The Outsider
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Quando Gabrielle saiu do aeroporto, estava um homem à sua espera. Ela arrastou as malas – e Belzebu a bufar como um louco – até ele e cumprimentou-o.
– Gabrielle? – perguntou ele, espantado, sem estar seguro de que aquele ser que se erguia à sua frente era, de facto, a sua filha. Pronto, talvez ela tivesse exagerado um bocadinho com o casaco de pelo até aos pés. Na verdade, parecia o Macklemore no vídeo do “Thrift Shop”, mas quem se atrevesse a dizer-lhe isso ia arrepender-se para o resto da vida.
– Olá, Brian – respondeu ela, com um acento francês carregado e um sorriso gigante na cara.
– Eu não me chamo Brian… — murmurou ele, tentando mostrar uma reação. Ela passou-lhe as malas para a mão e ele pegou nelas.
– Eu sei – disse ela, com um sorriso. Ele não ia perceber a piada. Ele não ia perceber que, quando vivia em Paris, as aulas de inglês se limitavam a repetir “Brian is in the kitchen” até que todos os alunos tivessem a pronúncia correta.
Caminharam em silêncio até ao carro, com Belzebu a mexer-se, desconfortável, dentro do saco dele.
– Então… a viagem foi boa? – perguntou ele, olhando-a de soslaio enquanto ligava o carro.
– Ótima – respondeu Gabrielle com um sorriso, tirando Belzebu de dentro do saco e pousando-o nos joelhos, onde ele ficou a ronronar. – Só não tinham menu para vegetarianos, mas como a viagem durou pouco, não fiquei com fome.
– És vegetariana? – perguntou ele, com um sorriso. – Não faz mal, a Rachel também é.
– E quem é essa? – inquiriu ela, erguendo o sobrolho. – Filha, mulher, empregada, ex-mulher, vizinha…?
– A minha ex-mulher não vive em minha casa, Gabrielle – disse o pai dela, olhando-a com má cara. Ela encolheu os ombros e sorriu. – É uma das minhas filhas.
– Oh. É verdade, quantos é que são ao todo? Dezassete? Não, espera… Acho que eram vinte e três, não? – perguntou ela, rindo-se em seguida. Ele não podia sentir-se ofendido. Ela não dizia aquilo por maldade, apenas por diversão.
– São dez. Contigo onze – disse ele, franzindo o sobrolho e acelerando. Gabrielle riu-se às gargalhadas, mas não disse mais nada.
Depois chegaram a um bairro chique, e ele parou na garagem duma casa enorme e branca, que mais parecia um palácio. Gabrielle dava pulinhos de excitação enquanto saia do carro.
– Onde estão os pajens? – perguntou ela, emocionada.
– Não há pajens – disse ele, revirando os olhos. Pegou nas malas dela, enquanto murmurava: — idiota…
– Não me insultes, Brian – disse ela, entrando na casa como uma Rainha entraria no seu castelo. Estava tudo às escuras. Gabrielle assustou-se.
– Posso ligar uma luz? – pediu ela, enquanto tateava a parede em busca de um interruptor.
– Não – sussurrou o pai dela, furiosamente. – Estão todos a dormir.
– Oh, que pena. Tinha esperanças de que fosse uma festa surpresa de boas-vindas – disse ela, com um ar desanimado.
– Não faças ruído – avisou ele, arrastando as malas pela divisão até as encostar ao sofá. – Hoje tens de dormir aqui. Ali tens o banheiro, se precisares. Boa noite.
– Brian – chamou ela, enquanto ele subia as escadas. – Espera, Brian. Não me deixes sozinha!
Ele ignorou-a e chegou ao andar superior, entrando num quarto e fechando a porta. À chave. Obrigadinha, Brian.
***
George e Lily foram os primeiros em descer as escadas, de manhã, par ir tomar o pequeno-almoço.
– Podemos ver televisão enquanto esperamos pelos outros? – pedinchou George, puxando pela manga de Lily. Ela suspirou, olhando para o irmão de sete anos.
– Tudo bem, mas tem de ser sem som, para não acordar os outros – disse ela, levando-o até à sala ao colo. Pousou-o no chão e virou-se para procurar o comando.
– Mana… — murmurou George, puxando-a pela manga de novo. Lily suspirou.
– O que foi? – perguntou ela, virando-se para ele. Ele apontou para o sofá, onde descansava um emaranhado de braços, edredom, pernas e bola de pêlo.
– Porque é que está um sem-abrigo a dormir no nosso sofá?
Lily arregalou os olhos, sem saber o que dizer. Seria mesmo possível que aquilo fosse um sem-abrigo que tivesse entrado durante a noite? Pegou em George ao colo, subindo a correr as escadas. Entrou no quarto e sacudiu a cama de Laya até esta se levantar.
– Lily, se me acordaste para nada… — ameaçou ela, esfregando os olhos com energia.
– Está um sem-abrigo a dormir no nosso sofá! – exclamou ela, e George acenou vigorosamente com a cabeça.
– Um sem-abrigo? – perguntou Rachel, levantando-se da sua própria cama.
– Isso é alguma piada? – perguntou Laya, olhando feio para Lily. Esta negou com a cabeça.
– Não, é verdade, juro pela minha vida – disse ela, e George concordou com ela.
– Se isto é alguma partida do Gabriel eu mato-o – resmungou Rachel, saindo do quarto e descendo as escadas. Ficaram os quatro de pé, na sala, especados a olhar para a garota deitada no sofá.
– Um sem-abrigo não é – disse Rachel, olhando para ela de cima a baixo.
– Como é que sabes? – perguntou Lily, com os olhos abertos de espanto.
– Quantos sem-abrigos é que já viste com malas da Chanel? – perguntou Laya, arqueando as sobrancelhas.
– O que é que fazemos? – perguntou George. – Eu quero ver a Quinta dos Animais.
– Eu vou lá a cima acordar o Finnick – disse Laya, subindo as escadas.
Passados alguns minutos, Laya descia, acompanhada de Finnick, Joshuel e Gabriel, que tinham acordado entretanto.
– É um sem-abrigo ou não? – perguntou Lily, enquanto os três garotos a encaravam, sem expressão.
– Sem-abrigo ou não, eu até a comia – disse Gabriel, com um sorriso perverso. Rachel deu-lhe um tapa na cabeça, e eles começaram a lutar na sala, enquanto os outros tentavam decidir o que fazer.
– Chamamos o Dean e o David? – perguntou Lily.
– Não – apressaram-se a dizer Finnick e Joshuel. – O quarto deles é um Santuário Sagrado, já sabem como eles ficam quando entramos lá dentro.
– Eu nem quero pensar no que é que eles fazem lá dentro – comentou Laya, revirando os olhos.
– O que é que se passa aqui? – perguntou David, descendo as escadas. Dean vinha atrás dele, com um ar ensonado.
– Temos um sem-abrigo no sofá, e eu quero ver a Quinta dos Animais! – pedinchou George, fazendo beicinho. David pegou nele ao colo.
– Não comecem com tretas – disse Dean, esfregando os olhos e indo até ao sofá. – Se vocês fizeram este ruído todo só para nos acordar, nem sabem o que… Quem é esta?
– Parece um sem-abrigo – disse David, aproximando-se.
– Não é a tua irmã? – perguntou Dean, olhando para ele.
– A minha irmã?
– Sim, a tua irmã.
– Que irmã?
– Aquela de Paris, que tem nome de garoto.
– A Gabrielle? – perguntou ele, espantado, e voltando a olhar para ela. – Sim, podia ser. Mas acho que ela era loira…
– O que fazemos, então? – perguntou Lily, mais calma. Finnick e Rachel tinham acabado de lutar, e olhavam para Dean e David como se eles tivessem a solução divina.
– Podemos tentar acordá-la – sugeriu Laya, olhando para ela de soslaio. Puseram-se todos à volta do sofá, e David cutucou-a, dizendo:
– Gabrielle… Acorda…
De repente, a bola de pelo que se encontrava em cima das costas da menina desenrolou-se e mostrou os dentes, fazendo um ruído estranho com a garganta.
– Caralho! – gritou Dean, dando um salto e caindo para trás. Lily gritou e George saiu a correr da sala. Laya escondeu-se atrás de Finnick e Rachel certificou-se que permanecia a uns bons quatro metros do sofá.
– Cala-te, Belzebu – disse Gabrielle, virando a cabeça e continuando a ressonar.
– O que é esta gritaria toda? – exclamou Peter, descendo as escadas a correr, com Susan atrás dele.
– Calma, Peter, são só as crianças – disse ela. No andar superior ouviu-se um choro, e Susan subiu para ir buscar o bebé.
– O que é que se passa aqui? – perguntou ele, olhando para os filhos com má cara.
– A Gabrielle não acorda, e o George quer ver televisão – disse David, apontando para o sofá. Peter suspirou e mandou todos para a cozinha.
– Acorda, Gabrielle! – exclamou ele, puxando a ponta do edredom.
– Já vou, mãe – murmurou ela, ainda a dormir.
– Não sou a tua mãe, garota! – disse ele, zangado. Ela ressonou mais alto, enquanto se babava para a almofada.
– Já vou, Brian – acabou por dizer, enquanto a cabeça lhe pedia de um dos lados do sofá.
– Porque é que ela te chama Brian? – perguntou Rachel, olhando para Peter.
– Achas que eu sei? – retorquiu ele, de mau humor.
Quando Susan desceu, Gabrielle já estava na mesa, a tomar o pequeno-almoço. Reinava um silêncio desconfortável na cozinha, enquanto cada um comia.
– Este é o Louis – apresentou Susan, sentando o bebé na cadeirinha dele. Gabrielle sorriu-lhe, com a boca cheia de cereais, e ele olhou para ela como se ela fosse um bicho mau que o ia comer.
– Gabrielle, vais ficar a dormir no quarto das raparigas a partir de hoje – disse Peter, rompendo o silêncio.
– Tudo bem – respondeu ela, enquanto punha mais cereais de chocolate no leite. – Eu depois levo as malas para lá.
– Por falar nisso, aquela mala que tens é mesmo da Chanel ou é uma imitação? – perguntou Laya, olhando para ela de soslaio. Os rapazes suspiraram, revirando os olhos.
– É verdadeira. Faz parte da coleção de Verão 2013, mas aquela é edição limitada, foi a que mostraram num desfile em Junho. Uma amiga da minha melhor amiga conseguiu arranjá-la em preto e dourado, acho que só tinham feito cem tiragens dessa.
– A sério? – perguntou Laya, olhando para ela, espantada. – O desfile de Junho? Aquele em Paris, onde também estavam a Carolina Herrera e o Valentino?
– Esse mesmo – disse Gabrielle, acenando, entre os cereais. – Eu tinha uns bilhetes para o desfile agora de Inverno, mas vim embora antes. Ainda para mais, eram na zona Vip, e uma amiga minha que é jornalista ia fazer umas entrevistas aos estilistas conhecidos, e disse que podia levar-me com ela para fazer as fotografias.
– Não posso acreditar! – gritou Laya, arregalando os olhos. – Pa-ai, podemos ir a Paris um dia destes?
– Sim, vamos à Disneylândia! – pediu George, com um enorme sorriso. Louis aplaudiu e gritou “Mickey!”.
– Calma, eu não disse que podíamos! – exclamou Peter, tentando acalmar os filhos. Mas já tinham começado a gritar todos à vez, pedindo para ir a França.
Belzebu sentou-se no colo da dona, a bufar.
Os seus dias naquela casa seriam insuportáveis.
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