The Phantom Agony

6 A culpa de Park Jimin


Acho que nunca demoramos tanto para chegar em casa como naquele dia. Estava literalmente arrastando o corpo de Namjoon enquanto me esforçava ao máximo para não deixar o garoto cair das minhas costas.

Sequer me preocupei em fechar a porta quando consegui abrir, indo direto para o sofá e deitando o corpo do rapaz de qualquer jeito, e mais do que depressa deixando o corpo de Namjoon. Caímos de encontro ao chão, o Kim ajoelhado em frente ao sofá enquanto eu me deitava, puxando com força o ar para os meus pulmões. Sequer conseguia reunir forças para erguer os braços, como se toda e qualquer energia que eu tinha anteriormente tivesse sido sugada de uma hora para outra.

Ao olhar para Namjoon, percebi que estava em uma situação talvez até pior do que a minha. O suor escorria abundante pela lateral de seu rosto, o peito subia e descia consideravelmente na medida em que buscava por oxigênio e também tinha uma das mãos sobre o peito, a tosse seca também se fazendo presente na medida em que respirava ofegante. Realmente, possuir um corpo demandava muita energia, tanto do espírito, como do possuído.

Naquele momento voltei os olhos para o garoto que havíamos deixado no sofá. Levando em consideração o que aqueles homens haviam dito, seu nome deveria ser Jeon Jungkook, o que me fazia lembrar perfeitamente do dia em que encontramos com Hoseok no ponto de ônibus, quando toda aquela confusão com Jimin aconteceu e, mais especificamente, do nome que surgiu naquela conversa.

Seria possível que esse garoto diante de nós fosse o mesmo Jungkook mencionado naquele dia, primo de Jung Hoseok? E, se realmente fosse, porque acabamos nos encontrando naquele momento em específico? Não acredito que tenha sido apenas uma grande coincidência e, caso minhas suspeitas se confirmassem, apenas atestaria que estávamos conectados de alguma forma.

Não fazia muito tempo que Namjoon e eu estávamos conversando exatamente sobre esse assunto: Conexão. Não era algo em que eu acreditava de fato, nunca levei em consideração que a minha vida acabou tendo aquele desfecho por estar destinado à desgraça. Porém, os acontecimentos mais recentes me fizeram reconsiderar isso. Teoricamente, estava conectado à Namjoon por meio de uma força que eu ainda não conhecia ao certo, e provavelmente reencontrei Taehyung após a morte por alguma razão, ou então sequer conseguiríamos ter nos entendido, como nos entendemos nos dias em que passamos juntos em casa.

E, além disso, tinha Hoseok, e por meio dele acabamos por conhecer Park Jimin às pressas, onde começamos a entender um pouco mais sobre os mistérios que envolviam as criaturas disformes que perseguiam Namjoon há anos. E agora isso.

Suspirei pesadamente antes de reunir o último resquício de forças que tinha para me levantar, os olhos fixos em um Namjoon que também estava tentando se recuperar. Não havia muito o que eu podia fazer a não ser sentar e esperar que Namjoon fizesse alguma coisa com relação àquele garoto, que parecia ter desmaiado de qualquer jeito no sofá. E não me surpreendi nem um pouco quando a sua primeira reação foi pegar o telefone celular e ligar para Hoseok, que saiu às pressas de sua casa para ver com os próprios olhos o estado em que seu primo de encontrava. E, também, confirmando nossas teorias sobre conexão.

Apenas não esperava que, junto com Hoseok, fôssemos receber as visitas de Kim Taehyung e do misterioso Jimin, o mesmo Jimin que se transformou de uma criatura disforme diante de nossos olhos.

Eu nada disse, assim como Namjoon, que tentava disfarçar a presença de mais dois espíritos dentro de casa enquanto tentava explicar toda a situação para um Hoseok que já se encontrava aos prantos, acariciando os fios pretos de um Jungkook que ressonava sobre o sofá da casa. Ao seu lado, e não muito diferente, estava um Jimin que tentava a todo custo segurar sobre a mão calejada do Jeon, sem muito sucesso.

Sabia que precisávamos de informações e entender melhor o que estava acontecendo com aquele rapaz, mas não seria Namjoon a descobrir aquilo. Desta forma acabei me aproximando de Taehyung, questionando-o.

— Eu ainda não entendo bem o que está acontecendo, hyung. — Taehyung me respondeu com um suspiro pesado, provavelmente detestando ver o seu amado naquele estado. — Antes de morrer, Hoseok me dizia que Jungkook estava com muitos problemas financeiros... Mas ele nunca me deu um posicionamento certo sobre isso.

Problemas financeiros? Aquilo poderia justificar o seu estado atual, por exemplo. Talvez, por desespero, Jungkook tenha feito um empréstimo com as pessoas erradas, que estavam agora cobrando sua dívida... Isso fazia muito sentido em minha cabeça, mas aquela frase ainda continuava nítida em minha mente.

São os vivos que pagam as dívidas dos mortos. Apenas isso não se encaixava em toda aquela história.

— Isso é minha culpa... Jungkook está assim por minha causa!

A voz sôfrega de Jimin se fez presente, alta e embargada pela crise de choro que o tomava naquele momento. O rapaz sequer conseguia se manter em pé direito, e foi Taehyung quem se aproximou para ajudá-lo.

Isso aguçou a minha curiosidade, e não pensei duas vezes antes de guiar aqueles dois para um outro cômodo, permitindo assim que Namjoon tivesse a sua privacidade com Hoseok enquanto tentava desvendar os mistérios que cercavam o tal Jeon Jungkook. Não foi preciso muito para fazê-lo falar, e no momento em que nos sentamos sobre a cama do quarto de Namjoon, Jimin começou a falar.

Park Jimin e Jeon Jungkook haviam se conhecido quando ainda eram adolescentes, morando no distrito de Gangseo em Busan, região praiana da Coréia do Sul. Estudavam no mesmo colégio e se tornaram colegas de classe quando Jimin reprovou em matemática, e logo se identificaram um com o outro e desenvolveram uma forte amizade. Jimin vinha de uma família protestante tradicional que honrava os valores da família, e era criado com os mesmos princípios de seus pais. Enquanto Jungkook fora criado por uma família mais liberal e que o permitia viver da forma que mais gostava. Ao contrário de Jimin, o Jeon frequentava as festas que seus colegas promoviam, saía com os amigos aos finais de semana e tinha mais liberdade para tomar as suas próprias decisões. Por mais que respeitasse seus pais, Jimin sempre achou sua rotina entediante e monótona, e talvez fosse justamente por isso que se sentiu tão atraído pelo mais novo.

Não demorou muito tempo para que Jimin descobrisse seus sentimentos por Jungkook, e ao descobrir que seus sentimentos eram recíprocos, resolveram começar um relacionamento às escondidas, temendo qual seria a reação da família Park ao descobrir que seu filho estava se relacionando com outro homem. E apesar dos problemas, estavam conseguindo evoluir bem em sua relação.

Foi apenas no último ano da escola que o relacionamento sofreu sua primeira tensão, quando os pais de Jimin descobriram de seu relacionamento homoafetivo por meio de uma foto postada em uma rede social. Era uma festa, onde Jimin aparecia segurando um copo de cerveja e trocava beijos com Jungkook. Aquilo foi o suficiente para que a família Park intimasse Jimin a pôr um fim em seu relacionamento, e quando este decidiu permanecer ao lado do Jeon, precisou arrumar suas coisas as pressas e procurar por um abrigo na casa de seu namorado.

Foi durante o último semestre que Jimin começou a alimentar o seu primeiro vício: álcool. O trauma de ter sido expulso de casa por seus pais por insistir em um relacionamento com Jungkook havia mexido consigo, e conseguia enxergar como isso ainda o afetava pela forma como as lágrimas desciam pelo seu rosto bonito durante o seu discurso. E imaginava como deveria ser doloroso receber ódio das únicas pessoas que deveriam te amar incondicionalmente. Suas notas haviam sido afetadas pelo seu vício em álcool, e sua válvula de escape da realidade havia cobrado um preço: O sonho de estudar em uma boa universidade em Seoul. Com a sua média curricular caindo drasticamente, Jimin precisaria se contentar com uma vida simples de agora em diante.

Seu alcoolismo também afetou a Jungkook, que preocupado, abria mão de seus estudos para cuidar dos enjôos e ressacas de Jimin, prejudicando também sua até então impecável trajetória curricular. Foi durante esse período que Jungkook passou a entrar em contato com uma pessoa que sempre lhe apoiava em momentos difíceis como aquele: Seu primo mais velho, Jung Hoseok, que havia se mudado recentemente para Seoul e agora morava em uma república enquanto não conseguia emprego.

Fora Hoseok quem deu a ideia de se mudarem para Seoul quando encontrou uma clínica para tratar o alcoolismo de Jimin, e apesar da relutância inicial, o Park acabou cedendo ao ser encorajado pela família Jeon, que custeou a viagem e os primeiros meses de aluguel de um apartamento pequeno que passaram a dividir na capital. Com a reaproximação familiar e o novo emprego de Hoseok como vendedor em uma loja de roupas, Jungkook se sentiu confiante o suficiente para arrumar um emprego e assim se tornar o provedor da casa, pelo menos enquanto Jimin se recuperava na clínica. O Jeon sempre gostou de esportes, e fora como consultor em uma loja de esportes que começou a trabalhar até ser encontrado por um homem que havia acabado de abrir uma academia e estava procurando por instrutores. E após discutirem sobre o salário, Jungkook não pensou duas vezes antes de aceitar a proposta que lhe daria um pouco de estabilidade financeira naqueles tempos tão difíceis.

Viveram um momento de paz por alguns meses. Jimin parecia estar melhorando conforme avançava em seu tratamento e aos poucos voltava a ser o mesmo de antigamente, Jungkook estava começando a planejar e estruturar o seu próprio negócio e, caso Jimin conseguisse um emprego, em pouco tempo conseguiriam entrar com um financiamento para comprar um apartamento maior. Entretanto, ambos se viram mergulhando no turbilhão dos vícios de Jimin mais uma vez após uma calorosa discussão com os pais de Jimin por telefone. O Park voltou a beber, por horas e horas ao longo dos dias, abandonando completamente a clínica de reabilitação.

Enquanto Jungkook trabalhava para sustentar a pequena família que tentavam formar, Jimin se afundava em seus vícios. A maconha havia se tornado parte de sua rotina autodestrutiva, e aos poucos foi passando para drogas mais pesadas e que aumentavam ainda mais a sua dependência. O pior período que viveram em seu relacionamento foi quando o Park estava usando heroína, usando o dinheiro das despesas familiares para alimentar o seu vício.

Foi neste mesmo período que as simples discussões, que já faziam parte do dia a dia do casal, se transformaram em brigas sérias. Jimin usava o dinheiro da poupança de Jungkook para comprar drogas, que o tornaram violento com o passar dos meses. Havia perdido as contas das vezes em que agrediu Jungkook no auge de sua loucura, deixando o mais novo com manchas roxas no dia seguinte, e também perdera as contas das vezes em que o ofendia e o humilhava. Passou a culpar Jungkook pela sua condição, em sua cabeça o mais novo deveria suportar tudo aquilo pois era por sua culpa que havia se tornado um viciado daquele nível.

Frases como "Quem iria querer namorar um homem imprestável como você, além de mim?", "Minha vida teria sido muito melhor se não fosse por você." e "Deveria estar feliz por ter um homem em casa que te faz ser útil em alguma coisa." haviam se tornado parte do vocabulário diário de Jimin. E aquilo mexia com a autoestima de Jungkook, que cada vez mais se sentia mais preso dentro daquele relacionamento tóxico. A cada dia que se passava, acreditava que aquelas palavras de Jimin eram a verdade absoluta, e o medo de se afastar daquele homem fez com que insistisse naquela relação.

Logo em seguida veio o ciúmes fora do normal de Jimin, que controlava os horários que Jungkook deveria sair e chegar em casa. Fez com que Jungkook se afastasse de Hoseok quando descobriu seu relacionamento com Taehyung, principalmente quando seu primo lhe enviou uma mensagem, dizendo que precisava denunciar Jimin pelo o que estava fazendo.

Para si, aquela havia sido a gota d'água que o fez perder o controle como nunca antes o havia feito. Bateu e gritou tanto com Jungkook naquele dia que seus vizinhos acabaram acionando a polícia, prendendo Jimin por agressão. No entanto, fora solto dias depois por Jungkook se recusar a prestar queixa contra o companheiro.

Pouco depois de ser solto, Jimin passou a limitar o uso de Jungkook ao telefone. Na lista de contatos havia apenas o seu número, seu celular era monitorado todos os dias e sempre que encontrava um número desconhecido em seus registros telefônicos Jimin o agredia. Até mesmo obrigou Jungkook a cortar as relações que tinha com os seus pais e entregar a ele seus cartões de crédito e débito, era mais fácil para comprar drogas dessa forma.

Havia dias em que Jungkook sequer conseguia ir trabalhar, ou por vergonha das marcas roxas que Jimin deixava em si, ou simplesmente porque Jimin não o permitia sair. Quando suas faltas se tornaram mais frequentes, Jungkook foi demitido. E em um período em que estavam completamente sem dinheiro pelos gastos abusivos de Jimin com os traficantes de Seoul.

As contas não paravam de chegar. O aluguel estava atrasado, as contas básicas também e agora estavam recebendo cobranças ameaçadoras por telefone e presencialmente das dívidas com traficantes de drogas que Jimin havia feito no período em que estava sem trabalhar. E Jungkook não conseguia outro emprego simplesmente porque Jimin não o deixava sair de casa sem a sua permissão, o que obrigada Jimin a recorrer aos agiotas, acumulando mais dívidas. Por vezes saía, deixando Jungkook completamente trancado dentro de casa e voltando de madrugada após passar o dia usando drogas, completamente desequilibrado, violento e... Sedento por sexo.

Onde na maioria das vezes forçava Jungkook a satisfazê-lo na base da violência.

Estava difícil para mim ouvir toda aquela história sem esboçar qualquer tipo de reação, e foi quando fechei os olhos e desviei o rosto para o outro lado, completamente em choque com o que estava ouvindo. Taehyung parecia tão chocado quanto eu, com os seus olhos arregalados na direção de Jimin, que continuou com o seu discurso.

Foi em um fim de tarde outonal que tudo aconteceu, após mais uma calorosa discussão agressiva com Jungkook. Jimin havia abusado do uso de heroína naquele dia, sentindo-se desorientado e com dificuldade em respirar, e acabou caindo no chão do banheiro ao ter um desmaio. Fora encontrado por Jungkook, que ligou para a emergência ao constatar que estava tendo uma overdose.

Jimin acabou falecendo antes mesmo de chegar ao hospital, acordando em um lugar completamente estranho. Sujo e escuro, identificou o lugar como sendo um beco imundo. Ao seu lado haviam criaturas horrendas que reviravam o lixo e se arrastavam no chão, completamente disformes e que resmungavam de forma grotesca. Algumas pareciam estar em posição de ataque, como se estivessem esperando o momento certo para avançar em alguém ou em alguma coisa. E se assustou um pouco ao presenciar o ato, uma dessas criaturas havia avançado direto para as costas de uma pessoa que caminhava do lado de fora daquele beco, agarrando-se a ela.

Em um primeiro momento não entendeu o que aquilo significava e passou os próximos dias tentando entender o por que de não conseguir andar corretamente, arrastando-se pelo chão como uma daquelas criaturas. Com os dias que se seguiram, começou a se sentir cada vez pior, principalmente agora que estava com a mente limpa e clara, e as lembranças do que havia feito com Jungkook durante o tempo em que estiveram juntos voltavam nítidas em sua mente... Juntamente com o remorso e a culpa de sujeitar a pessoa que até então amava a uma vida miserável como aquela...

Lembrando-se com a mente limpa, sequer era capaz de se reconhecer, muito menos de acreditar em como havia mudado tanto àquele ponto. A depressão o assolava como nunca antes, e sequer podia desejar morrer, pois já sabia que estava morto e fadado a carregar aquela culpa pelo restante da eternidade, pensava. Se ao menos tivesse uma forma de amenizar todos aqueles sentimentos ruins, pelo menos um pouco...

Foi pensando nisso que Jimin começou a observar as criaturas que dividiam aquele espaço consigo. Todas pareciam sofrer tanto quanto ele estava sofrendo, e em um momento de loucura, talvez, elas se lançavam contra a primeira pessoa que viam... Estaria ali a sua válvula de escape para sair daquela realidade?

E então resolveu tentar. Não queria sentir aquelas coisas, não queria continuar se sentindo o monstro que realmente era, e foi com esses pensamentos que Jimin se lançou contra a primeira pessoa que passou naquele beco, agarrando-se à ela. Era uma sensação nova para Jimin... Como se o seu corpo automaticamente conseguisse absorver o que quer que fosse que aquele desconhecido estava emanando, mas que o fazia esquecer pelo menos um pouco das atrocidades que havia feito Jungkook passar.

Apenas no dia em que Taehyung e eu o arrancamos dali, que Jimin percebeu que estava agarrado à Jung Hoseok.

Tanto eu como Taehyung estávamos completamente em choque com tudo o que nos foi dito. Até mesmo me sentia enjoado com o peso daquela informação, coisa que eu não sentia desde as falhas tentativas de sair de casa. Era difícil de acreditar em todo aquele histórico de abuso de drogas e violência doméstica vindo de uma pessoa como Jimin.

— Você... Estava usando o Hobi para não se sentir mal?! — Taehyung exclamou, até mesmo sentindo os olhos marejados. — Você quase fez o amor da minha vida cometer suicídio por puro egoísmo!

— Eu sei... Taehyung, eu sinto mui-

Jimin foi interrompido, e não foi por Taehyung. Simplesmente não consegui conter a grande raiva e desprezo por aquela pessoa, desferindo um forte tapa em seu rosto, virando-o para o outro lado. Ignorei completamente o olhar surpreso que Taehyung me lançou.

— Cale a boca. — Disse à Jimin em um tom frio, controlando o meu tom de voz para não chamar a atenção de Namjoon na sala. Já estava em pé há algum tempo, encarando o seu rosto molhado em lágrimas.

Muitas coisas estavam vindo à tona em minha mente naquele momento, principalmente a história de Taehyung, que cresceu em um ambiente agressivo com o seu pai abusivo e morreu nas mãos de seu agente. Como podiam existir pessoas assim naquele mundo? Como podiam existir pessoas capazes de tanta maldade, de fazer tanto mal a uma pessoa por puro prazer...?

Foi quando eu segurei Jimin pela gola de sua camisa, levantando-o de onde estava.

— Você tem ideia do estado em que encontramos Jungkook na rua? — Esbravejei ao outro, que desviava o seu olhar do meu. — Olhe para mim quando estiver falando com você!

Certamente Taehyung nunca tinha me visto tão furioso como estava naquele momento, e em dias normais eu provavelmente também me assustaria com o meu estado.

— Aceite o fato que você mesmo estragou a sua vida! Seu... Seu moleque, covarde! — E em um impulso, lancei o corpo de Jimin de volta à cama de Namjoon. O rapaz soluçava alto, cobrindo o rosto com os braços.

Ao voltar os olhos para Taehyung também pude ver algumas lágrimas descendo pelos seus olhos, e não consegui conter a vontade de abraçá-lo, para pelo menos consolá-lo um pouco naquele momento tão difícil. Sequer conseguia imaginar como estava se sentindo, agora que sabia o real motivo de Jimin estar preso à Hoseok.

E não era apenas esse o problema. Provavelmente os homens que estavam agredindo Jungkook naquele beco escuro ou eram os traficantes de drogas, ou os agiotas, cobrando a dívida que fora deixada por Jimin ao morrer. Agora tudo fazia sentido na minha mente... São os vivos que pagam as dívidas dos mortos... Estavam perseguindo Jungkook, e sabe-se lá do que eles seriam capazes de fazer com o pobre rapaz...

— Jungkook pode morrer por sua causa, seu irresponsável... — Comentei, ainda fuzilando Jimin com os olhos. — Você precisa aprender a encarar os seus problemas de frente e assumir os seus erros. O único culpado de ter estragado a sua vida foi você mesmo!

— Eu sei disso! — Jimin esbravejou contra mim, com a voz alterada em um tom gutural.

Por reflexo, Taehyung e eu nos afastamos ao percebemos como o corpo de Jimin de repente começou a se deformar novamente. Ver aquilo acontecer diante de nossos olhos mais uma vez era assustador.

— Eu sei que tudo foi culpa minha! Que eu sou um merda! Um lixo de pessoa... — Continuou, enquanto seu corpo assumia formas estranhas até voltar a sua fisionomia normal. — Eu... Eu sei que fui um monstro com Jungkook... E eu não sei como consertar as coisas... Eu nem sei se posso!

Ouvir aquelas palavras me fizeram parar por um momento para refletir, principalmente ao encarar o rosto inchado, a beira do desespero, expressando ali toda a dor da culpa de ter feito o seu amado sofrer por tanto tempo.

Até me sentia um pouco hipócrita por dizer aquelas palavras ao mais novo, afinal, tudo o que fiz a minha vida inteira foi fugir dos meus próprios problemas e nunca encará-los de frente de fato.

Foi quando Taehyung e eu nos olhamos. Não fazia ideia do que estava se passando na cabeça do meu amigo naquele momento, mas algo dentro de mim praticamente gritava para que não déssemos as costas a Jimin nesse momento.

Mas isso não me deixava tranquilo. Saber que Jungkook estava sendo perseguido por aquelas pessoas perigosas me deixava ansioso e com um sabor amargo na boca. E quando normalmente ficava assim, significava que algo de muito ruim ainda estava por vir.

E não fazia ideia se estava preparado o suficiente para passar pelo o que quer que viesse a acontecer.

Notas finais
Esse foi um capítulo realmente pesado, e nas notas finais, venho deixar uma mensagem de apoio a todas as pessoas que já passaram ou ainda passam por um relacionamento abusivo ou sofrem agressões domésticas. Estamos passando por momentos difíceis e que está nos obrigando a passar mais tempo em casa, e infelizmente, nem todos os lares podem de fato ser considerados um lar. Vocês que estiverem passando por uma situação difícil em casa, por favor, não se calem e esperem até que seja tarde demais. Agressões, verbais e físicas não fazem parte de um bom relacionamento. Falem com os seus amigos, acionem a polícia, entrem em contato com os órgãos contra a agressão doméstica. Procure pelos telefones e contatos úteis em caso de emergência do seu estado. Comentários?