The Paths
3 Adormecer
Notas iniciais
Não fosse pela temperatura negativa aquele dia poderia ser considerado de certa forma quente. Não havia vento para movimentar as águas, nem sequer a leve brisa que formava as causais e pequenas ondas que batiam no gelo da praia. Com os anos de paz que chegaram a cidade da água do sul pôde, finalmente, derrubar seus muros congelados, para que assim pudessem ter um contato maior com o mar. Crianças brincavam com os animais marinhos que a maré trazia enquanto suas mães os vigiavam de longe. Como fora um dos lugares menos afetados pela guerra, a harmonia pôde ser alcançada rapidamente, diferente de outras cidades e colônias.
Entre tantas jovens moças que apreciavam a alegria das crianças destacava-se uma anciã. As feições da mulher eram tão pacíficas quanto o próprio oceano, sua própria postura mostrava a de uma mulher idosa que passara por muito no decorrer de sua vida. Observava no entanto, não as crianças em si, mas sim um jovem que retorcia o corpo em direção ao mar com raiva gritando ofensas.
– Merda de oceano do norte! Esses peixes parecem não quererem ser capturados! — Exclamava o jovem — Venham a mim peixes! Vocês não podem contra o grande combatente da tribo do sul. Enfrentem seus destinos, covardes!
A cena em si era extremamente cômica. O garoto encontrava-se ao centro de uma ilhota de gelo, provavelmente criada há algum tempo se fosse analisar seu tamanho, estava encurvado em direção às águas segurando em suas mãos uma lança mal feita envergada com uma ponta afiada sem muita destreza. O tempo seria o ideal para uma pescaria paciente e silenciosa, não havia ventos que remexessem as águas ou trouxessem voz e cheiros humanos que assustassem os animais, no entanto, o jovem era incapaz de pescar sequer um único crustáceo.
– Eu acredito que se você parasse de se remexer tanto neste pedaço de gelo já começaria a ajudar, Sokka. — A voz rouca da senhora sugeriu.
Sokka olhou para trás repreendendo a idosa. Seu movimento brusco fez com que escorregasse no gelo e caísse sentado.
– Escute aqui vovó — Começou a dizer enquanto levantava desajeitado arrumando as vestes — Eu sei que você passou bastante tempo aqui no norte e já está desacostumada, mas eu quero lembrar à senhora que os homens que cuidam da pesca desde os tempos mais remotos. Não é para menos que os piratas não aceitam mulheres em seus navios.
Kanna foi obrigada a gargalhar. Adorava o lado inocente e orgulhoso de seu neto. Tanto as feições, quanto os trejeitos de Sokka sempre foram muito parecidos com os do pai e após estes últimos anos seu tipo físico ficara extremamente similar. Sokka desenvolvera ombros largos e um porte mais musculoso, apesar de sempre ter sido um garoto mais desenvolvido que os demais de sua idade.
– Ah, por favor. Me ignore daqui para frente, estou aqui como uma humilde aprendiz das artes viris da pesca — Kanna continuava com a mesma feição brincalhona desde que começara a assistir a divertida cena da pescaria de seu neto.
O jovem bufou alto para que a mulher pudesse saber de sua insatisfação. Decidiu-se por fim sair da ilhota e desistir da pescaria, não antes de quase tropeçar novamente ao bater pesadamente os pés no gelo olhando ao redor para certificar-se de que mais ninguém viu a vergonhosa cena. Usou sua lança no chão para encontrar estabilidade entre a neve, atravessando de sua ilhota para a terra firme novamente. Ao aproximar-se de sua avó, Sokka ajeitou o cabelo tentando parecer casual e repuxou a barra de sua blusa.
– Hoje o mar não está para peixe — Parafraseou Sokka em tom de ironia.
– Imagino que não — Sorriu a senhora.
Há cerca de dois meses Sokka havia abandonado as ilhas Kyoshi em busca de sua família que encontrava-se ao norte. Katara havia ido com a intenção de melhorar suas habilidades com o mestre Pakku que, finalmente, casara-se com Kanna. Entretanto o velho mestre disse a ela que não havia nada mais que pudesse ensina-la e que suas próximas técnicas deveriam ser aprendidas sozinha e desta forma tornar-se-ia a próxima mestra da dominação de água.
O relacionamento de Sokka com Suki havia evoluído muito em três anos, então nos últimos tempos a garota passou a pressioná-lo em relação ao futuro, família entre outras responsabilidades que Sokka não se imaginava pronto para assumir. Fosse fugir, fosse encontrar iluminação, qualquer uma dessas palavras que amenizasse a situação Sokka poderia utilizar para ir até o norte e passar um tempo sozinho pensando no que deveria fazer em relação à sua amada. No entanto, apesar de pretender ficar por poucos dias em torno de sua família, Sokka sentia-se reconfortado. O frio e a neve eram deveras nostálgicos e, apesar de não ser dobrador de água, ficar cercado sempre por tanta terra o deixava incômodo.
Provavelmente o norte estava passando a ser sinônimo da busca do encontro com o eu interior. Após ser rejeitada como aprendiz por Pakku, Katara se viu obrigada a treinar completamente sozinha. Apesar da jovem não mais buscar o aprimoramento das suas habilidades com intuitos de guerra, Katara precisava aprender técnicas de ataque para poder encontrar o balanço correto com a aprendizagem da cura, novamente Yin e Yang. E fora isso o que passara a fazer em seus últimos dois anos. Treinava sozinha diversas dobras de água enquanto auxiliava na cura de enfermos com as demais curandeiras.
Katara já estava no norte havia 2 anos. Apesar de não ser sua intenção, neste considerável tempo pôde alcançar o respeito dos demais membros da tribo. Nada lhe faltava quando era necessário. Diferente de sua terra natal, as casas da tribo do norte eram feitas não só como iglus. Eram perfeitas ocas de gelo cristalizado e resistente. Suas roupas eram da mais confortável pele, jamais passara frio ou fome. Tudo aquilo era muito mais do que poderia sonhar durante sua infância, o calor do coração das pessoas, a possibilidade de prestar auxilio ao próximo e paz entre as nações. Entretanto, diferente do que imaginara ela não se sentia plenamente feliz. Seu coração havia ficado incompleto ao separar-se daquele que residia nele. Dizer para Aang que o seu desejo era passar os próximos anos sozinha, enquanto ele deveria viver em clausura para alcançar a plenitude espiritual fora as palavras mais difíceis que já proferiu. Agora não só seu coração e sua mente pediam pelo jovem, mas seu corpo necessitava daquele contato que há muito não experimentava mais. Estaria ele em sintonia de pensamentos com ela? Jamais pudera nem sequer ouvir o som esganiçado de sua voz juvenil. Toda e qualquer característica que visse nas outras pessoas que a lembravam de Aang, Katara sentia-se na necessidade de se apegar e admirar como a um sonho.
Normalmente a dobradora de água passava seus dias na enfermaria da tribo. Era com toda a certeza o local menos movimentado de todo o polo norte, talvez nem sequer a tundra era tão abandonada quanto naquele pequeno espaço coberto por gelo. Apesar de solitário, a quietude a acalmava e a dava tempo para refletir sobre seus anseios sem que pudesse desconta-los nos cidadãos.
O farfalhar do tecido à porta despertou Katara de seus devaneios sobre seu passado e fê-la olhar em direção à entrada, esperando que pudesse ser útil em algo. Nos últimos dias nem sequer uma criança resfriada aparecia por lá, não era tempo de ventanias ou tempestades, então raramente alguém sequer acidentava-se.
– Olá, no que posso ser útil? — Sorriu em direção ao homem que entrava no local.
O homem trajava vestes que normalmente seriam usadas em um traiçoeiro inverno. Estava coberto dos pés a cabeça por um manto grosso de pele azul, como uma roupa tradicional da tribo. Ao sentir os olhares curiosos de Katara sobre ele o homem decidiu que seria melhor e mais respeitoso ao menos retirar o capus que cobria sua testa. Seus olhos eram de uma pessoa gentil e agradável, não eram tão azuis quanto os da jovem a sua frente, possuíam mais a coloração de neve suja. Antes que pudesse dar outro passo, o homem adiantou-se e prestou uma demorada reverência à moça que estava sentada ao fundo. Geralmente a enfermaria ficava tomada pelas mulheres curandeiras, porém, naquele momento era ocupada somente pelas duas pessoas, de certa forma ao ver do homem era mais do que cômodo.
– Queira me desculpar o intrometimento — O homem deu mais dois passos em direção a garota e sentou-se em frente a ela — Eu estou procurando a senhorita Katara. Me disseram que poderia estar por aqui. Imagino que seja você, correto?
Katara sorriu timidamente. Normalmente as pessoas ouviam falar de seus feitos antes de ir morar no norte, porém, temia sempre que não pudesse ajudar como era sempre o requerido. Todos esperavam dela que tivesse uma habilidade mais desenvolvida que as demais colegas, algo que apesar de ter tentado desenvolver, ainda não fora capaz de sequer alcançar sua mestra.
– Devo dizer que sou eu. O que posso fazer para te ajudar? — Katara perguntou mais uma vez assim como quando o homem entrou na enfermaria.
– Bom... Estou fora de casa há muitos anos e voltei somente há algumas semanas para minha casa. Saí daqui em busca de justiça na guerra, porém, meu destino me trouxe até meu lar, acredito. — A expressão do homem era calma e bondosa, jamais mostrando quaisquer mudanças de emoções — Imagine minha alegria ao ter a brilhante notícia de que a heroína da tribo do sul está em nossos cuidados! Me senti honrado e vim em busca de compartilhar um pouco de sua sabedoria.
O rubor sobre a face da garota não pôde ser contido. Sempre as pessoas a buscavam querendo suas habilidades, mas jamais fora a garota escolhida em busca de sabedoria. Talvez o único que gostava de conversar com ela sobre isso fosse Aang, o que a deixava extremamente orgulhosa de si mesma, mas um completo estranho era uma novidade questionável.
– Eu lamento, mesmo. Eu não imagino o que possa dizer ao senhor que faça alguma diferença e que não tenha aprendido em seus tempos de viagens. — Katara realmente lamentava que não pudesse ajudá-lo, mas estava extremamente confusa.
O homem apenas suspirou.
– Você não entende. Nós não ajudamos a derrotar o homem que aterrorizou as pessoas durante tantos anos. É algo completamente diferente. Gostaria que fosse minha mestra, poderia me ensinar tanto. — A ansiedade do homem crescia no decorrer que falava suas palavras.
– Você não entende. Eu estou dedicando minha vida apenas à medicina. Não há nada que eu possa ensiná-lo que você realmente queira aprender e na verdade — Continuou Katara — Já está em hora de deixar o meu posto por aqui. Tenho certeza que se você quer aprender as artes de cura a nossa mestra ficará muito satisfeita em poder ensiná-lo. Ela e as jovens da tribo se encontram aqui todas as manhãs. Agora, queira me desculpar. Preciso me retirar.
Por ter faltado tanto com a educação na presença de um completo desconhecido, Katara sentiu-se culpada. Ele viera humildemente pedir ensinamentos e ela o negara assim como Pakku fizera antes a ela. Apesar de seu tempo de aprimoramento e seu conhecimento amplo, Katara jamais deveria ser Sifu de alguém muito menos quando a tribo onde reside é completamente contra ensinamentos de mulheres. Apesar de ter conseguido mudar os pensamentos de Pakku em relação a mulheres aprenderem a dominar a dobra, uma mulher ensiná-la era uma à frente ao tempo que ela estava. Afinal, se nem sequer Aang pôde considerá-la como sua Sifu, a quem ensinaria? Não poderia ser prepotente a ponto de considerar-se mestra de algo.
A jovem passou um curto tempo em silencio antes de voltar-se ao homem a sua frente. Levantou-se para demonstrar que necessitava partir e o homem imitou-a. Ambos curvaram-se e se retiraram do local. Não foi ouvida mais uma palavra daquele dobrador misterioso e após alguns passos de distância, quando Katara lembrou-se que não havia perguntado seu nome e virou-se para pedir que se apresenta-se, ele havia sumido entre as ruelas congeladas. Não importava, a tribo não era tão grande a ponto de que ela jamais fosse o ver novamente por lá. E com certeza o destino havia programado para que se reencontrassem.
– Katara! — O grito do irmão havia chamado a atenção de todos que estavam próximos, além daquela a qual a voz direcionava-se.
Sokka havia realmente desistido de sua tarde em companhia da avó para pescar e optou em buscar a irmã para contar uma boa piada que lhe surgira enquanto estava pescando. Apesar da tribo possuir um grupo destinado a pesca e buscas para suprimento, Sokka gostava de se envolver em tudo que era relacionado a comida, ou a contar vantagem sobre os companheiros do norte. Sempre que possível, gabava-se sobre suas supostas habilidades sulistas.
– Ah, a que devo a honra de ter meu querido e bravo irmãozinho a minha procura? — O sarcasmo de Katara não era de forma alguma escondido em sua pergunta.
– Bom, saiba você que eu estava sendo útil para esta tribo. — Gabou-se em resposta — Imaginei que sem o vento teríamos uma ótima pesca para o jantar.
Katara não conseguiu segurar o riso enquanto já imaginava o resultado dos esforços do irmão.
– Onde estão os peixes do nosso jantar hoje? — Gargalhou Katara — No mar?
Sokka bufou em resposta. Sabia que a irmã diria algo para aborrecê-lo, afinal, era o mesmo que ele ia fazer com ela... Se ao menos não tivesse esquecido a boa piada que lembrara mais cedo e a contasse logo ao se aproximar da irmã poderia ter se sobressaído na discussão. De qualquer forma, já era tarde demais para lembrar dela. O jovem observou que a irmã fazia um trajeto em direção ao lado de onde ele havia estado algum tempo atrás, à costa da cidade. As casas ficavam na direção oposta, então, supôs que para ela ainda não era a hora do descanso.
– Se você vai ir tentar busca-los eu já digo! Não estamos na lua certa hoje. — Sokka tentou contornar a situação.
Katara cruzou os braços já incomodada com aquela história toda. Odiava ser constantemente questionada, ainda mais quando seu irmão decidia intrometer-se demais em seus afazeres.
– Estou certa de que sobre lua você entende — Retrucou cansada e continuou seu caminho para longe do irmão antes que ele pudesse lembrar de algo para dizer a ela.
Apesar de tentar azucrinar a irmã, Sokka sabia exatamente para onde Katara se dirigia. No ultimo mês a irmã mais nova havia descoberto uma nova habilidade de dominação de água. Bastou apenas um simples pensamento lógico por parte da garota, se dominadores de terra podiam mapear o ambiente com sua dominação enquanto os dominadores de ar podiam sentir as mais suaves mudanças na direção do vento, talvez dobradores de água pudessem desenvolver um sonar a partir de suas habilidades. Certamente que não era a técnica mais fácil a ser desenvolvida, entretanto, poderia ser extremamente recompensatória e de certa forma poderia desenvolver um laço maior entre os humanos que a executassem e a natureza, algo extremamente bom para a tribo da água.
Como tudo o que é feito, antes que refinasse a tecnica, Katara deveria aprender o básico. Em teoria o sonar consistia em nada além de ondas criadas nas águas, quanto se encontrasse com algum objeto elas refletiriam dando informações de tudo o que está em um certo perímetro. Porém, para treinar a teoria, a prática deveria ser executada com perfeição. Primeiramente a dobradora havia decidido que o ideal seria meditar e entrar em contato com o redor sem usar a dobra, isso deveria ser feito em águas calmas pois não sabia se funcionaria com a interferência das ondas naturais e maré do mar.
Ambos os polos eram locais quase inabitáveis, algo que impediu uma maior destruição pela nação do fogo, era difícil de se conseguir recursos, sendo assim, não haviam quaisquer riquezas naturais a serem exploradas. Apesar de morar em um local deserto, as tribos sempre foram capazes de sobreviver graças às escassas fontes de águas, no entanto, a maior parte dos lagos formados acabaram desaguando no oceano, o que tornava a água, em certas épocas, praticamente impotável graças à alta quantidade de sal que havia subido aos poços. Esse não era o caso daquela estação, sendo assim, Katara utilizava uma das lagoas que se localizava ao oeste para poder meditar e desenvolver sua nova dobra.
No caminho, Katara passou pela praia onde Sokka estava pescando ao lado das embarcações de peixes que desatracavam para aproveitar a lua cheia e buscar alimentos destinados à população. Nos polos, a comida não era comprada, era apenas adquiria e dividida igualmente entre todos em troca da prestação de serviços vinda de cada um para com a comunidade local. Cada um fazia sua parte, mais uma das facilidades em se viver por lá, tornava as coisas mais cômodas.
– Bem que eu gostaria de usar dinheiro para umas comodidades melhores, uma cama mais macia e menos gelo seriam perfeitos. — Suspirou consigo mesma.
A neve fofa tornava o caminhar sempre cansativo e demorado. Muitas vezes a inclinação fazia com que ao andar dois passos Katara retrocedesse um, escorregando junto com os montes de neve soltos. Era sem dúvida um alivio ver que a imensidão branca ia rareando e misturava-se com a grama queimada pelo frio. As árvores da vegetação eram igualmente queimadas e secas, era incrível que sobrevivessem tão bem àquelas condições.
– Finalmente — Ofegou.
O lago era bem discreto, usado raramente, diferente dos demais por causa de sua distância. Apesar de ser o meio da tarde, as arvores encobriam os poucos raios de sol, o que tornava o local escuro e muito mais gélido em comparação ao campo aberto. Normalmente uma pessoa consideraria entrar em águas naquela temperatura uma completa loucura, porém, não haviam muitas opções. Banhos quentes não eram alternativas úteis e consideráveis para o treinamento.
Katara suspirou pesadamente ao encarar a lagoa. Deveria desprender-se de suas dores físicas e concentrar-se somente no que havia ido fazer. Nas ultimas duas vezes que visitara o local, Katara saíra de lá com muito esforço próprio, e de Sokka, mas sabia que seria muito mais que apenas uma hipotermina que a faria desistir daquilo. Se Aang era capaz de concentrar-se a ponto de ir ao mundo dos espíritos ela, apesar de ser apenas uma humana comum, poderia ser capaz de controlar o seu corpo a ponto de focar-se apenas nas águas.
– O que eu não daria para estar no calor do reino da terra agora... — Katara comentou consigo mesma. Talvez aquele local a influenciasse muito para conversar sozinha.
Retirando o máximo de roupas possíveis, ficando apenas com finas blusas de tecido branco com grande transparência, Katara tremeu violentamente ao sentir o frio tocando em sua pele quase nua. Inspirou fechando os olhos para tentar ignorar que cada poro de seu corpo gritava pedindo que não entrasse naquela água. Sabia que era inútil resistir, era a única forma de alcançar seus objetivos. Então, em passos curtos aproximou-se da borda das águas colocando primeiramente a ponta do dedão com o objetivo de provar a si mesma o quão frio estava. "Congelante" era um bom termo a ser utilizado. Pisou na margem receosa, os primeiros momentos eram os piores mas se ficasse debatendo tanto consigo mesma perderia toda a coragem que adquirira no caminho ao local. Sendo assim, com um pulo, Katara passou das margens para uma profundidade onde seus pés não alcançavam mais o chão lamacento. Apesar de ter passado até os quinze anos sendo a moça mais alta da tribo, inclusive muito alta em comparação aos garotos, Katara havia alcançado sua maior estatura e não era capaz de crescer mais. Já aos dezoito, era uma jovem de estatura média quadris largos e músculos bem formados graças ao seu constante treinamento das posições para dobra.
Ao imergir da água, a moça buscou ar o mais desesperadamente possível, como se o frio da água perfurasse seus pulmões. Era certamente cruciante a sensação de estar ali dentro, apesar de necessário. Katara voltou nadando às margens, onde seu corpo encontrava estabilidade do chão, até chegar a um ponto onde pudesse sentar-se e permanecer com o torço para fora. Colocou-se em posição de meditação, fechando os olhos e deixando o corpo adormecer.
Fosse um delírio formado pelo frio ou fosse o efeito da meditação, o corpo de Katara foi ficando mais pesado, como se fosse afundar na terra macia coberta por musgo. O ar parecia ter sido inundado por um odor adocicado e denso como se estivesse em um enorme bule de chá. Era tudo muito confuso, difícil de diferenciar sonho de realidade. Algumas lembranças, dolorosas e adoráveis se mesclavam dentro da mente de Katara, chamando-a para adentrar ao mundo que se formava e tomava sua consciência. Em menos de dois minutos tudo acabou. Não havia mais som, frio ou lembranças. Havia apenas escuridão.
Algumas vozes aumentavam no decorrer que se aproximavam do lago.
– Podemos movê-la? — Questionou a primeira voz, direcionando-se a mais alguém que estava no local.
– Acredito que sim. Tome cuidado para que não a machuque — Respondeu a segunda.
Os indivíduos tinham seus corpos camuflados entre as sombras das árvores e eram revelados apenas pelos raios de luz que se esgueiravam pelos galhos.
– Leve as vestes dela, então. — O primeiro disse novamente — Essa garota é louca, vai morrer neste frio.
O dono da primeira voz dobrou os joelhos ao lado do corpo desacordado de Katara. O homem era de baixa estatura porém possuía um corpo gordo e robusto, forte o bastante para levantar a jovem magra que pendia os braços e cabeça enquanto era carregada rumo floresta adentro.
Ao longe, o piar de um falcão alertou alguns membros da vila. Era raro um animal daqueles sobrevoar o polo norte. O animal era originário das terras da nação do fogo e este em específico possuía um belíssimo adorno de ouro em seu pescoço grosso, o brasão da família real, trazendo consigo notícias de seu destinatário, junto com a carta de apelo à jovem que já não mais se encontrava naquele continente. Suas asas tomaram uma forma um tanto côncava, no intuito de pousar ao topo de uma das torres de gelo, na parte mais alta da cidade. Aquela construção, considerada imponente para a região, pertencia a Arnook. O líder da tribo, desde a morte de sua filha, havia se focado em procurar um herdeiro decente para liderar e organizar a nação, sendo assim, passara os últimos anos apenas cuidando de questões diplomáticas, mal havia tempo para lidar com quaisquer que fossem seus problemas pessoais.
– Senhor Arnook? — Perguntou um homem entrando na sala principal onde o líder encontrava-se recostado em sua própria mão, claramente sonolento. — Lamento incomodar, mas acredito que recebemos um falcão da terra do fogo. Os destinatários são o senhor e a jovem Katara.
Arnook levantou os olhos e ajeitou sua postura, mostrando-se mais interessado no assunto. Jamais recebera uma carta sequer de outra nação, quanto mais da nação do fogo. Sabia que o novo lorde Zuko era um bom homem, então estava imensamente curioso em quais seriam os assuntos que levavam à necessidade de enviar uma mensagem a ele e à Katara.
– Por favor, encontre Sokka e peça a ele que encontre sua irmã e entregue esta carta a ela. Vou passar algum tempo a mais por aqui — Requisitou Arnook com seu usual tom carismático.
O homem saiu em passos rápidos em busca de Sokka. Conhecendo o garoto ele já estaria em sua casa a esta hora, apesar de passar a semana treinando junto com os demais guerreiros da tribo, Sokka gostava de aproveitar certos dias de folga para pescar e mergulhar no tédio, sem dúvidas para ele era o que fazia mais sentido em momentos de descanso. Sendo assim, dirigiu-se para o local o qual achava mais provável, certamente o jovem estaria por lá. Aproximou-se da entrada da casa pigarreando e chamando por Sokka em um tom descontraído. Entretanto, ao ver que seus poucos esforços não foram o suficiente, gritou em alto tom e surpreendendo-se quando Sokka abriu a porta de supetão vestindo uma expressão irritada.
– O que é?! — O mal humor de Sokka era perceptível em suas palavras — Se estão tendo problemas em afugentar os pinguins-lontra de perto dos suprimentos outra vez, eu já disse que não vou mais ajudar!
E dizendo estas palavras Sokka tornou a fechar a porta, sendo impedido pelo visitante.
– Não tem nada a ver com os suprimentos! Por mais que nós dissemos que as bombas de fedor seriam uma má ideia. Os peixes ficaram cheirando a ameixas do mar podres. — O homem comentou recordando-se da situação.
– Bom, então vocês deveriam ter pensado em uma solução melhor. Eu cansei de ser o único a ter boas ideias! As vezes elas simplesmente acabam. — Sokka retrucou contrariado.
Com um suspiro, o motivo real da visita havia retornado à mente do guerreiro.
– Em todo caso, Arnook mandou esta carta a você. Ao que parece foi enviada pela nação do fogo, chegou há alguns momentos. — Disse entregando a carta em mãos — Ao que parece está endereçada à sua irmã, mas como ela se locomove mais que você por aí, achamos que poderia entregar a ela.
A animação de Sokka era evidente em sua expressão. O jovem parecia pular do chão alguns centímetros no decorrer da explicação.
– Por acaso foi um falcão que a entregou? — Perguntou mais ansioso que antes.
O homem fez que sim com a cabeça, um tanto confuso.
– Eu não acredito! — Exclamou Sokka — Será que foi o Falquito?? Meu lindo falquito voltou para o papai depois de tantos anos!
Sokka já pulava cerca de um metro do chão sem conter sua exaltação. A lembrança de seu falcão que enviara aos pais de Toph era animadora.
– Falquito? Se for esse o nome dele, sim ele retornou. Mas assim que entregou a carta já tomou o rumo de volta — O visitante disse com descaso e obsevando a mudança repentina de emoção no rosto do residente da casa — Em todo caso, eu já vou indo. Certifique-se de entregar isso para sua irmã.
Apesar de sua preguiça ser maior que a curiosidade, Sokka imaginou que seria correto ir atrás da irmã. Apesar de Katara não gostar de sua intromissão enquanto treinava fora ele quem a salvou da ultima vez que resolvera fazer a loucura de entrar em um lago congelado. Talvez fosse realmente prudente ir atrás dela e entregar aquilo o quanto antes, seu sono podia esperar. Sokka avisou a avó antes de partir e saiu em busca de Katara por toda a cidade antes de se dirigir ao lago, ninguém havia visto a jovem por lá desde que saíra da enfermaria, sendo assim, sabia que estaria no lago.
Dando passadas pesadas e lentas o jovem seguiu em direção de onde sua irmã estava, arremessando o bumerangue eventualmente e esperando ele voltar para sua mão, ou sua cabeça na maior parte dos casos. Porém, os hematomas na cabeça deveriam esperar para continuar a serem feitos... Ao entrar na floresta de arvores mortas não havia espaço o bastante para continuar arremessando o objeto, deveria esgueirar-se por alguns tocos quebrados e tomar cuidado para não escorregar na grama molhada.
O local era belíssimo, uma perfeita clareira recheada de água cristalina e parada. Aquilo era incomum, deveria haver alguém por lá, sua irmã deveria estar naquele local, no entanto, as únicas coisas que pôde notar foi um estranho odor adocicado, uma bandagem azul utilizada na cintura pelas moças da tribo da água e uma pequena trouxa de palha queimada mais adentro da floresta. Alarmado, Sokka juntou tudo o que pôde e virou-se rapidamente para fazer o caminho de volta... Passara por coisa o bastante para entender que aquilo não era algo normal, deveria ter acontecido algo naquele local e deveria averiguar a situação.
– Mas que merda, Katara sempre me coloca em problemas — Praguejou.
Ao alcançar novamente a vila, Sokka tomou a liberdade e correr até alcançar a alta casa do líder, com seu suntuoso pilar de gelo bem acima. As escadarias eram de tirar o fôlego para alguém que subisse elas correndo, mas não era uma boa hora para o cansaço.
Quando chegou em seu destino pôde notar que não fora o primeiro a buscar Arnook naquela tarde, talvez nem seria o ultimo. O salão de reuniões estava sendo utilizado, todas as portas estavam escancaradas, nada comum para uma vila onde nada costumava acontecer. As passadas de Sokka tornaram-se menos rápidas mas mais ansiosas e no decorrer que entrava no local vozes podiam ser ouvidas cada vez mais nitidamente.
– Mas senhor, nós estamos bem conscientes do que estamos falando. Não estávamos enganados e certamente não é alguma brincadeira de mal gosto.- Disse um dos homens.
Dentre todos era possível identificar claramente as anciãs, Pakku, Arnook e os demais pescadores, que há poucas horas encontravam-se nas embarcações.
– Eles simplesmente fizeram a dobra de água e pareciam dobrar metal também! Sei que não parece possível, mas os três nos derrubaram do barco e saíram tão rápido que não pudemos nem sequer embarcar em outro barco para segui-los — Tentou esclarecer um outro membro da tribo.
Arnook coçava sua barba um pouco incrédulo, enquanto os demais também permaneciam em silêncio. Somente Sokka foi capaz de alcançar a conversa a tempo para poder disparar as palavras que havia guardado em sua viagem e, aparentemente, mais algumas que seriam convenientes para o momento.
– Precisamos encontrar eles! — Gritou Sokka na porta de entrada, surpreendendo a todos — Estes loucos certamente estão com a minha irmã!
Fora a vez de Pakku olhar incrédulo. O velho jamais gostou de pessoas prepotentes, então a intromissão de Sokka pareceu incomodá-lo, apesar de ter permanecido em silêncio e deixar a palavra apenas a Arnook.
– O que toda essa história teria a ver com Katara?
– Bom — Sokka necessitou de uma pausa para respirar, enquanto aproximava-se mais de todos — Katara estava perto ao lago meditando, fui atrás dela entregar a carta que me pediram, mas ao chegar lá a única coisa que pude encontrar foi uma parte de sua roupa e essa coisa queimada. Ao andar mais afundo no caminho de volta eu vi que haviam algumas pegadas mais pesadas em direção à costa, provavelmente pois estavam levando-a!
– Se esse for o caso, não sei o que desejam com a nossa tribo ou com sua irmã que seja, mas não me parece nada bom — Pronunciou Pakku.
Arrastando sua cadeira, Arnook levantou-se e deu a volta na mesa para aproximar-se de todos que haviam chegado no local. O homem alto colocou seus longos braços atrás das costas e passou a caminhar em círculos.
– Hoje o senhor do fogo me pediu algumas tropas emprestadas para uma missão da nação do fogo, talvez o favor possa ser mútuo e a nação do fogo finalmente se redima conosco se participarem desta busca. — Arnook parecia extremamente apreensivo ao falar — Busquem aquele falcão pela área e entreguem uma carta em resposta, precisamos de ajuda.
– Senhor — Interrompeu Sokka novamente — Acredito que vamos precisar de mais que só uma carta.
Todos olharam mais confusos do que já estavam, Sokka geralmente era o portador de péssimas ideias e comentários poucos pertinentes, porém, talvez por se tratar do sequestro de sua irmã ele poderia levar tudo mais a sério.
– Enviem o falcão primeiro ao templo do ar. — Requisiitou o garoto.
Os homens de cargos importantes suspiraram, não era um bom movimento a princípio.
– Mas no que os aprendizes de monges podem fazer para nos ajudar? — Perguntou Pakku.
– Não são para os aprendizes que vocês vão enviar isso. Enviem ao Avatar.
A feição de Sokka era consideravelmente amedrontadora, a raiva subia a cada momento por cada membro de seu corpo. Katara passara tanto tempo sozinha por lá e exatamente na época que ele estava lá e teria a função de protegê-la, ela simplesmente desaparece. Se havia alguém que deveria querer saber sobre a situação, aquela pessoa definitivamente era Aang.
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