The New Girl in the House
16 Vinho
Notas iniciais
– Vem, onee-chan – disse Wataru, puxando-me até o centro da sala.
Acompanhei seus passos apressados no meu próprio ritmo, ainda segurando a mão de Louis próxima ao meu corpo. Estavam todos reunidos, alguns sentados, outros de pé. Os mais velhos – Masaomi e Ukyo – estavam parados perto de três pessoas. Um deles era Natsume, sério como em minhas memórias. Ele usava um terno cinza escuro com uma camisa branca por dentro, contrastando com sua gravata preta. Ele segurava duas garrafas de vinho francês de aparência cara, aquela visão deixou-me com uma leve vertigem. Eu já bebera vinho uma vez, quando era criança. Foi sem permissão, e eu fiquei com uma baita ressaca depois.
O segundo homem me deixou nauseada, engoli em seco. Ukyo era o homem mais alto que eu já vira, mas eu nunca tinha visto aquele homem antes. Tinha cabelos loiros e olhos castanhos, com traços faciais bem parecidos com os dos outros irmãos. Vestia um típico traje cerimonial japonês, a cor roxa me deixou ainda mais nauseada. Ele devia ter cerca de 1,85 de altura, meu queixo caiu.
A terceira pessoa era uma linda mulher, e quando digo linda, eu quis dizer “A mulher mais linda que eu já vi em toda a minha vida”. Tinha longos cabelos ondulados, era ruiva natural, outra raridade. Seus olhos verdes e espertos brilhavam em minha direção, ela exibia um sorriso gentil.
– Oh, a nossa nova irmãzinha – ela disse.
Parei de andar, franzindo as sobrancelhas em confusão. Wataru apertou minha cintura, abrindo um grande sorriso para a mulher.
– Ela não é a minha irmãzinha, ela é a minha onee-chan! – ele disse.
A mulher riu, encarando-me com um sorriso radiante. Ela veio em minha direção, tentei dar um sorriso amarelo. Acho que fiquei tão embasbacada com sua beleza que mal percebi que ela estava me abraçando, pisquei. Ofeguei baixinho, ela deu outra risadinha.
– Seja bem vinda à família, é ótimo finalmente conhecê-la – ela disse, olhando-me bem – Você é realmente linda, Louis já havia me mostrado uma foto sua, mas você é ainda mais linda pessoalmente.
Dei um sorriso hesitante, sentindo outro par de olhos me encarando. Ergui meu olhar até aquele homem loiro e alto, ele lançava-me um olhar inquietante.
– Eu não sabia que a Miwa tinha tido uma filha – comentei, confusa – E você é linda.
Todos riram, mordi o lábio. A mulher era a que mais ria, os irmãos divertiam-se com a piada pessoal. Wataru me apertou mais, segurando-se em mim para não cair no chão de tanto rir.
– Nina, este é Hikaru, o quarto filho – disse Masaomi.
Ele, Louis e Iori eram os únicos que tentavam se controlar, eles claramente estavam tentando não me humilhar tanto. Até mesmo Natsume e Ukyo riam, de uma maneira mais controlada do que os outros. Engoli em seco, sentindo um frio na barriga.
– Homem? – perguntei, encarando o suposto Hikaru – Você?
Ele lançou-me um sorriso maroto, dando uma piscadela.
– Precisa de alguma prova? – ele perguntou.
Desta vez, sua voz estava verdadeiramente masculina. Senti o rosto esquentar, arregalei os olhos. Afastei-me “dele”, tapando a boca com as duas mãos.
– Ai meu Deus! Me desculpe! – guinchei – Eu não sabia... Você parece uma...
– Hikaru é escritor, ele se veste assim para conhecer mais sobre os criminosos do sexo masculino – disse Louis – Inclusive, eu sempre arrumo os cabelos dele.
Engoli em seco, virando-me para encarar Hikaru. Ele deu um meio sorriso, dirigindo-me uma piscadinha. O outro desconhecido deu uma risada forte, quebrando o repentino clima constrangedor.
– Bem, fica até difícil ter uma apresentação marcante depois disso, mas – ele disse, vindo até mim – Sou Kaname, é um imenso prazer conhecê-la.
Dei um meio sorriso, ele tomou minha mão. Observei-o beijar minha pele de uma maneira lisonjeira e sensual ao mesmo tempo, fazendo meu coração disparar. Ele não tinha o jeito encantador de Iori ao fazê-lo, Kaname fazia aquele gesto educado parecer quase obsceno.
– Qual o seu nome, minha linda? – ele disse.
Engoli em seco, aqueles olhos intensos olhavam-me fixamente.
– Nina Kazama – respondi, hesitante – É um prazer conhecer vocês.
Eles sorriram para mim, desviei o olhar. Confundir Hikaru com uma mulher tinha sido um golpe e tanto no meu orgulho, eu poderia me enfiar em um buraco e passar o resto da noite dentro dele sem problema algum.
– Bom, já que estamos todos juntos, é melhor irmos jantar – disse Masaomi, sorrindo.
Os outros assentiram, senti o olhar de Hikaru em meu rosto. A maioria dos irmãos dirigiu-se à mesa, Wataru foi um dos primeiros. Natsume, Kaname, Hikaru, Louis e eu esperamos até que todos tivessem ido, o silêncio que tinha formado-se estava me incomodando. Louis pegou minha mão, ergui meu rosto devagar. Ele sorria gentilmente para mim, não pude conter um leve sorriso.
– Vamos? – disse.
Sua voz suave acalmou meus ânimos, meu sorriso cresceu um pouco.
Sacudi a cabeça, voltando-me para a sala de jantar. Ergui meu rosto, encontrando um par de olhos pequenos e estranhos me encarando.
Gritei com toda a força que consegui achar, meu corpo deu um impulso para trás. A criatura soltou um guincho estranho, meu corpo tremeu.
– Um rato! – berrei.
Dei um pulo para trás, a cauda do bicho se eriçou.
– Nina?! – chamou Louis.
Agarrei o braço de quem estava ao meu lado, ou seja, Natsume. Ele se assustou com minha ação repentina, não deixei aquilo me abalar. Puxei seu corpo para a minha frente, como se ele fosse um escudo.
– Um rato! – repeti – Eu tenho medo de ratos!
O corpo de Natsume deu um solavanco, agarrei-lhe com força.
– Nina, fica calma – disse a voz pacífica de Louis, ele estava rindo – Não é um rato, este é Juli, o esquilo de estimação da Ema.
Engoli em seco, fechando meus olhos bem apertados. Só soltei Natsume quando o mesmo soltou meus braços de si, afastando-se de mim o suficiente para que eu visse, assim que abri os olhos, que eles estava muito corado.
– Que susto, garota! – ele disse, afastando-se de mim – Não devia apertar as pessoas com força.
Ouvi Hikaru rir, sendo seguido por Louis e Kaname. Encarei a criatura no ombro esquerdo de Louis, aqueles olhinhos pretos me deram arrepios.
– Eu não fiz por mal, eu tenho medo de ratos desde pequena. Alguns médicos já disseram que é fobia, eu quase morri de susto quando tinha cinco anos – expliquei – E ele parece um rato, eu não me controlei.
Kaname e Hikaru riram baixo, Louis sorriu de forma afetuosa para mim.
– Não precisa ter medo, ele é um ótimo amigo – disse, acariciando o animal – Juli pode ser pequeno, mas é um ótimo confidente e dá ótimos conselhos.
Estremeci, tentando não encarar demais o esquilo.
– Você fala como se ele pudesse te responder – falei.
Louis abriu um sorriso cintilante, como se desfrutasse uma piada interna. Deixei aquilo de lado, lançando um olhar de soslaio para Natsume.
– Desculpe por ter te agarrado – falei.
Ele fez um gesto com a cabeça, ainda corado. Seu corpo estava rijo, como se ele tivesse virado estatua.
– Está tudo bem – ele disse.
Assenti, Louis depositou o esquilo no chão.
– Nos falamos melhor depois, Juli – ele disse, voltando seu olhar para mim – Está mais calma? Vamos agora?
– Vamos – respondi.
Ele sorriu ternamente para mim, aquele sorriso acabou de vez com minha vergonha momentânea. Louis e eu fomos à mesa, sendo seguidos pelos outros dois irmãos. Onze dos meus catorze irmãos já encontravam-se em seus devidos lugares, Wataru estava entre Ema e Masaomi, fazendo-me soltar um pequeno suspiro. Haviam quatro lugares disponíveis, e dois deles seriam ocupados por Louis e por mim. Hikaru ou Natsume iriam sentar ao meu lado, e eu não estava nada ansiosa para descobrir que seria.
– Vai sentar ou vamos te esperar eternamente? – resmungou Fuuto, olhando-me de forma infame.
Bufei, Natsume franziu o cenho.
– Com quem você falou? – perguntou, encarando o cantorzinho da família.
Fuuto revirou os olhos, Natsume esperou.
– Não foi com você, se é o que quer saber – respondeu Fuuto, bufando – Eu falei com a bonitinha que está paradona como se todos aqui estivessem à sua disposição.
Natsume, Hikaru e Kaname me encararam, um pouco surpresos. Os outros já estavam acostumados com nossas brigas diárias, Louis sacudiu a cabeça.
– Vá se ferrar, Fuuto, meu querido – respondi.
Ele riu, revirei os olhos, mas dei uma risadinha. Senti os olhares de Natsume, Kaname e Hikaru seguirem-me até uma cadeira aleatória, escolhi a mais próxima de Wataru que pude. Louis sentou-se ao meu lado, rindo baixinho do que eu dissera. Hikaru e Natsume sentaram um do lado do outro, fazendo com que Natsume ficasse ao meu lado. Soltei um suspiro, sentindo-me minimamente aliviada. Não que ele fosse menos intimidante, mas eu nunca chamara Natsume de mulher.
– O cardápio do hoje é especial, receitas italianas que Ema pesquisou – disse Ukyo.
Sua voz parecia transbordar de orgulho, Ema corou um pouco.
– Bom, se tem Lasagna Bolognese, eu to dentro – falei.
Alguns deles riram, Fuuto revirou os olhos.
– Gulosa do jeito que você é, você estaria dentro de qualquer coisa – ele disse.
Quase todos riram agora, Natsume e Ukyo me olharam, como se esperassem pela minha reação.
– Você me conhece bem – falei, apontando para Fuuto com meu garfo – Se a Ema cozinhar, eu como até merda.
Percebi tarde demais que havia dito uma palavra baixa na hora do jantar, todos me olharam.
– Nina, eu tenho certeza de que Ema ficou feliz, mas tente maneirar no palavreado enquanto estamos jantando – disse Masaomi.
Assenti, dando um sorriso sem graça.
– Eu já desconfiava que você comia merda mesmo, sendo assim tão idiota – disse Fuuto.
Semicerrei os olhos, Wataru, Tsubaki, Louis e até mesmo Hikaru soltaram risadas escandalosas. Fuuto abriu um sorriso falso para mim, piscando uma vez.
– Quem come merda aqui é você, seu cantorzinho de meia tigela. Só comendo merda que um cantor pode imitar movimentos sexuais em um clipe, tem criança assistindo também – retruquei.
Ele semicerrou os olhos, bufando uma vez. Yusuke, Tsubaki, Louis e Hikaru riram, Wataru não pareceu compreender muito bem o que eu quis dizer daquela vez.
– Sabe o que significa a palavra marketing? Nem todas as garotas são grossas como você, minhas fãs pelo menos sabem ser femininas – disse Fuuto.
Escancarei a boca, erguendo-me um pouco da cadeira.
– Eu não sou feminina?! – guinchei.
Fuuto negou com a cabeça, lançando-me um olhar infame.
– Nem um pouco – ele disse – Se você não tivesse esses peitos, eu diria que você era um travesti.
Ema arregalou os olhos, cobrindo a boca com a mão. Louis, Iori, Azusa e Wataru fizeram cara feia para Fuuto, o pequeno foi o mais parecia estar com raiva.
– Repete se for homem! – berrei, empurrando minha cadeira para trás e ficando de pé por inteiro.
Fuuto levantou-se minimamente também, encarando-me como um leão encara sua presa.
– Você, Nina Kazama, mais parece um travesti do que uma garota – ele disse.
Avancei em sua direção, os outros irmãos também manifestaram-se. Tsubaki ria como se estivesse assistindo uma comédia, Azusa parecia estar controlando-se. Louis segurou-me pelo braço, Natsume apenas encarou-me.
– Eu não pensei que você iria mesmo repetir, já que nem homem você é! – falei.
Fuuto levantou-se por completo, paramos frente a frente na mesa.
– Repete se for mulher! – ele disse.
Encarei-o com força, ele fez o mesmo. Sustentamos o olhar um do outro durante um tempo, o clima tenso estava denso como cimento.
– Você não parece homem, Fuuto Asahina – falei – E digo mais, eu mesma sou mais masculina do que você.
A boca de Fuuto repuxou-se minimamente, fazendo minha pose irritada vacilar por um segundo. Tsubaki ainda ria, mas controlava suas risadas para poder assistir nossa pequena cena. Por fim, não aguentei, cedendo um sorriso a Fuuto. Ele também sorriu, e quando me dei conta, ambos já estávamos rindo. Sentei-me novamente, Fuuto fez o mesmo. Nossos irmãos olhavam para nós sem dizer nada, Tsubaki ainda ria, agora com Yusuke como sua companhia.
– Francamente, de onde você tirou essa ideia de que é mais masculina do que eu? – disse Fuuto, parando de rir por um segundo – Você é tão fresca que as vezes eu penso: “Será que ela veio mesmo de um orfanato? Ela já devia ter virado purê”.
Ri, sacudindo a cabeça.
– E que história é essa de que eu pareço um travesti? Eu posso não ser uma modelo, mas eu tenho curvas – falei.
Ele riu, assentindo de leve.
– Cantorzinho de meia tigela? De onde você tirou essa? Do baú da sua avó? – perguntou.
Ri de novo, ele me acompanhou. Alguns dos nossos irmãos exibiam expressões de completa confusão, outros apenas sacudiam as cabeças, como se não acreditassem na nossa infantilidade.
– Será que esse jantar de família vai poder correr sem que haja uma discussão absurdamente idiota? – perguntou Masaomi, sério.
Engoli uma risada, encarando Fuuto. Ele também me encarava, trocamos sorrisos cúmplices.
– Isso parecia aquelas conversas que sempre acabam na cama – disse Kaname, lançando-me um sorriso enigmático – Quando me disseram que você era quietinha, eu até acreditei. Mas assim que vi essa sua carinha travessa pela primeira vez, eu soube que era apenas uma capa.
Inalei profundamente, Kaname abriu um sorriso lento.
– Conversas que terminam na cama, que ridículo – disse Fuuto – Como se eu fosse querer ir para a cama com a Nina, ela é muito chata para isso.
Abri parcialmente minha boca, Tsubaki bufou.
– Disso eu duvido – ele disse – Se fizéssemos uma enquete, apenas com nós treze, sobre quem gostaria de levar a Nina para a cama, apenas o Wataru iria ter dúvidas.
Arregalei os olhos, Fuuto bufou.
– Acho que o cara que levou ela para a cama pela primeira vez deve estar arrependido até hoje – ele disse.
Iori tossiu, chamando a atenção de quase todos os presentes.
– A Nina é virgem – ele disse, repentinamente sério.
Meus olhos quase saltaram de suas órbitas, minha boca se abriu.
– É sério, Nina? – perguntou Kaname, olhando-me com um sorriso incrédulo – Você já teve um namorado?
Dei um tapa na mesa, quase erguendo-me outra vez.
– E quando o tópico principal dessa conversa passou a ser a minha sexualidade?! – guinchei – Eu concordo com o Masa, isso aqui não está parecendo nada com um jantar de família.
Fuuto, Tsubaki e Kaname bufaram, encarei o cantor com raiva.
– Vai, responde – disse ele – Já teve um namorado ou seu lacre ainda está intacto?
Ema engasgou-se, ficando visivelmente desesperada. Arregalei os olhos, Ukyo olhou para Fuuto com uma expressão repreensiva.
– Fuuto, Nina, agora já chega! – ele disse – E para os três marmanjos aí: Respeitem a Nina. Não se fala assim com uma garota, saberiam disso se tivessem um pingo de educação.
Kaname, Fuuto e Tsubaki reviraram os olhos, respirei fundo.
– Tudo bem, Mama – disse Fuuto.
Ukyo levou sua mão ao rosto, sua pele estava muito vermelha.
– Vocês sabem que eu odeio quando vocês me chamam de mama, eu não vou repetir isso outra vez – ele disse – Agora chega, isso aqui está parecendo mais um bar medíocre.
Fuuto revirou os olhos, mas calou a boca. Fingi que não estava sentido o olhar de todos os homens presentes em mim, concentrei-me em servir-me de lasanha.
– Eu não entendi nada – disse Wataru, cruzando os braços em irritação – A onee-chan tem lacre onde?
Arregalei os olhos, alguns se seguraram para não rir.
Coisa que Fuuto, Yusuke, Tsubaki, Hikaru, Kaname é até mesmo Masaomi não conseguiram fazer, começando uma nova sessão de gargalhadas.
– Eu explico, todas as mulheres tem uma membrana chamada hímen, e quando elas... – começou Masaomi.
– Pode parar por aí! – guinchei – Wataru, eu não tenho lacre nenhum.
Fuuto riu, Tsubaki me encarou.
– Já tirou seu lacre? – perguntou.
– Eu já mandei pararem! – mandou Ukyo.
Sua voz ressoou com tanta potência que ninguém mais voltou a falar, baixei a cabeça, encarando meu pedaço intocado de lasanha. O silêncio reinou logo após aquilo, fiquei com aquela discussão na cabeça.
Poxa, como eles podem dizer que eu não estava entrosada com eles depois daquilo? Nem com Akira eu comento minha sexualidade, e ele é meu namorado. Nunca me senti tão exposta, em apenas alguns minutos, eles fizeram exatamente tudo aquilo que eu não queria que eles fizessem: Me deixaram envergonhada.
Senti um toque macio e levemente quente em minha bochecha, ergui rapidamente meu olhar. Louis me encarava suavemente, um sorriso gentil repousava em seus lábios. Seus dedos afagaram minha bochecha suavemente, chamando minha atenção.
– Não vai comer, Nina? – perguntou.
Percebi que estava apenas girando o garfo nos dedos apenas naquele momento, e três dos meus irmãos estavam me observando: Louis, Iori e Natsume.
Este último era o que mais me intimidava, já que não havia se pronunciado em momento algum, mesmo durante as discussões anteriores. Seu olhar era intenso, ligeiramente crítico. Senti como se estivesse sendo julgada por um juiz criminal, engoli em seco. Tentei focar em Louis, não foi tão difícil.
– Essa discussão fez sua fome sumir? – perguntou Louis, lançando-me aquele olhar gentil e amável de sempre.
– Um pouco – respondi – Na verdade, eu estava apenas pensativa.
Ele assentiu devagar, encarando minha mão.
– A lasanha está ótima, acho que você devia provar – ele disse, sorrindo de leve.
Sorri de volta, assentindo rapidamente. Foquei-me na comida, cortando um pedaço e levando-o à boca com o garfo. Mastiguei devagar, sentindo uma sensação maravilhosa me encher.
– Wow – falei – A Ema é demais.
Louis deu uma risadinha, fiz o mesmo.
– Se arrepende por não ter comido antes? – ele perguntou.
Ri, assentindo. Ele me acompanhou naquela risada calma, senti como se todo o meu constrangimento anterior tivesse sido dissolvido com o som da risada de Louis.
– Louis, aceita um pouco de vinho? – perguntou alguém.
Louis ergueu a cabeça, fazendo minha risada morrer gradativamente. Quem nos interrompera foi Ukyo, ele estendia uma garrafa de vinho com a mão direita.
– Por favor – respondeu Louis.
O loiro assentiu, pegando a taça do irmão. Observei-o servir o vinho, o cheiro forte logo me atingiu. Engoli em seco, sentindo uma leve vertigem me atingir. Louis agradeceu e pegou a taça da mão de Ukyo, que foi servir Natsume sem nem notar minha existência.
– E ela? – perguntou Natsume, indicando-me com um aceno de cabeça.
Ukyo olhou-me rapidamente, eu ainda estava arrepiada pela forma como Natsume havia se referido a mim.
– Nina tem quinze anos, ela ainda não bebe – respondeu Ukyo.
Natsume assentiu, evitei olha-lo.
– Na verdade, eu tenho 16 anos – falei – E já bebi vinho uma vez, quando era criança.
Agora que não pude fugir do olhar de Natsume, mas fiz o possível para encarar Ukyo sem que aquilo me abalasse.
– Seus pais deixaram você beber? – perguntou Ukyo.
Neguei com a cabeça, dando um meio sorriso.
– Eu era travessa – falei – Esperei até eles estarem distraídos, e então, virei uma taça cheia na boca.
Concluí minha frase com uma risadinha, ouvi Louis rir ao meu lado.
– Mesmo assim, não posso servir bebida alcoólica à uma garota menor de idade – disse Ukyo.
Pude ouvir alguém bufar, percebi que tinha sido Kaname apenas quando ouvi a voz dele entrar na conversa.
– Você não precisa ser um advogado até em um jantar em família, Ukyo – ele disse, encarando o irmão.
Ukyo sacudiu a cabeça, ignorando a intervenção do irmão mais novo.
– Quer tomar um pouco do meu? – perguntou Kaname, estendendo a taça em minha direção.
Coloquei as mãos a frente do corpo, fazendo uma ligeira careta.
– Não, obrigada – falei – Ukyo está certo, e além do mais, eu tenho aula amanhã.
Kaname assentiu, Ukyo não me encarou, mas pude ver um leve sorriso em seus lábios. Sorri para mesa, voltando a comer meu pedaço de lasanha. Comi em silencio durante um tempo, apenas ouvindo as vozes de meus irmãos conversarem uns com os outros. Masaomi e Ukyo conversavam com Hikaru, o ruivo ria suavemente, segurando sua taça de vinho. Ele era realmente muito gracioso, eu ainda me senti mal por tê-lo confundido com uma mulher, mas seria difícil alguém não o confundir com uma mulher.
Subaru e Ema conversavam, ou melhor, trocavam algumas palavras. Ambos eram tímidos demais para conversarem de verdade, fora que o olhar que Yusuke lançava ao irmão cada vez que ele olhava no rosto de Ema dava calafrios até mesmo em mim.
Iori, Azusa e Tsubaki conversavam com Fuuto, o mais novo sempre soltava algum comentário infame que os fazia revirar os olhos, acabei sorrindo com isso.
Wataru comia em silêncio, apenas desfrutando de seu terceiro pedaço de lasanha. Eu dava completa razão ao pequeno, mas não consegui entender como ele conseguia comer daquela maneira.
Kaname e Natsume conversavam baixinho, e mesmo estando bem perto desse último, eu ainda não podia entender o que diziam. Por mais atirado que Kaname fosse, Natsume ainda era muito sério para falar alto.
Observando todos eles ali, juntos, acabei deixando um sorriso contente escapar. Miwa tivera muitos filhos, isso era inegável. Cada um ali tinha uma personalidade diferente, criar todos eles devia ter sido um desafio e tanto.
– Admirando nosso envolvimento familiar? – perguntou Louis.
Virei meu rosto para o lado, um pouco surpresa por ter ouvido sua voz tão próxima ao meu ouvido.
– Você precisa ver como todos nós ficamos durante as ceias de natal, é quase impossível fazer todos eles calarem a boca depois da sexta garrafa de vinho – ele disse, soltando uma risadinha divertida no fim da frase – Acho que você verá isso em breve, não estamos muito longe do natal.
Sorri, assentindo. Louis afastou-se um pouquinho de mim, deixando um leve cheiro de vinho para trás. Eu me sentia um pouco mal diante do cheiro de bebidas alcoólicas, mas como o cheiro vinha da boca de Louis, eu me senti inexplicavelmente aquecida.
– Quer provar um pouco? – perguntou Louis.
Pisquei, percebendo apenas naquele momento que estava encarando a taça de Louis como se não houvesse amanhã. Ele riu baixinho diante da minha expressão alarmada, seu braço envolveu meus ombros.
– Ukyo não está olhando, e só um gole não irá te deixar mal – ele disse.
Lancei-lhe um olhar de duvida, Louis riu de novo. Percebi que ele estava um pouco mais solto e alegre do que sempre era, um dos efeitos do álcool. Engoli em seco, como será que Louis ficava quando estava bêbado?
– Beba – ele disse.
Ele colocou sua taça em meus lábios, deixando-me sem saída. Louis virou levemente sua taça em minha boca, fazendo com que o líquido vermelho entrasse em minha boca. Engoli um pouco, sem poder conter uma rápida careta. Louis riu baixinho, começando a afastar sua taça de minha boca. Soltei um muxoxo de reprovação, segurando sua mão no lugar. O gosto era muito bom, muito diferente do que eu lembrava. Tomei mais alguns goles, e antes que eu percebesse, já havia esvaziado a taça de Louis. Afastei a taça da minha boca, Louis depositou-a na mesa. Engoli em seco uma vez, sentindo um sorriso tomar meus lábios.
– Isso é muito bom – comentei.
Louis riu baixinho, encolhi meus ombros um pouquinho.
– Seu halito está cheirando a vinho – ele disse, falando bem baixinho – Não deixe Ukyo perceber.
Assenti, Louis depositou um beijo suave em minha testa. Fechei os olhos sob aquele contato, sentindo sua boca afastar-se de mim um tanto cedo demais. Talvez Louis estivesse bêbado, ou talvez eu estivesse embriagada pela lasanha, mas me senti muito bem naquele momento.
– Você poderia me dar mais um pouquinho? – perguntei, erguendo meu olhar até o rosto de Louis devagar – Eu realmente gostei.
Ele riu, negando com a cabeça discretamente.
– Uma vez é o suficiente, e você bebeu uma taça cheia – ele disse – Mesmo com o estômago cheio, o vinho pode te fazer mal.
Franzi as sobrancelhas, respirando pesadamente.
– Só mais uma, por favor? – pedi.
A expressão de Louis ficou um pouco mais séria, ele me encarou.
– Já chega, Nina – ele disse – Foi o suficiente por uma noite, eu não quero que você fique bêbada.
Franzi as sobrancelhas, mas suspirei, vencida. Assenti para Louis, ele deu um sorrisinho mínimo.
– Vou buscar a sobremesa – disse Ukyo, começando a levantar-se.
– Não precisa, eu pego – disse Fuuto.
A reação foi geral, todos olharam para ele. Meu irmão revirou os olhos, Masaomi piscou.
– Você está se oferecendo para ir buscar a sobremesa? – perguntou.
– Em que parte eu gaguejei? – retrucou Fuuto.
Masaomi lançou-lhe um olhar repreensivo, Fuuto revirou os olhos.
– Está no congelador da geladeira – disse Ukyo, ligeiramente desconfiado – Traga talheres limpos.
Fuuto assentiu, erguendo-se da cadeira. Observei-o dar a volta ao redor da mesa, recebendo os olhares de todos os presentes. Só fui perceber um pouco tarde demais que ele havia vindo até mim, e puxava minha cadeira sem cerimônia alguma com apenas uma mão.
– Ei! – protestei.
Fuuto me ignorou, apenas puxou meu braço até eu estar em pé.
– Você vai me ajudar – ele disse, puxando-me em direção à cozinha.
Bufei, mas não tive alternativa a não ser segui-lo. Fuuto e eu entremos na cozinha, ele não acendeu a luz. Tentei soltar meu braço de seu aperto, mas não consegui nada além de deixa-lo irritado.
– Quer ficar quieta? – ele disse.
Bufei de novo, o silêncio se instalou perante nós. Fuuto acendeu a luz, encontrei-o diante da geladeira.
– Pega os talheres – ele disse.
Não respondi, apenas dirigi-me até a gaveta onde os talheres eram guardados. Contei quinze colherinhas de prata antes de fechar a gaveta outra vez, ouvindo o barulho que Fuuto fazia ao retirar um cumprido pirex de dentro do congelador da geladeira.
– Isso é sorvete caseiro? – perguntei, sentindo meus olhos pularem.
Fuuto riu da minha cara, esperei.
– Mamãe tem essa receita desde antes do nascimento do Hikaru, ela nunca deu para ninguém, apenas para o Ukyo – ele disse – É simplesmente uma delícia, você precisa provar.
Mordi o lábio, sacudindo meu corpo com a expectativa. Fuuto colocou o pirex na bancada da pia, preparei-me ara sair da cozinha. A luz foi apagada, senti meu braço ser puxado antes que eu conseguisse chegar à sala. Não sei se meus irmãos me viram, apenas senti minhas costas serem imprensadas contra a parede fria de azulejos.
– O que... – comecei.
– Shiu! – chiou Fuuto.
Ele tapou minha boca com sua mão, franzi as sobrancelhas. Senti o calor do seu corpo aproximar-se do meu, meu coração pareceu ter levado um choque.
– Eu vi o que você e Louis estavam fazendo lá na mesa, e acho que fui o único, todos os outros são idiotas demais para perceber que ele estava te embebedando em pleno jantar de família – ele disse, sua voz estava sarcástica como sempre – Eu me senti verdadeiramente tentado a dizer ao Ukyo o que o irmão mais comportado fez, mas vi uma coisa que me deixou intrigado.
Ele soltou uma bufada rápida, como se tentasse recobrar seu foco.
– Você e Louis são muito próximos, e você tem segredinhos com o Tsubaki – ele disse – Louis até beija você, e você deixa. Eles dois te tocam o tempo inteiro, mas quando eu chego perto, você me trata mal e se afasta de mim.
Empurrei sua mão, liberando minha boca. Estava escuro, mas pude ver relances do rosto de Fuuto apenas pela claridade que vinha da sala de jantar.
– Louis é puro, ele é bom para mim – respondi.
Fuuto pareceu ter revirado os olhos, trinquei os dentes.
– Puro, tá bom. E como explica o Tsubaki? Ele te olha como se quisesse te levar para a cama de vez em quando – ele disse – E se o Louis é assim tão puro, por que ele estava tentando te deixar bêbada?
Sacudi a cabeça, Fuuto esperou.
– Tsubaki não me olha assim, não que eu tenha visto – falei – E o Louis não estava tentando me deixar bêbada, eu pedi mais vinho, e ele recusou.
– Você nunca viu, não significa que ele nunca te olhou assim – insistiu – Por que queria tomar mais vinho, está perdendo a compostura, niña?
Trinquei os dentes, Fuuto esperou.
– Eu sei que ele é safado, quem não sabe – falei – Mas isso não significa nada, e eu não tenho segredinho com o Tsubaki.
Fuuto soltou uma risada cheia de escárnio, sacudi a cabeça.
– Vou fingir que acredito, e nem pense que vai conseguir esconder esse segredo de mim durante muito tempo – ele disse – E já que não respondeu, eu acho que você quer mesmo perder a compostura, não é mesmo, niña.
Revirei os olhos, ele riu.
– Não me chame assim – falei.
Fuuto riu de novo, senti seu corpo aproximar-se um pouco mais do meu.
– Acho que isso foi um sim – ele disse.
Senti-o aproximar-se mais, até que suas mãos encontraram meus pulsos. Fuuto segurou-me junto ao seu corpo, seu calor me atingiu como o calor de uma fogueira.
– Me solta – rosnei – Ou então...
Ele me calou ao roçar deus lábios em meu pescoço, deixando o lugar arrepiado.
– Ou então? – induziu, falando contra minha pele.
Trinquei os dentes, posicionando meu joelho no lugar certo. Ele soltou um gemido abafado quando sentiu onde eu queria chegar, afastando-se de mim bruscamente.
– Ou então pode dar adeus aos seus futuros filhos – completei.
Pude ouvi-lo rosnar de raiva, respirei fundo. Sua mão tomou meu pulso direito, puxando minha mão para cima. Senti-o colocando um objeto levemente molhado e frio em minha mão, me arrepiei pelo contato.
– O que está fazendo? – perguntei, tentando puxar minha mão de volta.
Ele puxou minha mão de volta, colocando o objeto nela outra vez.
– Segura isso direito, se você deixar cair, todos vão perceber – resmungou – Toma isso rápido, já estamos demorando demais aqui.
Senti meu coração pular uma batida, ele soltou minha mão. Apertei o copo com firmeza, engolindo em seco. Olhei para Fuuto, ele me encarava no escuro da cozinha.
– Anda logo, toma essa droga! – chiou.
Revirei os olhos, mas levei a taça até minha boca. Tomei o primeiro gole, sentindo aquele sabor levemente adocicado me preencher outra vez. Fechei meus olhos por um momento, saboreando bem o vinho. Tomei mais um gole, sentindo a taça ficar mais leve em minha mão.
– Trouxe isso para cá? – perguntei.
Fuuto revirou os olhos.
– Não, a taça veio da mesa até aqui andando sozinha – ele disse, sarcástico – Idiota, toma logo.
Revirei os olhos, deixando uma risada escapar. Tomei mais um gole, sentindo a tensão de Fuuto se esvair devagar.
– Me desculpe pela cena lá na mesa – ele disse, tão baixo que quase não pude ouvir.
Quase me engasguei com o vinho, afastei a taça da boca.
– O que? Eu ouvi direito? – falei, rindo pelo nariz – Esse foi Fuuto Asahina pedindo desculpas? Eu estou sonhando?
Ele revirou os olhos, visivelmente irritadiço.
– Você ouviu bem, eu não vou dizer de novo – ele disse.
Ri, levando a taça aos lábios outra vez. Tomei um golinho de vinho, afastando a taça da boca logo em seguida.
– Está tudo bem – falei – Você me deu vinho, então está perdoado.
Ele revirou os olhos, mas pude ver que sorria. Virei o restante do líquido na boca, estendendo a taça ao meu irmão logo em seguida.
– Obrigada – falei – Eu queria mais, mas sei que não vai dar.
Ele riu, pegando a taça da minha mão.
– Vem comigo de novo na hora de pegar os pratos de sobremesa, eu te dou mais um pouco – ele disse.
Agitei-me de expectativa, assentindo entusiasmadamente. Fuuto pegou novamente o pirex, peguei as colheres de prata de segui-o até a sala de jantar outra vez. Nossos irmãos nos observaram, Louis, Masaomi e Ukyo tinham certa desconfiança no olhar.
– Demoraram tanto assim para nem trazerem os pratos? – disse Ukyo, encarando Fuuto.
Fuuto deu de ombros, fingindo que nada havia acontecido. Por sorte, eu também era uma boa atriz.
– A idiotice da Nina nos atrapalhou muito, ela é tão idiota que nem sabe contar as colheres, e eu tive que fazer tudo sozinho – ele disse, soltando um suspiro exagerado – Nem sei como ela chegou aqui sem minha ajuda, ela é tão idiota que deveria ter um guia para ir até mesmo ao banheiro.
Revirei os olhos, passando por Fuuto com um violento roçar de corpos. Ele riu, soltando um gemido abafado quando meu cotovelo encontrou seu estomago.
– Vamos voltar para pegar os pratos, não se preocupem – falei
Fuuto assentiu, enfatizando o que eu havia dito. Observei-o encher a taça de vinho outra vez pelo canto dos olhos, tentei não sorrir, mas foi inevitável. Nossos olhos se encontraram, trocamos um sorriso cúmplice outra vez.
– Fuuto, aproveite e leve essas garrafas de vinho vazias para lá – disse Masaomi.
Ukyo negou com a cabeça, segurando uma das garrafas.
– Essa aqui ainda está pela metade – ele disse.
Fuuto dispensou-o com um aceno de mão, pegando a garrafa assim mesmo.
– Eu guardo na geladeira, ninguém aqui vai querer tomar mais vinho mesmo – ele disse.
Tentei disfarçar o sorriso enorme que nasceu em meus lábios, foi quase impossível. Passei por Louis quando estava indo à cozinha outra vez, ele lançou-me um olhar desconfiado. Fuuto e eu entramos na cozinha, e assim que nos encaramos, soltamos risadas desembestadas. Tentei fazer silencio, mas acho que o álcool já estava querendo fazer efeito, já que tudo que eu consegui com isso foi rir ainda mais.
– Cala a boca, idiota! – disse Fuuto, rindo tanto quanto eu – Eles vão desconfiar.
Tapei minha boca com as mãos, sentindo meu corpo tremer por conta do riso. Fuuto apoiou-me na bancada da pia, certificando-se de eu que estava bem segura antes de ir atrás dos pratos.
– Vai bebendo logo, se demorarmos mais, alguém pode vir – ele disse, usando sua melhor voz entrecortada.
Assenti, finalmente parando de rir. Fui em direção à taça, pegando-a sem cerimônia. Toquei o vidro com meus lábios, virando o conteúdo em minha boca logo em seguida. Não demorei muito, logo já tinha terminado de beber mais aquela taça. Fuuto ainda estava pegando os pratos, continuei com a taça na mão. Meu olhar recaiu na garrafa de vinho que ainda estava cheia, senti minha boca salivar.
– Vai com calma, niña – disse Fuuto, sem nem me encarar – Amanhã nós temos aula.
Revirei os olhos, mas ele estava certo. Me parecia muito errado querer beber tanto, mas aquele vinho tinha um gosto tão bom...
Quando me dei por mim, já estava tomando minha quarta taça. Fuuto terminou de pegar os pratinhos de sobremesa, que mais me pareciam pirex em miniatura. Observei-o depositar os pratos ao meu lado, tomei o último gole de vinho que restara na taça.
– Essa já é a quarta – Fuuto disse – Já chega, não é?
Assenti, colocando a taça na bancada da pia. Fuuto segurou meu rosto entre as mãos, pisquei duas vezes. A luz da cozinha estava me dando dor de cabeça, o rosto de Fuuto estava bem diante do meu.
– Deus, Nina – ele disse, rindo – Você tá ficando bêbada.
Ri, ele me acompanhou. Abracei Fuuto, balançando-o de um lado para o outro.
– Você é legal, sabia disso? – falei, rindo – É um idiota, mas é o idiota mais legal que eu já conheci.
Ele riu, abraçando-me de volta. Senti minha cabeça girar um pouco, Fuuto suspirou.
– Você é muito fraca, ficou bêbada com quatro taças de vinho – zombou.
– Não seja por isso – respondi.
Afastei-me dele bruscamente, Fuuto ficou me encarando. Peguei a taça de volta, assim como a garrafa de vinho. Entornei o líquido no recipiente de vidro, Fuuto ficou me encarando.
– Nina, já chega de vinho – ele disse.
Neguei com a cabeça, rindo um pouco.
– Se é para ficar bêbada, então vamos ficar bêbados – falei.
Ele sacudiu a cabeça, levei a taça aos lábios. Virei o vinho de uma vez, tomando uns dez goles, até secar a taça. Quando voltei à minha posição normal, minha cabeça girou um pouco.
– Mais – falei.
Servi mais vinho na taça, Fuuto segurou minha mão.
– Nina, agora chega – ele disse.
Bufei, puxando minha mão da dele. Acabei derramando um pouco de vinho na minha blusa, trinquei os dentes.
– Droga, Fuuto! – gritei – Idiota.
Coloquei a taça na bancada, tocando o tecido molhado da minha blusa.
– Vai ficar manchado – resmunguei.
Fuuto revirou os olhos.
– A blusa é preta, e a culpa foi toda sua – ele disse – Chega de beber.
Ele pegou a taça, levando-a para longe de mim. Soltei um muxoxo, Fuuto bebeu o vinho que eu havia servido e lavou a taça. Apoiei-me na bancada outra vez, Fuuto guardou a garrafa de vinho na geladeira outra vez. Fiquei encarando meus pés, sentindo uma sensação estranhamente boa tomar conta do meu corpo.
– Nina, olha pra mim – disse Fuuto.
Ergui meu rosto devagar, encontrando seus olhos. Nos encaramos durante alguns segundos, Fuuto parecia devorar minha expressão. Pisquei lentamente, sustentando seu olhar. Ele me olhou tão profundamente, tão intensamente, que me fez corar.
Eu nunca corava.
– Você está bêbada – concluiu.
Mordi o lábio, sentindo uma inexplicável vontade de rir. Fuuto revirou os olhos, afastando-se de mim por um momento. Ele pegou um copo comum e encheu-o de água gelada, estendendo-o para mim logo em seguida.
– Beba – ele disse.
Assenti, pegando o copo de sua mão. Tomei toda a água como se fosse o vinho, sentindo um leve desconforto estomacal ao terminar. Fuuto pegou o copo, lançando-me um olhar infame.
– Vai começar a tirar a roupa logo? – perguntou – Seja pelo menos uma bêbada divertida.
Revirei os olhos, desencostando-me da bancada. Meus pés encontraram seu caminho com certa dificuldade no inicio, mas consegui caminhar até a sala da jantar sem cair. Quando eu era pequena, eu tomei apenas uma taça de vinho e fiquei bêbada. Meus pais me levaram ao médico, e foi comprovado que eu tinha baixa tolerância ao álcool.
Sentei-me na minha cadeira, estremecendo um pouco ao sentir o frio daquele lugar. Meus irmãos ficaram me olhando, talvez fosse pelo fato de que eu havia ido buscar pratos e não voltara com nenhum.
– Nina, está tudo bem? – perguntou Iori.
Pisquei, encarando-o sem responder, confusa.
– Ouvimos seu grito – esclareceu Hikaru.
Ri um pouco, eles ficaram me olhando.
– Foi o idiota do Fuuto que derramou vinho na minha blusa – respondi.
Eles pareceram entender, os mais velhos continuaram me encarando. Fingi estar preocupada com minhas unhas para evitar os olhares que eram direcionados ao meu rosto, mas logo não precisei fazer isso, já que Fuuto aparecera.
– A idiotice dessa garota não tem limites – ele disse, apontando para mim.
Eu queria ficar com raiva, mas ri. Meus irmãos me encararam, Fuuto riu junto comigo.
– Estão vendo? – ele perguntou, apontando para mim – Ela é tão idiota que ri da própria idiotice.
Ri ainda mais, quase começando uma risada descontrolada. Fuuto acompanhou-me, rindo em um tom de voz igualmente ridículo. Ele distribuiu os pratos e sentou-se em seu lugar, deixando para nós a tarefa de nos servirmos. Minhas mãos tremeram um pouco na hora de pegar meu pratinho, eu teria feito um desastre ali, se Louis não tivesse segurado minhas mãos com firmeza.
– Eu cuido disso – ele disse.
Assenti, dando-lhe um sorriso. Louis serviu sorvete para mim, entregando-me a vasilha logo em seguida.
– Obrigada – falei.
Ele assentiu, olhando-me de forma anormalmente séria. Decidi ignorar, colocando uma colherada de sorvete na boca. O gosto era delicioso, soltei um muxoxo.
– Que delícia! – falei, rindo um pouquinho – Eu acho que vocês estão tentando me deixar gorda.
Ri do meu próprio comentário, Louis me encarou.
– Nina, você está bem? – perguntou.
Assenti, rindo até mesmo daquele meu movimento. Louis não parecia ter se convencido, já que lançou-me um olhar tão desconfiado que me arrepiou os cabelos.
– O que Fuuto e você estavam fazendo na cozinha? – Louis perguntou – Você está cheirando a vinho, mais do que antes.
Revirei os olhos, segurando-me para não rir.
– Estávamos pegando a sobremesa e os pratos – respondi – Estou com cheiro de vinho por causa do Fuuto, ele derramou um pouco na minha blusa.
Louis me encarou, ainda desconfiado. Desviei o olhar, notando que havia outro par de olhos sobre mim naquele momento. Um olhar analítico, crítico, quase frio. Uma mistura de desconfiança com ceticismo, me fez arrepiar outra vez.
– Você está bêbada? – perguntou Natsume, ainda me encarando.
Droga, ele falou aqui em voz alta. Todos na mesa agora olhavam para mim, até mesmo a doce e adorável Ema. Encontrei o olhar de Fuuto, ele se esforçava para não rir. Ri da cara que ele fazia, Ukyo e Masaomi franziram as sobrancelhas.
– Pareço bêbada? – perguntei, rindo.
Sacudi a cabeça, comendo um pouco de sorvete. Meus dentes doeram um pouco, fiz uma careta.
– Está ou não? – perguntou Masaomi.
Ri de novo, afagando meu próprio maxilar.
– Claro que não, de onde tiraram isso? – falei, sem parar de rir – Eu não bebi, como posso estar bêbada?
Eles continuaram me encarando, parei de rir por um segundo.
– Nina, você está rindo de tudo, suas mãos estão trêmulas, seu rosto está avermelhado e você não esta conseguindo ficar parada – disse Masaomi – Você está bêbada.
Pisquei, abrindo parcialmente a boca.
– Nossa, você é bom nisso – falei – Desculpe decepcionar, eu não estou bêbada.
Ukyo passou a mão no rosto, Masaomi e Natsume lançaram-me olhares repreensivos. Ema parecia chocada, Yusuke, Subaru, Azusa e Iori pareciam não acreditar. Tsubaki, Kaname e Hikaru davam pequenos sorrisos, eu devia estar mesmo ridícula. Fuuto se segurava para não rir, Wataru parecia estar irritado.
– Nina, entende a gravidade disso? – perguntou Masaomi.
Dei de ombros, sorrindo.
– O que há de errado, ela exagerou um pouquinho, acontece com todo mundo. Ela nem está dando nenhum vexame, sei de alguns aqui que até ficaram nus no primeiro porre – disse Kaname – Claro, ela está sexy com essa carinha vermelha e esses ombros inquietos, mas isso não é nada de mais.
Ri, mesmo sentindo a pontada de malícia que Kaname usara em sua última frase. Ukyo lançou um olhar repreensivo ao irmão, Kaname fingiu que não havia visto.
– Por que a onee-chan bebeu? Eu quero beber também! – disse Wataru, fazendo bico.
Masaomi encarou o caçula, parecendo estar à beira de um sermão daqueles.
– Claro que você não vai beber, tire essa ideia da cabeça – ele disse, sério.
Wataru bufou, apontando para mim.
– A onee-chan bebeu, por que eu não posso beber também? – ele perguntou.
Revirei os olhos, Masaomi olhou para mim.
– Por que você é menor de idade – respondi.
Agora todos me encararam, Wataru cresceu aquele bico.
– Você também, Nina – disse Iori, lançando-me um olhar surpreso e incrédulo – Você não devia ter bebido, está vendo o que tudo isso ocasionou?
Ri, balançando os ombros.
– Não é tão ruim, todos vocês beberam – acusei, encarando-os – E, me digam, quem ficou pelado no primeiro porre? Alguém tirou foto? Eu queria ver.
Fuuto riu, assim como Tsubaki, Hikaru e Kaname. Os outros me encararam de forma irritada, até mesmo Louis e Iori.
– Nina, já chega – disse Masaomi – Vá tomar um banho frio, e depois, vá dormir.
Fiz um biquinho, cruzando os braços.
– Mas eu nem terminei meu sorvete – protestei.
Ukyo bufou, Natsume me olhava de forma quase hostil.
– Eu cuido dela – suspirou Louis.
Ele empurrou sua cadeira para trás, levantando-se com graça, mesmo estando visivelmente chateado. Fiz outro bico, sem descruzar meus braços.
– Venha, Nina – disse Louis.
Ele estendeu a mão em minha direção, olhei para meu sorvete parcialmente comido e quase todo derretido.
– Nina, levante, agora! – disse Masaomi.
Ele não gritou, mas sua voz saiu tão potente que calou a boca de todos que riam ou comentavam algo sobre minha teimosia. Desfiz meu bico, meus olhos estavam um pouco arregalados.
– Não precisa disso, Masaomi – disse Louis, franzindo o cenho – Ela não está tão bêbada, não a trate assim.
Baixei a cabeça, envergonhada. Era meu primeiro jantar em família, e eu tinha estragado tudo ao provar aquele maldito vinho.
Ergui-me de minha cadeira, sem aceitar a mão que Louis me estendia. Virei meu rosto em direção aos mais velhos, engolindo em seco.
– Me desculpem, eu sei que fiz merda. Desculpem por tudo, eu não deveria ter pedido esse jantar, eu nem sou da família de vocês – falei.
Parei de falar por um segundo, todos permaneceram calados. Engoli em seco outra vez, sentindo aquela tensão de antes me atingir outra vez.
– Eu sei que eu sou só uma estranha, uma forasteira. Eu sei que não vou me encaixar aqui, e sei que não sou aquilo que vocês esperavam que eu fosse – falei, ainda cabisbaixa – Eu nem sei porquê a Miwa me escolheu, eu não sou adequada para morar com vocês. Eu não vivi com vocês muito tempo, só estava querendo formar minhas próprias memórias, ou só estava tentando me sentir em família de verdade.
Ri, mesmo não tendo humor algum naquilo que eu acabara de dizer. Senti uma mão encontrar a minha, nem precisei olhar para saber quem era o dono, eu já conhecia a textura de Louis o suficiente.
– Nina... – ele começou.
– Não precisam sentir pena, não precisam se preocupar – falei, cortando-o – Eu sou fechada, eu sou fria. Eu vi meus pais serem assassinados, é claro que eu vou demorar para me conectar com vocês. Eu tenho medo de amar vocês do jeito que eu amava eles para depois perdê-los, eu tenho medo de um dia pensar nos meus pais como se fossem apenas parentes distantes. Me desculpem se eu sou errada demais para essa família, mas, do jeito que eu sou, eu era perfeita na minha, e é assim que eu vou continuar sendo, me desculpem.
Soltei a mão de Louis, encaminhando-me para a sala sem olhar na cara de nenhum deles. Quase tropecei em algo no caminho, e quando me abaixei para ver o que era, percebi que era o cartão postal que Miwa havia me mandado. Apertei os lábios, sentindo lagrimas quentes se formarem em meus olhos. Ergui meu corpo outra vez, correndo em direção às escadas. Só parei de correr quando já estava no andar de cima, minhas pernas pareceram perder a força.
– É a primeira vez que eu vejo ela assim – disse alguém.
Era a voz de Ema, reconheci-a assim que parei de andar.
– E não vai ser a última, pelo visto – disse a voz de Tsubaki – Eu fiquei até arrepiado agora.
Ouvi alguém bater na mesa, logo depois uma cadeira foi arrastada.
–Vocês são os idiotas mais indiscretos que eu já vi, francamente – disse a voz irritada de Fuuto.
– Calma, Fuuto – disse Masaomi.
Alguém bateu na mesa outra vez, respirei fundo.
– Eu não vou ficar calmo, não duvido nada que ela está chorando agora – disse Fuuto – Eu odeio ela, mas se alguém aqui fizer a minha irmã chorar de novo, eu arrebento a cara do infeliz.
Ouvi seus passos furiosos saírem da cozinha, aquilo pareceu ter dado um choque em minhas pernas, já que elas voltaram à vida. Apressei-me a correr de novo, percorrendo o caminho até meu quarto enquanto minha respiração media forças com os soluços que me subiam pela garganta. Assim que cheguei ao meu quarto, entrei e bati a porta, trancando-a logo em seguida. Minhas pernas perderam a força outra vez, caí sentada. Encostei-me à porta, abraçando meus joelhos e respirando fundo.
Não devia ter dito tudo aquilo, mas não consegui controlar. Minha língua agiu por conta própria, e acho que o vinho deve ter ajudado. Eu era muito fraca para ficar bêbada ao tomar vinho, acho melhor eu não beber nada nas futuras reuniões familiares.
– Ei, niña, você está aí? – disse uma voz.
Deram duas batidinhas na minha porta, funguei. Não respondi, achei melhor evitar contato com Fuuto e os outros Asahina naquele momento.
– Eu ouvi você fungar, abre a porta – ele disse, batendo em minha porta outra vez.
Funguei de novo, secando as lágrimas que ainda desciam em minhas bochechas.
– Vai embora, Fuuto – falei.
Minha voz tremeu, funguei outra vez. Ouvi Fuuto bufar, ele bateu na porta outra vez.
– Você está chorando, eu sei disso – ele disse – Eu não sou eles, me deixa entrar.
Apertei maus braços em volta dos joelhos, engolindo em seco.
– Eu estou bem, vai embora – falei.
Fuuto grunhiu, bufando.
– Deixa de ser teimosa, eu não vou embora até olhar pra essa sua cara de idiota – ele disse.
Ri pelo nariz, mas não movi um único músculo. Ouvi a respiração de Fuuto se acalmar um pouco, ficamos em silêncio durante uns minutos, até que ele respirou fundo.
– Você não é fria, eu não acredito. Eu vejo como você sorri para o Wataru, e vejo como você conversa com o Louis – ele disse, arquejando um pouco no meio da frase – Nunca nos tratamos com carinho, mas eu também vejo que você nutre algum sentimento por mim, ainda que seja ódio.
Ele riu um pouquinho, suspirei.
– Você não é fria, Nina – ele disse, suspirando – Eu quero que você se encaixe aqui, eu sei que você pode.
Pisquei, era a primeira vez que Fuuto me tratava bem. Quase pude sentir afeto em sua voz, mas isso foi antes que ele desse uma risada sarcástica.
– Não deixe isso lhe subir à cabeça, eu ainda te odeio, niña – ele disse – Não diga nada do que eu disse para ninguém, eles não acreditariam em você mesmo.
Mesmo não querendo, eu ri. Pude ouvir Fuuto rir também, e pude quase vê-lo sorrir de forma sarcástica, porém afetuosa.
IMAGEM ESPECIAL
Yusuke Asahina
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