The People We Used To Be

1 If happy ever after did exist


Notas iniciais
Admito que boa parte da One shot eu escrevi direcionada a mim mesma...

Um chute, um soco, o saco se revirava, volta e meia levando sua deliciosa vingança com um corte na pele já machucada. O suor descia o rosto, a música soava no ouvido. Os fones às vezes caíam, por isso ela estava de headset, tendo em vista que amarrar cabelos era desnecessário. Alguém observava através de um vidro fino na sala onde ela estava. Tinha olhos muito inexpressivos para poder ler algo neles. Talvez seja a convivência, a mudança, o modo como ela deveria ser alguém digno do gênero feminino. O que ela fazia? Ela nem se quer gostava de garotos, ou garotas, ou de cachorros. Tudo que ela parecia se divertir era em frente a uma biblioteca nas manhãs de domingos ou chutando e socando um saco de pancada.

Como poderia decifrá-la? Uma insana? Um anomia? Algo relativamente estranho, alienado? O que ela era? Nem se quer ela conseguia dizer, ele apostava. Não havia categoria plausível para ela, nenhuma delas lhe agradava, todas a deixava com um gosto ruim na boca e um estômago vazio revirando-se com os exemplos. Teria sentado com ela algum dia em frente a uma mesa redonda branquinha em alguma cafeteria da cidade, tentando seduzi-la uma deliciosa boa conversa sobre ela mesma com um copo de café –o qual ela era apaixonada.

Estava errado? Ela deu um forte chute semi lateral, o pesado saco pendeu para a esquerda, então voltou, ela segurava a respiração, soando alto o suficiente junto de seus gritos poucos audíveis para ela mesma por causa dos fones. Era uma vantagem. Concentrada na música e em seu inimigo ela não teria atenção para observar o espaço ao seu redor, e consequentemente os olhos azuis tão calculosos.

Que algum dia Deus invente uma palavra para te decifrar.

Sabia muito bem que um dia ela iria acabar tomando jeito. Estaria com alguém, talvez grávida, talvez deixasse o cabelo crescer, faria uma franja delicada, vestiria vestidos longos, compraria livros de receitas a livros de guerra, história, terror/suspense ou bibliografias idiotas. Ele suspirou, teria que sair logo, seu treino acabaria as dez e não teria uma resposta se ela lhe perguntasse o que estava fazendo.

Saiu da academia enquanto continuava a pensar.

Definitivamente ela era estranha. Era alguém que gregos poderiam chamar de bárbaros, que cientistas poderiam se comunicar com matemática. Ela era de outro mundo. Sem igual.

Mas todos são sem iguais, não? Ele apenas não poderia adentrar na mente dela para descobrir o que ela pensa; o que ela faz; o que ela pretende; quais são seus objetivos e se ela realmente tem algo haver com Amor.

Ah, Amor.

Que desperdício de boa pele, de boa menina, de inteligência. O que ela queria da vida? Tinha 25 anos e nunca havia dito que saiu com um cara, garota, tanto faz. Praticamente morava sozinha, com quinze gatos e toneladas de café em pó nos armários, uma biblioteca própria, um belo jardim interno o qual ela parecia implorar por tempo para cuidar das belas flores, embora não fosse fã de flores.

Se ele fosse a convidar para sair, o que ela gostaria de receber? A coleção completa daquele livro caro que ela namorava desde o inicio do ano? Talvez um copo quente de café nas noites de inverno e neve. Talvez aquele equipamento prático, uma mochila para suas luvas e uniforme. Ela não gostava de flores (mas gostava de cultivá-las), nem coisas delicadas, e também pouco se importava com presentes. Nem sempre as pessoas acertavam seu gosto, e na maioria das vezes aquilo passava despercebido e ela simplesmente guardava aquela blusa rosa de renda dentro do armário, esperando o tempo para doá-la a alguém.

Era praticamente uma anti-social. Não falava, dificilmente dava suas opiniões, mas quando as mostrava, arrancava suspiros de desconforto, dúvidas, perguntas e às vezes um sorriso bobo de “Ela parece fazer tudo criar sentido.” Ela tinha o nexo em sua mão, e botava em qualquer coisa, mostrando seus lados, observando seus prós e contras, suas soluções. Mas mesmo assim, odiava a política. Odiava liderança. Odiava ter responsabilidades, embora favores fossem bem vindos. E mesmo os favores para ela às vezes eram irritantes. Ele apostava sua casa que quando ela suspirava em frente a uma pergunta idiota, ou a uma sentença idiota, uma opinião idiota de uma mente fechada, deficiente, estúpida, ela na verdade queria é gritar “Eu não aguento você, e quero mais que você sofra um acidente e morra.”

Os olhos dela praticamente diziam isso, e ai daquele que conseguiam arrancar irritação e ódio dela.

Não pelos golpes, nem pela tática, nem pelos anos de treinamento e dos músculos que recheavam seus braços. Tinha uma boa personalidade, um bom modo de ver as coisas, e dificilmente ela soltava algo que não queria. Sua vida era excluir tudo que era estupido de si e apenas guardar as coisas boas. Ela era a contra, era aquela que inovava com ideias absurdas, mas mesmo assim gostava de usar aquele All Star velho, com mais de seis anos, remendado e pintado diversas vezes.

O que, no mundo, definiria ela?

Nas sextas a noite ela passava a noite navegando na internet, lendo artigos, jogando jogos idiotas, suspirando, bebendo café ou caindo de sono no sofá da sala. De manhã cedo, ela fazia uma faxina inteira na casa, deixava brilhante, quieta, apenas com seu fone de ouvido, desta vez sem fazer barulho se comparado com a força que expelia em gritos ao atingir seu alvo.

Fazia algo para comer (geralmente algo industrial, pois embora tentasse, nunca conseguiria se dar bem com a culinária), bebia um pouco de café, leria algum livro no quintal embaixo de uma árvore nos dias mais frios, ou com o sol batendo suas pernas na varanda lateral enquanto se balançava numa cadeira de balanço de seu avô.

Família. Ela nunca havia dito nada sobre ela. Mas no fundo sentia orgulho. Isso ninguém poderia duvidar, era quase que óbvio. Se ela tivesse nascido em uma família de boa renda, ele teria certeza que alguma parte ela iria odiar. Quebraria presentes quando recebidos, lutaria para trabalhar sozinha, pagar suas coisas, comprar suas coisas, escolher o que quer e o que não quer. Mas por sorte, era filha de pobres comerciantes, embora batalhadores dia a após dias.

Ela sentia raiva, muita raiva. Era um pouco hipócrita, ela quase confundia aquilo com inveja, mas ela sabia muito bem que não era. Conhecia seu interior para saber que não era daquilo que se tratava, mas desconhecia sua raiva, tornando-se muitas vezes preconceituosa sobre algo ou alguém. Era muito mais fácil para ela identificar alguém que recebe uma elevada mesada no começo do mês. Ou quem ganha um vestido caríssimo, daquela grife estúpida que ela havia visto naquele shopping desconfortável, apenas por que tirou a nota 10 em uma prova de Geografia.

Como se ela ganhasse algo por todos os favores, todos os elogios, todas as notas.

Seus pais pouco dinheiro tinham, pouco tempo, quase todo dia passavam poucas horas em contato com ela. Nas manhãs ela estudava, era um exemplo, sempre quieta, com dor, com ódio das garotas e garotos que via ao seu redor. Nas tardes trabalhava. Quando chegava cansada em casa, sua mãe vinha lhe importunar para que parasse com aquilo, era nova de mais para essas coisas, e ninguém merecia o talento que ela tinha pelo pouco que lhe pagavam. Alguns a perguntavam “Você quer continuar a trabalhar?” ...ela respondia. “Eu só não quero ganhar dinheiro dos meus pais.”

Apenas 13 anos de idade, ela tinha responsabilidades e sua estante crescia com livros ‘roubados’. Ela sabia muito bem que talvez ela estivesse acabando com sua infância. Mas isso era muito manipulável, observando do fato que a infância para os outros era algo como viagens, aquele jogo incrível, aquela boneca cara, aquela visita ao amigo de infância, as brincadeiras de fim de tarde. Seu álbum de fotos comprovava que sua felicidade era andar, aos três anos de idade, com uma grande caixa de leite na careca pouco recheada de cabelos.

Mesmo assim, o que ela era? Uma mulher? Um homem? Uma andrógena?

Não, ela era bonita, tinha um corpo feminino (apesar dos músculos), e ainda tinha uma doce voz que podia ser grossa quando irritada e doce quando tinha dó de algum amigo próximo. As vezes gostava de usar camisolas, as vezes gostava de um pouco de carinho (que ganhava conversando consigo mesmo). Ele realmente não entendia. Ao mesmo tempo em que usava uma calcinha, ela parecia comprar camisas apenas em lojas masculinas. Ela alegava que eram muito mais bonitas que “aqueles pedaços de pano que você enrola em si mesma na esperança que tape seus seios”. Era interessante como ela parecia ter dois lados totalmente diferentes, que ela parecia prestar atenção a cada dia, escolhendo como seria.

As vezes sorria, as vezes procurava o lugar mais silencioso e deserto para derramar suas lágrimas.

Era cada vez mais raro, mas quando acontecia, ela parecia desabar em um mundo destruidor. Chorava horas, amaldiçoava-se, mas no dia seguinte acordava com um lindo raio de sol batendo em sua parede branca, com a sensação de que poderia dormir muito mais naquele sábado preguiçoso. Sua infância era heroica e fraca. Ela chorava por tudo, lamentava-se, cobrava-se, sentia raiva das meninas melhores que ela, as vezes duvidava, tentava parar de roer unhas, pintá-las, mantê-las bonitas, aí então ela se encaixaria no grupo denominado “gênero feminino.”

Aos poucos ela começou a se perguntar. “É necessário ter unhas compridas? Eu tenho que ter cabelo comprido? Por que as meninas são obrigadas a usar saltos altos e manterem-se bonitas o tempo inteiro?” Ela começava a tentar descobrir o que ela era. Mas quando lhe perguntavam, ela calava a boca, numa extensa e torturosa meditação, tentando formular uma palavra.

Acabava sem respostas.

Passou as horas, ele parou em frente ao computador, lendo algum artigo idiota sobre obesidade infantil. Estava cansado, mas a caneca de café ao seu lado lembrava ela. Apaixonado? Não. Nem pensar. Nunca teria chances. Ela odiava qualquer forma de romance que a envolvia. Mas adorava escrever contos, observar casais plausíveis, brincadeiras a dois. Ela já havia lhe perguntado. “Por que as pessoas conseguem encontrar seu príncipe encantado tão fácil? Qual é a formula de felicidade delas?”

Ele ficava quieto, deixando que ela mesma respondesse.

“Talvez eu não seja uma princesa, então não há príncipes pra mim. Uma Merida.”

Seu cabelo cortado em casa, seu rosto delicado contrastando seu corpo musculoso, embora ainda magro e sensível quando fora tocado por um abraço inesperado. O que ela era?

Ele observou pela ultima vez o café frio. Fechou os olhos, suspirou. Logo seu despertador apitaria as seis horas da manhã. Ela estaria acordando para uma manhã de treino. Teria que encontra-la, convidá-la para almoçar em algum lugar confortável. Nada caro, nada ‘fresco’ como um restaurante de especiarias. Fast-food? Talvez, se ela não olhasse para o gorduroso hamburger e dissesse “Isso entope meu coração de porcaria.” Tão hipócrita, enquanto pensa em tomar um Cup Noodles nas noites de sexta feira.

Quando ela saía, estava mais energizada do que cansada. Tinha gritado, chutado, treinado seus golpes com seu mestre e segurava seu uniforme dentro da bolsa negra. Tinha dado tchau para a atendente, saía apressada. Ele agarrou sua mão.

-Espere!

- ... Bom dia...

Ela pareceu muito impressionada.

- Eu não sabia que acordava tão cedo...

- Eu não dormi... – Ele sorriu, agradecendo pela ironia cômica que ela tinha de natureza.

- ...Faz mal para a saúde.

- Você fica as sextas feiras inteiras na internet.

Ela ficou quieta. Engoliu em seco.

- São trabalhos.

- É, o meu também. Eu queria lhe perguntar uma coisa muito profunda, difícil, complicada. Mas teria de ser num lugar confortável. Tem alguma sugestão?

- Veja... eu... me desculpe. Bem, você sabe o que eu sou.

Na verdade não.

- Eu não sei se essa tentativa estaria dando certo.

- Vamos lá, eu sei que você odeia romance, e eu nem estou apaixonado ou algo assim. É apenas uma pergunta.

- Que tipo de pergunta?

- Aceita um sorvete, eu lhe responderei lá.

Sorvetes... O único traço feminino que havia impregnado em sua personalidade. Ela adorava sorvetes. O tempo passou, marcaram a noite numa sorveteria pequena no centro da cidade, próxima a um pub e longe o suficiente de algo tumultuoso.

- Então...

Ela vestia algo simples, como uma calça jeans, uma bota e uma regata cinza. Embora seu cabelo fosse tão curto, ela sempre aparentava um ar delicado.

- Que pergunta é essa?

Ele terminou de comer sua taça. A mesa parecia longe o suficiente e ele se sentia confortável por ela não pensar que apenas queria uma chance para não passar frio naquela noite de inverno.

- Eu sei que somos amigos desde sua infância e eu praticamente a vi crescer. Pode parecer estranho.

- Pare, se vai se declarar pra mim—

- Não vou! Não irei, quer tirar isso da sua cabeça?! Você tem tanto medo assim? Se preocupa tanto!

- É claro, por que se eu disser um sim e falsear minha força, acabo grávida, sozinha, com um filho para criar e algum idiota sentado no sofá com um copo de cerveja. Então definitivamente eu me preocupo muito.

- Por que você tem essa visão?

- Por que eu sou independente. – Ela tomou um pouco mais de seu milk-shake.

- Independente? Estar junto de alguém é tão ruim assim?

- Estar junto não é. Estou junta de você agora, esta sendo muito divertido ver como você não me entende. – check mate. – agora, se quiser que eu bote uma aliança em meu dedo algum dia, ela vai cair no ralo da cozinha acidentalmente dois dias depois.

- ... Você não é de promessas, não?

- Não vivo em cativeiro.

Ele suspirou, soltou um sorriso ao fim, quase gargalhando. Ela parecia fofa tomando seu milk shake e franzindo seu cenho com uma aparente irritação inicial. Ela estaria ignorando ele pelas semanas se ele falasse de religião, tradição, machismo ou romance. Então ele teve a certeza de passar bem longe desses tópicos, a fim de deixar seu nariz no lugar.

- Então, que pergunta é essa?

Ele levantou o rosto.

- Eu venho a observando de um tempo para cá.

- Sim?

- Eu queria lhe perguntar. O que é você?

Ela parou de beber o milk-shake, pareceu petrificar com os olhos. Apenas remexeu seus dedos da mão esquerda. Parecia pensar. “É difícil, não?” Sua interior lhe sussurrava ao ouvido, amaldiçoando-a com todas as perguntas, as dúvidas, os fatos, as memórias que traçavam seu passado, sua vida, seu ‘eu’. Demorou alguns segundos, mas ele entendia que não era urgente, e queria algo detalhado e claro o suficiente para saciar aquilo tudo que surgia em sua mente. A mulher levantou os olhos femininos, apertou os punhos másculos, deixou o Milk shake e o homem que pagaria sua conta sozinhos, e saiu sem dizer uma palavra. Quieta, como sempre.

- Ok, a resposta é “Cale a boca.”

(...)

Sentou sobre o edredom azul escuro. Deixou apenas a lâmpada do abajur ligada. Havia saído de um longo e quente banho, estava com o notebook sobre a mesa, em estado de espera, esperando um milagre para que ela sentisse algum interesse em navega-lo. Ela havia passado as duas últimas semanas sem conversar com ele, e evitava olhá-lo para que a pergunta não surgisse novamente. Toda a responsabilidade, toda sua cobrança em cima de si mesmo. As vezes ela o corrigia. “Não é o que eu sou, mas sim o que eu deveria ser.”

Abraçou suas pernas. Havia um corte que tinha feito no treinamento ao ar livre na semana passada. Seu mestre deu pouca importância, ela nem se quer havia sentido. Tinha um curativo mal feito sobre eles, embora ela julgasse desnecessário, não queria que aquilo virasse uma ferida infeccionada, ou que a incomodasse enquanto se ajeitava para dormir. No centro da cama, ela resolveu meditar. Não para encontrar respostas, mas para conhecer perguntas.

E elas vinham cada vez mais. Curiosas, criativas, do fundinho de sua mente insaciável de informação e intelectualidade. As vezes se desconcentrava, pensava naquele político que merecia uma bela porrada na cara. Ou naquele irritante comercial idiota, fútil, besta, de televisão. Toda a sua vida veio para fora, como um vulcão em erupção. O material doloroso, o material quente, a fumaça dos pensamentos tão tóxica quanto enxofre. Ela abriu os olhos, suspirou. Achou a bendita resposta quando tudo aquilo acalmou-se e, como num filme, sua vida passou diante de seus olhos.

Ela nem estava morrendo.

A resposta que veio, um dia depois, quando ela correu em direção a ele fora rápida, sem nexo, pouco explicativa, mas que pareceu ter iluminado toda sua vida. Não a deixado melhor nem pior. Esclarecido seus problemas, seus defeitos, seus preconceitos quanto as meninas idiotas, a sociedade hipócrita, aos infiéis, aos mentirosos, aos falsos.

Apenas era uma resposta que não necessitava de explicações. Ela era um ser que não merecia perguntas. Era perfeita de mais para explicar o porquê não e o porquê sim fazia certas coisas.

- Eu sou um raro tipo de mulher. Sou o tipo homem. Sou o tipo andrógeno. Sou o tipo que não tem sexo. O tipo que não se importa com um abraço verdadeiro. Sou o tipo vingativo. O tipo nostálgico. O tipo doce e amargo. Sou o tipo estranho, o tipo comum, o tipo que esconde semelhanças. Sou ela, sou ele. Sou você, sou sua mãe, seu pai, seu irmão. Sou um cantor, sou um atleta, sou um pintor anônimo, um escritor independente. Sou a flor que brota no jardim, o espinho da rosa e o veneno da aranha.

Sou eu.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!