The New Us.
8 A decisão.
– Tem certeza que está tudo bem? – Tony perguntou enquanto dirigia. Ziva estava quieta, submersa em seus próprios pensamentos.
– Sim, eu só estou um pouco confusa. Não me lembro direito do que aconteceu enquanto eu estava desmemoriada, algumas coisas de que me lembro parecem bem... Improváveis.
Dinozzo se calou. Se era do beijo que ela estava falando, ele não iria dizer nada a respeito. Ela não era ela mesma. Não tinha que trazer isso a tona agora. Parou em frente seu prédio e eles subiram em silêncio. Ele disse que faria algo para que os dois pudessem comer, e ela tirou as malas e as colocou no chão. Parou para observar. O apartamento era impecável, totalmente diferente de sua mesa no escritório. Havia até mesmo um pequeno peixe dourado em sua sala, nadando em círculos. Dvds de todos os tipos estavam arrumados em ordem alfabética em uma prateleira, que também continha algumas fotos e condecorações.
Tony pegou suas malas e as colocou em seu próprio quarto, e ela arregalou os olhos.
– Eu durmo no sofá, pode ficar tranqüila – ele sorriu e foi para a cozinha. Ela observou algumas fotos antes de ir pra cozinha, perguntar se ele queria alguma ajuda. Cozinharam juntos, algo que ela nunca tinha feito antes. Era engraçada a forma como eles tinham que praticamente se revezar no pequeno espaço que havia ali, e de como eles conseguiram bagunçar uma área tão arrumada.
– Você quase nunca come aqui né? – ela perguntou, enquanto carregavam as panelas para a sala.
– Só em ocasiões especiais.
Os dois jantaram, e conversaram tranquilamente, como se nada tivesse acontecido. Talvez tudo que ela queria era se distrair. Então era hora de dormir. Eles já dormiram juntos em tocaias, e as vezes no escritório. Por que será que agora estavam adiando dizer o boa noite? Talvez porque nas tocaias e no escritório, a equipe toda os fazia companhia. Agora estavam sozinhos, na casa de Anthony Dinozzo. Ziva se lembrou de como sempre que eles tinham uma conversa profunda ou algo assim, um telefone tocava ou alguém chamava. Nessa noite, os dois conversaram até cansar, e nada os atrapalhou.
– Eu acho que vou pra cama. Amanhã vou até a empresa cancelar o vôo, tudo bem?
– Claro – ele sorriu – boa noite, ninja.
Ela se levantou e o abraçou. Não entendeu muito bem porque fez isso, mas fez. Então seguiu até o quarto e se trocou. Pegou algumas roupas para o dia seguinte, e se sentou na cama. Uma fresta da porta estava aberta, e ela observou enquanto Tony improvisava uma cama no próprio sofá e se deitava. Teve vontade de agradecê-lo por tudo, mas ele já devia estar dormindo. Ela dormiu também.
Acordou na manhã seguinte, e pensou que era muito cedo. Foi pegar seu celular, mas algo na sua mala lhe chamou a atenção. Um pequeno caderno com a seguinte frase na capa:
Para mim.
– O que diabos? – ela sussurrou, e analisou a capa, na qual ela encontrou as seguintes palavras:
Não me lembro de como era antes, mas muitas pessoas dizem que eu pareço mais feliz agora. Eu me sinto feliz, mesmo sem me lembrar de quem era, e agora começo a desconfiar que esse seja exatamente o motivo pelo qual me encontro perfeitamente contente. Talvez a antiga eu não soubesse desfrutar tudo como eu sei.
Ela sorriu. Não se lembrava de ter escrito isso. Correu algumas páginas, e haviam pequenos lembretes nos cantos das páginas, com datas. Ela estava tentando lembrar a si mesma quem era. Mencionava alguns nomes também, como o de Abby e Gibbs. Dava adjetivos a eles. Então parou em particular e começou a lê-la. Seus olhos começaram a brilhar com as lágrimas que vieram. Não podia ser. Não tinha como aquilo ser verdade. Agora ela não poderia mais negar. Pegou duas malas, as que continham o essencial, e foi até a sala. Dinozzo estava dormindo tranquilamente, exatamente como ela se lembrava. Antes de sair, deu uma ultima olhada para o homem que dormia no sofá.
– Ah to levad – ela disse, antes de sair porta afora.
Ele não estava sozinho. Mas ela, por outro lado, preferia estar. Então seguiu a caminho do aeroporto, pois tinha um vôo para pegar.
Dinozzo acordou lentamente, tentando permanecer dormindo mesmo com o sol batendo no seu rosto. Virou de todas as maneiras possíveis até desistir e levantar, contrariado. Foi até o banheiro, e passou pelo seu quarto. Quase havia se esquecido que havia visitas! Foi até o quarto, e abriu a porta bem devagar, até se lembrar que ela sairia para cancelar o vôo. Pegou algumas torradas no armário, uma pequena bandeja e se sentou no sofá. Então percebeu uma folha em cima do seu controle. Largou a torrada e pegou o papel com as duas mãos, forçando os olhos para ler.
Dia 26/12.
Ontem algo aconteceu. Eu não tinha certeza se era verdade ou não, mas agora eu me lembro de tudo. Pensei que poderia ser um sonho. Eu beijei Anthony Dinozzo. Ele me beijou. Eu estava bêbada mas me lembro claramente de chamá-lo para entrar, o que ele não fez. Que homem é esse? Ele me deu tanto apoio no hospital, e fez questão de acompanhar todo o meu processo de recuperação. Essa noite eu tive um sonho, onde eu e ele dançávamos em algum lugar. Lembrei-me do que meu pai costumava falar enquanto eu dançava sobre seus pés quando criança. Um dia eu dançaria com alguém que mereceria o meu amor. Seria Tony esse homem? Mas, se for mesmo ele, como eu vou ter certeza? Eu quero algo permanente. Abby me disse que ele sempre foi um garanhão. O amor é capaz de mudar uma pessoa?
Ele se levantou, colocou a primeira roupa que viu e correu para o carro. A resposta que ele desejava estava ali, naquela folha. Ele sabia que ela estava indo embora, só não sabia o porque. Se ela resolvesse ficar, nunca mostraria algo assim para ele. Nunca teria exposto seus sentimentos mais profundos se soubesse que o veria outra vez. Ela estava tomando a decisão errada, novamente. E ele estava a caminho de impedi-la, novamente. Será que ela não se cansava disso? Ele, definitivamente, estava cansado de arriscar tudo por ela. Mas ao mesmo tempo, sabia que faria tudo de novo. O carro deslizou pela pista molhada, e ele saltou dali rapidamente com o celular na mão.
– Ziva? O que você acha que está fazendo?
– Protegendo todos vocês.
– Está louca? Onde você está? – ele entrou no aeroporto, e começou a procurar inutilmente por ela nas filas.
– Longe. Longe o suficiente.
– Proteger a gente de que, Ziva? Volta pra casa agora mesmo!
– Tony, por causa desse emprego eu perdi minha família. Até mesmo esqueci quem eu era!
– Mas você não precisa trabalhar exatamente no NCIS – ele apoiou as mãos no balcão – pode trabalhar com qualquer coisa. E nós somos um grupo treinado de agentes, não precisamos de proteção.
– Meu pai era dono de uma agência. Era protegido o tempo inteiro, e isso não impediu sua morte. Eu amo vocês, mas não posso perder mais ninguém.
– Você está sendo totalmente egoísta.
– Tony...
– NÃO! – Ele disse, e ela se calou do outro lado – você vai escutar. Tudo o que fizemos foi te acolher, nós te ensinamos o serviço, te ensinamos como se tornar uma agente. Você se tornou uma cidadã americana! Até mesmo seu passaporte diz isso. E agora você quer largar tudo que conquistou por medo? Medo de algo que pode ou não acontecer?
– Tony, eu...
– Quer saber? Se quer fazer isso, se quer se distanciar novamente, tudo bem.Mas não espere que eu vá correndo atrás de você. Essa é sua decisão. Lide com isso.
Ela ficou em silêncio por um instante.
– Não vai dizer nada? – ele disse, abrindo a porta do carro e olhando pelo retrovisor.
– Não tenho o que dizer. Apenas... Obrigada. Por tudo.
– Não há de que – ele disse e desligou o telefone.
Estava magoado, pensou que realmente conseguisse fazê-la desistir. Aquela foi à ida para casa mais difícil da sua vida. Ir para o trabalho foi um sacrilégio, e contar a todos foi ainda pior.
Será que a sensação de vazio que sentia cada vez que olhava para sua mesa, um dia passaria? O orgulho o ajudava a se manter são. Mas o orgulho não dura pra sempre.
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