The Poor Boy

2 The arrogant boy


Para quem costuma reclamar, ao ouvir o despertador tocar, era surpreendente acordar, antes mesmo do horário determinado. E era o que acontecia comigo nesta manhã.

Semana passada eu fora ao colégio Higashi no hoshi, ver o resultado dos exames, e por incrível que pareça, minha pontuação já era o bastante para ficar acima da média determinada pelo colégio, ou seja, estava aprovado. E após ter comprado todo material requerido, realizado a transferência e encomendado o novo uniforme, que custava um absurdo, eu me preparava hoje, para o meu primeiro dia de aula.

Talvez a ansiedade me fez despertar tão cedo, mas também pensava nas palavras daquele garoto estranho. Será que eu teria que enfrentar alguém?

Acho que seria bom encontrá-lo, mesmo tendo aquele jeito um tanto imprevisível, pois ele poderia ao menos me guiar pelo colégio e me dar conselhos, dizendo o que eu devo ou não fazer com os outros; talvez ele não seja uma pessoa má, e sim um nerd tentando ser bondoso. Mas por que eu estou pensando nisso? Agora estou com medo e quero ir atrás da proteção de um nerd? Não, a água quente está afetando o meu cérebro... Melhor sair do banho. Vou me virar sozinho no colégio, assim como faço em casa.

Amizades talvez acabassem me atrapalhando os meus estudos, mas quem poderia ser meu amigo? Só o nerd? Chega de falar do nerd!

***

Mais tarde, quando já estava pronto, me dirigi até a cozinha, checando o horário, para evitar um possível atraso. Precisava deixar algo pronto para o jantar, mas estava sem paciência para pensar, então fui revistar a geladeira, para ver se havia algo já pronto, porém, como sempre, eu só encontrava o clássico misoshiro, fora o arroz, que nunca faltava, já que a panela elétrica se encarregava de não só preparar, mas de mantê-lo aquecido também. Não sei por que sempre tinha a esperança de encontrar algo novo na geladeira.

Não queria tomar o café da manhã, mas me obriguei, já que o “almoço” do colégio devia ser um absurdo, assim como o terno, e eu iria me arrepender se passasse o dia todo até a noite, sem comer nada. Garanto que nada era mais saudável que soja e arroz, mesmo sendo de dois dias atrás, pois isso era o que me mantinha de pé todos os dias.

***

Quando adentrava o colégio, olhei para os lados, vendo os outros conversarem animadamente; uns pelos jardins, outros pelos corredores, e nem um me pareceu familiar. E desnorteado, parei de súbito em um dos corredores, pensando se deveria ir à secretaria ou procurar a sala do último ano por mim mesmo, mas antes que eu me decidisse, uma voz me interrompeu, dizendo:

— Bom dia.

— Bom dia – respondi, me virando em direção à voz.

Como imaginado, se tratava do garoto estranho, que hoje também usava uniforme, e tinha a mesma expressão de quando eu o conhecera.

— Você realmente foi aprovado... Como se sente? – Apesar de ter perguntado, não parecia interessado em saber a resposta, já que olhava para os lados, parecendo procurar algo para se distrair.

— Ah, me sinto bem... Bom, olha, eu queria te pedir desculpas por outro dia – falei, lembrando do que eu havia pensado em casa a respeito dele.

— Tudo bem...– ele disse, levando seu olhar de encontro ao meu, fazendo então uma pequena pausa. – Talvez eu até estivesse te fazendo de bobo naquele dia, mas agora não... O que acha de sermos amigos?

Seu tom de voz sempre era calmo, indiferente. A naturalidade dele me assustava um pouco, pois tomava suas decisões com tanta segurança, nem pensando nos contras que talvez sua decisão pudesse oferecer. Também gostava de ser prático, mas neste colégio, talvez fosse melhor eu ser mais cauteloso. Passei a examiná-lo atentamente, para me certificar de que ele não era uma pessoa “má”, como eu o considerava, desde o dia do exame. Talvez fosse bom andar com ele por conveniência.

— Ah, tudo bem. Amigos – disse, não conseguindo disfarçar certa desconfiança, porém, ele nem parecia se incomodar com aquilo.

— Gosta de auto-apresentações? –perguntou ele, voltando a olhar de forma discreta para os lados.

— Eu detesto isso –respondi, sem pensar duas vezes. Eu achava ridículo ficar frente à classe, para se apresentar, e ainda ser alvo de piadas.

— Ah, como eu imaginei... – Seu tom de voz era baixo, parecia até ter medo de que alguém o ouvisse. – Poucos lêem o contrato do começo ao fim, e caso você não tenha lido também, eu lhe passo o aviso que está escrito nele. No contrato da matrícula, há um aviso, pedindo para que o aluno compareça à secretaria do colégio, em seu primeiro dia de aula, para que assine alguns papéis, junto do professor responsável pela sala em que irá fazer parte... Mas quando se trata de bolsistas, alguns alunos de classe mais alta, costumam fazer brincadeiras, que muitas vezes resultam em advertências. A partir do momento que um bolsista coloca os pés dentro deste colégio, sua obrigação é ter uma ficha impecável, caso não queira ser expulso; até toleram uma ou duas advertências, mas mais que isso, não. Se eu não estivesse do seu lado agora, com certeza algum outro aluno já estaria te chamando para dar uma volta e conhecer os amigos dele... Depois te trancariam na sala de aula, e a partir daí, começa a tal “auto-apresentação”. Iriam te humilhar, poderiam até te fazer alguma ameaça e te soltariam segundos antes do sinal tocar, para você receber sua primeira advertência, devido a não comparecer na secretaria.

Como os aristocratas eram sádicos. Eu estava acostumado com situações simples, como brigas, não com estes tipos de planos maquiavélicos e, de certa forma, infantis também. Se bem que eu já ouvira algo semelhante no meu antigo colégio, só que as garotas armaram um plano para se vingar, e não para apenas se divertir. Enfim, estava agradecido por ele ter me contado sobre tal plano, ou será que ele está me pregando outra peça?

— Ah, eu não sabia mesmo sobre estes papéis para assinar... Melhor eu ir logo à secretaria – disse, dando já o indício de que iria começar a caminhar.

— Não, lá você terá que aguardar o professor. Venha, eu lhe levo até a sala dos professores – falou ele, erguendo uma das mãos, num gesto como se pedisse para que eu ficasse.

A bondade dele já me parecia falsa, exagerada, como se já tivesse planejado tudo aquilo, mas eu não podia simplesmente sair correndo, para não ter que dizer o porquê de eu não querer a ajuda dele. Agora eu tinha confiar na minha sorte... Será que eu sou uma pessoa de sorte?

De repente ele é o líder de um grupo de sádicos, frios e calculistas, que vivem discutindo sobre assuntos filosóficos; algo como hedonismo, ou seja, procurando prazer de várias formas... Eu não quero ser uma das vítimas!

— No que está pensando? Ficou distante de súbito – Ele arqueou uma das sobrancelhas, enquanto seus olhos estavam fixos nos meus, parecendo assim querer arrancar a verdade deles.

— Ah, não é nada. Pode me levar à sala dos professores mesmo? – dei um breve riso, enquanto olhava para os lados, fingindo assim interesse em saber o caminho até a sala.

— Sim. Venha comigo – ele disse já se virando para certo lado do corredor.

Me pus a caminhar logo atrás dele, e em seguida dei início a uma nova observação. Talvez aqueles óculos nem tivessem grau, só os usava para parecer mais intelectual. Os aristocratas gostavam de cosplay? O uniforme deixava todos com um ar sério, por se tratar de um terno. Bom, na verdade, minha observação não iria render em nada, pois só podia olhar seu corpo agora, e o corpo não reflete o caráter da pessoa, mas quem sabe pelo modo de andar.

A cabeça erguida, os ombros retos, mas vez ou outra os jogava para frente, afetando toda a sua postura, mas parecia fazer isto sem perceber; os passos eram firmes, mas enxergava certa insegurança neles. Talvez ele caminhasse com mais desenvoltura, caso fosse autoconfiante, sem contar que não olhava para nenhum dos lados, apenas para frente. Não, ele não tinha capacidade para ser o líder de um grupo de sádicos, a não ser que disfarçasse por ter vergonha... Vergonha? Acho que não, pois os aristocratas parecem se orgulhar em causar o sofrimento alheio.

Ele parou subitamente, já de frente para uma porta, e então levou uma das mãos, fechada, até ela, dizendo:

— É aqui.

Após ele ter batido umas duas vezes na porta, suavemente, um homem a abriu, já o recebendo calorosamente, e logo após perguntou:

— O que deseja na sala dos professores, Sakaguchi-san?

— Gostaria de falar com o Kanashiro-san. Diga a ele que estou com o novo aluno, o bolsista.

— Ah, sim! Por favor, queiram entrar! Sentem-se enquanto eu o chamo – ele disse, já fazendo um gesto com as mãos, indicando um local para nos sentarmos.

— Muito obrigado, Hamada-san.

Sentamo-nos num causeuse, que havia dentro na sala, e nos mantivemos em silêncio, até eu perguntar :

— O que são estes papéis exatamente?

— Ah, apenas um documento, onde o aluno reconhece a liberdade que o professor tem de penalizá-lo, caso cometa algo que é contra as regras do colégio. Antigamente o caso era resolvido pelo diretor, mas muitas vezes resultava em nada, já que os pais intervinham sempre. E devido a isto, os alunos se tornaram muito desordeiros, e o colégio não teve outra opção, a não ser esta de criar uma nova regra, permitindo que o professor dê advertências, ou até mesmo suspenda o aluno por alguns dias, de imediato. Qualquer professor pode fazer uma observação, alegando o motivo de ter aplicado algum tipo de castigo, vamos dizer assim, e em seguida deve passar para o professor responsável pela sala, para que ele possa arquivar isto no histórico do aluno. De início, os pais acharam isto uma injustiça, mas por fim aceitaram...

— Mas isto realmente é injusto, não acha?

— Sim, mas pelo menos a desordem diminuiu. Muitos se tornaram covardes, quando viram que não podiam recorrer ao poder dos pais.

Consenti, vendo um homem se aproximar em seguida, junto do que nos atendeu, tendo em uma das mãos, algo semelhante a uma caderneta. E quando os dois pararam frente a mim e o garoto estranho, possível sádico, que eu nem sabia o nome, um deles disse:

— Ah, então você é novo aluno?

— Sim – respondi me levantando em seguida.

— Bom, eu sou Kanashiro Noboru, professor responsável pelo último ano – ele falou, enquanto abria a caderneta. – Como pode ver, esta é uma ficha com os seus dados. Eu só preciso que assine nestas duas linhas abaixo de sua foto.

Mesmo contra minha vontade, assinei os locais indicados, e ele assinou em outro determinado local em seguida.

— Agora pode se dirigir para sala de aula. Aproveite para fazer amizade com os alunos da classe, hm. – ele disse num tom simpático, enquanto observava mais alguns papéis.

Ele só podia estar brincando, pois este colégio devia ser o próprio inferno, já que tiveram que implantar tal regra para acabar com desordem, mas não deixei de dar um breve riso, meneando a cabeça positivamente. E após sairmos da sala, perguntei:

— Em que ano você está?

— No último também – ele respondeu, parecendo pensativo.

— Ah, então vamos ser colegas de classe!

— Não... Sua ficha indicava outra classe – ele falou ainda distante. – Enfim, melhor irmos logo, pois o sinal já irá tocar.

— Bom, é uma pena... Mas podemos nos falar no horário do almoço, não é mesmo?

— Claro – ele disse com um sorriso lânguido nos lábios.

— Ah, você me ajudou tanto, e eu ainda nem sei seu nome... Qual é? – Estava realmente interessado, pois não poderia chamá-lo de “nerd”.

— Takahiro – ele respondeu num tom simpático. – O seu é Yuuji, não é?

— Sim – afirmei curvando os lábios num sorriso em seguida.

Novamente estávamos em silêncio, caminhando entre inúmeros alunos, e entre estes, alguns nos observavam perplexos. Era um tanto desconfortável olhar para estas pessoas, mas eu não iria desistir do colégio, mesmo que eu tivesse que suportar isso todos os dias.

— Esta é a sua sala... Yuuji-san – ele disse, indicando a porta logo ao lado.

— Ah, sim. Obrigado mais uma vez!

— Guarde a pasta dentro da carteira, reviste sempre que puder os bolsos, tanto do paletó, como os da calça, e se prepare para conhecer um garoto arrogante chamado Jun. Com certeza ele irá querer te perturbar – ele disse, enquanto inclinava o corpo para observar o interior da sala.

— O quê? O que pode aparecer dentro dos bolsos? – perguntei surpreso.

— Logo você vai ver... Nos falamos mais tarde, Yuuji-san – ele respondeu, já se afastando de mim.

Não acredito que os alunos chegavam a roubar coisas, só para se divertir com a desgraça alheia; realmente estava cercado por demônios, e apenas uma boa alma, que antes considerava estranha, nerd e sádica, fora me salvar. Precisava retribuir de alguma forma, depois de ele ter me ajudado tanto.

***

Ao adentrar a sala, vi que praticamente todas as carteiras estavam ocupadas, mas por sorte, encontrei uma num local de meu agrado ainda vazio. Antigamente adorava me sentar em uma das últimas carteiras, para poder terminar os deveres de casa disfarçadamente, mas agora, eu só gostava porque era um local onde as pessoas não podiam se focar o tempo todo. Não queria ser uma atração para este bando de frescos.

O sinal tocava, e mais alguns alunos adentraram a sala; como aquela carteira continuava vaga, corri até ela, onde já tratei de me sentar, revistando os bolsos do paletó e da calça em seguida. E sem encontrar nada neles, olhei a minha volta, notando então alguns olhares sobre mim.

O par de olhos mais próximo de mim, era de um garoto que aparentava ser mais jovem que os outros alunos da sala; o motivo para causar esta impressão, talvez fosse o seu rosto, já que ele era bem arredondado, sem contar os seus traços bem infantis. Seu olhar era irritado, como daquelas crianças mimadas, que costumam implicar com tudo. Ele tentava me intimidar, lançando agora um olhar altivo, mas acho que era impossível ele fazer alguém sentir medo dele, com aquela cara de criança peste, sem contar que nem parecia ser do tipo calculista, então resolvi o encarar, para ver qual era sua reação. E como previsto, os papéis se inverteram, já que ele me olhava surpreso, enquanto eu o desafiava, não desviando os olhos em nenhum momento sequer. Por fim ele murmurou algo, querendo passar um ar de indiferença, e logo voltou olhar para frente, onde já se encontrava uma professora carregada de livros e cadernetas. Tratava-se de uma professora estrangeira, de cabelos e olhos claros, e ao colocar todas as suas coisas sobre a mesa, ela disse:

— Bom dia classe. Hoje vamos trabalhar mais a pronuncia, através de diálogos e leitura de textos.

A ouvia tranquilamente, acreditando que ela fosse a professora de inglês, por ser estrangeira, mas quando ela voltou a falar, entrei em desespero, lembrando da pequena noção que eu tinha da língua que ela usava para conversar com os outros alunos; tão pequena, que não era o suficiente para ler, muito menos falar. Lembro-me de que meses atrás, eu já pensava em fazer um curso de francês, mas, com o tempo, o plano acabara caindo no esquecimento.

Passei a rezar, pedindo a Deus que a professora não notasse a minha presença, e por sorte, ele me atendeu; pois ela conversava apenas com os alunos que estavam nas carteiras da frente. Era surpreendente o modo que eles conversavam, pois pareciam estar falando a língua pátria, enquanto eu era obrigado a me esconder atrás de um livro.

Enquanto ouvia a entonação perfeita deles, nem me dei conta de que a professora agora estava próxima de mim, e só fui perceber quando ela disse:

— Bonjour, Monsieur.

Movi minha cabeça lentamente para um dos lados, e num sobressalto vi ela postada ao meu lado.

Alguns alunos começaram a rir, enquanto outros trocavam palavras, me observando com um ar trocista. Já a professora me olhava com um ar simpático, que me encorajou a dizer o pouco que eu sabia:

— Bonjour, madame.

— Es tu le neuve écolier? – ela perguntou animadamente.

-Oui, madame – respondi, penando paralembrar do pouco que eu sabia.

— Comment allez-vous?

Burro! Eu mesmo me crussifiquei com esta conversa, e agora só me restava ficar em silêncio, assim como eu deveria ter ficado desde o início. Olhei para a professora, querendo demonstrar o desespero que eu sentia, através dos olhos, e ela pareceu captar, caminhando então pela classe novamente, enquanto dizia:

— C’est un timide garçon...

— C’est um gentil garçon, madame – disse uma das garotas.

— Oui, Misae, c’est un gentil garçon! – falou a professora aos risos.

— Et trés niais! – a mesma garota disse, explodindo em risos, ao terminar.

— Misae-san! – advertiu a professora, franzindo o cenho.

— Excuse, madame – falou a garota, ainda rindo.

Não suportava mais ficar dentro daquela sala, ouvindo coisas que eu nem conseguia entender, mas eu não queria desistir já no primeiro dia de aula. Então abaixei minha, já a apoiando sobre os braços, que repousavam sobre a carteira, para finalmente cerrar meus olhos; precisava arranjar um tempo para poder me matricular num curso de francês, e ainda conseguir verba para isto, mas não conseguia criar um plano, já que vozes próximas de mim me desconcentravam. Após eu abrir os olhos e erguer um pouco a cabeça, passei a prestar atenção na conversa, e vi que eu era tema dela.

— Você viu que o bolsista está usando o uniforme do colégio? – perguntou um dos garotos que sentavam próximos de mim.

— Vi sim. Talvez ele tenha feito algum programa para conseguir o dinheiro, pois hoje em dias as velhas pegam qualquer carne nova, sem ao menos se certificar de que ela não é imunda – respondeu o garoto, que antes me observava.

— Tem razão... Ele não poderia comprar um uniforme desses com dinheiro limpo – o garoto próximo a mim disse, lançando um olhar de desprezo.

— Como deixaram um ignorante como este, entrar em nosso colégio? Os bolsistas anteriores eram um pouco mais inteligentes... Que decadência – falou o de traços infantis, que antes me observava.

— Realmente é uma decadência... – concordou o outro.

— Imundo e ignorante... Vou fazer de tudo para tirar este bolsista daqui, pois ele não passa de um peso para classe – disse o de traços infantis, olhando vez ou outra para mim.

— Chiba Jun, Kawashima Hideki, o colégio é o último local para comparar as diferenças sociais! Respeite o novo aluno e preste atenção na aula – falou a professora, já postada frente a eles.

Ambos ficaram surpresos em vê-la tão próxima deles, e até mesmo eu me surpreendi, já que não notei ela se aproximar novamente; talvez porque por estar prestando atenção na conversa dos dois. A atitude da professora me animou, pois ela mostrou que a justiça ainda era feita por alguns, e tive que me conter, para não rir da cara dos dois, após ter levado um sermão, porém, quando ela voltava a caminhar, eles começaram a falar novamente, como se nada tivesse acontecido.

— Professora ridícula... Defendendo o bolsista, é? Garanto que deve ter saído de uma cidadezinha medíocre da França – disse o de traços infantis.

— De um bordel para ser mais exato. Onde já se viu uma professora ficar com gracejos para cima de um aluno? – falou o outro garoto.

Chiba Jun e Kawashima Hideki, pareciam ser os mais arrogantes da sala, pelo menos essa foi minha primeira impressão. Chiba jun?! Foi este o nome que Takahiro citou, mas eu não sabia qual dos dois era ele. Enfim, eu deveria tomar cuidado com estes dois arrogantes, que já me consideravam um alvo. Acho que não era fácil suportá-los, já que agora eu notava a professora voltando seus olhos para direção dos dois, vez ou outra, como se estivesse sempre em alerta.

— Deve ser uma francesa imunda, que tenta disfarçar o seu fedor com perfumes – disse o de traços infantis, num tom propositalmente alto.

A professora voltou a se aproximar dos dois, em passos firmes, e por fim bateu um dos pés, vociferando:

— Muito bem, os dois, se levantem e venham até a minha mesa! Irei lhes dar uma advertência por desrespeito ao professor.

— Eu não vou aceitar a punição de uma estrangeira, que pode ter saído de um bordel, só porque tem conhecimento da gramática de sua terra natal – retrucou o de traços infantis.

— Chiba Jun, para sua informação, eu me formei em uma ótima faculdade de Paris! Tenho capacidade suficiente para dar aulas em colégios europeus, superiores a este, então não me subestime – disse a professora num tom alterado.

— Ah, é mesmo? Então por que veio para o Japão? –ele perguntou fingindo curiosidade, e em seguida fez uma pausa. – Me poupe de suas mentiras, pois se pudesse mesmo exercer seu trabalho na Europa, não teria vindo para cá, já que o nosso dinheiro tem menos valor. Ah, e se tivesse mesmo cursado uma ótima faculdade de Paris, não agiria de tal forma. Você se exaltou, e passou a se portar como uma da plebe.

A professora caminhou até sua mesa, deixando visível a vontade que tinha de chorar, e logo se sentou, passando a escrever algo em uma das cadernetas, enquanto toda a classe se mantinha em silêncio, inclusive o tal Kawashima Hideki, amigo de Chiba Jun, que tinha a atenção voltada para a professora, mas pela sua postura, não parecia se sentir arrependido.

Agora que eu sabia quem era o tal Chiba Jun, me assustava pensar que aquele “menino” podia ser tão cruel. Não era só arrogante, como Takahiro dissera, era extremamente arrogante.

Após determinado tempo passado, quando o sinal tocava novamente, a professora pediu para que ele o acompanhasse, e com um ar trocista, ele aceitou, se retirando logo em seguida.

As outras aulas seguiram calmas, e nem comentaram sobre o assunto com outros professores. O tal Chiba Jun nunca retornava, então era óbvio que havia sido suspenso, mas suas coisas ainda estavam na sala e ninguém vinha as buscar. Será que estavam conversando? Acho que seria loucura, pois se ele a humilhou tanto dentro da sala poderia humilhar mais ainda fora dela; a não ser que estejam discutindo o ocorrido com o professor representante.

Quando o sinal para o almoço tocava, já avistei Takahiro, com o costumeiro ar de indiferença, parado frente à porta. E ao me aproximar, ele perguntou:

— Como está?

— Bem... Apesar da primeira aula ter sido assustadora – Ainda estava chocado com a cena.

— Ah, é mesmo? – ele perguntou parecendo um tanto surpreso.

— Sim. O tal Chiba Jun discutiu com a professora de francês. Quem diria que aquele garoto,com cara e tamanho de um menino ainda, seria tão atrevido...

— Bom, não é a primeira vez queisto acontece... – disse Takahiro pensativo. – Ele também já discutiu com um professor de inglês. Foi no logo que entramos no colegial.

— O professor de inglês era estrangeiro?

— Sim. Jun é tradicionalista, por incrível que pareça – Takahiro suspirou, meneando a cabeça negativamente. – Influência dos pais, que o mimam demais.

— É, deve ser extremamente mimado, para ter a ousadia de ofender a professora.

— Bom, vejo que esta bem, então já vou indo – ele disse, já abrindo um sorriso ao terminar.

Não! Eu não queria ficar mais tempo sozinho! Eu só tentava me convencer, dizendo que apenas o estudo me importava, mas na verdade, eu precisava de um amigo. Não, eu não precisava de um amigo, eu só precisava de um apoio, para não ser derrotado pelos sádicos.

Senti vontade de pedir para ele ficar, mas não podia, já que não tínhamos intimidade o bastante, sem contar que a cena seria ridícula! Imagine eu, pedindo ajuda, para um nerd, esguio e um pouco menor do que eu. Não, isso não.

Como não tinha outra opção, dei apenas um breve riso, e num tom irônico disse:

— Ah... Precisa ficar sozinho, não é?

— É... Preciso resolver pequenos problemas – ele falou num tom sério, enquanto seus olhos pareciam distantes.

Falei em tal tom apenas para brincar, mas pelo visto ele estava realmente com problemas, ou podia estar fingindo também, para depois rir, vendo minha expressão preocupada. Eu e esse meu costume de se preocupar com os outros.

Por fim eu apenas dei de ombros, e num tom amigável falei:

— Ah, tudo bem. Quem sabe nos vemos mais tarde.

Seus olhos estavam voltados para o chão, e desta forma se mantiveram, por alguns segundos, parecendo então estar imerso em seus pensamentos.Não entendia o porquê de ele demorar tanto, sendo que eu fizera uma pergunta simples, mas antes que eu falasse algo, para tirá-lo daquele transe, ele disse:

— Se não se importar, podemos nos encontrar frente ao colégio, após as aulas... Podemos dar uma volta também.

Estranhei aquele seu súbito desejo, mas talvez quisesse me contar algum dos seus problemas, apesar de que poucos dizem sobre sua vida para um estranho. Espero que ele não esteja aprontando alguma peça para cima de mim!

— Ah, tudo bem.

Nos despedimos, e em seguida adentrei a sala, que estava completamente vazia; diferente do meu antigo colégio, onde maior parte dos alunos lanchava dentro dela.

O que Takahiro irá fazer sozinho? Bom, isso não é da minha conta... Melhor pensar num curso de francês.

Notas finais
Sakito: Você é mais uke que eu. Precisa de mim.
Ni~ya: Isso vai mudar no próximo capítulo!
Sakito: Ah, sim... Claro. Quero sorvete...

Bom, demorei tanto para postar o novo capítulo que talvez ninguém mais leia... _ _"
Mas ainda me resta uma ponta de esperança!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.