The Precious Blood

44 ENTRE O INFERNO E A DOÇURA


Notas iniciais
NÃO! NÃO, NÃO E NÃO! Como assim de madrugada eu tenho um tanto de leitor e agora eu tenho dez a menos Nyah??? Que TERRÍVEL! Será que o Nyah está me trollando ou eu estou os perdendo?
Que devastador! Digam pra mim por que??
Okay, okay: CHEGA DE DRAMA!
Bora ler a fic e deixem de lado as crises da autora! kkkkkkkkkk

Era o inferno de novo. Milla sentiu o aroma já tão impregnado em seus sentidos se tornar mais forte. Ela estava sendo cruel, muito cruel.

Misteriosamente, os animais da ilha haviam sumido há duas semanas, e Milla tinha certeza de que aquela era mais uma das artimanhas da criatura azulada que tinha conhecido a pouco tempo, a elfo. O fato era que a vampira já tinha os olhos enegrecidos pela sede de sangue e, justo naquele momento, Sarah resolveu se aproximar, lhe provocando.

_ Por favor, deixe me alimentar primeiro… não vou resistir. – Milla sussurrou baixinho, sabendo que Sarah escutaria, apesar de estar longe ainda. Internamente ela rezou pra que Jacob aparecesse com seu cheiro forte para distrair seu olfato. Mas não havia nem sinal dele por ali.

_ Vai sim, Milla. Confie mais em você, garota. Eu sei que pode. – A voz de Sarah penetrou por entre as arvores chegando nitidamente a Milla.

A jovem vampira trincou os dentes, a dor insuportável já havia começado a corroer sua garganta, o veneno começou a lhe encher a boca, os músculos começaram a apelar por sangue. A sede parecia um ácido fatal que de tanto queimar parecia lhe derreter por dentro. Nestes momentos era que ela perdia a razão. Quando deu por si já estava andando a passos lentos ao redor da bela morena rígida e determinada no centro da mata.

_ Resista! – Sarah disse bruscamente. Seu tom era tão duro quanto o granizo que parecia compor a pele de Milla. Era uma ordem mais expressiva do quaisquer outra que Milla já recebeu em toda a sua vida.

Milla trancou a respiração e fechou os olhos. Mas pode sentir o calor de Sarah se aproximando de si, provocando uma espécie de terremoto em seus músculos. Ela tinha vontade de chorar naquele momento, de correr e se esconder nos braços de alguém que lhe assegurasse, que garantisse que ela não perderia o controle de novo.

O cheiro ficou mais forte, insuportavelmente forte. Mesmo com a respiração trancada Milla sentiu o odor na sua língua, e era como se sentisse o sabor. Sua cabeça girou em uma tontura insana. Em um reflexo rápido ela agarrou os cabelos de Sarah. Mas a morena foi mais rápida. A velocidade com que o braço dela voou em direção a seu rosto fez sua maça arder com o tapa que levou. O tapa a fez recuperar o mínimo da consciência que estava perdendo.

_ Resista! – Sarah proferiu a ordem tão insuportável novamente. Quantas vezes Sarah havia lhe dito aquela palavra nas ultimas semanas? Três mil??

Milla soltou um rugido furioso e abriu os olhos felinos em fendas apertadas.

_ Eu quero! – Sua voz de cristal saiu arranhada.

_ Não, você não quer! Quem quer é o seu demônio insaciável! Você é mais forte Milla! Mais forte do que tudo isto, já provou ser! Vença seus instintos! Você não pode me ferir! Você não quer me matar! Você não é uma assassina.

Um sorriso macabro manchou a expressão tão suave da menina vampira.

_ Não sou? – Em um movimento rápido Milla foi para as costas de Sarah. Inspirou fortemente e lambeu os lábios vermelhos. Era dia, sua pele brilhava fortemente refletindo os raios solares.

_ Não, não é! – Sarah disse e então deixou que todo o seu cheiro se libertasse pelos seus poros. Milla se aproximou mais, os lábios semi-abertos.

_ Por que não? – Perguntou para Sarah que, a partir daquele momento, era unicamente a sua presa.

_ Por que o amor que você quer em si não pode coexistir com este demônio assassino que quer se tornar. Não suje a sua alma! – A voz de Sarah tinha uma ferocidade incomum. Parecia ser feita de lâminas que cortavam qualquer superfície. Até mesmo o coração congelado daquela vampira.

Sarah deixou que as mãos frias da garota agarrassem fortemente seus ombros. Queria ver até onde ela iria.

Milla encostou o nariz nos cabelos cheirosos e sugou o ar pra dentro do corpo novamente, sentindo a dor dominar tudo e torturar mais, muito mais. Ficou ofegante, engoliu o próprio veneno e deixou um rugido escapar como um chiado doloroso de sua garganta. Novamente ela queria chorar, queria proteção contra aquela aberração que lhe dominava.

Abriu os lábios, exibiu os dentes e os roçou no pescoço tão irresistível de Sarah. A pele parecia uma seda. Por que ela lhe deixava ir tão longe? Por que se deixava tão loucamente passiva em seus braços?

_ Eu quero… — Milla sussurrou, sentindo algo a mais lhe espremer o coração imóvel, como se uma mão mais forte que a sua própria o agarrasse e esmagasse. Doía também, mais até do que a dor na sua garganta.

_ Você quer muito mais do que meu sangue, Milla. Você quer a capacidade de amar verdadeiramente, sem sombras aí dentro. Você pode, eu quero que você possa. Mas não posso continuar a querer se você me matar.

Sarah ouviu o rugido de sede de Milla retumbar em seus ouvidos novamente. Muito perto, os músculos frios pressionavam suas costas. O desespero lhe atingiu e ela fez um apelo desesperado.

_ Se erga menina! Volte menina! Impere menina! Volte a ser a menina que tentaram matar, Milla. Pelo amor do ser mais forte do universo! PELO AMOR DE DEUS, MILLA! – Sarah gritou, cansada de ser aquela carrasca que vinha sendo para Milla nos últimos dois meses. Cansada de lutar com ela enquanto lhe impunha ainda mais a tentação de seu sangue. Uma lágrima sofrida saiu de seus olhos quando ela sentiu o aperto de Milla se afrouxar.

Ela foi para sua frente, ainda com um olhar furioso demais, maníaco demais para aqueles traços tão angelicais. E estavam negros, a pele debaixo deles funda e arroxeada. Ela sorriu furiosa, uma gargalhada lhe escapou, parecia uma criatura louca a deixar seus ombros se chacoalharem num riso quase mudo. A expressão dela era de uma besta sedenta, Sarah podia sentir os músculos de Milla se prepararem para um ataque eminente. Fechou os olhos...

O silvo do vento indicou o movimento veloz de Milla para perto de Sarah. Mas a morena sentiu, com um arrepio sofrido, as mãos geladas passarem suaves demais debaixo de seus olhos capturando as lágrimas que caiam.

_ Queria poder lavar minha alma assim, chorando… Eu não sou mais menina, mas não vou ser um monstro. – A voz dela parecia se trincar de dor. Sarah percebeu que ela trancava a respiração novamente. – Chega por hoje. Eu resisti.

Sarah abriu os olhos a tempo de ver os cabelos dourados de Milla se esvoaçarem pelo meio das árvores. Sorriu tristemente. Ela não tinha atacado como das ultimas vezes, em que Sarah tinha precisado derruba-la e fugir para impedi-la. Ela estava forte o suficiente. Era capaz de suportar.

Sarah ficou parada um instante no meio das cores vibrantes da mata daquele lugar. Era uma ilha linda, muito linda. O sol estava sempre radiante, o céu sempre limpo e azul, as noites eram frescas e estreladas, mas aqueles dias foram duros e pesados demais para os seus ombros. Ela sentia o cansaço lhe esmagando as forças e sabia que era só o início. Durante aqueles sessenta dias, ela vinha sentindo o peso de um poder muito grande tomando conta de si. Já havia se habituado a ver mais do que o tempo presente, ainda que as visões não fossem nada suaves e bonitas. Mas pra suportar ela teve que endurecer. Sabia não ser mais aquela companhia leve e agradável que um dia foi. Até mesmo com Jacob, nos últimos dias, enquanto estavam sós eles haviam compartilhado mais o peso do silêncio. Principalmente porque as coisas para Jacob também não estavam nada fáceis.

Mas a resistência de Milla naquele momento a fez sentir um certo alívio, um peso a menos sob si. Ela finalmente resistiu a pior das tentações. Ela estava sem caçar há dias e sequer atacou verdadeiramente Sarah quando todo o seu cheiro estava liberto. Sua consciência havia continuado firme naquele surto de sede, o instinto não a fez parar de sentir. Sarah reconheceu cada resquício de medo que transpareceu os olhos de Milla durante a sede aguda, a vontade estrema de fugir de seu instinto. E ela o fez, conseguiu!

A morena voltou lentamente para a praia, sem pressa alguma no andar. Ao contrário disto, ela contava e media cada passo que dava. Era hora de outra missão difícil: Renesmee. Na noite anterior ela tinha tido uma visão absurda com a hibrida, e teve que pensar muito para tentar contornar aquilo que iria acontecer no futuro. Acabou entendendo que teria de ser radical… mais uma vez… Só havia aquela alternativa…

_ Pode desistir. Você não vai pegar um bronzeado. – Ela ouviu a voz de Jacob com um tom implicante, mas leve. Aquele tom a fez sorrir.

_ Será que você pode me deixar em paz senhor fedido? Quero aproveitar o sol, não pegar um bronzeado! – Renesmee respondeu no instante que Sarah saiu da mata fechada para a praia. Jacob estava sentado na areia a dois metro de distância de Renesmee. Já ela estava estirada na areia, com os cabelos espalhados e os olhos fechados.

Assim que a viu, Jacob se levantou. Olhou para os olhos tão exaustos de Sarah e sentiu nova pontada no peito.

_ Onde está a Milla? Ela sumiu desde manhã! – Renesmee perguntou, também se levantando.

_ Ela costuma ficar reclusa depois de nossos encontros, não é mesmo? – Sarah respondeu, se sentando na areia e fitando o mar.

_ Como foi desta vez? Ela esta bem? – A hibídria perguntou, novamente se sentando, só que ao lado de Sarah. – Será que devo procura-la? Faz tanto tempo que agente não caça, deve ter sido mais difícil desta vez…

_ Sim, foi mais difícil. Mas ela resistiu. Não me atacou. Ela saiu de perto de mim por vontade própria. – Sarah respondeu, sentindo o braço de Jacob lhe envolver a cintura.

_ Você conseguiu… — ele sussurrou em seus ouvidos.

_ Nós conseguimos… — ela corrigiu. – Mas não é nem o começo.

Jacob suspirou, sabia que sua mulher se referia ao mundo além daquela ilha vazia.

_ Isto quer dizer que podemos voltar? – Renesmee perguntou. Jacob olhou com certa hostilidade para ela. Mais hostilidade do que olhou durante aqueles dias. Fez a menina engolir seco.

_ Talvez… Eu acho que isto quis dizer que você foi uma boa companhia para Milla durante este tempo. Não a deixou enlouquecer. Você fez tudo o que precisávamos que você fizesse. – Sarah sorriu, mas aquele sorriso não trouxe conforto a Renesmee. Havia algo estranho... algo muito estranho. Jacob se levantou, a postura densa, o sorriso maligno fez Renesmee também se levantar e dar dois passos para trás.

O que estava acontecendo com os humores dos dois?

_ Milla é como minha irmã agora. Um laço muito forte nasceu entre nós. – Renesmee disse, e aquilo realmente era verdade. As duas tinham se tornado inseparáveis. Renesmee foi para Milla o sopro de esperança continuo, a voz que vivia a lhe repetir que vampiros não eram unicamente monstros. A única pessoa naquela ilha que lhe abraçava, oferecendo um conforto palpável. A única que não lhe incitava os instintos. Isto porque Jacob trazia a lembrança dolorosa de Seth, e Sarah… bem, sempre acabava por “acordar” seu monstro.

_ É… eu sei, Nessie… eu sei. _ Sarah disse, respondendo Renesmee, mas ainda com o rosto sério.

_ Mas até você! – A hibídria ralhou. Sarah havia proferido o apelido irritante que Jacob lhe dera, se referindo a um monstro bem feio de um filme. O Monstro do Lago Ness.

_ Soa bem este apelido… e combina com você. Monstrinha. – Jacob provocou novamente e ela nem percebeu que ele estava a suas costas.

Renesmee percebeu Sarah dar um olhar sugestivo demais para o marido, um olhar que não a fez ter bons pressentimentos. Era como se ela desse um aval… ou um sinal.

_ O que tá acontecendo com vocês dois?

_ Muito obrigado pelo que você fez, Nessie. Muito obrigado por ter acreditado. Você ajudou muito. – Sarah disse aquilo como se fizesse uma despedida. Suspirou cansada e virou as costas. – mas agora nós não precisamos mais…

Então uma pontada de medo sacudiu o peito de Renesmee. Ela não podia acreditar naquilo! Atrás de si sentiu a oscilação do vento que indicou a transformação de Jacob.

Não! Ela não podia ter se enganado tanto!

_ Você me usou! – Ela sussurrou indignada para Sarah, enquanto se virava e encarava o lobo feroz a sua frente. Mas Sarah não respondeu.

Renesmee deu dois passos trôpegos para trás. O medo embrulhando seu estômago. Sarah ia deixar Jacob completar o serviço que começou anos atrás, no dia em ela que nasceu. Ela ia deixar Jacob lhe matar!

_ Não… não faz isto… não faz isto comigo… — Ela disse chorosa, implorando. Mas o lobo só maneou a cabeça e arreganhou os dentes.

E ela estava quase acreditando que Jacob já tinha superado a raiva que tinha dela, que tinha até um afeto. Suas implicâncias com ela lhe pareciam mais engraçadas do que verdadeiras. Teria ela se enganado?

Sarah continuou de costas, parada, sem parecer sequer ouvir Renesmee. O que tinha acontecido com ela? Parecia ser uma pessoa completamente diferente daquela que conversava horas e horas com ela naquela ilha. Sarah estava tal como uma pedra fria e insensível assistindo o medo e a confusão brotar dos poros de Nessie como se testemunhasse o pôr-do-sol.

Jacob avançou, sem mais demora, arranhando o rosto de Renesmee a fazendo gritar de dor. O corte foi profundo, imediatamente ela sentiu seu próprio sangue inundar sua face. Ela recuou e fugiu, mas ele voltou a lhe cercar, rápido demais, ágil demais, feroz demais.

Ela não podia! Não tinha forças contra ele! Esqueceu de tentar entender a reviravolta de tudo aquilo, e só sentiu o medo percorrer as veias.

O lobo investia repetidas vezes, parecendo brincar enquanto ela apenas desviava, tentando se defender. Ele fazia pra ferir, ela já sentia seu pulso lesionado, um corte profundo na sua coxa, a bochecha arder com os cortes, tal como seus braços e costas.

Ele investiu antes que ela pudesse desviar novamente, lhe acertando as costelas e lhe jogando do outro lado da praia, quase aos pés de Sarah. Ela se agachou e lhe olhou furiosa.

_ Não! – Sarah praticamente rugiu, deixando sua apatia de lado. – Você pode fazer muito mais que isto! Ataque! Salve sua vida!

Renesmee se levantou, mas ainda estava muito trôpega com os golpes. Mas tentou lutar, ao invés de só fugir. Se lembrou então de quando Sarah lhe chamou pra brincar nas noites monótonas daquela ilha, quando lhe contava que era muito hábil com vampiros. E ela lutava com ela! Lutava rindo, mas lhe ensinava golpes, lhe falava sobre fraquezas na defesa… Renesmee não percebeu… mas ela estava lhe… ensinando a lutar…?

Ela tentou manter o foco, mas o seu corpo todo doía. Quando Jacob veio pra cima dela novamente tentou lhe golpear a cabeça, mas seu estado de nervos passou todo o medo para Jacob assim que suas mãos tocaram a pele dele. Renesmee percebeu o lobo vacilar um instante, paralisado pelo teor do medo dela, coisa que ele não tinha e não sabia administrar.

_ Quase lá menina! Não é só o seu corpo que tem força pra lutar… — Aquela voz veio da criatura chamada Niadhi, que assistia a luta tranquilamente, sentada em uma pedra a metros de distância.

Renesmee passou a avançar em Jacob aproveitando, nos poucos milésimos de segundos que conseguia lhe tocar, para passar imagens confusas a ele pelo seu poder. Mas isto não estava ajudando tanto. Os golpes dele continuavam imponderáveis, ela sentia que não podia mais se manter em pé.

O desespero lhe invadiu mais… não interessava o que era aquilo, ela só sentia que estava prestes a morrer. Sentia o pavor da morte lhe assolar mais que qualquer coisa, viu quando os dentes de Jacob vinham em sua direção e deixou seu pavor se liberar, como se vazasse de sua mente, como se escorresse de seus olhos e então Jacob deu um uivo desesperado.

O lobo passou a sentir a dor por todo o seu corpo, a fraqueza de tanto lutar e não conseguir nada, o fracasso e o rancor por ter sido traído… ele sentia os sentimentos de Renesmee. Mas depois de um tempo o que sentiu foi um golpe na nuca. Perdeu os sentidos.

Renesmee olhou para o lobo caído aos seus pés e soltou um suspiro apavorado. O que ela havia feito? Como ela havia feito aquilo se não o tinha tocado?

_ Shiiii... Se acalme criança, se acalme. Jacob vai ficar bem, ele se cura rápido.

Renesmee não entendeu, mas Sarah lhe dava um sorriso de conforto, enquanto lhe apoiava nos braços.

_ Vem, eu vou cuidar de você. – Ela disse.

_ Ela ainda tem muito o que aprender. Ela tem que sobreviver ao que há no mundo lá fora. Do contrário não será uma aliada. – outra voz lhe disse, mas Renesmee não entendia mais nada. Tinha vontade de gritar.

_ Agora não, Niadhi. Acho que foi demais pra ela. – Sarah disse, erguendo a hibídria ensanguentada e confusa nos braços.

_ Só assim ela descobriria o que pode fazer. Mas vá. Cuide dela… — Niadhi sussurrou.

Renesmee não ouviu mais nada, também perdeu a consciência.

*********

_ Ei, pode acordar! Você está ocupando Sarah demais! – Ela ouviu a voz rouca sussurrar muito perto de si. Seus músculos se retesaram e doeram. Ela abriu os olhos e Jacob estava sentado em cima da cama macia e simples em que ela estava deitada. – É, você bateu forte. – Ele disse, sorrindo e coçando a nuca. Parecia perfeitamente bem, perfeitamente calmo e quase… quase inofensivo. Mas ele tinha tentado lhe matar? Ou não tinha? Os pensamentos da hibrida estavam confusos.

_ O que foi isto? Por que…? – Renesmee tentou falar, mas estava mole.

_ Não se altere querida. Está tudo bem… aquilo foi só mais um… teste… — Sarah disse, e colocou um pano úmido, com um cheiro fresco, sob uma ferida quase fechada em sua coxa.

_ Eu não gosto dos seus testes. – Ela respondeu.

_ Por incrível que pareça… eu também não. – Jacob disse.

_ Mas você me pareceu muito convincente… ai… hoje. – Renesmee disse, sentindo uma pontada nas costas quando tentou se levantar. Jacob se aproximou mais e ela se encolheu. Mas ele sorriu e lhe pegou delicadamente, lhe ajudando a se sentar. – Vocês dois só podem ser bipolares!

Sarah riu.

_ Veja só! Seu pulso já está bom! Posso tirar a atadura! – A morena lhe disse, se concentrando naquela tarefa. Tanto Jacob quanto Sarah trabalhavam agora pra cuidar dela. Jacob tinha se recostado na parede e apenas olhava, um tanto pesaroso até.

_ Você pode me pedir desculpas por me por em migalhas, se quiser. Me deixaria mais confiante sabe? – Renesmee disse, pra cortar o silêncio. Jacob sorriu de novo.

_ Era preciso. Você precisava chegar no seu limite.

_ Ok. Ele não pede desculpas. – Renesmee bufou, mas ainda sentido a pele tremer de tensão.

_ Nessie… — Sarah advertiu suavemente quando percebeu o coração da menina se acelerar. A cabeça dela ainda doía um pouco. – Já foi agora… ainda que a duras custas você passou no teste. Agora se acalme.

_ Eu sei que não foi fácil, Renesmee. Eu senti. – Jacob se aproximou e ocupou o lugar que a poucos minutos Sarah ocupava, sentando-se na cama, ao lado da hibídria. – Você não pode deixar o medo ter tanto controle sobre você.

_ Por que? Por que vocês fizeram isto? – A menina respondeu, sacudindo a cabeça e tentando buscar alguma justificativa pelo que passou há pouco tempo.

Jacob suspirou e olhou pra Sarah. Ela acenou brevemente com a cabeça e ele saiu, indo pra fora da casinha que Nessie ocupava com Milla durante aqueles meses.

_ Digamos que os tempos não serão tão mais fáceis quanto você se lembrava quando sairmos daqui. – Sarah lhe disse. Renesmee suspirou.

_ Eu sei.

_ Sabe mesmo?

_ Sim, eu sei. Eu percebi o quanto você mudou desde a primeira vez que nos vimos. É como se não fosse só a Milla aquela que se transformou nesta ilha. Eu sei que você e Jacob vem escondendo algo do que anda acontecendo em La Push, em Forks e…

_ E? – Sarah incentivou quando Renesmee desviou o rosto.

_ Eu perguntei mais coisas pra Niadhi quando vocês não estavam por perto.

_ Pode se considerar sortuda. Aquela elfo gostou de você. – Renesmee sorriu quando ouviu isto. – O que ela te disse?

_ Disse que é o tempo em que todos precisamos resgatar nossas maiores forças. Ela é meia estranha, fala por enigmas.

Sarah sorriu, acariciando os cabelos da menina. Renesmee suspirou aliviada, parecia que ela tinha voltado ao normal. A hostilidade que recebeu da morena mais cedo lhe fez muito mal.

_ Os elfos são assim mesmo.

_ E agora você é assim. Você não só fala por enigmas, você age por enigmas… Milla acha que Jacob não está contando tudo o que tem de contar sobre La Push. Outro dia vi vocês dois na mata. Jacob estava transformado e imóvel e você estava do lado dele, parecendo lhe dar apoio pra algo muito… difícil. O que estava acontecendo?

Sarah bufou e se levantou da cama, soltando os cabelos e massageando as têmporas.

_ Jacob estava liderando mais um ataque em La Push… a distância. Tem ocorrido muitos nos últimos dias.

_ O que? – Renesmee saltou da cama, quase caindo depois.

_ Há muito tempo tem aparecido vampiros recém-criados aos arredores de La Push. Mas eles nunca foram problema para os lobos. Jacob suspeitava que eles estivessem a procura de algo, ou que fossem a ponta de um iceberg muito maior. Ele estava certo. Depois do ataque de Milla, vampiros mais experientes vêm atacando a reserva. São ataques mais planejados, mais difíceis de vencer. E eles procuram algo.

_ O que? – Renesmee perguntou ávida.

_ O lobo mais forte. – Sarah abaixou a cabeça e suspirou. – Outras transformações ocorreram enquanto estivemos longe, a matilha tem mais de vinte e cinco lobos agora, mas os vampiros tem atacado os veteranos… e eles parecem saber muito bem quem são eles. Leah sofreu uma emboscada ontem, quase foi mordida. Mas depois que Milla foi se transformou, Seth vem buscando vingança e ficou mais feroz. Se não fosse ele, Leah não teria escapado.

Nessie arfou.

_ Quem são os vampiros que estão atacando? – Renesmee perguntou.

_ O seu pai reconheceu um na mente de Seth… da guarda Volturi. – No instante que Sarah disse aquilo, Renesmee levou as mãos a boca.

_ Mas como eles sabem dos lobos? O que eles podem… Oh, meu Deus! Meu avô disse que Caius odeia os Filhos da Lua, que eliminou todos… e se ele…?

_ O seu pai pensa a mesma coisa. – Sarah disse, respondendo a pergunta inacabada de Nessie.

_ Vocês tem falado com meu pai novamente? – Renesmee perguntou. Depois que eles foram pra ilha, Jacob pediu a Seth que fosse procurar Edward. Renesmee tinha implorado que pudesse falar com os pais para tranquiliza-los de seu sumiço. Sarah teve a ideia de Seth mostrar Renesmee a Edward, deixando que ele vasculhasse seus pensamentos. E, uma vez que ele podia ver tudo o que Jacob via, foi por meio da conexão mental lobos que Renesmee passou um recado de que estava tudo bem ao pai.

_ Jacob tem falado. Ele aceitou a ajuda da sua família quando descobriu que eles conheciam os vampiros que atacam La Push.Sarah respondeu. – E seus pais deixaram de ficar furiosos com os lobos quando descobriram que foi melhor pra você estar longe de Forks.

_ Como assim?

_ Um tal vampiro, chamado Aro, pareceu voltar a mostrar interesse em você. Parece que ele procurou os Cullens pra saber como você tinha crescido.

Renesmee prendeu a respiração. Aro era sempre uma sombra de terror em seus pensamentos. Por que ele voltou a lhe procurar?

_ Seus pais acham que ele quer você para adicionar a sua coleção de… tesouros? – Sarah sussurrou. Sim, Renesmee conhecia aquele tipo de desejo de Aro. Ainda se lembrava claramente o fascínio que iluminou os olhos vermelhos dele quando ela lhe mostrou o seu poder, quando era criança ainda. Ela olhou pra Sarah, desesperada, mas algo nos olhos da morena parecia descrente.

_ É mais do que isto não é? – A meia vampira perguntou, voltando a se sentar.

_ Tudo o que nós sabemos aqui, nesta ilha, são as informações que Jacob consegue com a ligação mental com a matilha. O que eu sei é que os Volturi são os mais poderosos de sua espécie, e sei que não é fácil manter este posto entre seres que são tão egocêntricos. Me parece que é fundamental que eles não deixem nada que ameasse seu reinado se fortaleça.

Renesmee enrugou a testa.

_ O que quer dizer?

_ Criança… — Sarah deu outro suspiro cansado. – Quanto mais poder se tem, mais se quer ter. E quando ele é conquistado a força, nada é suficiente para se manter seguro, por mais alta que seja a posição, sempre haverá riscos de cair do cume. Então, tudo que é ameaça deve ser eliminado, e tudo que for força deve ser conquistado. Uma matilha forte é uma ameaça. Um clã poderoso e unido é uma ameaça…

_ Uma mulher de sangue precioso é força. – Renesmee completou, fazendo Sarah enrijecer.

_ Um sangue poderoso é força. _ Ela disse, concordando.

_ Os Volturi sabem de você? É você que eles procuram em La Push? Aro te quer? – Renesmee disparou as perguntas em disparada, se assustando com aquela possibilidade. Mas Sarah maneou a cabeça e soltou um suspiro.

_ Somente um vampiro sabe sobre mim… E não é vantajoso que mais de um vampiro saiba de uma fonte preciosa de poder. De certa forma, eu conto com ele pra guardar meu segredo. Quando mais vampiros souberem de mim, a guerra pelo meu sangue será feita entre eles próprios. Uns destruirão aos outros. Nas lutas com vampiros nômades que já enfrentei, era exatamente isto que eu fazia para me salvar. Fazia com que todos me quisessem, então, eles se matavam para conquistar. O que eu acho que os Volturi parecem querer é apenas legitimar o seu poder, acabar com as ameaças. Destruindo os lobos mais fortes eles poderiam até ter chances de domesticar os mais novos… se ameaçassem a tribo, talvez… E se acabarem com os Cullens…

_ Vão eliminar os ataques de rebelião entre os nossos… por um bom tempo.

Sarah concordou. Renesmee parou, voltando a se recostar na cama.

_ Você acha que o vampiro que sabe sobre você não é um Volturi, então?

_ Eu não sei, não conheço os Volturi. Mas eu acho, que seja ele deste clã ou não, ele os domina. Ele domina tudo e age nas sombras. Ele incitará uma guerra, porque o que ele quer é deixar de se esconder, é estender os seus limites, deixar de se esconder dos humanos… é… é… eu não sei definir ao certo…

_ E o por que do teste hoje? Por que você me fez acreditar que só fui usada por você?

Sarah se aproximou de Nessie e pegou as suas mãos.

_ Me desculpe por isto. Durante o meu treinamento com os elfos, passei por coisas parecidas… E quando sairmos desta ilha, enfrentaremos coisas realmente difíceis. Eu fiz aquilo, combinei de lhe fazer passar por aquilo com Jacob porque eu vi Renesmee, vi o seu poder ampliado, vi o que você pode fazer. Isto afloraria em você, de uma maneira ou de outra. Eu só vejo o inevitável. Mas o seu poder só seria ampliado se você passasse por uma tensão e dor muito grande. Se não fosse aqui, conosco, seria lá fora e lá, seria pior. Eu tinha que antecipar as coisas.

­_ Poder? Ampliado?- Renesmee se sentiu a completa personificação da confusão naquele momento.

_ Você viu o que fez menina? Percebeu o que você fez com Jacob? O nosso guerreiro mais hábil? – Niadhi apareceu no quarto apertadinho em que elas estavam, falando tranquilamente. Renesmee já havia se acostumado com aquela elfo aparecendo e desaparecendo depois que Sarah contou tudo sobre suas origens.

_ O que?

_ Uma visão! Você confundiu Jacob em meio a uma luta, o distraiu tempo suficiente para desacordá-lo. Se você fosse um pouco mais hábil, daria tempo de mata-lo. Você pode usar isto com um exército inteiro,até. – Niadhi falou e logo depois de um tempo completou. – É, ela fará isto, não é mesmo Sarah?

_ Quer dizer que eu não preciso mais tocar pra passar a alguém meus pensamentos? Algo parecido com Zefrina…

_ Quanto a quem quer que seja Zefrina eu não sei, mas por não precisar tocar para mostrar o que desejar a alguém… sim. – Sarah respondeu.

Naquele momento Nessie soltou sua conclusão apavorada com tudo o que Sarah disse:

_ Você quer nos preparar para uma guerra! Eu e… Milla também?

Sarah não respondeu, e nem precisava. Tudo tinha ficado muito claro. Ao que parecia, a guerra já havia começado desde a transformação de Milla.

_ Vocês não teriam isto fora daqui.

Renesmee se enfureceu.

_ O que é isto aqui afinal? – disse, abrindo os braços e apontando pra todos os lados. – Um campo de concentração? Por que eu? Por que você me escolheu? Por que você insiste em me fazer resistir, em me endurecer, em me tornar uma guerreira custe o que custar? Você sabe a dor que eu senti aqui dentro quando pensei que a confiança que eu tinha por você era uma mentira? Sabe? Eu não sei o que me deu, até hoje eu não entendo porque eu abandonei tudo o que eu tinha para te seguir: minha casa, meus pais, minha família inteira! A segurança do meu lar! Eu confiei em você e nem sem o motivo… e quando eu pensei que você tinha me usado, eu fiquei sem chão! Sabe o quanto custou mais este teste pra mim? Por que você faz isto assim??

_ Porque eu não posso te deixar morrer! – Sarah também confessou exaltada. – E eu não posso deixar que quem quer que seja te capture e te leve para um exército qualquer de vampiros! Porque a sua vida está nas minhas mãos! Eu… eu… não posso te deixar morrer! – Os olhos de Sarah começaram a ficar mais densos, uma vez mais passando a eletricidade de um segredo pelas veias da hibídria… havia algo em Sarah… algo dentro dela… - Você pensa que eu também não estou me sentindo mal por fazer tudo o que fiz com você e com Milla aqui? Pensa que eu também não gostaria apenas de te conhecer tranquilamente, sem corromper a doçura que você tem? Mas eu não posso! Não posso!

_ Por que? – Renesmee voltou a perguntar, se levantando rapidamente da cama, ignorando a dor latejante em seu corpo. Só então percebeu que Sarah titubeou.

_ Porque alguém me pediu.

Renesmee franziu a testa.

_ Quem?

_ Eu não sei! Eu não sei! – Sarah gritou e se jogou sentada na cama, entranhando os dedos nos cabelos. – Algo me liga a você… — ela sussurrou, vencida.

_ Renesmee se acalme. Sente-se. Eu vou tentar explicar. – Niadhi interviu, pegando a menina pelos braços e a sentando ao lado de Sarah, se ajoelhou na frente dela. – O destino é uma coisa tão magnânima e incompreensível, que mesmo para seres mais evoluídos, como nós elfos, lidar com ele é confuso e aterrorizante. Sarah lida com coisas do destino, mas ela só teve uma vida humana pra compreender e digerir tudo isto. Acredite: diante de tudo o que a vida é, uma vida de 28 anos é muito, mas muito pouco. Não exija dela todas as respostas. Apenas confie que os caminhos do coração dela estão sendo iluminados por seres além de nós. Se ela está dizendo que você precisa se tornar uma guerreira, acredite, é o melhor pra você.

Renesmee respirou fundo, uma lágrima escorreu no canto de seus olhos. Ela limpou rapidamente.

_ Nessie… mesmo que você tenha passado difíceis momentos no início da sua vida, nada é comparado com o que vamos sofrer agora. Entenda isto! Você só conheceu doçura, cresceu rodeada de veneração e amor e muita proteção… mas isto não é tudo… infelizmente não é… — a voz de Sarah estava cansada, seu rosto abatido.

Renesmee se aproximou da morena e pegou seu rosto entre as mãos.

_ Será que isto não é tudo? – As mãos da menina eram mornas e suaves. – Eu sei que as coisas não serão fáceis daqui pra frente. Eu sei! Mas olhe pra você Sarah! Olhe para os seus olhos! Você está endurecendo! Milla disse que nunca tinha visto tanto brilho em uma mulher quanto viu em você no dia do seu casamento. Disse que aquela era uma lembrança muito nítida de seu tempo de humana. Por que eu vejo este brilho se perder? Eu sei que você está passando por momentos difíceis, sei que você está passando uma transformação também. Mas eu prefiro acreditar que não precisamos embrutecer tanto pra passar por isto! Você diz que o meu mal é doçura em excesso, eu digo que sem ela nós não vamos suportar!

_ A menina está certa, Sarah. Seu poder não é fácil, mas até o Jacob perdeu o brilho que tinha ao seu lado. Você endureceu demais minha querida! – Niadhi também acariciou o rosto de Sarah.

_ Eu prefiro acreditar Sarah, que mesmo que o mundo se torne um inferno, ainda é possível manter a doçura aqui dentro! – Renesmee ousou colocar as mão entre os seios de Sarah. – A guerra não pode impedir as flores de nascer. Eu posso ser tudo o que você quiser, vou lutar do seu lado como nunca lutaria do lado de ninguém, mas não se esqueça disto. É o que fará a diferença.

Sarah sorriu, pegou as mãos de Nessie e beijou delicadamente.

_ Eu não vou esquecer mais, Nessie. Não vou. – Ela se levantou. – Cuide dela por mim, Niadhi.

_ De uma vampira? – Niadhi gracejou. – Ok, eu aprendi a fazer isto muito bem estes dias. Onde vai?

_ Vou amar meninas… vou amar…

Notas finais
POR FAVOR LEIAM!!!
As vezes eu fico com medo de postar as coisas que escrevo com receio do impacto que irá causar. E meu medo aumenta quando um ou outro vem me dizer que não tem mais coragem de ler com receio do que está pra acontecer. Isto é tão ruim? Será que as pessoas só se dão bem quando há um mar de rosas?
Bom, eu entendo que no início da fic, mesmo com o drama, havia sempre a esperança de que Jake e Sarah seriam felizes qndo descobrissem o amor. Agora eu acho que tirei o chão de vcs! Hahaha... vcs não sabem o que esperar do futuro? Estão com medo de ser só desgraça? Não, não.
Eu só queria mostrar, com as coisas que vão acontecer, é que se o mundo for cinza, o amor resiste, se o mundo virar um amontoado de rocha, o amor vai ser aquela flor que vai causar rachaduras e brotar em meio a elas, que a distância e o esquecimento não existe para corações que se amam e que a humanidade terá de reaprender este significado.
Entendem? Vocês entendem isto?
Eu sei que vcs temem, que ficam tristes com as coisas que não dão certo, que não querem nem dor, nem fogo, nem ódio nem sangue. Mas haverá.... haverá. Então, não só os personagens terão de ser guerreiros, mas vocês também! Os leitores! Terão de se revestir de coragem e seguir em frente, tendo a fé maior do que qualquer desalento.
Conseguirão??
Bjss