The Princess of the Dragon and the Lord of the Sea

1 The Princess of the Dragon and the Lord of the Sea


EM ALGUM LUGAR ALÉM DO MAR ESTREITO, ESSOS

— Princesa, acorde! — Ela ouviu a voz preocupada de sua dama de companhia, Lady Elara Martell e então, Aemma Targaryen soube que seu pior pesadelo se tornou realidade. Ela chegara a Essos, seu exílio, onde viajaria com seus dragões, escoltada pela Guarda Real para Panem, um dos reinos da cidade estado, comandado por Presidente Snow, que outrora foi leal à seu avô, o falecido Rei Viserys, mas não à sua mãe.

— E meus dragões? — a Princesa perguntou. Ao contrário de outros Targaryen, ela e seu irmão gêmeo, Príncipe Baelon Targaryen, haviam montado em mais de um dragão. Ao se tornarem os primeiros bebês nascidos em Stepstones, a região dos Degraus, que ligava importantes pontos comerciais de Westeros, após uma praga que ceifou mais de 100 recém nascidos, criaram laços com três dragões cada e passaram a ser conhecidos como O Deleite do Reino, uma alcunha que anteriormente havia pertencido à sua mãe, Rhaenyra — Eles já foram vistos?

— Balerion estava voando sobre nossa navegação. Shrykos também. Mas Grey Ghost não foi visto desde à noite. — Elara respondeu, sabendo que, no segundo que tocasse no nome de Balerion, a Princesa ficaria ao menos um pouco mais feliz. Balerion fora o dragão montado por seu avô e por isso, seu dragão favorito.

— Grey Ghost vai voltar a ser um dragão selvagem. — Aemma falou, com um tom de tristeza em sua voz. Os dragões selvagens não são montados por ninguém. Para os gêmeos Targaryen, foi diferente. Em seu nascimento, Grey Ghost voou até Aemma e eles criaram laços. Ele foi o primeiro dragão montado pela princesa dos Sete Reinos. Canibal e Sheepstealer, outros dois dragões selvagens, criaram laços com Baelon. — Por favor — ela se voltou para Sir Jonah —, assim que chegarmos à Panem, peça para que o Presidente Snow providencie locais para que meus dragões possam dormir. E nenhum deles deve ser ferido pelos homens dele.

— É claro, minha Princesa — Sir Jonah assentiu, com medo.

Apesar de fazer parte da guarda da princesa, Sir Jonah e Aemma nunca foram amigos. Na verdade, ela o odiava desde o dia que ele enganou Baelon. Aemma soube, na hora, que seu irmão havia se apaixonado e sentiu felicidade por ele, mas o mais mortal dos ódios quando descobriu que era um plano de Sir Jonah para que, no futuro, ele pudesse chantagear o príncipe e se tornar o lorde mais rico de todos. Quando Baelon descobriu o plano do amado, foi tomado por uma tristeza massiva e então, Aemma insistiu em fazer de Sir Jonah seu guarda pessoal, mantendo-o refém de suas ordens, desejos e leis.

— E isso é uma ordem! Se meus dragões forem feridos, por menor que seja o machucado, você será o próximo. — Ela disse, olhando seu guarda nos olhos, sem exitar em nenhum segundo.

— Sim, minha Princesa — tentando conter seu temor, Sir Jonah concordou. Nunca antes havia sentido tanto medo de alguém como sentia de Aemma. Especialmente depois do que ela fez com a amiga e toda a linhagem dela.

— Sente fome, Elara? — Aemma perguntou, virando-se para sua amiga.

— Não. Muito obrigada, Aemma. — Lady Elara respondeu. Desde que foram apresentadas, em sua infância, as duas se tornaram grandes confidentes. Elara nasceu em Porto Real antes do primeiro casamento da Rainha Rhaenyra, mãe de Aemma.

Em idade, Elara se aproximava mais do irmão mais velho de Aemma, Jace, o herdeiro do trono. Quando crianças, Elara sempre serviu como uma professora para Aemma, ensinando as mais triviais curiosidades da vida que uma pequena garota poderia viver. As diferentes espécies de borboletas. Os diferentes tipos de solo e quais flores poderiam dar os melhores frutos. Em sua juventude, começaram a falar sobre a única coisa pela qual uma mulher poderia se interessar: casamento. Aemma odiava falar sobre isso, mas Elara parecia esperançosa. Queria se casar com um dos grandes lordes, de quaisquer uma das grandes casas, mas, preferencialmente com algum Velaryon, Hightower ou Lannister. Ela se apaixonou por um dos libertinos da companhia de teatro e, quando descoberta por seu pai, foi obrigada a ficar com Aemma para sempre e nunca se casaria. As duas encontraram outra amiga, Rosalyn, que acabou escolhendo caminhos perigosos de vida e estava morta agora.

— Sir Jonah — Aemma o chamou, enquanto ele se despedia do capitão que os levou até Essos, além do Mar Estreito. Sir Jonah a olhou. —, quanto tempo até chegarmos à Panem?

— É de meu conhecimento que o Presidente Snow mandou dúzias de homens para nos escoltar até o castelo dele na Capital. Ele disse que queria vê-la antes de você ser levada para o Distrito 4 e conhecer seu futuro marido. Mas tudo aqui é perto, não deve levar mais do que meio dia de viagem.

— E o que ele quer comigo? Me explicar porque esteve do lado de Alicent esse tempo todo? O canalha.

— Lorde Finnick Odair é um dos mais importantes homens de Panem, princesa. — Sir Jonah começou — Além disso, por ter sido um dos Verdes, pode querer que você o coloque nas boas graças de seu pai novamente. — Embora Sir Jonah fosse, na concepção de Aemma, o mais irritante cavaleiro de Westeros, ela reconhecia que ele não era um idiota completo e valorizava seus conhecimentos acerca da política de Westeros e Essos, uma característica que Aemma também admirava em seu irmão. Baelon tinha muito talento para a diplomacia. Ela, por outro lado, não herdou esse tipo de conhecimento de sua mãe e nunca tentou aprender. Havia herdado completamente a sede de sangue e justiça torta de seu pai, no entanto.

— Bom! Eu estou cansada dessa viagem! E eu quero vinho quando chegar. — Aemma disse. Isso não era algo importante e ela não se sentia cansada, mas não desejava que a palavra de Sir Jonah fosse o fim dessa conversa ou de qualquer outra conversa.

— Você nem bebe, Aemma. — Lady Elara falou, com um sorriso debochado, o que fez Aemma sorrir levianamente.

— Minha mãe bebeu vinho pela primeira vez com quatorze anos. Meu pai, antes disso. — Aemma informou — Eu acho que agora, que estou completamente sozinha aqui e sem nenhum consanguíneo, é o momento oportuno para tal. E mais, eu já tenho dezesseis, talvez eu esteja atrasada para começar com o vinho, pelo histórico da minha família.

— Não está — sua amiga falou, docemente — Eu ouvi dizer, que aqui em Panem, ninguém pode beber antes dos vinte. Só pode beber antes disso se forem vitoriosos — desde seu caso com o ator, Elara aprendeu muito sobre a cultura dos lugares que cercavam os Sete Reinos. Aemma achava que ela havia inventado coisas, como a história de um povo que cavalgava incessantemente e tratavam os cavalos como esposas e as esposas como animais. Os dothraki. — Isso é verdade, Sir Jonah? — Elara perguntou.

— É sim. Já ouvi falar disso. — ele respondeu.

— Mas, querida amiga Elara — Aemma começou, olhando para a dama de companhia com um sorriso no canto da boca — você ouviu dizer ou um certo Kevan Pyke lhe disse isso tudo?

— Aemma! — Elara a censurou, mas não escondeu a risada.

— Esse era o nome do ator? — Jonah perguntou. — Pyke? Como as ilhas?

— Ele usava esse nome para fingir ter alguma importância. — Elara explicou.

Aemma ficou em silêncio completo por alguns minutos, depois, apontou para o horizonte e chamou a atenção de seu guarda e sua dama de companhia:

— São os cavalos de Snow.

— Eles mesmos. Acho que está na hora de ir. — falou Sir Jonah. Aliviado por não ter que ficar tão perto de Aemma e poder interagir com pessoas que não o lembravam que ele poderia estar morto a qualquer momento.

PANEM — DISTRITO 4, ESSOS

— Então… — sentou-se à mesa, interrompendo Haymitch, que estava em seu horário de descanso, bebendo seu whisky —... ela é feia? — Finnick perguntou, desesperado por uma migalha de informação sobre sua futura esposa. Haymitch não se importava em responder nada. Estava feliz que Finnick se casaria com alguém mais rico que eles e desde então aproveitava seu whisky e encarava o horizonte.

— Não. — Haymitch respondeu, entre goles.

— Ah, pelos deuses. Ela é horrível, não é? — Finnick insistiu. — Você absolutamente não pode me casar com uma puta feiosa.

— Ei! — Lady Effie Abernathy, nascida Trinket, exclamou, entrando na sala. — Mais respeito, meu jovem. Você está estritamente proibido de chamar uma princesa de puta feiosa. Pelo amor de todos os deuses.

Para Effie, o mínimo sinal de desrespeito para com alguém que ocupava uma posição maior em status social era a pior coisa do mundo. E ela demonstrava sempre ficar horrorizada quando, mesmo após tantas aulas de etiqueta, lecionadas por ela mesma, não havia surtido nenhum efeito nos maus modos de seus pupilos.

— Além disso, jovenzinho, ela é nada mais, nada menos do que absolutamente esplêndida!

— Ah, é? Sério mesmo? — Finnick respondeu com deboche e ironia em sua voz — Eu aposto a minha cabeça em uma daquelas estacas do Snow que ela não é absolutamente esplêndida — ele disse, imitando a entonação de Lady Effie.

— Se você não acredita, milorde, espere e veja! — Effie respondeu.

— Não me chame assim. — Finnick de repente ficou sério. Sua voz assumiu um tom grave, do jeito que ele respondia somente quando estava começando a se irritar. — Por favor.

— Esse é o seu título, não é? — Effie usou o mesmo tom debochado que ele usava ao falar com ela e seu marido, Lorde Haymitch Abernathy.

— Entendi… — Finnick respirou fundo e virou-se para Haymitch — Me desculpe, Lorde Abernathy por desrespeitar você e aquela princesa feiosa, ‘tá bem? — Finnick disse em um tom mais baixo, mas ainda sim com certo desdém por sua futura noiva e as excessivas regras de Effie.

Finnick não era filho deles. Não tinham nenhum laço de sangue. Mas Haymitch era o vitorioso que estava mais disposto a proteger os mais jovens tributos dos planos de Snow, por isso, se mudou com a esposa para a Aldeia dos Vitoriosos do Distrito 4 com outros dois vitoriosos do Distrito 12, Katniss e Peeta. Juntos, formavam uma família disfuncional, mas com muitos títulos da nobreza. Não tinham mais ninguém, exceto uns aos outros.

— Ela não é uma feiosa. A Lady Effie está certa. — Haymitch disse, tomando o último gole de seu Whisky do Dragão Dourado. — E, Effie… — ele voltou-se para sua esposa — vou tentar convencer Katniss a participar do jantar. Talvez quando Finnick se casar com a princesa, a queridinha pode ir para Westeros com eles e tentar algumas aulas extras de arco e flecha.

Tanto Haymitch quanto Effie sempre colocavam os objetivos de seus pupilos acima dos seus. Haymitch queria se tornar um tipo de médico e ajudar os mais pobres. Mas as aulas de Katniss viraram prioridade assim que eles descobriram que havia arqueiros de talento inigualável do outro lado do Mar Estreito.

— O jantar vai demorar ainda, então, será que eu posso visitar a Lady Anne? — Finnick perguntou, com jeitinho e sem olhar para Effie, pois sabia que ela o reprovaria.

— Vá. Mas não demore muito. — Haymitch o liberou, antes mesmo de Lady Effie ter a chance de dar sua opinião e dizer que não fazia bem para ele visitar todos os dias uma garota que nem conseguia falar.

Finnick deixou seu castelo na Aldeia dos Vitoriosos. Assim como Katniss e seu esposo, Peeta, Finnick era um dos vitoriosos mais amados pelos cidadãos da Capital, mas odiados pelo Presidente Snow, porque nunca faziam parte de seus planos sujos. Os três vitoriosos são agora responsabilidade de Haymitch, um vencedor antigo e a esposa dele, Effie, que cresceu na Capital e que sabia como fisgar as pessoas, o que dava proteção para todos.

— Mags? — Finnick chamou quando chegou na porta de uma das vitoriosas mais velhas e guardiã de Anne.

Mags viu Finnick o levou para dentro de sua casa. Ela não falava mais, muitos acreditavam que a vida havia a deixado tão amarga que ela não falava de propósito, outros, diziam que por ser velha demais, não conseguia mais abrir a boca. Finnick odiava esses rumores, sabia que Mags era boa demais para que falácias como essas deixassem manchas em sua boa imagem.

— Muito obrigado. Eu queria ver a Anne, se você não se importar…

Maggs assentiu e deixou que o jovem seguisse livre para os aposentos de Lady Anne.

— Anne? — Finnick chamou. E lá estava ela. Deitada na cama. Não estava sorrindo como outrora, como nos dias passados. Mas não estava triste também. Não estava chorando. Não estava fazendo nada, além de simplesmente estar ali. — Eu nunca sei se você consegue me ouvir… Eu espero que sim… — ele andou até o lado de sua cama e tocou no rosto dela, com a esperança de que este se iluminasse com o mais brilhante de todos os sorrisos, como antigamente. Mas, nada. De novo. Mais uma vez o rosto de Lady Anne estava vazio. Sem transparecer nenhuma emoção, nenhuma expressão, nada. E os olhos de Finnick marejaram, lembrando em como Anne costumava ser a mais bela e alegre das mulheres que ele já viu no Distrito 4. Antes dele anunciar para Snow que se casaria com ela. Antes de Snow planejar enviar Anne aos jogos. Antes de Anne sobreviver a um afogamento que durou 12 minutos. Antes do cérebro dela parar de funcionar, mas não por tempo o bastante para que o sofrimento dela cessasse. — Eu vou me casar. — ele disse, rendido. — O Snow venceu. Eu queria que você soubesse disso por mim. — Ele tentava, mas já não conseguia mais conter as lágrimas — Eu não conheço ela, a minha esposa. Ela vai estar aqui pela primeira vez hoje. Parece que Haymitch e o pai dela fizeram um acordo. Pelo menos não foi o Snow que decidiu com quem eu me casaria. Depois de meio ano de casamento eu vou para além do Mar Estreito. Vou ir para Driftmark. Como nós planejamos, você lembra? — Ele perguntou e, mesmo sabendo que não receberia resposta alguma, se decepcionou com o silêncio. — Vou aprender com a Serpente do Mar, Corlys Velaryon. Vou aprender a navegar com o cara e vou poder viver a vida que a gente planejou. — Agora, Finnick mal conseguia falar. Sua voz vacilava e as lágrimas o impediam de concluir quaisquer frases que ele tentasse deferir. — Me… desculpa… desculpa…

Finnick não odiava a princesa feiosa. Ele sabia que nada disso era culpa dela. Mas ele se odiava. Se odiava por não ter fugido com Anne quando teve a chance. Se odiava por não conseguir fugir agora e por ser um lembrete vivo de que Lady Anne, sua amada, fora enviada para a arena de propósito. Por culpa dele. Por ele não ter entrado nos jogos de Coriolanus Snow.

— É melhor eu ir. — Ele disse depois de ficar parado por muito tempo. Tentou se recompor, mas não deu certo. As lágrimas continuavam escorrendo pelo seu rosto. — Adeus, Anne. — Finnick disse e saiu pela janela. Não queria que Mags o visse daquele jeito. Ele sabia que ela ficaria muito preocupada.

Enquanto caminhava para seu castelo, viu algo que nunca pensou que veria. Um monstro. Um monstro voando pelo céu, gigante com suas asas abertas. Um monstro que ele achou que poderia somente imaginar, mas nunca ver. Puta merda. Puta merda! Dois monstros. Duas coisas gigantes que ele havia lido sobre, mas nunca se importado. Dragões. E seguido dessa visão, ele ouviu. Cavalos. Muitos cavalos se aproximando. O sol começava a se pôr. Havia ficado tempo demais com Anne. Effie o xingaria, mas ele já não ligava mais. Seu destino estava aqui. Hora de conhecer a princesa feiosa. Sua esposa.

Finnick correu para o castelo e quando chegou, lavou seu rosto para disfarçar a vermelhidão de seus olhos. Viu Haymitch e correu até ele.

— Effie quer o seu pescoço. — disse o mais velho.

— Eu nem demorei tanto… — ele começou e, quando pensou em inventar uma desculpa, ouviu a voz fina e latente:

— Lorde Finnick Odair! — Effie gritou.

— Lady Effie, me desculpa. Eu juro que nem percebi o tempo passando! — falou, fazendo uma cara de cachorrinho abandonado, como Effie gostava de chamar. Sabia que assim, derreteria o coração da carrasca. Sabia que, no fundo, Effie nunca o odiaria por ter passado tempo demais com quem ele amava.

— Vá para a escadaria e espere lá! — Effie ordenou. — A princesa está chegando.

Todos se posicionaram. Peeta e Katniss atrás. Haymitch e Effie ao lado de Finnick, que estava no centro.

E lá estava ela.

De primeira, ele não conseguia ver nada. E de repente, ela estava do lado de fora de sua carruagem. Com sua dama de companhia ao lado e tinha um guarda também. Mas ninguém chamou mais a atenção de Finnick do que ela. Seu pesadelo. A mulher que tirou Anne dele.

— Viu? Ela não é feiosa. — Haymitch cochichou em seu ouvido.

— Caralho! Ela não é feiosa. — Finnick concordou.

— Lorde Abernathy! — o guarda, Sir Jonah, se dirigiu primeiro a seu anfitrião e depois à — Lady Abernathy —, Effie. Depois à Katniss e Peeta e por fim — Lorde Odair. Sou Sir Jonah Tyrell. Dos Castelos Altos de Westeros. Estou aqui com Lady Elara Martell — e a garota de cabelos negros fez referencia — para apresentar a Princesa dos Sete Reinos de Westeros, Montadora de Dragão, Princesa em Stepstones, Pedra do Dragão e do Vale do Mar Estreito, Deleite do Reino, Princesa Aemma Targaryen.

Muitos títulos. Pensou Finnick. Sua cabeça gritava que ninguém com tantos títulos poderia ser minimamente agradável.

E então, a Princesa caminhou em sua direção. Encarando Finnick nos olhos. Olhando ao redor, para Haymitch, Effie, Katniss e Peeta. Todos reverenciavam a princesa, à recebendo em seu castelo. Os Avoxes — empregados domésticos para o povo de Panem — recolheram a bagagem e levaram para os aposentos de seus donos e todos seguiram para a sala de jantar. Finnick e Aemma sentaram-se lado a lado, preparados para a primeira conversa entre marido e mulher.

E não houve.

Quase nenhuma troca de palavras, de olhares sequer.

Haymitch tentou conversar, mas os convidados pareciam nervosos. Sir Jonah respondeu e começou a contar algumas curiosidades de Westeros e de Porto Real. Lady Elara disse que a princesa estava muito cansada.

— Não estou. — a princesa interrompeu a amiga e dama de companhia. — Perdão. Só estava quieta. Apreciando a comida. — sorriu, tímida.

— Nesse caso… — Haymitch avaliou a possibilidade de se dirigir diretamente à princesa e decidiu que seria possível. — Como foi a viagem?

— Definitivamente longa. — Ela disse. — Nada fácil atravessar o Mar Estreito. — Não sabia o que dizia. Nunca havia estado tão nervosa.

— A princesa está acostumada com viagens longas — Lady Elara começou. Finnick olhou para Katniss e percebeu que ela revirava os olhos. —, mas nunca no mar. Ficou enjoada por um tempo.

O silêncio reinou na maior parte da mesa, até que Haymitch e Sir Jonah seguiram conversando sobre política e geografia.

— Deleite do Reino? — Katniss se fez presente na conversa, interrompendo os dois e olhando diretamente para a princesa.

— Sim! — Aemma sorriu orgulhosa. O que fez Katniss a desprezar por se sentir orgulhosa de um título de destaque e Finnick achou engraçado o estranho pico de alegria que tomou conta de sua futura esposa. — É porque houve uma praga, em Stepstones. Eu e meu irmão fomos os primeiros nascidos a vingar, depois de 100 bebês natimortos.

— Uau… — Katniss respondeu.

E Elara começou a falar mais sobre os títulos de Aemma e sobre os dragões selvagens. Os olhos de Effie brilhavam, mais feliz do que nunca por receber a realeza em sua casa.

Conforme a noite caía, todos foram para seus quartos. Aemma andava sozinha pelo corredor escuro, pois havia ordenado que Lady Elara fosse dormir, vendo que o sono tomava conta de sua amiga. Percebendo-se sozinha, Aemma se permitiu sentir triste pela primeira vez desde sua longa viagem. O que antes era raiva, agonia e apatia, tornou-se tristeza.

— Ei! — de repente, Aemma sentiu alguém agarrando seu braço, fazendo com que ela puxasse rapidamente e acertasse um soco no escuro. Era Finnick, que, por pouco, não recebeu um golpe. — Calma, lá! Sou eu! — Finnick falou, como se já fosse conhecido de Aemma.

— Seu imbecil! Não me agarre desse jeito. — Ela falou em sussurros, pois muitos já dormiam e, mesmo em sussurros, Finnick sentiu o tom bravo em sua voz.

— Tá legal, calma aí, vossa Majestade. — Finnick falou, levantando as mãos em um deboche — Não vou ferir você.

— Eu não sou majestade. Sou alteza — Aemma o corrigiu, como se aquilo fosse a coisa mais importante no momento. — Não sou rainha.

— Ainda — Finnick disse com um sorriso de canto.

— Pelos Deuses! Que coisa horrível de se dizer — Aemma ficou surpresa e Finnick não entendeu a reação.

— O que?

— Para eu ser rainha, minha mãe precisa morrer e meus dois irmãos!

— Ah! Bem, eu não fazia ideia. Essos não têm reis e rainhas. — Finnick se defendeu.

— Lady Effie não o ensinou sobre isso? Ela parece uma mulher muito sábia. — pela primeira vez, Finnick ouviu Aemma falar algo gentil sobre alguém que não a si mesma. Ele gostou.

— Ela ensinou. Mas não prestei atenção. Não é nada demais, certo?

— Considerando que você desejou que minha família morresse para que eu ascendesse ao trono. Sim, me parece demais. — Finnick encarava Aemma como um animal exótico. Não era possível que ela tivesse pensado tudo isso com apenas uma palavra inocentemente deferida por ele. Fascinante.

— Disse a garota que matou a amiga e a família inteira dela, não é? — Disse ele, pois, mesmo se sentindo fascinado, não gostou de ser censurado por uma sabe tudo. Ela podia não ser feiosa, ser perfeitamente esplêndida até, mas definitivamente, não era divertida.

— Que selvagem! — Aemma exclamou. Não esperava esse tipo de comportamento. Durante toda sua vida, Aemma foi cercada de pessoas que a amavam ou a temiam. Ninguém nunca foi tão obtuso para com ela. — Ela era uma traidora, para início de conversa! Mas eu não preciso te dar explicação nenhuma. — Falou. E mesmo irada, ficava mais tímida a cada palavra.

— É sério? — Agora ele pareceu confuso. — Quer dizer… Eu não sei se tem outra versão da história, mas aqui em Panem, dizem que você esperou ela dormir e passou a faca na garganta dela, depois fez o mesmo com o resto da família, para não haver testemunhas.

— Isso é um completo absurdo! — Aemma queria dar risada com o que havia escutado. Mas lembrou de fazer silêncio para não acordar ninguém. — Ela estava levando informações táticas do lado Negro para os Verdes. Ela se aliou a Alicent, a esposa do meu avô, que queria que seu filho, Aegon, usurpasse o trono da minha mãe. Ela passou por um julgamento e foi declarada culpada pelo Pequeno Conselho de Driftmark, Pedra do Dragão e Stepstones. A única coisa que eu fiz foi dar a ordem para que o meu dragão ateasse fogo nela. Acontece que, a família dela tentou salvar ela e eles queimaram também. Isso não foi culpa minha.

— Ah, mas que mentira! Finnick debochou. — Você só está querendo aliviar o seu lado, não é?

— Claro que não!

— Sei!

— Não mesmo! É sério!

— Aham…

— Olha, eu estava lá, não é? Então eu sei o que aconteceu. Você não precisa acreditar! — agora estava ficando irritada.

— Enfim…

— Você agarrou o meu braço por qual motivo? — Aemma perguntou.

— Não sei direito. Eu só te vi passar pelo corredor e quis dizer que vi dois de seus dragões hoje. — Ele tentou iniciar uma conversa amigável com ela, coisa que não conseguiu fazer no jantar.

— São lindos, não são? — Aemma sorriu. Ela amava mais aqueles dragões do que a ela mesma.

— Monstruosos! — falou Finnick, sorrindo, para deixar claro que era uma brincadeira.

— Claro que não, Lorde Odair! — Aemma entendeu a brincadeira e fingiu o censurar.

— Ah, para. Não me chama assim não. — Ele pediu e ela percebeu que toda a alegria havia sido drenada do rosto do belo rapaz. E o tom de sua voz, ficou soturno.

— É o seu título, não é? — perguntou, sem entender.

— É. Mas é uma longa história. Posso te contar uma outra hora. — respondeu, ainda sério.

— Bom, então é melhor eu ir dormir. Já está tarde, Finnick. — Ela disse, dando ênfase no nome de seu futuro marido. Não que ela sentia-se na obrigação de agradá-lo, mas achou que talvez pudesse tentar aliviar o clima.

— Espera aí! — e Finnick a agarrou pelo braço novamente. — Queria te mostrar um lugar.

E então, andaram por entre mais dois corredores. Finnick levou Aemma à um aposento com muitos livros e telas de arte.

— É… — ele começou, levando sua mão atrás da nuca, sentindo uma certa timidez. — Eu estava meio perdido quando cheguei aqui e esse lugar se tornou um espaço seguro para mim. — Finnick disse, relembrando de tudo o que ele havia passado antes de viver no castelo. — Talvez você goste de passar o tempo aqui, já que, provavelmente se sente perdida depois de mudar de Continente. E, pode ficar o tempo que quiser, quase ninguém vem aqui há tempos. — ele falou, como se essa gentileza não fosse nada. Apenas algo casual, mas, na verdade, não havia falado assim com mais ninguém desde Anne.

— Espera… — Aemma disse, mesmo antes de pensar em agradecê-lo. — Você disse que se sentiu perdido quando chegou aqui. Você não nasceu no castelo? — ela estava curiosa.

— Não. Eu não nasci um lorde. — ele disse.

— Você se tornou um lorde?

— Sim. Assim que me tornei vitorioso nos jogos. Enviaram-me para esse castelo com Haymitch e Effie. Eles estavam decididos a cuidarem de mim. Sem eles, eu não seria nada. Minha família morreu enquanto eu estava na Arena. — ele disse, tentando ser direto. Não estava acostumado a falar sobre isso. Não se sentia à vontade. Mas parecia a coisa certa a se fazer agora, depois de acusar a princesa de assassinato.

— Quantos anos tinha? — Finnick notou que, agora, a voz de Aemma havia suavizado. Ela estava mais calma e parecia querer ouvi-lo.

— 14. Quatros anos atrás.

Uma expressão de pesar tomou conta do belo rosto de Aemma. E então, ela fez uma pergunta que Finnick pensava que ninguém perguntaria. Não depois de receber essas informações que ele deu à ela.

— E então você recebeu autorização para beber depois disso? — ela perguntou, curiosa com o que Lady Elara e Sir Jonah haviam falado na manhã desse dia.

Finnick não conseguiu conter a risada. Não acreditara que era nisso que ela estava pensando.

— Sim. Eu pude beber depois de virar vitorioso.

— Sabe — Aemma começou —, em Westeros, não tem muitas pessoas que conheçam esses jogos.

— Impossível!

— Muito possível! — Aemma disse com um sorriso se formando no canto de sua boca. — Eu mesma não sei o que eles são. O que eles são, aliás? — ela perguntou.

— Não gostaria de conversar sobre isso. — respondeu, seco, mas sem ser grosseiro.

— Bom, tudo bem… — Aemma encarou os livros e virou-se novamente para Finnick. — E, aliás, quando casarmos, eu não quero o seu sobrenome. Sem ofensa, mas Aemma Odair é uma piada. Talvez você possa se tornar Finnick Targaryen.

— Eu até aceito. Mas, só se eu puder montar em um daqueles seus monstros.

Aemma sorriu.

— Acho que não, coisa fofa. Não é tão simples assim e eles só aceitam os herdeiros de Valyria. Targaryen e Velaryon.

— Isso é uma merda pra mim! Mas Finnick Targaryen soa bem melhor que Aemma Odair, então, vou ver o que a gente pode fazer.

O silêncio imperou por longos momentos enquanto Finnick estava sentado em uma cadeira e Aemma perambulava pelo aposento, olhando os livros.

— E sobre herdeiros? — Finnick finalmente perguntou.

— Não quero ter. Muitas mulheres morrem tendo bebês. Minha mãe quase morreu. Não quero isso. — Ela disse. — E você?

— Claro que não. Não em Panem. De jeito nenhum.

— Amantes? — Aemma perguntou.

— Você tem? — Finnick respondeu, com uma pergunta.

— Não tenho. E você? — Aemma o olhou nos olhos, pela segunda vez desde que se conheceram.

— Não de verdade.

— Não de verdade? — Aemma sorriu. Um sorriso estranho, lembrando da lenda dos homens que deitam com éguas. Se assustou um pouco, mas não pensou que Finnick era esse tipo de homem. Ele pareceu gostar de ter deixado ela curiosa.

— Por que você não tem? — Ele perguntou.

— Espera aí, por que você não tem? — Ela respondeu, dessa vez devolvendo a pergunta.

— A gente pode deixar essa história para outro dia? — Ele perguntou.

— Beleza, Odair. Me parece justo. — Olharam pela janela. O céu já não estava tão escuro. Passaram horas conversando. — Talvez amanhã possamos nos encontrar aqui para contar mais histórias.

— Me parece um bom plano. — Finnick disse. E sentiu que ele, genuinamente, poderia contar tudo para Aemma. Tudo que ele nunca havia contado a ninguém. E esse era um sentimento do qual ele gostava.

— Posso te contar sobre meus dragões amanhã. — Aemma disse. Animada, imaginando por onde começaria.

— Ótimo! — Finnick ficou animado.

— Bom, te vejo amanhã então. — Aemma disse, entusiasmada com a alegria aparente de Finnick.

— Certo! Tenha uma boa noite, princesa! — Ele disse, mas, antes de sair, olhou para ela e disse — E, a propósito… você não é feiosa.

— Obrigada? — Aemma não acreditou no que havia acabado de escutar. Não conteve o sorriso. Não havia como. — Você também não é feioso.

E foi assim que eles se despediram naquela noite. E continuaram, por muitas outras, a se encontrarem naquele aposento. No dia seguinte, contaram histórias, no outro dia, novamente e de novo e de novo e de novo e foi assim até que rapidamente cinco meses da união dos dois se passaram. Finnick esperava ansiosamente o momento antes de ir para a cama para ouvir Aemma contar sobre os dragões da família Targaryen, as histórias sobre seus conhecidos: Criston Cole, Laena e Laenor Velaryon, Corlys, a Serpente do Mar. Sobre como seu tio, Aemond perdeu um dos olhos e a prima de seu avô, Rhaenys, virou A Rainha Que Nunca Foi. E Aemma, com igual animação, ouvia as histórias sobre todos os vitoriosos, sobre Katniss, Peeta, Mags, Johanna Mason e uma lendária garota chamada Lucy Gray. Eles se falavam o dia todo, mas a noite, na hora antes de dormir, se dedicavam apenas às histórias um do outro.

Até que uma noite Finnick contou sobre Anne. E Aemma amou ouvir essa histórias. Finnick percebeu que o jeito bondoso de Aemma o fez amá-la ainda mais. E então, todos os dias eles sorriam um para o outro. Sorriam pensando um no outro. Sentavam-se juntos em todo jantar, um do lado do outro. Grudados, quase. E quando um se ausentava, ninguém ousava ocupar a cadeira que deveria ser daquele que não estava.

Finnick ensinou Aemma a beber vinho. Aemma ensinou Finnick o Alto Valiriano. Finnick ensinou Aemma a pescar — e ela odiou. Aemma ensinou a Finnick como se aproximar e tocar um dragão — e ele odiou.

O casamento foi oficializado após meio ano de noivado. Aemma Targaryen se tornou agora a esposa de Finnick Targaryen. Esperavam animados, o dia em que, juntos, navegariam de volta para Westeros, morariam, primeiramente em Driftmark, para que Finnick tivesse aulas com Corlys. Aemma, que fora exilada após exterminar uma linhagem de uma das grandes famílias dos Sete Reinos, agora voltou a ser amada pelo povo e ainda mais, por seu marido.

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Aemma e Finnick se amaram até o fim de suas vidas. Finnick morreu aos 64, de causas naturais. Aemma morreu dois anos depois. Viveram em Porto Real durante o reinado de Jaecerys Targaryen — Jace — irmão mais velho de Aemma. Como combinado, nunca tiveram herdeiros, mas amaram ser os tios favoritos de todos os seus sobrinhos, especialmente dos filhos de Luke. Aemma e Finnick protegeram Baelon e guardam o segredo mais importante da vida dele: o casamento, não oficial, com Byron Lannister, um dos Guardas Reais e Mão do Rei.

Durante os dois anos que Aemma passou sem Finnick, tudo o que ela fez foi compartilhar as histórias dela e do marido com seus 13 sobrinhos.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.