The Other Side
1 Fazer nada nunca pareceu tão bom
Notas iniciais
Era um dia como qualquer outro em Claringtown. De longe avistei um garoto de cabeça abaixada para esconder mais um resultado de um longo dia, um olho roxo, e talvez pensando no que havia feito de tão ruim para merecer algo assim. Entre as grandes árvores que situavam-se magnificamente em uma grande fileira formando uma passarela de folhas amarelas, estava um típico adolescente de dezessete anos, era Toby Miller. Mas talvez, nem tão típico.
Toby chegou em casa ao pôr do sol, e ainda de cabeça baixa, abriu a porta de sua casa e subiu as escadas direto para seu quarto, pois não queria dar explicações para sua mãe sobre o olho roxo. Abby Miller admirava e amava muito seus dois filhos, mas definitivamente não era o tipo de mãe que deixava passar algum acontecimento que os prejudicasse.
Eram 20:30 da noite e o garoto ainda estava preso dentro de seu quarto, quando ouve três batidas em sua porta:
— Ei senhor batata, pode abrir aqui por favor para eu entregar sua janta já que não vai descer? — Perguntou Avery Miller.
— Não to com fome. Fala pra mamãe que eu mandei um ''Oi''. — Respondeu Toby enquanto mexia em seu computador.
— Lindo de sua parte. — Ironizou a garota — Mas a Abby fez sua comida favorita.
Avery Miller é a irmã adotada de Toby. Foi entregue aos Miller quando tinha apenas dois anos de idade e agora ainda com quinze, recusa chamar Abby de mãe. Toby e Avery eram próximos, e ela era a única que sabia sobre o que o garoto passava na escola, e em sua vida no geral, porém eles nem sempre foram o casal perfeito de irmãos. Quando mais novo, o maior desejo de Toby era jogar sua irmã mais nova de uma janela, a causa disso era o ciúmes que sentia da garota com sua mãe, que dava mais atenção para Avery, isso de acordo com o ponto de vista do irmão.
Naquela noite, Toby acordou em plena madrugada e foi até a cozinha jantar. Enquanto todos que moravam com o menino estavam em seu terceiro sono, o garoto estava espionando a geladeira atrás de comida, talvez esta seja a nova mania dos adolescentes.
No dia seguinte, o filho de Abby Miller pediu para sua querida irmã um grande e inesperado favor:
— Avery, posso usar sua maquiagem? — Toby estava envergonhado de pedir aquilo e estava pronto para as piadinhas de sua irmã.
— Finalmente levou em consideração ser uma Drag Queen? Isso é ótimo Toby! — A garota riu com entusiasmo.
— Ha. Ha. Muito engraçado, porém não é isso. Preciso cobrir meu olho roxo.
Avery se sentiu mal pelo irmão, então decidiu disfarçar o enorme machucado no rosto do menino. Quando a garota percebeu que Toby estava mais triste que o normal, resolveu perguntar sobre o acontecido:
— Foi o Luke de novo?
— Sim, não consigo acreditar que alguém tão bonita e legal como a Lena pode ter um irmão tão babaca.
— Luke é um idiota, entrei na escola ano passado e logo no primeiro dia implicou comigo jogando uma bola de basquete na minha cara. Espero que tome muitos chutes naquela bunda mole. — Avery parecia furiosa lembrando-se do dia.
Toby riu e finalmente levantou-se da cadeira para ir à escola. Claringtown era um cidade pequena e incrivelmente limpa, cheia de árvores e flores, parecia nunca deixar o clima primaveril o que deixava Toby pouco animado ao sair, pois sempre preferiu o inverno e outono. Como de costume, o exemplar aluno chegou atrasado e foi recebido com uma bronca de sua professora, Senhorita Tingley:
— Toby Miller! Chegando atrasado até mesmo em um dia de prova, que belo exemplo não acha? — Direcionou seu olhar furioso para o aluno.
— Me desculpe Srta. Tingley, tive alguns problemas em esconder meus problemas.
Tingley estava sempre irritada e brigando, sua vontade era de espancar Toby. A maioria das pessoas achavam que seu temperamento explosivo era por nunca ter tido um relacionamento que não acabasse em brigas e gritarias, por isso ela sempre descontava isso em seus alunos, principalmente em Miller.
Na primeira fileira estava Webb, o único e melhor amigo de Toby. Ninguém sabia qual era o verdadeiro nome de Webb, porém ele falava para que todos o chamassem assim, mesmo que quase ninguém realmente o chamasse. Webb é um garoto magro e frágil, sempre está tremendo e gaguejando quando está perto de alguma garota, principalmente das irmãs gêmeas Emma e Hailee, Webb é calmo e na maioria das vezes está dormindo, não importa o lugar ou horário. De acordo com Toby, existem duas coisas que podem realmente acordar Webb, um: um vírus ou algo considerado impossível de se resolver em um aparelho eletrônico, na internet ou em um jogo, e dois: uma garota bonita. Era quase algo engraçado o garoto chamar-se Webb e ser o melhor quando o assunto é informática. Toby sentou-se ao lado do amigo, onde havia muito espaço, na primeira fileira era raro achar alguém pois a maioria dos alunos estavam ocupados demais falando sobre algum assunto legal no fundo da sala de aula. Na frente podíamos encontrar Toby escondendo seu rosto com um livro de Jane Austen, quando a Professora Tingley ordena a atenção de seus alunos:
— Silêncio! — Exclamou a senhora fazendo assim todos prestarem atenção. Ótimo. — Sorriu — Agora, quero fazê-los a seguinte questão: O que aconteceu quando vocês leram Jane Austen?
— Com todo respeito Tingley, mas você acha mesmo que alguém leu aquele livro chato? — Disse Owen, um dos odiados por Toby e membro da turma de Luke.
— Eu estava dormindo, Senhorita Tingley. — Webb se pronunciou.
— Vocês são desprezíveis. — A moça suspirou, segurando forte sua caneta como se fosse uma faca.
— Bem, eu li. — Lena Montgomery afirmou — Senti algo enquanto lia o livro, senti que eu estava lá presenciando todos os acontecimentos. Pude sentir a dor, a felicidade e tudo que os personagens sentiram, foi algo bom.
— Lena, cala boca. — Luke Montgomery interrompeu com desgosto de sua irmã.
Lena e Luke Montgomery eram irmãos, no entanto, pareciam mais como um pai zangado que está bêbado o tempo inteiro e uma filha que está sempre calada e não pode dar sua opinião para nada que acontece. Esta era a realidade de Lena, e ela não podia mudar pois tinha medo de seu irmão. A garota era delicada, apaixonante e doce, era quase impossível de acreditar que Lena nunca beijara ninguém mesmo sendo amada por todos no colégio e sempre rodeada de amigos. Pelo ponto de vista de Lena, todos eram iguais e por esse motivo ela tentava ser gentil com qualquer pessoa, essa impressão que a garota desejava passar, algumas vezes era mal interpretada por muitos.
— Que bom que leu o livro Lena, isso significa que se sairá bem na prova, caso achem que eu havia me esquecido. — Tingley abriu um sorriso um tanto maldoso e em seguida distribuiu as folhas para os alunos.
Depois de um cansativo e demorado dia de aula e de prova, Toby e Webb despediram-se com um aperto de mão nada formal e cada um foi para sua direção. Lá estava Toby Miller, novamente, andando de cabeça baixa e sendo guiado pelos pensamentos, entretanto o que aquele solitário e triste garoto não esperava era:
— Chuva? Mas que porra... — Xingou colocando o capuz de seu casaco em sua cabeça.
As gotas de chuva começaram a preencher toda a lente de seus óculos de grau, Toby tirou os óculos para limpar e quando colocou novamente de nada mais adiantava, a chuva estava forte e a neblina cobria todo o local. Estava certo que o garoto estava perdido e apavorado então resolveu sentar em uma calçada e dali, não conseguia ver sequer uma casa, sendo que naquele local era repleto de moradias, inclusive a sua. Toby pensou que sua situação poderia não estar tão ruim como estava, pelo menos a água que preenchia a calçada não estava suja, nesse momento agradeceu por morar em Claringtown.
Passaram-se horas e nada da neblina e chuva acabarem, o menino não sabia o que fazer, estava com frio, com fome e perdido. Nem ao menos sabia se já estava de noite. Para sua surpresa avistou de longe um assento vazio, parecia um banco, o garoto não demorou nem um pouco para sair daquela calçada inundada de água e ir até o assento procurar por um pouco de conforto. Na medida em que aproximava-se do banco conseguia ver algo colorido, e quando finalmente estava há alguns passos do banco se deu conta de que não era algo e sim, alguém. Um senhor de aproximadamente cinquenta anos com uma cartola, um bigode cheio e preto, uma mala repleta de cores fortes e um sorriso com dois dentes centrais desalinhados estampado em seu rosto magro disse:
— Olá! Você deve ser ele não é? — Perguntou animado.
— O-o-olá, de-d-evo ser que-e-em? — Toby estava tremendo de frio e com grande dificuldade para expressar as palavras.
— Exatamente, você deve ser quem? — Ainda com o sorriso estampado em seu rosto.
— Eu estou perdido senhor, posso sentar-me aqui e fazer companhia? — O garoto parecia um pouco mais confortável.
— Mas meu amigo, todos estamos perdidos. E sim sim, pode ficar à vontade!
— Obrigado, meu senhor. — Miller parecia envergonhado.
— Não me chame de senhor, sou mais novo do que aparento. — Ele riu — Me chame de Mister. Mister Round! — O homem parecia nunca perder o sorriso.
— Como veio parar aqui, Mister Round?
— Eu venho para Claringtown uma vez por ano, para encontrar adoráveis pessoas como você Toby. — Round colocou a mão no ombro de Toby e logo abriu um sorriso que deixou o garoto com medo.
— Como você sabe meu nome? — Disse levantando-se do banco assustado.
— Não fique assustado, e quanto ao nome, está no seu crachá. — O senhor apontou para o crachá na blusa de Toby.
— Ah...Eu tinha me esquecido disso. — Percebeu.
Toby não era muito social e depois disso, talvez nem quisesse falar com outro estranho em sua vida. Porém Mister Round era um moço animado e na maioria das vezes não falava nada com nada, só que dessa vez o homem estava certo em quase tudo que falava. Nem Toby havia notado que ainda estava com o crachá em sua camisa, o objeto servia para identificar os alunos quando eles fossem comprar lanche ou ir ao banheiro na escola.
Algo em Round fazia Toby sentir-se menos perdido, porém, cada vez mais assustado:
— Diga-me Toby, o que faz de sua vida?
— Nada.
— Nada? Sério? Que coincidência! — Exclamou animado — Eu também faço nada toda hora, e eu adoro. Eu poderia fazer nada na minha vida inteira, é tão bom... — Toby estranhou a animação do senhor com sua resposta.
— Não fazer nada de sua vida não é tão bom, as vezes é bem solitário.
— O que? — O homem parou de sorrir — Nunca diga isso garoto! Fazer nada está em extinção, e além do mais fazer nada sozinho é ótimo, só assim sobra mais. — Completou.
— Sobra mais o que? — O menino estava começando a achar que o homem havia fugido de algum hospital, não era possível que um cara chamado Mister Round e falasse de nada como se fosse algo precioso fosse normal.
— Nada! Aliás, eu trouxe um pouco de nada comigo, quer provar? — Perguntou animado e voltou a sorrir.
— Claro. — Toby forçou um sorriso, esperando que o senhor fingisse pegar o vento e entregasse em sua mão. Com esse pensamento, o garoto foi surpreendido ao receber um pacote de doces — Nada são doces?
— Mas o que achou que fosse?
— Espera aí...Isso aqui é LSD! — Percebeu.
— Está falando de droga? — O velho senhor caiu na gargalhada.
— Sim. — Respondeu assustado.
— Está me acusando de usar drogas? — Ele não parecia zangado — Isso é proibido onde eu vivo, nada são apenas doces que eu crio, e poucas pessoas ainda fazem nada.
— Bem...na Terra nada significa que você está desocupado.
— Isso deve ser bem chato mesmo, por que não vem para minha cidade? Lá não está chovendo e nem fazendo tanto frio, muito menos com essa neblina.
— Como iremos para onde você vive se não podemos ver o caminho até lá? — Toby perguntou confuso.
— Simples, pela minha mala.
— Entendo... — Agora o garoto tinha certeza de que Round havia escapado de um hospício.
O velho olhou estranho e parou de sorrir quando percebeu que com toda sua empolgação quanto a nada, não havia sequer percebido o olho roxo no rosto do garoto. Agora que a chuva havia desmanchado toda a maquiagem, estava claro o grande machucado em seu rosto:
— Me desculpe por não ter percebido este olho roxo em sua face. — Lamentou.
— Tudo bem...Então, fale-me mais sobre o seu meio de transporte, estou curioso...
— Não preciso falar, apenas entrar. Venha comigo! — Disse sorrindo e mostrando seus dentes centrais superiores separados.
— Tudo bem. — Por mais que achasse que Mr. Round era um velho louco resolveu aceitar a proposta, pois em seu pensamento nada poderia ser pior do que estar sozinho e perdido.
Mister Round abriu sua mala e pulou dentro, por aquilo, Toby realmente não esperava. Olhou para todos os lados e nada conseguia ver, olhou dentro da mala e tudo que via era uma grande escuridão, pensou que o ''meio de transporte'' do velho estava rasgado e embaixo dali havia um buraco no chão. Toby tirou a mala do local e quando olhou para o chão, estava lá o asfalto intacto, porém a escuridão dentro da mesma continuava. O garoto, curioso pulou na mala e escorregou em um enorme e colorido túnel. Mas como isso era possível? A mala era realmente um portal, e nem o menino poderia explicar o que encontrou do outro lado.
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