The Night We Met - Mileven
1 A noite que nenhum de nós esperava
Notas iniciais
Mike
Era uma manhã fria e cinza de Dezembro. O meu despertador tocou às oito em ponto e eu deixei minha mão cair pesadamente sobre ele. Uma luz fraca passava através do vidro da minha janela e dava pra ouvir alguns barulhos no andar debaixo. Minha mãe provavelmente estava colocando a mesa para o café da manhã um pouco mais tarde, já que era sábado.
Eu fiz uma força imensa pra sair debaixo dos cobertores e me sentar na cama. Sabia que qualquer garoto da minha idade ia querer aproveitar o final de semana pra ficar mais tempo deitado, mas eu tinha combinado de me encontrar com o Will e os outros. Hoje era o dia do bendito Baile da Neve, então nossas mães não iam nos deixar sair durante a tarde pra garantir que nós não íamos nos atrasar e, acima de tudo, que estivéssemos impecáveis pras fotos. Sinceramente, eu acho que esse era um evento ainda maior pra elas do que pra nós. Porcaria. Eu realmente estava desanimado pra esse baile.
Já tinha passado um mês desde a nossa última aventura. Nós tínhamos conseguido acabar com o exército de demogorgons, impedir que o devorador de mentes viesse pro nosso lado, salvar o Will e…eu consegui reencontra-la. El. Sim, sem ela nada disso teria sido possível.
Eu tinha passado quase um ano (trezentos e cinquenta e três dias para ser mais exato) tentando me contactar com ela, depois que ela nos salvou do demagorgon e desapareceu sem deixar rastros. Nesse tempo que passou eu nunca deixei de acreditar que ela estivesse em algum lugar, perto o bastante pra que eu pudesse senti-la o tempo todo enquanto chamava por ela no rádio, mas ao mesmo tempo longe demais pra que eu pudesse alcança-la. Eu estava feliz só com o fato de que ela já tinha voltado e estava tudo bem, mas ela teve que se esconder naquela cabana na floresta mais uma vez sem poder sair.
A gente tinha se comunicado umas quatro vezes nesse meio tempo, três delas em segredo. O Hopper não queria que a El usasse seus poderes pra se comunicar porque tinha receio de que alguém(ou alguma coisa) em algum lugar pudesse estar ouvindo, e como a El não queria se desentender com ele mais uma vez, concordamos em não fazer isso (não muitas vezes).
Eu tinha ficado com bastante raiva a ponto de no princípio simplesmente ignorar aquele policial marrento todas as vezes que passava por ele. Eu sabia que o que ele estava fazendo era para o bem dela (e para o de todos nós também), mas era difícil aceitar que depois de todo esse tempo eu finalmente consegui reencontrar ela só para sermos separados de novo. Um dia, na saída da escola, ele me chamou pra conversar e me explicou que isso tudo seria temporário e permitiu que eu e a El conversássemos um pouco por telefone, então eu resolvi tentar ser mais compreensivo. Nesse mesmo dia eu aproveitei pra perguntar pra ele se tinha alguma chance da El ir ao Baile da Neve, mas ele disse que ainda era cedo demais pra ela sair e que pra segurança dela era melhor não dar nas vistas.
Após refletir sobre isso tudo por alguns minutos eu percebi que seria mais chato ainda ir naquele baile. No ano passado eu tinha convidado a El pra vir comigo, mas não deu muito certo levando em conta que ela desapareceu em pleno ar antes que eu tivesse qualquer chance de sequer pensar em tira-la pra dançar. Agora ia ter que passar a noite vendo o pessoal se divertindo e dançando enquanto eu ia ficar esperando alguém que nunca poderia estar lá. Bem, pelo menos os meus amigos iam estar comigo e todos nós sofreríamos do mesmo problema.
Acabei acordando das minhas divagações quando olhei pro relógio e percebi que já eram oito e vinte e eu tinha combinado de me encontrar com os outros às nove no parque. Levantei com um salto da cama e corri até o banheiro. Lavei o rosto e rapidamente escovei os dentes, penteei meus cabelos bagunçados e depois voltei ao meu quarto. Troquei o meu pijama do Stark Trek por uma camisa de mangas compridas (tinha uma gola branca e era listrada com cores azul-cinza e alguns detalhes em preto, amarelo e branco), uma calça jeans azul-escuro e desci para o andar debaixo levando um casaco dourado-pálido que tinha o interior tingido em um castanho-avermelhado, debaixo do braço.
Quando cheguei na cozinha, meu pai já estava sentado na mesa lendo o jornal e tomando uma xícara de café enquanto minha mãe terminava de colocar as panquecas na mesa.
— Bom dia, querido – minha mãe falou com um sorriso no rosto. – Você vai sair? – ela questionou observando meu semblante e o casaco que eu segurava.
— Sim – eu respondi já sentando em uma cadeira e servindo algumas panquecas no prato que estava em minha frente. – Eu combinei de aproveitar a manhã pra sair com o Will e os outros.
— Ah! Certo, só não esqueça de estar aqui na hora do almoço. E hoje a tarde nós vamos…
— Eu sei mãe! – eu interrompi antes que ela terminasse – Vamos nos preparar pro “grande evento” de hoje a noite. – falei revirando os olhos enquanto colocava um pedaço de panqueca na boca.
— Exatamente – ela falou com empolgação – o Baile da Neve é uma data muito especial para um jovem rapaz como você, Michael. Na minha época...
Minha mãe prosseguiu interminavelmente sobre os bailes de inverno da sua juventude. É. Definitivamente esse ia ser um grandioso evento. PRA ELA.
Eleven
Eram nove e meia da manhã quando eu terminei de arrumar a cabana toda. Mesmo sozinha, não foi nada complicado com a ajuda dos meus poderes. Tinha até levantado aquela coisa grande que se usa para colocar livros…qual o nome mesmo? Estande? Estente? Bem, eu tinha levantado ela no ar por um longo minuto para varrer em baixo e não tive problema algum. Eu sentia que depois que a Kali me ensinou a focalizar minhas capacidades, e com todo o tempo livre que eu tive ao longo do último mês, eu tinha encontrado uma maneira de usar meus sentimentos em conjunto com elas. E não apenas aquele sentimento ruim(raiva?), mas inclusive as coisas que me faziam sorrir. Percebi que enquanto as emoções negativas serviam como combustível pra liberar minha energia ao máximo, as boas serviam como uma espécie de âncora que me puxavam pra um alvo que eu quisesse atingir.
Eu costumava fazer pequenos desafios mentais pra mim mesma durante esse tempo para ajudar no meu treinamento e criava recompensas imaginárias. Como por exemplo, se eu conseguisse mudar o sofá de lugar enquanto fazia o espanador tirar o pó da “estande”, o Hopper me daria os melhores waffles do mundo ou, se eu conseguisse escrever o meu nome no ar com uma pedra sem deixa-la cair enquanto mudava os canais de televisão, eu poderia passear o dia inteiro pela cidade. Ou também, se eu conseguisse dominar completamente as minhas habilidades a ponto de fazer todas as coisas que costumavam ser impossíveis pra mim, eu poderia ver o Mike.
Eu tinha saudades do Mike. Hopper tinha pedido pra mim manter distância dele novamente até as coisas se acalmarem, mas ele deixou que a gente se falasse por telefone uma vez, então eu quis acreditar que ele não estava mentindo agora. Apesar disso, eu não pude deixar de me contatar com ele algumas vezes quando estava sozinha. Eu estava preocupada que pudéssemos ficar distantes um do outro de novo e não conseguia evitar ter aquela sensação estranha no peito quando lembrava que ele estava na escola, se divertindo com os outros e com aquela garota também. Era complicado entender bem o que era aquilo, afinal era algo eu não sentia quando via ele com o Will, Dustin ou Lucas. Ela também era amiga deles, como eu, então não deveria ser estranho.
Lembrei que o Mike me disse que comigo as coisas eram diferentes na vez que ele me chamou para ir ao “Baile da Neve”. Eu não entendi muito bem o que ele disse. Haviam muitas coisas que eu não compreendia bem ainda, mas o que ele fez em seguida, quando tocou os lábios dele nos meus (eu vi na tv que eles chamam aquilo de “beijo”, eu acho), me fez entender um pouco o que ele estava dizendo. O que eu sentia quando estava junto do Mike era diferente do que eu sentia quando estava com os outros. Era algo como um formigamento que estava em todo lugar e me dava um frio na barriga. Algo que me deixava inquieta e insegura, mas que também me fazia querer estar mais perto dele. E, eu não sei bem dizer o porquê, acho que aquilo me dizia que eu também queria que as coisas fossem diferentes desse jeito pra ele. Foi por isso eu fiquei tão brava quando vi aquela garota com ele. Eu não queria que ele sentisse isso com ela e isso não me deixava apenas com raiva. Me dava medo.
Eu tentei tirar tudo aquilo da minha cabeça, pois eu já estava ficando confusa demais com tantas coisas que eu não conseguia perceber nem explicar. Fui até a geladeira e peguei um pedaço de uma panqueca que tinha sobrado do nosso café da manhã. O Hopper tinha saído logo cedo dizendo que tinha algumas coisas pra resolver e alguém pra encontrar, mas que voltava logo, então eu resolvi limpar tudo enquanto ele não estava.
Liguei a televisão para me distrair um pouco. Fui trocando de canais enquanto comia e parava esporadicamente em alguns. Na NBC estava passando a série sobre uma garotinha que foi abandonada pelos pais e acabou vivendo em um apartamento vago ao lado de seu cão, Brandon, onde fez vários amigos e passou por divertidos momentos. No canal seguinte passava um desenho animado. Um homem loiro com muitos músculos levantava uma espada para o alto e gritava “Pelos poderes de Grayskull! Eu tenho a força!”. Eu tinha visto aquele desenho pela primeira vez na casa do Mike. Troquei de canal mais uma vez. Dessa vez era uma cena com muitas pessoas jovens. O cenário estava bastante iluminado e tinha uma decoração bonita. Uma música bastante animada estava tocando e os rapazes usavam um estilo de roupas que nos filmes só eram usadas em ocasiões importantes. As meninas usavam vestidos bonitos de diferentes cores. Todos estavam dançando e sorrindo. Aparentemente cada um tinha seu momento para ir ao centro e fazer alguma dança peculiar enquanto os outros aplaudiam na volta. Aquilo deveria ser um baile e eu pensei o quanto deveria ser divertido. O quanto Mike e os outros iriam se divertir no Baile da Neve e eu não poderia estar lá pra acompanha-los.
Antes que eu pudesse ficar deprimida, ouvi algumas batidas na porta. Era o código morse que o Hopper tinha me ensinado, indicando que era ele quem estava batendo. Olhei para o relógio na parede e percebi que o tempo tinha passado sem que eu desse conta pois já passavam das onze horas. Fui até a porta, destranquei todas as fechaduras e a abri. Hopper entrou com algumas sacolas nas mãos.
— Você demorou – eu disse observando enquanto ele largava as sacolas e pendurava o casaco. – O que são todas essas coisas? – indaguei. Era bastante incomum ele trazer tanta coisa em uma saída pela manhã.
Ele virou pra mim com um leve sorriso no rosto.
— Se prepare, garota. Hoje vai ser uma noite especial pra você.
Mike
— Sério, eu não sei o que aquela garota tem de errado – Lucas comentava inconformado balançando a cabeça depois de contar pra nós como a irmã dele tinha quebrado o walkie-talkie que ele usava pra se comunicar conosco. – Ela simplesmente não consegue ficar longe do meu quarto e das minhas coisas!
— Você devia trocar ela por um cachorrinho – sugeriu Dustin, enquanto tirava alguns salgadinhos de um pacote e colocava na boca – Acho que os seus pais nem iam perceber.
— Cara, eu trocava ela por um demogorgon se me dessem a escolha! – Lucas disse com convicção enquanto Will ria.
— Você devia tentar se entender com ela – Will disse em um tom de conciliação, que era comum dele – ainda te faltam alguns anos pra sair de casa e ela também vai estar por lá nesse meio tempo.
— Will…você não entende. Você e o Mike tem sorte de terem irmãos mais velhos. Aquela garota é a personificação do lado sombrio da força. – Lucas falou deprimido fazendo um movimento Jedi com sua mão no ar e todos riram.
Apesar do frio, estávamos todos sentados em um banco de pedra no meio do parque. Nossas bicicletas estavam jogadas um pouco mais a frente e vez ou outra passava alguma pessoa correndo pela rua. Eu estava mais quieto do que de costume. As coisas que me incomodaram de manhã cedo ainda estavam na minha cabeça.
— Então, galera. Prontos pra hoje a noite? – Dustin perguntou mostrando o sorriso que ele tanto gostava de exibir desde que tinha seus dentes.
Eu revirei os olhos, enquanto Will demonstrou um pouco de empolgação. Lucas parecia ansioso, mas eu também podia perceber algum nervosismo no rosto dele. Eu sabia que ele queria ter convidado a Max, mas não conseguiu juntar coragem no fim, então ele devia estar apostando que ia ter uma chance de estar com ela hoje a noite.
— Vai ser divertido – Will disse olhando pra mim provavelmente percebendo o desânimo que eu estava expressando.
— É. – eu respondi com uma voz fraca.
— Ah, relaxa, Mike – Dustin disse dando um tapinha nas minhas costas – nenhum de nós tem par, vamos ser os quatro esquisitos de sempre da escola, só que agora no Baile da Neve – ele disse abrindo um enorme sorriso novamente como se aquilo fosse algo pra se orgulhar. Lucas apenas colocou a mão no rosto e balançou a cabeça enquanto Will ria.
— Eu não me importo de ser esquisito, desde que seja com vocês. – Will disse com sinceridade – Acho que pra quem é considerado como o “garoto zumbi” isso é uma tarefa fácil.
Pela primeira vez eu percebi que o Will realmente estava interessado no baile. Acho que não era no baile em si. Ele só queria aproveitar momentos como esse, se divertindo com a gente depois de todos as coisas pelas quais ele tinha passado. Na verdade, eu estive tão preocupado com meus próprios problemas que acabei esquecendo que o meu melhor amigo tinha tido problemas ainda maiores que os meus e estava tentando retomar a vida normal dele. Aquilo me fez sentir um pouco culpado, então eu decidi dar o melhor de mim pra tentar parecer mais excitado com a ideia de participar no Baile com eles.
— É, você tem razão – eu disse com mais entusiasmo em resposta ao comentário de Will – Depois de tudo que a gente enfrentou, um baile não é problema algum.
— Esse é o espirito, meu rapaz! – Dustin entoou com uma voz alta e Will sorriu. Lucas também parecia ter ficado mais animado em ver que eu tinha “me juntado ao grupo”.
— Ahnn então…Lucas. Aposto que eu dou uma volta no quarteirão mais rápido do que você – Dustin disse apontando para nossas bicicletas com a cabeça. – O perdedor tem que tentar conseguir uma dança com a Stacey Miller!
— Cara, primeiro, por que diabos eu ia querer chamar a Stacey Miller pra dançar? Aquela garota é uma metida e ela te chamava de desdentado até você ganhar dentes – Lucas falou franzindo a testa e balançando a cabeça – Segundo, você é a pessoa mais fácil de passar pra trás.
— Há, isso eu quero ver! – Dustin brandou em tom de desafio.
— DEMOCÃO, DEMOCÃO! – Lucas gritou mudando sua expressão facial para uma de espanto e apontando para as costas de Dustin.
— Onde?! – Dustin pulou virando-se instantaneamente para trás enquanto Lucas corria para sua bicicleta e eu e Will riamos. – Lucas, seu filho da…- ele saiu correndo em direção à própria bicicleta antes de terminar a frase e ambos começaram a corrida no quarteirão.
Nós observamos os dois até saírem do nosso campo de visão. Depois ficamos observando em silêncio, por alguns segundos a rua vazia, algo que era comum em uma manhã de sábado em uma cidade como Hawkins.
— Ei, Will – eu falei virando minha cabeça para ele – desculpe não ter estado tão empolgado pra esse baile quanto eu deveria. Eu sei que é importante pra você se divertir com a gente.
Will apenas balançou a cabeça, sorrindo.
— Tudo bem, Mike. Eu sei que você gostaria que a El também fosse e eu acho que eu no seu lugar também estaria desanimado – ele disse demonstrando a compreensão que eu nunca conseguia ter acerca das coisas que me incomodavam, mas que parecia vir naturalmente à ele.
— É, mas eu também quero tentar aproveitar essa noite pra me divertir com meus melhores amigos – eu disse esboçando um meio sorriso.
O mínimo que eu podia fazer para retribuir a compreensão dele era um esforço para desfrutar o momento que viria e tornar as coisas mais agradáveis o possível para que o Will percebesse que tudo tinha voltado ao normal.
— Então vamos ser esquisitos hoje juntos? – Will perguntou ironicamente estendendo sua mão para mim.
— Com certeza! – eu concordei firmemente e apertei a mão dele.
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