, sua mão estava fechada em punho, mas não saia se ela estava apenas com raiva ou se segurava para não chorar.

– Ela não tem mais nada a tratar com você, Jackson. – Clarisse resmungou

Os dois estavam bem no meio do ônibus, Clarisse era mais alta do que a maioria das garotas então ela conseguia encarar ele olho no olho. A tensão ali era notável, o maxilar de Percy estava contraído e Clarisse cruzava os braços numa tentativa de se tornar mais intimidadora.

– Desde quando você responde por ela? – Percy rebateu, praticamente rosnando

– A partir do momento que você a magoou. – Clarisse respondeu, causando alguns cochichos entre os semideuses – Agora suma daqui, antes que eu acabe com a sua vida antes de você se tornar imortal.

– É assim que trata um futuro deus o Olimpo? – Percy riu desdém

– É assim que eu trato caras que são covardes o suficiente para machucar aquilo que deviam amar. – Clarisse respondeu dando um passo a frente e Percy recuou

Vendo que estava em desvantagem o filho de Poseidon virou as costas e saiu do ônibus, ele estava tão diferente, não era mais aquele garoto que conheci, acho que o número de vitórias nas costas dele o fez mudar, mudar para pior.

Ouvi um suspiro vindo do banco de trás, conhecia aquele som, Annabeth estava tentando segurar o choro. Não estava em condições de consolar alguém, mas ela ainda era minha amiga. Quando fui me virar me surpreendi com a aproximação da filha de Ares, ela passou por mim e se apoiou no banco ao meu lado para falar com Annabeth.

– Quer companhia? – ela perguntou, seu tom era firme, mas notei que ela se esforçava para não deixa-lo ríspido demais

Annabeth deve ter assentido, pois Clarisse se sentou ao lado dela. Muitos semideuses ali invejavam o meu lugar agora, mas me sentia uma intrusa ouvindo aquela conversa.

– Eu não sabia, mas há um tempo os... – Annabeth deixou outro suspiro escapar – Os deuses o chamaram de novo, e ele disse que iria pensar. Já cogitava a possibilidade de aceitar, mas o único problema era que eu não poderia ir junto. Ele achou uma solução, deixaria seu trabalho como deus duas vezes por mês e me viria visitar.

– Você seria uma amante. – Clarisse concluiu

– Eu nunca pensei que ele faria uma proposta assim. – Annabeth lamentou – Me senti tão... Humilhada, o amor não é assim. Se ele acha aquilo é porque nunca me amou de verdade.

Um tempo em silêncio, ouvia os cochichos dos outros formando hipóteses sobre o que tinha acontecido, outros esticavam o pescoço na nossa direção tentando ouvir alguma coisa. Confesso que tive que reprimir a vontade de olhar para trás e controlei a minha curiosidade.

– Você ainda gosta dele? – Clarisse perguntou, não consegui identificar qual sentimento ela carregava ao dizer aquilo

– Sim. Não. – Annabeth suspirou – Pelos deuses.. Clarisse está tudo tão confuso, essa missão, essa luta... Eu não sei o que pensar.

– Não saber o que pensar. – Clarisse repetiu – Isso deve ser frustrante para um filho de Atena.

De alguma maneira, Annabeth conseguiu rir.

– Não tem ideia do quanto. – Annabeth concordou, mas sua voz ainda carregava aquela tristeza

– Não chore. – Clarisse pediu, seu tom era suplicante – Ele não merece suas lágrimas, se quiser eu posso ir atrás dele e dar uma bela surra, por você.

– Não.... Não precisa. Não vale a pena. – Annabeth respondeu

Argos, o motorista do Acampamento entrou no ônibus naquele instante, não fez contagem nem nada, apenas se sentou no lugar do motorista e deu partida, seguindo os outros ônibus na nossa frente.

– Se quiser ficar sozinha eu... – Clarisse começou, mas Annabeth a interrompeu

– Não, fica aqui comigo, por favor. – Annabeth pediu

– Está bem, Chase. Não vou te deixar igual aquele babaca fez. – a filha de Ares sussurrou

– Isso é uma promessa, La Rue? – Annabeth perguntou

– Sim, sabidinha, eu prometo.

Naquele momento eu não aguentei e tentei me desligar daquela conversa. Mesmo que elas não demonstrassem, era óbvio que se gostavam. Aquela conversa, aquela promessa me estavam fazendo lembrar de Thalia.

Procurei algo na minha mochila para me distrair, mas não tinha nada. Quando fui revistar o bolso lateral encontrei um pequeno anel de prata, achei que fosse minha aliança, mas a olhei com mais atenção.

A minha tinha detalhes em azul representando os olhos de Thalia, mas a que eu segurava tinha detalhes em verde, representando os meus olhos. Era a aliança de Thalia, nossos nomes gravados ali só confirmaram isso. Procurei por mais alguma coisa ali e encontrei um papel amassado ali, um bilhete:

“A sua aliança está comigo, quando esse tempo acabar vamos destrocá-las. Não quero te apressar, te dou todo o tempo do mundo. Por favor, não fique se lamentando, fique bem, é assim que gosto de ver você.

– Thalia.”

Coloquei a aliança dela no lugar onde a minha costumava ficar, e guardei aquele bilhete enquanto me perguntava se esse tempo fora mesmo uma boa decisão, pois eu já sentia uma saudade enorme da minha filha de Zeus.

–x—

Eu caminhava ao lado de Quirón, depois do jantar no Acampamento ele me pediu para acompanhá-lo. Entramos no porão do Acampamento, sabia o que iríamos fazer.

No porão havia prateleiras com o nome dos deuses, agora estavam divididas entre gregos e romanos, pois alguns romanos preferiam ficar no nosso Acampamento. Ali haviam fichas de cada semideus, as fichas eram substituídas a cada geração, poucos sabiam da existência desse arquivo. Eu carregava um carimbo que dizia “óbito” e Quirón separava as fichas.

– Depois os romanos dizem que não somos organizados. – Quirón murmurou empilhando algumas fichas na mão

Eu tentava não prestar atenção nos rostos que estavam ali naquelas fichas antes de carimbá-las, tantos adolescentes e jovens que deram as suas vidas para combater algo que estava além das nossas forças.

Não foram tantas fichas se comparar com a primeira guerra contra Gaia, mas se essas guerras começarem a ocorrer com mais frequência aquela pilha aumentaria.

– Ah, esqueci de atualizar duas. – Quirón disse e voltou a trotar por entre as prateleiras, a minha curiosidade foi maior e o segui

Ele estava parado em frente as últimas prateleiras. Os nomes dos deuses ali brilhavam no alto, pois a luz refletia no bronze celestial.

Na prateleira de Hades havia três fichas: Nico, Bianca e Hazel. Na de Poseidon havia uma, apenas Percy. E na de Zeus havia duas: Thalia e Jason.

Ele pegou a ficha de Percy e suspirou ao abri-la. Pegou uma caneta do bolso do paletó e suspirou ao mudar a categoria “semideus” para “deus”.

– O poder lhe subiu a cabeça, não sei como conseguiram o manipular. – ele murmurou sem um pingo de medo na voz – Não erramos no treinamento, e a culpa não é dele. A culpa é inteiramente dos deuses, que colocam o poder acima de qualquer sentimento humano, esse é o pior defeito deles, embora não aceitem isso.

Não respondi, deixando aquelas palavras fazerem eco na minha mente. Ele guardou a ficha de Percy e pegou uma na prateleira de Zeus, quando a abriu vi que era a ficha de Thalia.

Analisei a ficha dela, ali atestava um óbito quando ela tinha doze anos, depois uma explicação do que havia acontecido, mais ou menos oito anos depois dizia que ela tinha voltado a vida e se juntado a caçada, quebrando o juramento três anos depois.

Quirón começou a escrever em baixo daquelas linhas, detalhou que ela foi hospedeira de parte de essência de Gaia e que morreu ao usar as próprias energias para mandar a deusa ao Tártaro, sendo trazida de volta a vida por um encantamento que fiz.

– Thalia... As portas da morte simplesmente não deixam ela passar. – Quirón disse rindo, mas parou ao me encarar – Quer saber por que não disse a verdade a vocês antes?

– Sim. – respondi simplesmente sem tirar os olhos da ficha dela

– Eu soube o que Thalia feito no que ela colocou os pés no Acampamento naquela noite, mas sabia que ela nunca nos trairia. Quando ela acordou a procurei no chalé dela e a fiz contar a verdade, pedi para ela inventar uma história qualquer para os líderes e perguntei se mais alguém sabia daquilo. Nico sabia, pois ele consegue sentir o poder dos deuses relacionados ao mundo inferior, e ele sentia Gaia se agitando no Tártaro. Já Piper sabia por causa da adaga dela e acabou contando para Jason. Mas eu fiz todos prometerem que não abririam a boca, não podiam contar para ninguém. – Quirón me encarou – Nem mesmo para você, Rachel.

– Como julgou se o que ela disse era mesmo verdade? Como sabia que ela venceria Gaia? – contra ataquei

– Porque eu conheço cada semideus aqui melhor do que ninguém, confiei nela, e sabia da grande força que Thalia tem. – ele pensou por alguns segundos – Não sei se outra pessoa aqui conseguiria aguentar aquilo, as coisas que Gaia mostrava para ela eram mil vezes pior que um pesadelo, e não acontecia só durante o sono, mas sim o tempo todo.

As respostas vieram como um tapa para mim, por isso Thalia estava mais distante, por isso ela ficava pior durante o sono, e por isso aquele templo a afetou tanto.

– Por que está me contando isso, Quirón?

– Para te ajudar a pensar, Rachel. – ele respondeu – Pode ir para o seu dormitório, eu organizo aquelas fichas novamente.

– Acho que esqueceu de uma. – respondi apontando a prateleira onde ficavam as fichas dos filhos de Atena

– A ficha de Aaron é sigilo, é melhor você não saber o que vou escrever aqui. – ele rebateu e assenti, não se pode saber de tudo nesse mundo

– Boa noite. – murmurei antes de me retirar sem esperar uma resposta

Saindo da Casa Grande, desviei da Fogueira, evitando cruzar com semideuses no caminho até o meu quarto. Chegando ali destranquei a porta e adentrei no ambiente, respirei fundo me sentindo em casa.

Ascendi a luz e chutei minha mochila mais para o canto não me preocupando em arrumá-la. Meu cabelo ainda estava molhado por causa do banho, mas não me preocupei com isso, estava exausta demais.

Abri meu guarda roupa agradecendo aos deuses por poder usar uma roupa limpa sem estar abarrotada numa mochila.

Não apaguei a luz, meu quarto era um pouco escuro e ainda sentia uma certa agonia com a escuridão. Deitei na cama e senti a solidão tomar conta de mim.

Agora eu podia pensar.

Já sentia falta de Thalia, muita.

Comecei a avaliar tudo o que tinha acontecido. Será que se Quirón não tivesse pedido para Thalia manter segredo ela diria a verdade para mim? Ela estava arrependida pelo que fez? Onde ela estaria agora? Sentia a minha falta também?

Tantas perguntas sem respostas.

Quando ela morreu meu mundo desabou junto, achei que a tinha perdido para sempre. Estava sendo egoísta por estar nos privando uma da outra agora?

Se eu já a conhecia bem, agora mais ainda, eu praticamente li seus pensamentos. Naquela hora em frente as portas da morte eu não tinha tempo para pensar, agi por instinto e a trouxe de volta mesmo após saber tudo.

Porque o amor era assim, deixava a razão de lado e usava os sentimentos.

Então eu percebi que não adiantaria pensar em nada, eu ainda a amava, já tinha perdoado o que ela tinha feito.

O que causava essa desconfiança era a minha mente, Thalia realmente me magoou, e agora ela me deixava em estado de alerta para eu não me magoar novamente.

Mas agora não dava para voltar atrás, se eu pedisse para ela voltar agora ainda continuaria magoada.

Levei a aliança dela até meus lábios e os encostei no anel, lembrando que ela tinha feito aquele gesto antes de se sacrificar.

Cheguei a conclusão que não conseguiria dormir sem ela e levantei, procurando no meu guarda roupa alguma camiseta dela. Encontrei uma camiseta preta de alguma banda Alternativa que eu não conhecia, o seu perfume inundou o meu nariz e suspirei, levando a camiseta para cama comigo. Deitei e deixei a camiseta próxima ao meu travesseiro, para que pudesse sentir o cheiro dela.

Dormi inalando aquele perfume, implorando para essa mágoa que eu sentia passar de uma vez.



Notas finais
E aí? Aprovado?