The One That Got Away
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Quem diria, Fabray? Você, a capitã das cheerios e a garota mais popular do William McKinley High School, apaixonada. E pior ainda, apaixonada por ela. Também pudera né? Aquela voz linda e perfeita, aqueles suéteres irritantemente fofos, aquelas pernas (alguém já viu as pernas daquela menina? Deus!), aquela boca que aparenta ser um caminho da perdição (acho que não apenas aparenta, mas...), aqueles olhos (cheios de intensidade e magnetismo a propósito) e tudo que nela existe... O negócio é que eu, Quinn Fabray, HBIC do McKinley e ex-presidenta do clube do celibato, estou perdidamente apaixonada por Rachel Barbra Berry, a maior loser da escola.
Sabe, não sei como esse sentimento surgiu, e, muito menos como se tornou tão forte e intenso. Devo admitir que na verdade eu nunca odiei Rachel. Nunca quis chamá-la de todos aqueles nomes e também nunca quis jogar tantas slushies naquele rosto que, para mim, é o mais lindo do mundo.
Essa ‘raiva’ toda começou porque há anos atrás, minha mãe me flagrou conversando com Rachel perto de um dos armários que preenchiam os corredores do McKinley. Quando minha mãe, ainda de longe, viu a cena de contato social que eu tivera com a morena, veio ao meu encontro e me puxou por um dos meus braços com excessiva força, me arrastando para longe do local onde Rachel estava. Rachel não havia entendido nada, muito menos eu.
Após ser questionada por mim o porquê da atitude grosseira, minha mãe justificou-se dizendo que Rachel era uma aberração e que seus pais eram piores. Judy também disse que não se deveria tratar qualquer ser vivo nesse planeta com o sobrenome ‘Berry’ como gente. Ela disse que eles não eram humanos, mas sim um desastre da natureza. ‘E fora isso, minha filha, você tem uma reputação a prezar, lembra?’
Nunca concordei com essa que deveria chamar de mãe, mas sempre vivi de acordo com seus princípios e não seria agora que faria diferente.
No dia seguinte em que falei pela primeira e civilizadamente vez com Rachel (primeira porque bem, foi a primeira. Civilizada porque nas outras ocasiões em que me encontrei com a morena, elas foram meio... agressivas), ela veio falar comigo antes de começar as aulas.
Flashback ON
Eu havia comprado minha matinal slushie de uva e agora pegava meu material para o início das aulas, quando em um momento mais que inesperado, ouço aquela voz que em tão pouco tempo já havia se tornado familiar.
“Bom dia, Quinn.” A olhei com certa repugnância, enquanto ela dava um sorriso tímido para mim (sorriso esse que sempre me deixou boba). Arrependo-me profundamente até hoje pelo ocorrido no segundo seguinte.
Quinn, você não pode se relacionar com esse tipo de gente. “Bom dia, Berry.” Dito isso, joguei minha slushie em seu rosto. Na hora em que fiz isso, o arrependimento já havia se instalado em mim. Guardei meus livros no meu armário e fiquei observando uma Rachel que se encontrava em estado deplorável me olhando incrédula. Seus cabelos pingavam e eu podia ver as gotas do líquido roxo penetrando em seu suéter que naquele dia estampava uma rena.
Agora Rachel estava prestes a chorar. Seus olhos estavam marejados e quando os olhei no fundo, pude sentir a dor que ela estava sentindo, enquanto ela falava em um sussurro quase inaudível “Quinn... que... por que...?”
“Só fiz isso pra você ver se você tira esse suéter que é mais feio que sua cara, RuPaul.” Não, nunca achei Rachel feia. Pelo contrário. Sempre a achei uma garota linda. Cheia de atrativos. Não sei de onde aquelas palavras haviam vindo, sei muito menos o porquê delas terem saído da minha boca. Mas eu deveria tratar os Berry como lixo, não é, mãe? De uma única coisa eu sabia e tinha certeza: aquelas palavras haviam acertado Rachel em cheio, e, a menina que antes estava com os olhos marejados, agora chorava compulsivamente.
Não faz isso, Rachel. Não chora. Eu não queria ter te machucado. Percebi que se eu ficasse ali por mais alguns segundos, seria difícil controlar minhas lágrimas diante da visão de Rachel chorando, cheia de slushie no rosto. Dei as costas à cena deplorável em que eu havia gerado, mas antes de sair, deixei um pequeno aviso à Rachel. “Vou fazer da sua vida um inferno, ManHands.” E assim o fiz.
Flashback OFF
Naquela noite eu não consegui dormir. A culpa de ter deixado Rachel daquele estado ou o fato de eu ter descoberto um lado mau dentro de mim. Não sei. Mas toda a vez que eu lembrava aqueles olhos castanhos, tristes e chorosos de Rachel, não conseguia controlar algumas lágrimas que obstinadamente saíam dos meus olhos. Por um momento, no meio de todo um turbilhão de pensamentos, cogitei pedir desculpas à Rachel. Dizer a ela que eu não queria a ter machucado. Que só fiz aquilo porque achei coerente com o que Judy havia me dito no dia anterior.
O problema é que eu havia prometido à minha mãe que nunca falaria, chegaria perto ou respiraria o mesmo ar que os Berry em um raio de dois metros. ‘Quinn, você deve mostrar para os Berry o que eles representam para a humanidade: pecado, lixo, aberração! É isso que eles são, minha filha. Aberrações. Você deve mostrar a eles isso’, dizia ela. Um pedido de desculpas talvez resultasse numa aproximação. E isso não poderia acontecer. Mas agora não adiantava mais, eu já havia dado início ao item ‘fazer vida de Rachel um inferno’ da minha lista de aspirações. Eu não poderia parar ou muito menos voltar atrás. A partir daquele dia, como eu havia dito, faria da vida de Rachel Barbra Berry um legítimo e doloroso inferno (por um momento, pensei que Rachel poderia se lembrar daquele ditado ‘tá no inferno, abraça o capeta’ e então ela poderia me abraçar e depois se quisesse me beijar também e).
Todo dia de manhã, eu andava em busca de Rachel para xingar, humilhar e ridiculizar ela. O problema não é D. Quinn, foi que isso toda essa história de ódio pela morena se tornou uma obsessão. Rachel se tornou uma obsessão.
Eu ia dormir e acordava pensando no que faria para depreciar ela. Eu chegava em casa e ia direto ao notebook deixar comentário de má índole em seu MySpace (na maioria das vezes eles eram sobre suas roupas que não canso de dizer, são fofas de mais). Minha rotina se baseava em acordar; Rachel; café da manhã; Rachel; tomar banho; Rachel; escola; Rachel; aula; Rachel; chegar em casa; Rachel. Rachel, Rachel, Rachel, Rachel!
Desde o dia em que joguei pela primeira vez slushie no rosto da morena, foram anos de compulsão por ela. Nem que fosse para fazer ela sofrer. E Santana, apesar de ser má ao extremo, nem sempre me ajudava a humilhar Rachel.
Flashback ON
Rachel atravessava entre os corredores do McKinley de cabeça baixa e abraçada em seus livros.
Cutuquei Santana com um braço e mexi minha cabeça de uma forma esquisita em direção à Rachel que se aproximava. No momento em que Santana entendeu o que eu estava tentando dizer com aquele gesto, ela rejeitou o convite de me ajudar. ‘Nossa, Quinn, parece que ultimamente você vive pela Berry. Tá certo que aqueles suéteres são horríveis, a voz dela é irritante e o ego dela é insuportável, mas eu tenho mais coisa a fazer do que colocar ManHands em seu devido lugar’.
Após Santana ter dito isso, dei às costas a ela e fui de encontro a Rachel, que ao me avistar em seu campo de visão, se encolheu e me olhou com olhos piedosos. Ao me ver muito próxima, Rachel fechou os olhos, na espera do que eu iria fazer. Esbarrei propositalmente forte nela, jogando-a em um dos armários do corredor.
Rachel agora deslizava pelo armário de encontro ao chão, onde seus livros haviam caído. “Olha por onde anda, gnomo.”
Flashback OFF
Mas foi essa mesma Santana, que nem sempre me ajudava em meus planos maquiavélicos, que me fez ver o que eu realmente sentia por Rachel.
Flashback ON
Esse era o último dia do ano letivo na escola (e também nosso último dia no McKinley, já que éramos seniors) e Rachel não havia ido pra aula. Estranhei esse fato. E muito.
Eu já estava retesada como nunca porque não veria mais Rachel com tanta frequência, assim não podendo aplicar meus planos malignos contra ela e, para melhorar minha situação, Santana veio ao meu encontro para dizer as piores coisas que poderia ouvir na hora. “Hey, Quinn! Então, sabe a Berry?” Tentando não demonstrar o quanto eu estava interessada no que ela falaria, assenti despreocupadamente. “Pois é, ela conseguiu entrar para NYADA. Ela tá se mudando pra New York hoje com os pais.” Santana mal tinha acabado com aquelas que, para mim, foram as piores palavras que ela me disse em todos os nossos anos de amizade, e uma profunda onda de desespero se fixou em mim. Minhas pernas tremiam e eu tive que me segurar em uma das tantas cadeiras do pátio da escola.
Se antes eu tinha na cabeça que seria difícil ver Rachel depois do término do nosso ano de seniors, agora eu tinha certeza de que não a veria nunca mais.
Ao constatar isso, lágrimas se instalaram em meus olhos. Com grande dificuldade, consegui segurar o choro. Oh, meu Deus, Quinn, sua idiota! Que droga. Por que você tá assim? Por quê? Santana viu o estado eu me encontrava e me olhou de forma indecifrável. “Qual é, Quinn? Você sabe que pode se abrir comigo.”
“Do que você tá falando, Santana?” Falei com a voz chorosa e com confusão nos olhos, já esperando que o que viria a seguir iria me atingir de alguma forma.
“Você sabe muito bem, Quinn. Da Berry. Eu sei que você gosta dela.” Abri a boca para protestar, mas Santana foi mais rápida e me interceptou “E saiba que não há nenhum problema nisso.” Agora ela me olhava de modo compreensivo, tentando me reconfortar. Coisa que estranho porque bem, é da Santana que estamos falan... Espera aí! Eu... Gostar... Berry...
“Você só pode estar maluca, Santana!” Não, eu ainda não havia admitido meus reais sentimentos pela Rach. Eu tentava assimilar as palavras ‘eu’ ‘ gostar’ e ‘Berry’ enquanto Santana gargalhava da minha cara de espanto. Mas imagina! Não tinha fundamento o que ela estava dizendo. Da onde ela tinha tirado isso? Da mente maldosa dela, eu garanto. Eu odiava Rachel, ou melhor, ManHands! Não tinha cabimento essa calúnia. Ao menos não deveria ter...
“Por favor, né, Quinn. Toda essa sua obsessão por ela. O que você acha que pode ser? E todo esse ódio, Quinn? De onde ele veio?” Parei por um segundo para refletir isso, mesmo achando ridículo já que essa era uma história sem pé nem cabeça.
Reparei que desde aquele dia em que eu havia falado pela primeira vez com Rachel, muita coisa havia acontecido. Naquele ano em que ouvi pela primeira vez a voz linda da morena, eu vivia de acordo com as leis de Russel e Judith Fabray. E como boa filha que era, sempre fazia o que eles pediam, concordando ou não. Após seguir por um tempo a lei nº 10.948, em que eu deveria fazer da vida de Rachel um inferno, eu cresci. Cresci não só mentalmente, mas também fisicamente. Coisa que levou Puckerman se aproximar de mim e esse mesmo inconsequente me embebedou e me levou para cama. Disso tudo, nasceu Beth, e, devido à dor em que sinto em ter que deixar minha filha, evito com todas as minhas forças tocar nesse assunto. A fé extinguiu-se com o tempo, assim como minha moral. Com tudo isso, meus pais viram que eu não era mais a filha perfeita. Que eu não dependia mais deles e que eu já não ia mais atrás do que eles falavam. Então por quê? Por que eu ainda fazia uma coisa mesmo contra minha vontade? Por quê? De fato, Santana estava certa. Eu estava obcecada por Rachel (não que eu não soubesse disso antes, mas...).
“Santana, ai meu Deus...” Tudo começou a fazer sentido: slushies, xingamentos, humilhações, desenhos pornográficos, tudo. De alguma forma, eu sempre tinha que mantê-la perto de mim. Mesmo que para isso eu tivesse que fazê-la sofrer. “Ela tá indo embora e... eu não posso.”
“É evidente que você pode, Quinn. O que tá te impedindo?” Processei rapidamente isso e... nada. Nada estava realmente me impedindo. “E fora que eu também me sinto da mesma forma em relação à Brittany...” A olhei com as sobrancelhas erguidas em sinal de surpresa. Mas é claro né, Quinn. Como você não reparou antes? “Mas estamos falando de você agora e...” Ela olhou brevemente em seu relógio de pulso “Nesse momento, Rachel está se preparando para embarcar para nunca mais voltar.” Essas palavras me fizeram chorar. Chorar muito. Feito criança. “Reage, Quinn. Ela não pode embarcar sem saber como você se sente. Vai atrás dela, Fabray!”
Santana estava certa. Eu precisava falar pra Rachel que todo o mal que eu fiz para ela, era o contrário do que eu sentia. Murmurei um ‘obrigada’ para Santana e saí correndo feito doida pelo McKinley até o estacionamento. E para aumentar meu desespero, ao chegar ao meu carro, me dei conta de que não estava com minha bolsa, onde as chaves estavam dentro. “Droga! Não acredito!”
Quando fui dar partida ao que seria outra maratona pelo McKinley, avistei Santana vindo de encontro a mim com minha bolsa. “O que seria de você sem mim, Fabray?” Fiz uma nota mental de agradecer eternamente por isso (e acredite, a agradeço muito).
“Convencida.” Falei antes de dar partida no carro e rumar para o aeroporto.
Cheguei ao aeroporto por volta de 11h27min. Rachel partiria 11h30min. Isso me fez ter meio que um surto de adrenalina e corri muito rápido enquanto o meu fundo musical era ‘passageiros do vôo 359 para New York. Última chamada’. Ao raciocinar isso, corri mais rápida e desesperadamente pelo aeroporto à procura de Rachel.
Depois de correr o que deu a impressão de serem intermináveis 39 km, finalmente cheguei ao portão de embarque. Avistei aquela figura morena e de estatura baixa que tanto conhecia na fila. Havia apenas duas pessoas na sua frente para entregar a passagem e partir e logo seria ela. O que fiz no momento seguinte foi involuntário. “Rachel!” Gritei em alto e bom som enquanto corria, atraindo os olhares de quem estava ao meu redor. “Rachel!” Eu gritava cada vez mais alto, coisa que agora, não só atraiu os passageiros, mas também guardas do aeroporto.
Devido à movimentação em que eu havia causado, a morena que agora deveria entregar sua passagem, passou a me encarar. Seu olhar era a coisa mais intensa que eu já tinha visto. Ao olhar para seus olhos, parecia que tudo estava em câmera lenta e a única coisa que eu conseguia ouvir naquele momento eram as batidas descompassadas do meu coração.
No tempo em que nos encaramos, eu tentava falar qualquer coisa para chamar a atenção de Rachel, mas a única coisa que consegui fazer foi me perder naquele mar de chocolate que eram os olhos dela.
Passados alguns segundos, Rachel desviou seu olhar do meu e andou para entregar sua passagem. Não Rachel, não! Não faça isso. Ela entregou sua passagem. “Rachel espera!” Distância. “Rachel!” Mais distância. “Rachel, não vai...” Vi que já era tarde de mais. “... eu te amo.” Lá fora, Rachel estava levantando vôo, direto para New York.
Flashback OFF
E foi assim que eu deixei Rachel Barbra Berry partir, e sem saber, levando meu coração consigo.
In another life, I would be your girl.
We'd keep all our promises, be us
against the world.
In another life, I would make you stay.
So I don't have to say you were.
The one that got away.
The one that got away.
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