Notas iniciais
Espero que gostem!

Capítulo 1

POV Bella

“Estou entrando no grande desconhecido, sinto que tenho asas, embora eu nunca tenha voado. Eu tenho o direito de errar, mas eu estive pra baixo por muito tempo e eu queria ser livre, então eu finalmente respirei.” Joss Stone- Right to be wrong

Apertei mais o sobretudo negro de grossos botões contra meu peito. Eu queria dar um tiro em mim mesma por resolver bancar a chique e calçar aquelas malditas botas de salto agulha. Sério! Eu às vezes não me entendia. Era só mais um dia na faculdade, pelo amor de todas as panturrilhas bem cuidadas! Não havia necessidade de toda aquela produção. Dali à uma hora e meia eu encontraria as mesmas caras que via há mais de um ano, tinha certeza que para eles tanto fazia eu estar bem ou mal vestida, eles sempre ignorariam minhas vestimentas, como eu os ignorava também. Isso, claro, depois de passar pelo martírio de andar de ônibus. Você poderia dizer que sou uma ingrata, afinal, o transporte público de Londres era nada menos do que excelente e exemplar, outros países deviam aderir ao programa deles para evitar as manifestações que eu acompanhava nos jornais televisivos.

Mesmo com luvas de couro — Rosalie, obrigada por esse presente tão útil — enfiei minhas mãos nos bolsos do casaco para ver se elas ficavam mais quentinhas. Minha bolsa preta falsificada — eu não me dava ao luxo de pagar rios de dinheiros em bolsas originais, já que sempre quereria trocar o modelo e não podia ficar bancando minha mania e de todas as mulheres de usar uma bolsa diferente a cada semana se as mesmas fossem originais e custassem meus belos olhos verdes – enfim, deixando minha mão de vaquisse... Será que essa palavra sequer existia? Dane-se! Deixando minha mão de vaquisse de lado, minha bolsa preta, presa em meus ombros, batia contra a lateral do meu dorso me deixando incomodada e cansada. Por que no mundo eu resolvi enfiar tudo que precisava levar para a faculdade dentro dela, mesmo? Ah é, porque eu nunca cumpro o que prometo a mim mesma. Jurei que não levaria cadernos e livros dentro da porra da maldita bolsa e cá estou eu, pelejando com um monte de tijolos pendurados no ombro direito.

A questão é que eu andava apressada pelas ruas belas e cinzentas da cidade mais linda do mundo, meus passos fazendo cliques rápidos na calçada de cimento. Eu estava atrasada. Maldita seja Sra. Carmem e seus conselhos de moda. Gastei dez minutos do meu dia ouvindo que eu não devia usar saltos tão altos num dia qualquer, isso poderia render-me horrendas varizes. Santa merda! Eu não estava nem um pouco preocupada com aquilo! Não é como se eu usasse os malditos saltos todos os dias. Em geral, gostava de usar sapatilhas confortáveis — naquelas eu gastava um bom dinheiro — e tênis bonitinhos. Que seja! Tudo o que eu queria era sair daquele museu e chegar ao ponto de ônibus.

Por causa de toda a lengalenga sem sentido, Sra. Carmem se achava na obrigação de fazer o papel da minha mãe, revirei os olhos... Por causa de toda a palestra sobre o uso de saltos, acabei ficando atrasada e perdi o ônibus que eu estava acostumada a pegar. Dez minutos, este era o meu atraso. Se a rainha visse minha falha, talvez me condenasse a alguns dias na prisão por burlar a intacta regra de que os ingleses não se atrasam. Para. Nada. E quando digo nada, é nada mesmo. Mas reservo-me o direito de dizer que eu não sou inglesa, portanto, meu delito deveria ser perdoado.

Eu pegava o ônibus dois pontos depois de ele sair do final, o que me garantia muitas cadeiras vazias e o direito de escolha de um lugar privilegiado. Eu não batia bem da bola, eu sabia disso, então simplesmente dava de ombros e sentava no mesmo lugar sempre. Sempre. Às vezes eu variava, mas em noventa por cento das vezes, um dos últimos bancos do lado direito, o lado do motorista, quero dizer, era o meu lugar. Achava, inclusive, que eu deveria marcá-lo com o meu nome para nenhum desavisado sentar nele, pois quando aquilo acontecia, eu fechava a cara para o sujeito, ou sujeita, e lutava contra o impulso de puxá-lo de lá e jogá-lo janela afora. Violenta eu? Imagina! Apenas acostumada a ir atrás do que queria, e se isso incluísse dar uns socos nas fuças de alguém, eu não me pouparia.

Viajei tanto na maionese que quase não vi o ônibus se aproximando. A tensão me dominou, como sempre dominava ao passar pelas portas duplas do veículo. Lancei um olhar cauteloso na direção da MINHA cadeira e fiquei aliviada. Estava vazia. Passei meu cartão pré-pago Oyster na roleta e voei ônibus adentro. Sentei-me confortavelmente na poltrona vermelha com pequenas linhas azuis e amarelas e busquei meu iPod. Nerina Pallot fora a escolhida do dia. Eu era bem eclética quando se tratava de música, mas devo confessar que estava a cada dia mais apaixonada pela música britânica. Sinceramente? Eu era apaixonada por toda a Inglaterra e sua rica cultura e ponto final! Quando decidi que sair de Forks era o melhor a fazer, não precisei pensar duas vezes para nomear Londres como meu novo lar. Desde a adolescência eu vivia sonhando com homens ingleses e seus encantos e beleza... Eles, de um modo geral, não estavam deixando a desejar. Os homens ingleses eram os homens mais lindos, educados, gentis, atenciosos e inteligentes do mundo. Eu beijaria minha própria bunda se um dia casasse com um deles...

Você pensaria que sou uma adepta da instituição matrimonial, mas dados os fatos do meu passado, eu realmente não estava para romances e casamentos ingleses. Meu objetivo era terminar o curso de História que eu havia dado início há um ano na renomada Universidade de Oxford e garantir um bom emprego. Conseguir uma vaga na maldita universidade foi um sufoco do cão, mas eu consegui e só sairia de lá com um canudo. Por favor, sem trocadilhos aqui.

Embora o interior do transporte coletivo estivesse aquecido, eu ainda podia sentir o frio em minhas entranhas. Era maio, final do outono. As folhas secas caiam das árvores dando um ar ainda mais cinza à paisagem.

Ouvir música era um dos meus passatempos dentro do ônibus, ler romances ou artigos científicos era outro e observar as pessoas que entravam e saiam do veículo público era o mais interessantes deles. Daí a explicação da minha neurose com o lugar para sentar. Eu gostava de ter uma visão panorâmica da coisa toda. Dava-me agonia ficar em um lugar que eu não podia ver as pessoas que circulavam pelo ônibus enquanto eu estava nele. Minha viagem era um pouco longa, então o fluxo de pessoas era realmente intenso. Nem todo mundo tinha o privilégio de estudar tão bem quanto eu, por isso a maioria dos passageiros não ficava mais que meia hora dentro do vermelhão, como eu gostava de chamá-lo.

Homens, mulheres, crianças, casais, turistas, estudantes, trabalhadores, ricos e pobres. Tinha de tudo. As opções de passageiros eram bem variadas. Tinha gente feia, gente bonita, gente mais ou menos... Gente, quero dizer homens, em sua maioria. Claro que eu observava uma ou outra mulher, mais para ver suas roupas do que qualquer outra coisa, todavia a verdade era que eu realmente gostava de apreciar os pedaços de mau caminho que de vez em quando adentravam o transporte público referência no mundo. Andar de ônibus todos os dias era muito cansativo, mas quando uma boa carne estava na área, a coisa mudava de figura.

Fazia uns dez minutos que eu tinha entrado no ônibus quando senti meu celular vibrar dentro da minha bolsa e, após travar uma batalha épica contra a mesma, consegui encontrar o aparelho do mal. O nome Rose piscando enquanto a foto de uma loira estonteante fazendo língua para mim estavam no visor.

Maldita seja!

Eu odiava ter que interromper minhas músicas para falar ao telefone dentro do ônibus, principalmente porque eu abominava a ideia de as pessoas ouvirem minhas conversas particulares, como eu fazia quando alguém aqui dentro recebia um telefonema e danava a falar alto. Esqueci de mencionar que ouvir as conversar alheias também era um dos meus passatempos favoritos em minha viagem até Oxford. Muitas vezes, pausava a música só para ouvir o bate-papo dos outros... Sim, curiosidade era um de meus defeitos!

__Vadia! Onde você está? – a maldita loira dos infernos berrou em meus ouvidos antes de eu sequer dizer alô... Sério, às vezes eu tinha minhas dúvidas se minha melhor amiga era realmente uma mulher inglesa, porque, vamos combinar, bons modos não era uma de suas qualidades.

__Sua loira de farmácia, quer parar de gritar nos meus ouvidos? E boa tarde para você também, querida. – ironizei, tentando falar o mais baixo possível. Levei a mão ao encosto do banco da frente para me segurar quando o veículo freou e parou para entrar mais passageiros. Daquela vez eu não fiz minha costumeira inspeção, uma vez que Rosalie iniciou o berreiro.

__Mulher, cadê você? Estou te esperando há uma hora para almoçarmos juntas e até agora nem sinal do seu rabo.

__Eu estou realmente atrasada, Rose, mas mesmo que estivesse no horário, ainda não teria chegado ao campus... – dei uma olhada em meus novos companheiros de viagem. Um senhor grisalho, uma mulher com uma criança e um rapaz usando uma camisa em um tom claro de rosa, será que ele não sentia frio? Este último estava sentado dois bancos a minha frente e eu não podia ver o seu rosto. Eu teria visto se Rosalie não tivesse me ligando... Humpf!

No meio tempo que gastei para checar os passageiros que entraram, eu não saberia dizer em qual lugar da cidade, Rose falou mais palavras que seriam permitidas dizer em um minuto... metade delas palavrões. Revirei os olhos. Típico de Rose e sua boca suja. Oh! A quem eu quero enganar? Eu também era uma garota boca suja.

__Sua esquecida do caralho! Esqueceu mais uma vez que havíamos combinado de almoçar juntas!

Oh merda!

Esqueci de mencionar que esquecimento estava no topo da minha lista de defeitos brigando com a impaciência.

__Rose, me desculpe! Eu realmente me esqueci... – minha voz soou como a de uma criança pega derrubando o vidro caro de perfumes de sua mãe. Olhei para a janela. A paisagem bucólica passando por mim como um borrão. O dia estava realmente frio, pois as árvores mal paravam quietas.

__Isabella Swan! Acorda, porra!

Dei mentalmente um sorriso amarelo, eu também era um pouquinho distraída.

__Rose, eu vou desligar, pois você sabe como, diferente de você, eu realmente tenho alguma classe, portanto, nada de barracos em público. Nos falamos mais tarde. E nada de ficar insistindo em falar comigo até que meus pés pousem na terra. Tchau.

Ela continuou gritando como uma lunática, mas encerrei a chamada, coloquei meu celular no modo avião, achava tão chique fazer aquilo, e o joguei no fundo da bolsa, no meio da minha enorme bagunça.

Quando chegasse à faculdade, podia esperar o maior sermão de todos os tempos vindo da loira mais azeda da face da terra. Ela odiava quando marcávamos algo e eu simplesmente não aparecia. Como foi o caso daquele dia. Que culpa eu tinha se a turma de crianças e sua professora amaram minhas explicações no museu e não queria ir embora? Acabei me esquecendo de deixar para fazer minha hora de almoço no campus, onde Rosalie devia estar esperando por mim.

Rosalie Hale era minha melhor e, na verdade, única amiga em Londres. Ela e seu namorado, Emmett McCarthy. Os dois eram meu norte aqui. Viramos amigos logo quando cheguei à cidade, há mais ou menos dois anos. Conheci a loira em uma missão impossível de conseguir uma vaga em Oxford. Rose era dois anos mais velha que eu e já havia formado há algum tempo, na verdade eu também deveria estar formada, dados meus vinte e cinco anos, mas a vida, ou a nossa burrice, entenda como quiser, nos impede de seguir o percurso natural das coisas às vezes. Ela trabalha em Oxford como professora no curso de Administração e ajuda seu pai a administrar a empresa de cosméticos de sua família. A garota realmente tem grana, diferente de mim. Quer dizer, eu não sou a mais pobre da face da terra também.

Meu pai é um chefe de polícia recém aposentado e dono de uma grande e conhecida loja para artigos de pesca e acampamento em Forks, cidade onde nasci e cresci, e minha mãe é dona de uma escola infantil, também em Forks. Meus pais são casados e moram em uma casa confortável num dos bairros mais renomados da cidade. Veja, o bairro é renomado na chuvosa Forks, que é do tamanho do buraco de uma agulha, se formos comparar o bairro que eles vivem com os bairros renomados de Londres, por exemplo, então o bairro que Charlie e Renee moram será como um bairro da mais pobre periferia... Falei tanto a palavra bairro que até eu me compliquei com a mecânica da coisa toda.

O fato era que eu não podia me considerar uma pobretona, mas também não era nenhuma riquinha mimada. Eu me sustentava com meu próprio dinheiro, vindo do meu trabalho como estagiária em um museu de história na cinzenta Londres. Meus pais pagavam somente o aluguel do meu confortável apartamento e as despesas da faculdade, como livros e transportes, por exemplo, e o resto era comigo. Não que eles não pudessem ou não quisessem me sustentar, muito pelo contrário, no entanto eu achava vergonhoso uma mulher de vinte e cinto anos não conseguir pagar as próprias contas.

O salário do museu, graças aos céus, permitia que eu tivesse uma vida normal, como a de qualquer garota de classe média. Comprava minhas roupas em lojas de departamentos, algumas de grifes, quando dava, e saía para tomar uma ou outra cerveja com meu casal de amigos quase todo fim de semana sem precisar que pagassem a conta para mim. Era com o meu dinheiro também que minha estante de livros de romance e livros de história estava cada dia mais cheia, assim como minha caixinha rosa de veludo, quase transbordando com os bilhetes dos filmes que eu assistia no cinema. Eu era uma leitora compulsiva e cinéfila assumida e meu salário dava conta do recado direitinho.

Gastei tanto tempo pensando na vida, como sempre fazia, que a hora de desembarcar do vermelhão havia chegado.

Joguei meus longos cabelos castanhos para trás e os arrumei com os dedos. Busquei o espelho na bolsa bagunçada e rapidamente conferi meu rosto. Sem remelas nos olhos ou sujeira nos dentes. Ótimo. Não daria tempo de passar um gloss. Sem problemas, passaria quando chegasse na minha sala de aula. Os fios do alto da minha cabeça estavam no lugar, nada de frizz hoje! É isso ai, garota! Conseguiu domar a fera cor de chocolate!

Toda aquela conferida no visual aconteceu entre segurar o espelho e manter o fone do iPod no ouvido. Era uma briga todos os dias antes de descer do ônibus, já que eu não abria mão de me conferir no espelho e nem de parar de ouvir música até que chegasse dentro da minha classe. Ambas as tarefas teriam que aprender a existirem juntas até o final do curso...

Ajeitei a bolsa vadia nos ombros, decidindo que na volta para casa, o caderno e os livros viriam em minhas mãos e me levantei. Rezei para que o ônibus não freasse bruscamente, do contrário, minha total falta de coordenação motora daria as caras novamente. Sra. Carmem esqueceu de um detalhe em sua palestra: os saltos não só traziam varizes como também poderiam seriamente nos fazer levar um tombo dentro do coletivo, o que definitivamente não daria certo, já que eu não queria passar vergonha na frente do rapaz bonitinho que eu tinha acabado de dar uma rápida olhada em meu percurso até a porta de saída. Ele era o que eu havia perdido durante meu telefonema com Rose, aquele da camisa cor de rosa claro com botões. Antes que eu pudesse dar outra olhada para observar melhor seu rosto, o ônibus parou e abriu as portas.

Sabe aquele momento que uma cantora ou cantor está fazendo um clipe e anda por ai durante a música pensando na vida? Era assim que eu me sentia ao descer do ônibus e começar a caminha pela rua movimentada: em um verdadeiro clipe hollywoodiano.

Pois assim, sentindo-me num clipe, ao som de Joss Stone – agora a playlist havia mudado para a bela mulher de longos cabelos, voz poderosa e pés descalços – desci majestosa e vagarosamente, para não cair, as escadas e pisei na calçada com cautela, voltando a colocar as mãos nos bolsos e a caminhar tranquilamente pela rua. Senti como se alguém tivesse me observando.

Virei-me rapidamente para trás, mas o ônibus já havia partido para o tráfego, deixando-me sozinha com meus pensamentos desconexos e uma longa aula de história medieval pela frente.

Notas finais
O que acharam?
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Bjs!!!