The New Girl in the House
28 Roda gigante
Notas iniciais
Bati meus pés no chão outra vez, nervosa. Eu estava sozinha em casa, e aquilo estava começando a me incomodar. Não que eu tenha medo, mas estar sozinha antes de um encontro conseguia ser tão assustador do que estar cheia de irmãos ao lado.
Revirei os olhos, não seria um encontro.
Uma buzina elegante me fez pular, meu coração disparou. Respirei fundo, tentando não me desesperar demais. Eu não tinha motivos para ficar nervosa, mas não conseguia evitar. Como ele estaria hoje? Ainda estaria com aquela dor de cabeça? Estaria vestindo um terno?
Eu pensava tudo isso enquanto trancava a porta de casa, tendo saído tão rápido que quase esquecera as chaves. Minhas mãos tremiam um pouco, mas eu consegui enfiar a chave certa na fechadura. O processo durou um minuto inteiro, eu sei por que contei os segundos em espanhol. Guardei as chaves no bolso traseiro da calça, expirando pesadamente antes de me virar. Disparei pelo caminho, tentando chegar a Natsume antes que ele chegasse a mim. Parei quando estava no meio do caminho, minha boca se abriu.
Ele usava calça jeans preta, algo que eu nunca pensei que ele usaria. Sua camisa de botões verde era de mangas, eu podia distinguir isso mesmo com aquela jaqueta de couro preta cobrindo-a. Ele usava tênis, o que me fazia agradecer mentalmente à teimosia de Ema, que me convencera a escolher as botas de saltinho que eu usava agora. Abri um sorriso surpreso, meu coração pulou uma batida. Os cabelos dele estavam penteados do mesmo jeito, porém estavam mais rebeldes do que de hábito. Ele ergueu o olhar de leve, deparando-se comigo em seu caminho.
– Natsume? – chamei, ainda surpresa.
Ele abriu um sorriso ensolarado, meu coração quase parou de bater.
– Oi, Nina – ele disse.
Meus pelos se eriçaram, como eu sentira falta daquela voz. Já estávamos há mais de quatro semanas sem ver um ao outro, e por telefone não era a mesma coisa. Percebi apenas naquele momento que estava morrendo de saudade dele, e não se pode confiar em uma “Nina Kazama” com saudade.
Avancei em sua direção, abrindo os braços. Ele sorriu de novo, parando de andar. Abracei-o assim que pude, afundando-me em seu corpo forte. Natsume também me abraçou de modo mais tímido, mas me abraçou. Afastei-me dele um pouco antes demais, mas precisava ver seu rosto de novo, ter certeza de que ele estava mesmo ali.
– Você está bem? – ele perguntou.
Seus olhos exibiam um brilho contente, eu não conseguia acreditar que aquele era o mesmo Natsume que eu conhecera antes.
– Estou ótima, obrigada por perguntar – respondi, radiante – E você?
Ele sorriu, senti sua mão afagar meu antebraço ligeiramente.
– Estou muito bem, finalmente consegui a folga ideal – respondeu.
Ri, cruzando minhas mãos. Ele sorriu, fixando seu olhar no chão por um segundo, antes de me olhar de novo.
– Você não esperou por mim lá dentro, por quê? – perguntou.
Dei de ombros, ele esperou.
– Achei que deveríamos dispensar as formalidades, não é nosso primeiro encontro mesmo – falei.
Ele parecia ter tomado um leve choque, repassei mentalmente o que dissera.
DROGA! Eu disse “encontro”!
– Estou de acordo, isso me poupou mais uns minutos de caminhada – ele disse.
Natsume parecia tranquilo, minha palavra errada não devia tê-lo afetado tanto, eu acho. Soltei um suspiro, sentindo-me um pouco desapontada.
Por quê? Eu não tinha motivos, aquilo NÃO era um encontro mesmo.
– E, além disso, eu estava sozinha lá dentro, os outros saíram – falei, relaxando – Achei melhor poupar você, já que não tinha ninguém para você cumprimentar.
Ele assentiu, dando um pequeno sorriso. Não era tão lindo quanto o primeiro sorriso que ele me dera hoje, mas ainda era um lindo sorriso.
– Que bom, cheguei a pensar por um momento que você estava fugindo – ele disse.
Ri, ele ampliou aquele sorriso.
– Por que eu fugiria? Eles não podem me impedir de sair com você – falei.
Seu sorriso ficou maior, exalando aprovação.
– Exatamente – ele disse.
Sorri, ele suspirou.
– Vamos? –ele disse.
Assenti, alegrando-me outra vez. Natsume sorriu, saindo da frente para que eu pudesse passar por ele. Sorrindo e lançando-lhe um breve olhar, obedeci ao seu pedido silencioso. Ele deve ter sorrido, mordi o lábio. Caminhei devagar, ainda com as mãos entrelaçadas uma na outra. Esperava que ele entendesse meu gesto sutil, mas Natsume fez algo ainda melhor: pôs a mão no meio das minhas costas, emcaminhando-a em meu corpo suavemente até segurar minha cintura e emparelhou-se ao meu lado. Senti um arrepio, ele tinha feito aquilo na noite do jantar também, devia ser algum tipo de costume dele. Anotei aquilo na minha lista mental, resolvendo fixar minha atenção em andar. Ele abriu o portão para mim, deixando espaço suficiente para que eu saísse. Encaminhei-me para seu carro, hesitando um pouco antes de entrar. Não era minha primeira vez ali, mas eu ainda esperava que ele fosse abrir a porta para mim.
– Eu tranquei o portão, já que não tem mais ninguém aí – disse Natsume.
Dei um pulinho, assustando-me um pouco com aquilo. Ele sorriu, desviando o olhar até onde minha mão estava: na maçaneta do carro.
– Não estava pensando em entrar sozinha, estava? – ele perguntou – Esse pode não ser nosso primeiro encontro, mas eu continuo sabendo como tratar uma mulher.
Ah, estávamos em um encontro! Eu sabia!
Fiquei tão feliz que não pude conter um sorriso emocionado, minhas mãos tremeram um pouco. Natsume sorriu, vindo até mim. Tirei minha mão da maçaneta para que ele pudesse abrir a porta do carro para mim, tarefa que ele executou lentamente, encarando meus olhos enquanto se movia. Não consegui desviar o olhar, ele parecia estar tão perdido quanto eu. Por fim, ele abriu a porta. Afastei-me um pouco, ele fez um gesto para que eu entrasse.
– Muito obrigada, gentil senhor – falei.
Ele sorriu, fazendo uma pequena mesura para mim.
– Disponha, minha bela dama – disse.
Minhas pernas tremeram, senti meu coração derreter. Senti meu rosto esquentar, nem mesmo me espantei por ter corado. Desviei o olhar, sorrindo tanto que meus lábios doíam. Entrei no carro, Natsume fechou a porta. Tentei controlar minha respiração, mas só conseguia arquejar. Ele deu a volta ao redor do carro, parecia estar assoviando. Dei um gritinho, mordendo a língua logo em seguida. Tentei me recompor, Natsume abriu a porta. Tentei não encara-lo enquanto ele entrava, mas não pude deixar de olha-lo de soslaio. Ele ainda sorria, afivelando seu cinto de segurança tranquilamente. Sorri, fazendo o mesmo que ele.
Aquele... Encontro seria incrível, eu podia sentir.
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– Aqui está, divirtam-se – disse o rapaz do guichê verde e vermelho.
– Obrigado – disse Natsume, dando um sorriso feliz.
Sorri, contagiada por sua atitude. Ele ergueu os dois ingressos para a montanha russa que tinha comprado, encarando-me com aqueles olhos brilhantes.
– Nossa vez será daqui a cinco minutos, você está pronta? – perguntou.
Assenti, sorrindo. O sorriso de Natsume cresceu, ele parecia radiante sob a luz do sol da tarde.
– Bom, fique calma – ele disse – Sei que será sua primeira vez em uma montanha russa desse tamanho, mas você não tem o que temer.
Sorri, ele lançou-me um olhar afetuoso.
– Não se preocupe, se eu sentir medo eu vou apertar sua mão – brinquei.
Natsume corou, sorrindo e desviando o olhar.
– Seria ótimo – ele disse.
Aquilo fez meu estômago borbulhar, nunca me senti tão feliz por ter escolhido andar em uma montanha russa logo depois de entrar em um parque. Eu já fora a várias montanhas russas durante a vida dos meus pais, mas nunca fora em uma tão grande. Eu morria de medo, mas só de pensar que Natsume estaria ao meu lado, eu me sentia bem tentada.
O tema desse ano no parque era novidade na cidade, tinha sido inaugurado na semana passada, no dia em que Natsume me ligou para marcar nosso encontro. Eu tinha visto um comercial na TV, mas não imaginava que aquele seria o lugar para onde Natsume me levaria, principalmente tratando-se de um especial de natal. Eu adorava parques, mas nunca visitara um tão grande como aquele. Havia várias atrações, todas muito chamativas. Barracas e mais barracas ladeavam as principais atrações, vendendo tickets para cada uma delas. Crianças e mais crianças corriam livremente, sempre se podia ouvir a voz de um pai descuidado chamando pelo filho perdido. Muitos casais faziam fila diante da roda gigante, que devia ter a altura próxima a sessenta metros. Eu já andara em uma roda gigante uma vez, mas aquela não devia passar dos trinta e cinco metros, não era algo monumental como essa. Uma árvore de natal gigantesca estava posicionada bem no centro do parque, as crianças faziam fila para sentar no colo de um homem vestido de Papai Noel.
– Nina, é a nossa deixa – disse Natsume, despertando-me de meus devaneios.
Dei um pulinho, ele riu baixinho da minha reação. As pessoas saiam dos carrinhos, algumas tremiam, outras não conseguiam parar de rir. Uma garota chorava, seu namorado estava tentando convencê-la de que estava tudo bem. Engoli em seco, tentando não deixar Natsume ver meu nervosismo. Deixei que ele me guiasse, visto que sua mão agarrou a minha assim que entramos no parque. Aquilo me deixava tão nervosa quanto a montanha russa, mas tentei ser grata pela segurança que ele estava tentando me passar.
– Entrem pela esquerda, senhores – disse a moça da montanha russa.
Natsume assentiu, abrindo um sorriso enorme. A mulher ficou um pouco tonta, eu não a culpava. Os Asahina eram criaturas muito especiais, mulher alguma devia resistir ao sorriso de um deles.
– Suba, Nina – disse Natsume.
Assenti, tentando não gritar. A montanha russa era tão grande quanto a roda gigante, um gigante engradado de vigas finas de metal e trilhos reluzentes. Eu fora garantida que aquilo era seguro, mas não conseguia parar de tremer. Saltei o degrau de metal, entrando no carrinho. Natsume viera logo depois de mim, sorrindo como um garotinho. Eu nunca tinha visto ele daquele jeito, ele parecia ser um adolescente naquela hora.
– Tente poupar sua garganta, você vai gritar muito na parte mais alta – ele disse, radiante – Se estiver com medo, mantenha os olhos fechados até se sentir segura. Eu vou estar aqui o tempo todo, não tenha medo.
Assenti, engolindo em seco. Eu senti meu estômago se revirar, como se eu estivesse cheia de água por dentro. Estremeci várias vezes, minhas pernas só não tremiam mais do que as minhas mãos.
– Mantenham os pés dentro do carrinho, não soltem os ferros de segurança ou segurem nos trilhos – gritou a moça de antes – Seu passeio irá durar cerca de quinze minutos, pressionem o botão do pânico caso se sintam mal.
– Tem um botão do pânico? – perguntei, virando o rosto para encarar Natsume.
Ele assentiu, sorrindo tranquilamente.
– E o que ele faz? – perguntei.
Natsume abriu um sorriso enorme, lançando-me um olhar de puro divertimento.
– Solta o carrinho dos trilhos e o faz voar até alcançar o paraíso – respondeu.
Minha boca se abriu, meus olhos se arregalaram. Ele deu uma gargalhada quase grotesca, um som tão másculo que fez todas as mulheres em volta olharem para ele. Todas ficaram tontas assim que viram seu rosto lindo, e novamente eu não podia culpa-las.
– Aproveitem, tenham um bom passeio – disse aquela moça de antes, sorrindo.
Os ferros de proteção – que eu nem notara que estavam ali – desceram e me prenderam contra o banco. Agarrei os ferros, arregalando os olhos de puro medo. Senti um impulso no carrinho, e, soltando um estalido emocionante, ele começou a andar. Soltei um muxoxo, engolindo em seco. Ainda estávamos a um nível aceitável, mas já estávamos quase na primeira subida. Aquela curva não era tão alta, mas era maior do que tudo que eu já experimentara na vida.
– Feche os olhos se não estiver segura, você não precisa se esforçar para parecer corajosa, eu já sei que você está apavorada – disse Natsume, falando alto para que eu pudesse ouvir.
– Eu não tenho medo, só estou apavorada com essas circunstâncias – falei.
Ele riu, sacudindo a cabeça.
– Veremos quem tem razão quando chegarmos ao topo, se você gritar, saberei que está mentindo – ele disse.
Revirei os olhos, trincando os dentes. A subida continuava se aproximando, eu continuava tremendo.
– Eu gosto mais de você quando você não está curtindo com a minha cara – resmunguei.
Ele riu, lançando-me um olhar de soslaio.
– E eu gosto mais de você quando está usando um espartilho – retrucou.
Escancarei minha boca, preparando-me para xinga-lo de todos os nomes que conhecia. Antes que eu pudesse pensar, o carrinho da montanha russa começou a descer com força. Encontrei minha voz, soltando um grito comprometedor. Eu não fora a única, quase todos que estavam no carrinho gritaram também. Natsume gargalhava, urrando de alegria.
– Eu vou morrer! – berrei, desesperada.
Pude ouvir Natsume rindo ainda mais ao meu lado, mas não consegui sentir raiva, estava apavorada demais para isso. O carrinho deu mais uma subida rápida, fazendo curvas e mais curvas que não pareciam ter fim. Eu não parava de gritar, era como se meu estômago estivesse pulando de paraquedas. Apertei o ferro que me prendia ao carrinho até meus dedos ficarem duros, a dor só não era maior do que meu desespero. Tudo passava em um borrão, eu só conseguia ver as luzes da cidade ao longe. Eu me sentia tonta, como se estivesse desmaiando.
– Feche os olhos, Nina – gritou Natsume.
Fiz o que ele disse, sentindo-me um pouco melhor. Aquela sensação de tontura diminuíra, agora era suportável. Tentei respirar, mas o ar parecia estar ferindo meus pulmões.
– Estamos indo muito rápido, eu to com medo – gemi.
Ouvi Natsume rir, eu mesma estava sorrindo. Era um medo terrível, mas era a coisa mais divertida que eu já fizera na vida.
– Vai acabar tudo bem, confie em mim – disse Natsume.
Eu quase não podia ouvir sua voz, mas senti meu espírito se acalmando. Assenti, tentando respirar fundo. Ainda de olhos fechados, senti meu corpo ser projetado para frente. Devíamos estar passando pela primeira espiral, ainda faltavam umas duas. Senti meu corpo se acostumando com a situação, eu já não estava tão nervosa assim. O carro pegou uma subida enorme, minha cabeça colou-se ao banco.
– Estamos indo para o céu – falei.
Natsume riu, senti sua mão segurar a minha.
– É a hora da descida fatal, se prepare – ele disse.
Arregalei meus olhos, meus dedos apertaram os seus.
– Descida fatal? – perguntei.
Natsume riu, entrelaçando nossos dedos. Apertei sua mão, ele fez o mesmo.
– Uma descida de noventa e cinco metros, você sente que vai bater no chão – ele disse.
Arquejei, voltando a tremer. Natsume tinha o poder de me fazer ficar arrependida depois de aceitar as burradas que eu fazia. Assim como na noite das lesmas, ele me apavorara com apenas um comentário.
– Nós vamos morrer! – exclamei.
Ele riu, radiante.
– Não vamos, confie em mim – disse.
Ri pelo nariz, a subida estava quase no fim.
– Eu confio, mas se nós morrermos, eu vou matar você! – berrei.
Natsume puxou minha mão em sua direção, depositando um beijo em meus dedos. Sua pele estava fria, a minha devia estar do mesmo jeito.
– Se não morrermos, você terá que me beijar – disse.
Arregalei os olhos, pronta para protestar, mas a montanha russa me venceu, chegando ao topo. Desaceleramos um pouco, mas assim que nosso carrinho inclinou-se para baixo, toda a velocidade voltou. Berrei, gastando todo ar que tinha guardado. Os gritos ficaram ensurdecedores, apertei os dedos de Natsume com tanta força que temi estar machucando-o, mas não soltei. Não consegui fechar os olhos, então tive que ver para onde íamos. Nosso carrinho apontava diretamente para o chão, íamos tão rápido que tudo parecia estar embaçado. Berrei com ainda mais força, Natsume apertou minha mão com força. Estávamos cada vez mais perto, fechei meus olhos.
Senti a batida, mas não foi o que eu esperava. O carrinho pareceu fazer uma curva para a esquerda, e então, nivelou-se corretamente. Meu coração parecia estar tentando sair pela minha boca, meus pulmões deviam estar espremendo-o para ajuda-lo. Abri os olhos, sentindo a aceleração recomeçar.
– Mais duas voltas, Nina – disse Natsume.
Ri, assentindo. Mesmo estando em uma velocidade aceitável, eu ainda não conseguia soltar sua mão.
E nem ele soltava a minha.
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Dei mais um passo trôpego, apertando o braço de Natsume com força. Ele fazia força para não rir, olhando-me da forma mais gentil que conseguia.
– Só mais um degrau, cuidado – ele disse.
Assenti, engolindo em seco. Tentei descer sem puxa-lo, mas foi impossível. Natsume acabou precisando erguer-me um pouco, descendo o degrau restante sem me soltar. Assim que estávamos em um terreno seguro, ele me pôs no chão. Saímos do caminho das outras pessoas, Natsume guiou-me até uma parte mais afastada, onde as pessoas iam para recuperar seus sentidos. Firmei meus dois pés no chão, Natsume segurou-me pelos meus braços.
– Pronto – ele disse, rindo disfarçadamente – Agora respire fundo, isso já vai passar.
Assenti, fechando os olhos. Natsume abrigou-me em seus braços, minhas mãos seguraram a gola de sua camisa. Encostei minha testa em seu peito, respirando fundo. Ele deu uma risadinha curta, sacudindo-me um pouquinho. Devia estar tentando me embalar, afundei-me mais em seu abraço.
– O que achou da montanha russa? – ele perguntou, gentil.
Respirei fundo, tentando fazer minha cabeça parar de girar.
– Eu nunca mais vou pisar em uma montanha russa, não importa o quanto isso seja importante – falei.
Natsume riu, suas mãos afagaram minhas costas.
– Não precisa ser tão definitiva, talvez você fique mais corajosa no futuro – ele disse.
Bufei, enterrando meu nariz em suas roupas. Ele riu silenciosamente, soltando um suspiro.
– Toda vez que eu te chamo para sair acontece alguma coisa que te deixa traumatizada, que tipo de encontro eu sou? – ele disse, divertido.
Colei meu corpo contra o dele, soltando um muxoxo.
– Se você prometer que vai me abraçar assim depois de cada experiência traumática, eu acho que dá para arriscar um terceiro encontro – falei.
Ele riu, abraçando-me carinhosamente. Sorri, relaxando um pouco minha postura dura.
– Você não existe – ele disse.
– Minha cabeça discorda – resmunguei.
Ele riu de novo, afastando-me dele para ver meu rosto. Eu devia estar pálida, mas não me importei. Ao ver sua expressão realizada, senti como se estivesse pronta para passar uma semana inteira andando naquela montanha russa. Ele sorria gentilmente, seus olhos brilhavam mais do que as luzes do parque. Seus cabelos estavam arrepiados, mas nada daquilo o deixava menos sexy. Soltei um suspiro, recordando-me de minha promessa. Precisei ficar nas pontas das botas, mas alcancei seu rosto. Depositei um beijo demorado em sua bochecha direita, ele me apertou com mais força. Voltei para o meu lugar, suspirando. Ele tinha corado um pouco, mas ainda sorria.
– Eu não acho que mereci esse – disse.
Suspirei de novo, dando um meio sorriso.
– Eu prometi, estamos vivos – falei.
Natsume abriu um grande sorriso, mas ainda estava corado.
– Eu não disse aquilo pra valer, sabe disso, não sabe? – perguntou.
Assenti, brincando um pouco com a gola de sua camisa. Ele sorriu, olhando em meus olhos.
– Então, por que fez aquilo? – perguntou.
– Senti vontade – respondi.
Ele abriu um sorriso lento, abraçando-me de novo. Afundei-me em seu abraço, sentindo seus braços fortes me envolverem com força.
– Com certeza teremos um terceiro encontro – ele disse.
Sorri, fechando os olhos para aproveitar melhor o momento. Meus lábios ainda formigavam, e eu tinha certeza de que a bochecha dele estava na mesma situação.
– O que acha de um sorvete? – perguntou Natsume.
Assenti, soltando um suspiro sonhador. Ele me liberou de seu abraço, mas continuou com o braço direito em volta da minha cintura. Sorri, desviando o olhar. Natsume sorria, abraçando-me de lado enquanto caminhava calmamente. Eu quase não o reconhecia, mas estava adorando aquele encontro.
Seguimos abraçados daquele jeito durante alguns minutos, ele sorriu durante o caminho todo. Assim que chegamos à carrocinha do sorvete, Natsume soltou minha cintura para fazer nossos pedidos. Ele dirigiu um sorriso enorme ao senhor que vendia sorvetes, tentei não rir de seu entusiasmo.
– Um sorvete de abacaxi ao vinho, por favor – disse Natsume.
Minha boca se abriu, ele riu da minha reação.
– Isso existe? – perguntei, curiosa.
O senhor da carrocinha de sorvetes sorriu, Natsume olhou-me como se eu fosse um cachorrinho.
– Se existe? Nós temos cinquenta sabores diferentes e exóticos aguardando pela senhorita! – disse o sorveteiro, abrindo os braços dramaticamente.
Ri, sua voz carregava um sotaque italiano muito forte. Eu já estudara italiano quando era pequena, era fácil por ser parecido com espanhol. Olhei em volta, mordendo o lábio. Avistei um sorvete amarelado, despertou minha atenção.
– Esse é de que? – perguntei.
O sorveteiro deu uma gargalhada divertida, esperei.
– Sorvete de whisky, cara senhorita – respondeu.
Minha boca se abriu, senti um sorriso enorme tomar meus lábios.
– Acho melhor você parar com isso – disse Natsume, cético – Você sabe que eu não vou deixar você comprar esse.
Fiz um bico, ele prendeu o riso.
– Desmancha prazeres – resmunguei, desviando o olhar – E aquele?
Apontei para um mais escuro, parecia chocolate.
– Chocolate com pimenta, senhorita – disse o sorveteiro.
Sorri, lançando um olhar esperançoso a Natsume.
– Pimenta, Nina. Sério? – ele riu, sacudindo a cabeça.
Assenti, piscando os olhos duas vezes. Ele suspirou, mordi o lábio.
– Um sorvete de abacaxi com vinho e outro de chocolate com pimenta, por favor – ele disse.
Bati três palminhas, o sorveteiro riu.
– No capricho, senhores – ele disse.
Tentei não rir de seu sotaque, mas era difícil. Esperamos durante uns cinco minutos, o de Natsume saiu antes do meu. Quando estava colocando o sorvete em minha casquinha, o sorveteiro dirigiu-me uma piscadela.
– Um bem especial para a linda senhorita, não? – disse.
Sorri, ele colocou uma bola a mais. Como se aquilo já não fosse bom o suficiente, ele ainda colocou cobertura de chocolate, um biscoito que parecia um canudo, e chocolate granulado por cima. Para completar, ele colocou uma pequena pimenta vermelha ao lado do biscoito, mordi o lábio.
– Aqui está – disse o sorveteiro.
Dei dois pulinhos, esticando-me para pegar meu sorvete. O sorveteiro riu, entregando-me meu “pote de ouro”. Eu era louca por sorvete de chocolate, devo ter puxando isso do meu pai, já que minha mãe detestava qualquer tipo de sorvete. Equilibrei meu sorvete na mão esquerda, enfiando a direita no bolso da calça para catar algum dinheiro. Mais rápido do que eu pude processar, Natsume estendeu o braço na minha direção e fez minha mão voltar para o sorvete. Franzi o cenho, ele fazia o mesmo.
– Assim você me ofende – ele disse.
Ele me soltou, sacudindo a cabeça. Percebi que o sorveteiro ria discretamente, tentei levar aquilo na brincadeira também. Natsume puxou uma nota de dinheiro do bolso, pagando o velho sorveteiro.
– Boa noite, tenham um bom passeio – disse o velho.
Sorri, lançando-lhe uma piscadela marota.
– Ringrazio, signore* – falei.
O velho sorriu, abrindo os braços teatralmente novamente.
– Vedete, una bella signora molto intelligente. Quest'uomo è molto fortunato, una buona notte!* – exclamou.
Ri, acenando. Natsume piscou, parecia não ter compreendido nada do que se passara ali. Ri, fingindo que não tinha visto sua expressão. Girei nos calcanhares, mordendo o lábio ao encara-lo.
– Seu sorvete está derretendo, mio gattino* – falei.
Dirigi-lhe uma piscadela, colocando uma colherada de sorvete na boca e girando nos calcanhares outra vez. Nunca amei tanto poder falar outra língua, bem que minha mãe me avisou que aprender italiano viria bem a calhar no futuro. Ela ficaria orgulhosa de mim, permiti-me esse momento de presunção.
– Você fala italiano? – perguntou Natsume, um tanto mortificado.
Ri, lançando-lhe um olhar perverso.
– Isso é um pouco óbvio a essa altura, querido – falei.
Ele corou um pouco, fingi que não tinha visto. Natsume emparelhou-se comigo, seu sorvete estava intocado.
– O que disse ao sorveteiro? – perguntou.
Sorri, colocando mais um pouco de sorvete na boca. Natsume esperou, engoli.
– Eu agradeci, nada demais – falei.
– E o que ele te respondeu? – perguntou Natsume.
Ri, ele parecia muito interessado. Talvez estivesse surpreso por saber algo a menos que eu, parece que o mundo dá voltas.
– Ele disse que eu era linda e muito inteligente, desejou boa noite, e disse que você é muito sortudo – respondi.
Natsume piscou, voltando sua atenção ao caminho que seguíamos. Seu sorvete estava quase pingando no chão, fiz uma careta.
– Ei, acorda – falei – Seu sorvete está derretendo.
Ele sacudiu a cabeça, contemplando minha razão. Natsume raspou o sorvete derretido e colocou na boca, impedindo que ele pingasse. Fixei minha atenção no meu próprio sorvete, debatendo mentalmente se comeria aquela pimenta.
– Do que você me chamou quando disse que eu sorvete estava derretendo? – perguntou Natsume.
Pisquei, enfiando um pouco de sorvete na boca. Natsume me encarou, pensei um pouco.
– Eu disse alguma coisa? – perguntei.
Ele franziu o cenho, cético. Dei um sorriso amarelo, aquela seria difícil de traduzir.
– Mio gattino – repeti, engolindo em seco – Meu gatinho.
Natsume se engasgou com seu sorvete, suas bochechas ficaram muito vermelhas. Fingi que não tinha visto, mas tenho certeza de que minhas bochechas estavam vermelhas também, ainda que menos que as dele.
– O que é isso? É um fetiche seu ficar cantando os rapazes em italiano? – Natsume disse.
– Tu sei l'uomo più caldo che abbia mai visto!* – falei, arregalando os olhos para enfatizar minhas palavras.
Natsume me encarou, franzindo o cenho.
– O que? – perguntou.
Engoli em seco, desviando o olhar.
–Melhor nem comentar – respondi.
Ele bufou, sacudindo a cabeça. Mesmo sendo um momento tenso, eu tive que rir. Natsume relutou, mas cedeu-me um sorriso. Comi mais uma colherada de sorvete, olhando em volta.
– Quer ir a algum outro lugar? O carrossel daqui é ótimo – ele disse.
Revirei os olhos, voltando-me para encara-lo.
– Carrossel? Sério? – perguntei, rindo pelo nariz – Eu sou assim tão infantil?
Ele riu, tomando uma colherada de sorvete.
– Claro que sim, por que você acha que o sorveteiro caprichou no seu sorvete? Por causa desse seu rostinho lindo? – zombou.
Arquejei, jogando meu corpo contra o seu. Funcionou, seus passos vacilaram com meu empurrão. Ele arquejou, seu sorvete quase caiu no chão. Ri, fingindo que não via o olhar possesso que ele me lançava. Tentei não me animar muito com o elogio que ele soltara, já que não fora exatamente um elogio pensado.
– Eu não pareço criança, não quando calço essas botas – falei, colocando uma colherada de sorvete na boca.
Natsume lançou-me um olhar analítico, encarei-o.
– No quesito altura, você ganharia uns dois anos – ele disse – Somando com os quesitos: Físico, comportamento e corte de cabelo, você parece ter doze anos.
Arquejei, lançando-lhe um olhar irritado.
– Não venha falar sobre “altura” para uma pessoa que mede 1,69, isso não é justo – protestei – Nem todo mundo nasceu com canelas iguais as suas, e eu sou alta para a minha idade.
Ele riu, sacudindo a cabeça.
– Você deve medir no máximo 1,60, com essas botas – disse.
Semicerrei os olhos, ele riu da minha cara.
– Eu tenho 1,69 de altura, devo alcançar os 1,74 na boa com essas botas, então nem venha duvidar de mim – bufei.
Natsume riu, trinquei os dentes.
– Nina, não importa sua altura quando suas atitudes te passam por criança – ele disse – Se você fosse mais madura, saberia que eu estou certo.
Mordi a língua, controlando-me para não avançar em Natsume. Ele continuava rindo baixinho, zombando de mim.
– Seu irmão gêmeo não concorda com você, pra ele, eu sou uma mulher – falei, estufando um pouco o peito.
Natsume me olhou, parando de rir.
– Que irmão? O Azusa? – disse.
Revirei os olhos, fingindo que não via o olhar indagador que ele me lançava.
– Tsubaki – respondi.
Natsume franziu o cenho, encarando o caminho de novo.
– Outro imaturo – disse.
Sua voz era quase dura, devo ter dito algo que o deixara irritado. Trinquei os dentes, tentando me controlar.
– Ele é uns trinta minutos mais velho que você, devia respeita-lo – falei.
Natsume bufou, sacudindo a cabeça.
– Ele é uma hora e meia mais velho do que eu, e idade não define maturidade – ele disse – Tire o próprio Tsubaki como exemplo: Ele tem quase trinta anos de idade e ainda se comporta como um adolescente de vez em quando. Se compararmos ele com os mais novos, Iori e Subaru, por exemplo, é fácil ver quem é mais maduro.
Bufei, quase esquecendo de meu sorvete por um segundo.
– E eu sou mais madura do que o Fuuto, isso já devia somar alguns números à minha conta – falei.
– Fuuto sabe ser responsável, e ele sabe a hora de parar de beber – disse Natsume, lançando-me um olhar de soslaio – Se você fosse madura, saberia que não tem idade para beber e saberia que não deveria olhar maliciosamente para homens mais velhos do que você.
Ai, aquela doeu. Engoli em seco, piscando para tentar me controlar.
– Então, da próxima vez, vê se chama uma mulher de verdade para sair com você – falei.
Afastei-me dele, dirigindo-me à área infantil. Ouvi Natsume me chamar, porém decidi ignorá-lo. Passei por um grupo de crianças que corriam umas atrás das outras, uma das meninas não tinha os dentes da frente. Sorri, soltando um suspiro. Olhei em volta, percebendo que tinha me embrenhado tanto no mar de gente que não conseguia ver Natsume em lugar algum. Respirei fundo, dando de ombros.
Procurei um banco, mas não era tarefa fácil. Todos os bancos da área estavam sendo ocupados, algumas das crianças até precisavam sentar no chão para descansarem um pouco, uma mãe carregou o pequeno filho no colo, o garotinho pediu para mamar. Devia ter uns dois anos de idade, era um ser adorável. Sorri, soltando um suspiro. Meu pequeno iria amar aquele parque, com certeza ele iria sair me arrastando até um de nós cair e machucar o joelho. Ri com o pensamento, sacudindo a cabeça. Tomei o que restava do meu sorvete, decidindo jogar aquela pimenta fora. Eu até comeria aquilo, mas teria que aturar a rigidez de Natsume enquanto minha boca ardia. Tava até demorando, ele estava muito leve hoje, nem parecia o mesmo Natsume que eu conhecia.
– Onee-chan? – chamou uma voz infantil.
Senti meus pelos se eriçarem, procurei o dono da voz. Um garotinho estava parado bem perto de mim, confuso. Tinha cabelos loiros que lhe caiam até os ombros, eram tão lisos que eu até senti inveja. Seus olhos azuis estavam um pouco vermelhos, algo me dizia que ele havia chorado.
– Você está falando comigo? – perguntei.
Ele corou, sorri.
– Eu pensei que era a minha irmã, me desculpe – ele disse, fungando.
Franzi as sobrancelhas, ele afagou os próprios ombros.
– Você está perdido? – perguntei.
Ele assentiu, lançando-me um olhar triste. Soltei um suspiro, ele fungou de novo.
– Precisa de ajuda? – perguntei – Não é legal ficar sozinho em um lugar como esse, você pode acabar ficando ainda mais perdido.
O garotinho me olhou melhor, seus olhos brilharam.
– Você pode ficar comigo? – perguntou.
Sorri, estendendo-lhe minha mão como resposta. O pequeno sorriu, vindo até mim. Sua mão era menor que a de Wataru, ele devia ter uns nove ou dez anos.
– Como você se chama? – perguntei.
Ele secou os olhos, parecia bem mais tranquilo agora.
– Aiko – respondeu.
Estremeci um pouco, recordando-me na hora da história de Jun Kazama, a garota do jogo macabro. Segundo Fuuto, Aiko era o nome do irmão da garota. Se aquele garotinho não me parecesse tão vivo, eu ficaria com medo.
– Bom, Aiko, eu me chamo Nina – falei, sorrindo para ele – Pode ficar tranquilo agora, eu vou ajudar você a achar sua irmã.
Aiko sorriu, aproximando-se de mim. Sua mãozinha apertou a minha, senti meu coração se aquecer.
– Obrigado, Nina – ele disse.
Sorri, afagando-lhe os cabelos.
– Não precisa agradecer, será um prazer ficar com um garoto lindo como você – falei – Conte-me, Aiko. Quantos anos você tem?
Ele pareceu relaxar ainda mais, aquilo me alegrou. Começamos a caminhar, seus passos eram lentos.
– Eu tinha nove, mas hoje é meu aniversário – ele disse, inflando o peito – Minha mãe disse que agora que eu tenho dez anos, eu já sou tão homem quanto o papai.
Ri, ele parecia cheio de orgulho de si mesmo.
– Isso eu estou vendo, você está acabando com o meu coração desse jeito – brinquei – Você veio aqui para comemorar seu aniversário?
Ele assentiu, sorri para encoraja-lo a continuar.
– Minha tia me deu dinheiro para gastar, eu queria ver a árvore de natal – ele disse – Ayla me trouxe, ela pegou o meu dinheiro e comprou sorvete.
Ri, ele fez uma careta.
– Ela gastou seu dinheiro? Que bandida! – brinquei.
– Eu disse isso mesmo, e ela me mandou ir catar coquinho – Aiko disse, bufando – Papai disse para não irritar Ayla em certa época do mês, mas ela quase acabou com o meu dinheiro comprando chocolates.
Ri, ele fez o mesmo.
– Ayla é muito mais velha do que você? – perguntei.
Aiko assentiu, ele apertou um pouco a minha mão.
– Ela tem dezoito anos, é uma velha acabada – disse, rindo pelo nariz – Vive tentando convencer a mamãe que ela quer morar sozinha, mas todo mundo sabe que ela quer ir morar com o namorado.
Arquejei, Aiko riu.
– Ele tem algum problema? – perguntei.
O menino deu de ombros, lançando-me um olhar cúmplice.
– Papai diz que ele é muito velho para ela, mas eu o acho mais feio do que o próprio mister Bean. Ele não merece a minha irmã – disse Aiko.
Ri, ele sorriu.
– Ayla é muito bonita? – perguntei.
Aiko inflou o peito, olhando-me como se eu tivesse dito a coisa mais óbvia do mundo.
– Ayla é uma princesa, só não é mais bonita do que você – ele disse – Por favor, nunca conte isso a ela.
Ri, batendo continência.
– Pode deixar, esse pode ser nosso segredo – falei.
Ele riu, assentindo. Olhei em volta, tentando nos localizar. Estávamos ao lado do carrossel, muitas crianças faziam fila na porta. Alguns casais também aguardavam sua vez, me arrepiei só de pensar que podia estar com Natsume ali.
– Onde você viu a Ayla pela ultima vez? Talvez seja mais fácil acha-la se formos lá – falei, lançando um olhar de esguelha a Aiko.
Ele fez um bico, olhando em volta.
– Tinha um chafariz igual aquele – ele disse, apontando para um chafariz enorme – Acho que foi aqui, mas eu não to vendo ela.
Franzi o cenho, ele continuou procurando.
– Como ela é? – perguntei.
Aiko ficou pensativo por um segundo, sorri de leve.
– Ela é baixinha, mas usa sapatos enormes – refletiu – Ela é loira, mas pintou os cabelos de marrom escuro. Ela tem olhos azuis, mas usa lentes vermelhas. Minha professora disse que os olhos dela são violetas por conta da mistura de cores, ela fica bonita quando está explicando alguma coisa, a minha professora.
Ri, Aiko deu um sorriso contente.
– Sua irmã parece ser louca, eu não pintaria meus cabelos se fosse loira natural – falei.
Aiko arregalou os olhos, fazendo um bico de pato.
– Eu disse, mas ela não quer me ouvir – ele disse, dando de ombros – Ela tá parecendo a noiva cadáver agora, e o feioso do namorado dela fica insistindo para que ela coloque um piercing na língua. Eu digo para ela não colocar, como ela vai mastigar com aquilo?
Ri muito, Aiko parecia não conseguir parar de falar.
– Aiko, você é uma figura. Ayla devia te ouvir, você é sábio – falei, rindo.
Ele inflou o peito outra vez, apertando minha mão.
– É o que eu sempre digo, mas ninguém me escuta – ele disse.
Ri de novo, o garoto sorriu. Senti meu celular tremer em meu bolso, devia ser uma mensagem de texto. Em outros casos, eu até leria. Mas estava me divertindo mais com Aiko do que com qualquer outra pessoa, ainda que ele fosse apenas uma criança.
– Aiko! – gritou uma voz.
Nós dois nos viramos, uma garota corria em nossa direção.
– Onee-chan! – exclamou Aiko.
Soltei sua mão, ele correu até ela. A garota abraçou-o com força, erguendo-o do chão com certa facilidade. Sorri, ela parecia terrivelmente aliviada.
– Deus! Onde você se meteu? – ela perguntou, sacudindo o garotinho – E te procurei em cada porcaria de pedacinho desse parque, custava ficar onde eu mandei? Cara, eu estava quase pirando!
Aiko riu, ela colocou-o no chão.
– Eu estava te procurando, quase pirei também – ele disse – Eu estava quase desistindo, mas a Nina me fez companhia e me ajudou a te achar.
– Nina? – disse a garota, segurando Aiko pelos ombros.
O garoto apontou para mim, ela ergueu o olhar. Era exatamente do jeito que Aiko descrevera, seus olhos e cabelos artificialmente coloridos parecia combinar perfeitamente com suas roupas escuras. Ela usava um corset vermelho e uma calça de couro preta, seu batom vermelho quase me cegava. Acenei, dando um sorriso amigável. Ela dirigiu-me um cumprimento com a cabeça, Aiko acenou de volta.
– Muito bem, é melhor irmos pra casa – disse Ayla – Vá dizer tchau.
Aiko assentiu, ela o soltou. O garotinho correu em minha direção, abrindo os braços. Sorri, abrindo meus braços para espera-lo. Aiko me abraçou com força, sua cabeça batia um pouco abaixo dos meus seios.
– Tchau, Nina. Foi legal te conhecer, vê se não vai se perder por aí – ele disse.
Ri, ele ergueu o rosto para me olhar.
– Agora que você já está bem, eu vou procurar o meu irmão – falei – Eu meio que me perdi dele também.
Aiko fez um biquinho, sorri.
– Quer que a gente te faça companhia? Eu peço para Ayla no ajudar – ele disse.
Ergui o olhar até sua irmã, ela nos observava de longe. Eu não estava intimidada, mas ela parecia ter passado por um sufoco muito grande para achar o irmão. Se fosse eu no lugar dela, a última coisa que eu iria querer seria ficar longe do meu irmãozinho.
– Não precisa, eu sei me virar. Obrigada pela oferta, mas acho que devemos nos separar agora – falei.
Aiko soltou um muxoxo, mas assentiu. Ele me soltou, agachei-me para dar um beijo em sua testa. Ele riu, feliz. Sorri, mordendo o lábio de leve.
– Feliz aniversário – falei.
Ele sorriu, inclinando-se para beijar minha bochecha. Sua boquinha era pequena, ele precisou se esticar muito para me alcançar. Quando o fez, depositou um ligeiro beijo em minha pele e se afastou com um sorriso enorme.
– Até mais, Nina-chan – disse.
Sorri, mesmo estranhando aquele apelido. Eu não estava acostumada com sufixos em meu nome, mas para uma criança japonesa, aquilo devia ser completamente normal.
– Até mais, mi amor – falei.
Aiko riu, acenando. Acenei de volta, ele voltou para sua irmã. Ayla sorriu, tomando a pequena mão do garoto entre as dela. A garota ergueu o olhar, lançando-me um último olhar.
– Valeu – ela disse.
Sorri, assentindo. Ela deu um sorriso, voltando-se para Aiko. O garoto parecia radiante, não parava de falar. Ela ria, afastando-se. Ambos pareciam muito aliviados, aquilo encheu meu coração de alegria. Soltei um suspiro, sorrindo docemente. Minha mão voou até meu colar, fiquei brincando como o pingente até eles desaparecerem. Quando visse Wataru outra vez, abraçaria-o com força.
– Nina! – disse uma voz.
Olhei para o lado, franzindo o cenho. Natsume corria em minha direção, parecia mais um jogador profissional do que um empresário. As mulheres viravam as cabeças para olha-lo por onde ele passava, mas ele não parecia se importar. Girei meu corpo em sua direção, meu irmão mais velho parou diante de mim. Seu rosto estava ligeiramente mais vermelho, talvez pelo esforço que ele fizera. Ele já tinha terminado seu sorvete, mas o canto da sua boca estava sujo.
– Oi, Natt – falei, abrindo um sorriso.
Ele expirou com força, aliviado. Sorri ainda mais, ele tentou disfarçar seu sorriso.
– “Oi, Natt”? É isso que você tem pra me dizer? – ele perguntou, arfando de leve – Onde você estava? Podia ao menos ter respondido minha mensagem.
Ele não parecia irritado, mas sua voz ainda era firme. Estremeci, tentando não encarar demais a marca de sorvete em seu rosto.
– Eu me perdi, estava tentando achar um banco para descansar quando acabei topando com um garotinho perdido – expliquei – Ele achou a irmã a pouco, um garoto incrível.
Natsume respirou fundo, apoiando as mãos em seus quadris. Tentei não olhar, mas não pude evitar por muito tempo. Ele era mais “recheando” que Kaname, arregalei os olhos de leve.
– E eu achando que você era imatura, pelo menos você não está chorando nem nada do tipo – ele disse.
Sorri, inclinando-me em sua direção. Ele pareceu surpreso pelas minhas ações, encarei seu rosto com firmeza.
– Imatura? Tem certeza? – perguntei, rindo pelo nariz – Posso até não ser a garota mais alta do mundo, mas não sou eu quem está com sorvete no canto da boca, Sr. Asahina.
Ele ofegou, sua mão voou em seu rosto. Ele limpou o canto errado, não pude deixar de rir.
– Deixa comigo – falei.
Estiquei meu braço em sua direção, ele se retesou de leve. Toquei o canto de sua boca com meu polegar, afagando a área para deixa-lo limpo. Assim que terminei, resolvi testa-lo um pouquinho. Natsume me encarava, suas bochechas estavam um pouco vermelhas. Sorri, levando o dedo até minha boca. Dei uma lambida lenta em meu polegar, tomando o sorvete enquanto encarava os olhos de Natsume. Ele ficou ainda mais vermelho, sua respiração parecia ter mudado. Ri, ele piscou.
– Quem é a criança agora? – perguntei – O mundo dá voltas, gattino.
Afastei-me dele, dando um sorriso perverso. Ele ofegou de leve, mordi o lábio. Encarei-o até que ele desviou o olhar, suas bochechas estavam tão vermelhas que chamavam atenção de quem via.
– Doida – ele disse, pigarreando – Vamos à roda gigante.
Assenti, sorrindo. Ele cedeu-me um sorriso relutante, procurando minha mão sem me olhar nos olhos. Ajudei-o, tocando sua mão. Natsume entrelaçou nossos dedos, suas bochechas voltaram à cor normal aos poucos. Ri silenciosamente, ele me puxou de leve, colocando-me no caminho certo.
**~**~**~**
– Vai começar – disse Natsume.
Assenti, sorrindo de leve. Ele retribuiu meu sorriso, desviando o olhar. Suspirei, ele estava daquele jeito desde o sorvete. Talvez provoca-lo tenha sido uma péssima ideia, eu sentia falta do Natsume anterior.
Nossa cabine deu um pequeno tranco para trás, erguendo-se do chão. Abri um sorriso, olhando em volta. A fila para a roda gigante estava ficando cada vez maior, tivemos que esperar por quase vinte minutos até conseguirmos comprar nossos tickets. Natsume ficara calado durante todo esse tempo, mas não soltara minha mão até a hora de entrar na cabine. Como estávamos em clima de natal, as cabines da roda gigante tinha sido substituídas por imitações de trenós vermelhas e reluzentes, eu me sentia o próprio papai Noel.
– Esse é o melhor horário para se estar em uma roda gigante – disse Natsume.
Sua voz estava calma, mas ele parecia distante. Olhava para a cidade, as barracas do parque ficavam cada vez menores. Nossa cabine já estava na metade do caminho, tínhamos comprado oito voltas completas no brinquedo.
– Por quê? – perguntei.
Natsume suspirou, sem me olhar.
– O pôr do sol – respondeu, simplesmente.
– Ah – falei.
Olhei em volta, encarando o céu. A cor dourada do céu da tarde estava sendo substituída por raios alaranjados, escurecendo o céu à medida que o sol baixava-se. Alguns pássaros voavam, passando bem perto da imagem da grande bola de fogo. Aquilo durou quase cinco minutos, os raios mais escuros que a noite sempre exibia já estavam aparecendo.
– Uau – falei.
Não virei para ver a reação de Natsume, mas pude sentir que ele sorria.
– Uau – concordou.
Dei uma risadinha, soltando um longo suspiro. O banco da cabine era um pouco largo demais, deixando um vale entre nós dois. Eu não me sentia incomodada, mas também não estava feliz com aquilo.
– Você está bem? – perguntou Natsume.
Pisquei, virando o rosto em sua direção. Ele me olhava pelo canto dos olhos, percebi que estava um pouco perto demais da beirada.
– Estou bem – respondi, tentando relaxar minha postura.
Ele não pareceu convencido, lentamente, espalhou-se melhor no banco. Isso diminuiu a distância entre nós, senti meu pelos se eriçarem.
– Venha aqui – ele disse, esticando o braço em minha direção,
Ele envolveu meus ombros, puxando-me para si. Meu corpo tremeu de leve, rezei para que ele não percebesse. Meu corpo encostou-se ao seu, ele estava quente. Sua mão apertou meu ombro esquerdo de leve, Natsume encarou meu rosto fixamente.
– Melhor? – perguntou.
Meus pelos se eriçaram, a respiração dele batia em meu rosto.
– Sim – falei.
Minha voz saíra como um rato engasgado, amaldiçoei-me por dentro. Ele pareceu não ter percebido, apenas assentiu, desviando o olhar. Suspirei, confusa. Não conseguia entendê-lo, e já tentara muito. Ele prometera que me deixaria entrar, e eu acreditara. Durante quase todo o passeio, ele tinha sido simpático e encantador, mas eu não me sentia segura o bastante para dizer que ele estava mesmo tentando.
(Música)
– Natsume? – chamei.
Ele me olhou, indicando-me que estava ouvindo. Hesitei, mordendo o lábio. Tinha várias formas de perguntar aquilo, mas apenas uma me parecia mais completa.
– O que aconteceu com você? – perguntei, quase desesperada.
Ele piscou, um pouco confuso.
– O que aconteceu comigo? – perguntou.
Assenti, ele suspirou. Seu rosto parecia pensativo, ele devia estar pensando em minha pergunta.
– Esclareça para mim – pediu.
Suspirei, engolindo em seco. Ele parecia verdadeiramente curioso, senti minhas mãos tremerem.
– Eu sei que você passou por algo muito difícil, vejo vestígios disso em você – falei, encarando seus olhos – Eu sei que você está sofrendo, eu só queria saber o motivo.
Ele desviou o olhar, entendendo onde que queria chegar. Seu maxilar travou-se, seus olhos pareceram perder um pouco de brilho.
– Eu estava esperando você me perguntar, demorou mais do que eu pensei – ele disse.
Natsume suspirou, senti seu braço se retrair por cima dos meus ombros.
– Conte-me, Natt – pedi, usando meu tom de voz mais gentil – Pode confiar em mim.
Ele me olhou, seus olhos pareciam fazer mil perguntas ao mesmo tempo. Sustentei seu olhar, minha mão tocou sua perna. Natsume encarou minha mão durante um segundo, depois expirou pesadamente.
– Eu me apaixonei – ele disse.
Pisquei, sentindo meu estômago virar uma pedra de gelo. Encarei seu rosto, ele parecia estar fugindo do meu olhar.
– Quando? – perguntei.
Minha voz estava fraca, engoli em seco. Natsume apertou meus ombros, como se estivesse buscando conforto. Afaguei sua perna, incentivando-o a continuar.
– Três anos atrás – ele respondeu.
Franzi minhas sobrancelhas por um momento, confusa.
– Muito bem, o que tem de errado nisso? – perguntei.
Ele respirou fundo, engolindo em seco.
– Nada, eu acho – ele disse – Mas o problema é que eu não fui o único.
– Oh – falei.
Trinquei os dentes, nervosa. Natsume pareceu sentir minha reação, seu corpo ficou mais tenso.
– E o que aconteceu? – perguntei.
Ele piscou, ainda encarando minha mão.
– Ela não me escolheu – respondeu.
Engoli em seco, Natsume apertou meu ombro.
– Eu sinto muito – falei.
Ele não respondeu, parecia estar pensando em outra coisa.
– Eu revelei meus sentimentos, estava lá quando ela precisou – disse, trincando os dentes – Tinha tanta certeza de que seria o escolhido, estava pronto para dar tudo a ela.
Resolvi ficar calada, estava claro que ele precisava falar. Afaguei sua perna de novo, encarando seu rosto contorcido em amargura.
– Ela é tão gentil, tão boa – ele disse, suspirando – Eu nem sequer tentei controlar, quando senti que ela havia acendido uma fagulha em meu peito, nem tentei extinguir as chamas, apenas deixei que elas se alastrassem.
Ele deu um pequeno sorriso, piscando duas vezes.
– Os beijos que trocamos, os abraços que eu dei nela – ele disse – Eu ainda tenho tudo gravado na mente, como se ela tivesse entalhando nossos momentos em meus neurônios.
Engoli em seco, ele fez o mesmo.
– Eu acreditava que o destino estava ao nosso favor, nunca tive amor igual – ele disse – Podia ter sido perfeito, mas ela não me quis.
Ele ergueu o rosto, fixando seu olhar no meu.
– Eu queria fazê-la sentir meu amor, mas não queria pressiona-la. Fui orgulhoso demais, queria que ela me visse, mas não fazia nada para me sobressair – ele disse – Eu não consegui me expressar muito bem, estava impotente. Não há uma palavra nesse mundo que pode descrever essa dor, é como se ela tivesse cravado uma estaca em meu peito.
Seus olhos tremeram, ele continuou me encarando.
– O que há de errado comigo, Nina? – perguntou – Por que eu não consigo parar de amar e sofrer por uma mulher que pisa no meu coração cada vez que sorri para mim e me chama de irmão?
Senti meu coração se apertar, meus olhos se arregalaram. Natsume desviou o olhar, prevendo minha reação.
– Sim, eu também me apaixonei pela Ema – disse.
Foi como se todo a couraça que eu construíra em meu peito tivesse recebido uma paulada, quebrando-a e reduzindo-a a cacos de vidro. Minha boca se abriu sem minha permissão, arquejei. Natsume colocou sua mão sobre a minha, engoli em seco.
– Eu tento não pensar nisso a cada vez que eu olho para ela, mas é impossível – ele disse – Eu vejo o modo como os outros olham para ela, Ema encoraja quase todos eles sem nem perceber, mas ela nunca olha para mim. Eu não fui o único a me declarar, mas foi o único a ser descartado.
Ele ergueu o olhar, encarando meu rosto.
– Tem ideia do que é isso? – perguntou, apertando meu ombro – Tem ideia do quanto dói ver a pessoa que você ama nos braços de outra pessoa? Tem ideia do quanto dói saber que você é tão repulsivo que foi o único a ser rejeitado?
Abri minha boca para responder, mas Natsume fez algo que me surpreendeu: deitou a testa em meu ombro. Senti meu coração se apertar, ele me abraçou com os dois braços.
– Eu vivo com isso há três anos, tentando me esquivar sempre que eles me convidam para alguma reunião de família ou coisa do tipo – ele disse, arquejando – Até minha mãe me acha patético, o pai dela nem me olha atravessado nem nada do tipo. O único que me vê é o esquilo, tem ideia do quanto isso é humilhante?
Ele soltou uma risada sem humor, enterrando-se em mim. Envolvi seu pescoço com meu braço esquerdo, ele suspirou.
– Quando eu soube que a mamãe tinha adotado uma garota nova, eu entrei em pânico – ele disse – Morria de medo de acontecer outra vez, enquanto morria de curiosidade. Como seria essa garota? Como seria seu rosto? Ela parecia com Ema? Ela também me rejeitaria?
Natsume ergueu o rosto, nosso olhar se encontrou. Sua expressão era frágil, sua boca tremia de leve.
– Quando eu te vi, quando eu vi que você tentava ser gentil com todos, eu morri por dentro – ele disse – Não tinha esperança alguma, você era como ela, você me rejeitaria também.
Ele ergueu a mão, seus dedos correram em minha bochecha.
– Eu tentei te afastar, tentei te bloquear de qualquer jeito. Eu senti uma fagulha ser acesa por você também, mas tentei com todas as minhas forças apaga-la – ele disse – Mas você é forte, muito mais forte que eu. Você é forte, e incendiou meu coração com mais força do que ela.
Seus dedos tocaram meus lábios, ele fechou os olhos.
– Quando ouvi você falando de mim no dia da festa de halloween, foi como se você tivesse acabado de jogar gasolina naquela fagulha – ele disse, sorrindo um pouco – Eu fiquei tão feliz, finalmente alguém reparara em mim.
Ele riu, abraçando-me com mais força.
– Eu devo estar soando como um adolescente inseguro, me desculpe – ele disse, ainda de olhos fechados – Acho melhor parar por aqui.
– Não, não pare – pedi, quase o interrompendo – Você precisa falar, eu quero ouvir tudo.
Ele sorriu, assentindo de leve. A tristeza de seu rosto parecia ter sumido, ele parecia quase normal agora, como antes da nossa discussão de mais cedo. Esperei, ele mexeu um pouco em meus cabelos, olhando-me com doçura.
– Quando saímos para jantar, eu estava tão nervoso que mal conseguia conversar com você – Natsume disse, rindo de leve – Você passou mal por minha culpa, eu sei que não devia, mas ri muito daquilo quando cheguei em casa.
Ri, ele abriu os olhos. Nosso olhar se encontrou, sorrimos um para o outro.
– Você se arrependeu de ter comido aquelas lesmas depois? – ele perguntou.
Sorri, ele esperou por minha resposta.
– Na verdade não, eu achei delicioso – confessei – Só passei mal naquela hora por sua culpa, você ficou me lembrando de como eram os caracóis e eu fiquei imaginando-me comendo aquele bicho enquanto ele rastejava na minha mão e sacudia as antenas.
– Que nojo, Nina! – disse Natsume, explodindo em uma risada – Eu não acredito que você ficou pensando essas coisas, assim você me faz ter remorso.
Ri, ele me acompanhou. Seu aperto virou algo mais suave, ele voltou ao seu lugar. Ainda com o braço esquerdo em volta dos meus ombros, Natsume segurou minha mão.
– Toda aquela nojeira foi compensada depois, eu adorei dançar com você – ele disse, suspirando – Você nem pisou nos meus pés, aquilo foi um alívio.
Bufei, revirando os olhos. Ele riu, inclinando-se em minha direção. Seus lábios tocaram minha testa de leve, ele suspirou.
– Como se não bastasse tudo aquilo, você ainda me desarmou ferozmente no parque – ele disse – Eu nunca me abri para ninguém, você foi a primeira pessoa que conseguiu me fazer expor meu interior daquele jeito.
Natsume beijou minha testa, demorando-se pouco mais de três segundos no ato. Sorri, fechando os olhos por um momento.
– Eu não estou acostumado a beijar a testa de uma mulher, mas quando é com você, eu sinto como se minha boca tivesse sido feita para isso – ele disse, sorrindo contra a pele da minha testa – E, para acabar com qualquer dúvida, teremos mesmo um terceiro encontro.
Um sorriso enorme espalhou-se em meus lábios, ele afastou-se de mim. Nosso olhar se encontrou, seus olhos brilhavam como nunca antes.
E eu nunca fiquei tão ansiosa para ter um encontro com Natsume.
**~**~**~**
– É aqui que eu te deixo – disse Natsume.
Assenti, parando de andar. Sem esperar por minha iniciativa, ele tomou-me em seus braços fortes uma última vez. Sorri, abraçando-o de volta com força. Natsume enterrou o nariz em meus cabelos, sua respiração esquentou meu couro cabeludo.
– Obrigado por me ouvir – ele disse – Me desculpe por ter te aborrecido, obrigado por ser tão companheira para um cara como eu.
Dei uma risadinha, apertando-o com mais força ainda. Os braços de Natsume pareciam estar tentando me partir em duas, nossos peitos estavam completamente colados.
– Obrigada pela tarde maravilhosa, adorei passar um tempo com você – falei — Obrigada por me deixar entrar, eu sei que é difícil. Você é muito importante para mim, quero estar ao seu lado. De agora em diante, sempre.
Foi a vez de ele dar uma risadinha, senti-o depositar um beijo em meus cabelos.
– Boa noite, Nina – ele disse.
Suspirei, depositando um beijo onde eu consegui alcançar: Seu pescoço. Ele tremeu de leve, seus pelos se eriçaram. Ri baixinho, soltando-o devagar.
– Boa noite, Natt – falei.
Ele sorriu, inclinando-se em minha direção outra vez. Ele depositou um beijo rápido em minha testa, afastando-se logo em seguida. Sorrimos um para o outro, dirigi-me à porta. Senti sua mão segurar meu braço antes que eu pudesse abrir a porta, Natsume sacou-me para seus braços outra vez. Minhas costas colidiram contra seu peito, seus braços fecharam-se a minha volta.
– Mais uma coisa – ele disse.
Sua boca tocou minha orelha, senti meus pelos se eriçarem.
– Tenha bons sonhos, gatinha – Natsume disse, beijando minha orelha.
Ele me soltou antes que eu pudesse reagir, dando-me as costas e dirigindo-se à saída. Arquejei, mordendo o lábio com força. Preferi não olhar para trás, abrindo a porta com rapidez. Pude ouvir sua risada forte no jardim, não pude deixar de rir. Bati a porta, fechando os olhos.
Eu ainda ouvia suas palavras em meus ouvidos, como se ele tivesse sussurrado algum tipo de feitiço. Mordi o lábio de novo, deixando uma risada deliciada escapar. Por que eu estava quente daquele jeito? Por que seu cheiro não saia da minha cabeça?
– Ah – disse uma voz cheia de surpresa.
Abri meus olhos, deparando-me com a imagem de outro gêmeo Asahina. Tsubaki deu um meio sorriso, vindo até mim devagar. Senti meu sorriso morrer, meu corpo inteiro ficou tenso.
– Parece que minha maninha teve uma tarde boa com meu irmãozinho, estou com ciúme – ele disse.
Engoli em seco, dando um sorriso nervoso. Ele sorriu para mim, fiquei ligeiramente desconfortável. Afaguei meu braço, encarando o chão. Ficamos em silêncio durante um tempo, nenhum de nós sabia o que dizer. Eu já estava quase erguendo o rosto quando Tsubaki pigarreou, fazendo meus pelos se eriçarem.
– Ei, eu vou sair. Tenho um encontro com uma garota, ela é chata, mas eu preciso transar – disse Tsubaki – Não tem mais ninguém lá dentro, acho que alguns foram jantar fora. Não sei de todos, mas acho que Masaomi levou Wataru para dormir na casa da mamãe.
Assenti, mordendo o lábio. Não ergui o olhar, mas percebi que Tsubaki vestia roupas sóbrias, diferente do que ele usava sempre.
– Maninha, olha para mim – ele pediu.
Engoli em seco, pensando em mil razões para não obedecê-lo. Mesmo hesitante, ergui meu rosto devagar. Nosso olhar se encontrou, meu estômago parecia ser feito de gelo.
– Me desculpe por aquilo naquele dia, só consegui pensar direito quando o efeito da cerveja passou – disse Tsubaki, tentando rir, mas estava nervoso demais – Você passou o dia todo no quarto do Louis ontem, eu não tive como pedir desculpas antes.
Ele parou de falar, dando um meio sorriso hesitante. Estremeci, desviando o olhar. Bastava ver seu rosto para lembrar-me da merda que fizemos, e aquilo era algo que eu estava tentando esquecer.
– Tudo bem, eu estou tentando não pensar nisso, agradeceria se você me deixasse em paz para esquecer – falei, engolindo em seco.
– Ah – disse Tsubaki, arquejando em meio à frase – Entendi, desculpe.
Assenti, tentando não morder o lábio. Ele coçou a nuca, olhando em volta.
– Ei, só mais uma coisa – ele disse.
Não respondi, apenas lancei-lhe um rápido olhar de esguelha. Tsubaki engoliu em seco, hesitante.
– Aquilo significou alguma coisa para você? – ele perguntou.
Pisquei, sentindo meu estômago se revirar. Eu nunca parara para pensar sobre isso, estava ocupada demais tentando esquecer. Engoli em seco, sacudindo um pouco a cabeça para encontrar minha capacidade de dizer palavras em japonês.
– Não – respondi.
– Ah, tá – disse Tsubaki – Só isso.
Ele falou aquilo muito rápido, fingi que não tinha percebido. Tsubaki passou por mim, colocando a mão na maçaneta. Dei um passo para longe dele, tentando não correr.
– Ei, maninha – chamou-me Tsubaki.
Virei meu rosto em sua direção, ele encarava o chão. Seu rosto estava retorcido em uma careta. Sua boca se abriu e fechou várias vezes, ele engoliu em seco. Devia estar escolhendo as palavras, engoli em seco.
– Nada, nada, nadinha mesmo? – perguntou – Desculpe a insistência, eu só quero ter certeza de que ninguém vai sair magoado dessa história. Você sabe que eu não sirvo para você, Nina. Sério, você é boa demais para mim. Eu não mereço você, você é mulher para casar, e eu... Bom, eu sou Tsubaki Asahina, um idiota que abusou da própria irmã e que vai levar a garota do estúdio de gravação para sair só para tentar tirar você da cabeça.
Ele disse tudo aquilo muito rápido, parecendo nem pensar muito ao colocar as palavras para fora. Engoli em seco, tentando não vomitar.
– Sério, não significou nada para mim – falei – Não se preocupe comigo, sou esperta demais para me apaixonar por você.
Ele riu, assentindo como se me desse a razão. Sorri, respirando fundo.
– Agora sim, é só isso – ele disse – Boa noite, me ligue se precisar de alguma coisa.
Ri, ele me olhou.
– Se eu precisasse de alguma coisa, a última pessoa para quem eu ligaria seria você, isso porque eu não tenho o número do Lord Voldemort e porque o Adolf Hitler já morreu – falei.
Tsubaki deu uma risadinha nervosa, sacudindo a cabeça para tentar disfarçar.
– Claro, que merda eu tava pensando? – disse, ainda rindo – Se precisar de alguma coisa, ligue para qualquer um, menos para mim.
Assenti, cedendo-lhe um sorriso. Ele me olhou, fingi não estava percebendo a dúvida em seu olhar. Sua mão parecia estar travada na maçaneta, pigarreei.
– Er... Tchau – ele disse.
Assenti, ele esperou. Seu olhar incerto esrava fixo em meu rosto, como se quisesse me ouvir dizer alguma coisa. Pensei, o que eu poderia dizer em um momento como aquele?
– Boa... Transa? – desejei, tentando sorrir.
Ele riu, uma risada nervosa.
– Obrigado – ele disse – Boa noite, nos vemos amanhã.
Acenei, dando um sorriso mínimo. Ele deu um pulo, abrindo a porta e saindo em questão de segundos. Acho que Tsubaki bateu a porta com força demais, pude ouvi-lo praguejando. Sacudi a cabeça, estremecendo. Virei meu corpo na direção da sala, ignorando meu nervosismo e quase saindo correndo. Estava indo para as escadas quando ouvi um grunhido, meus pelos se eriçaram. Meus olhos recaíram-se na mesinha de centro da sala, uma pequena criatura berrava em minha direção.
– Juli! – chamei.
Ele pulou da mesinha, avançando em minha direção. Dei um passo para trás, ainda tinha um pouco de medo daquele bicho estranho. Ele chiou, arranhando minha calça com suas unhas.
– Sai, eu não sou sua dona – protestei.
– Ki, ki! – berrou, esbugalhando os olhos.
Arquejei, deseperada. Que dia lindo! Tinha saído com um lobo, voltado para um tigre, e agora eu seria assassinada por um esquilo sociopata. Isso não é ótimo?
– O que você quer? Eu não sou homem, e nem sou um esquilo! – falei.
– KI! – repetiu.
Ele escalou minha perna, me segurei para não sair correndo. Resolvi tira-lo de mim assim que ele chegou à minha blusa, afastei-o, segurando-o pela nuca. Ele começou a se debater, soltei um muxoxo.
– KI, KI, KI! – berrou.
– Que droga, o que diabos você quer?! – berrei de volta, apavorada.
Soltei-o, ele caiu de pé. Aparentemente, não eram apenas os gatos que podiam fazer isso. Juli correu para a cozinha, chiando daquele jeito. Resolvi segui-lo, a melhor coisa a se fazer quando se está sendo ameaçado é obedecer. Fui até a cozinha, acendendo a luz. Juli já estava na bancada da cozinha, chiando e sacudindo o rabo.
– Você quer comer? É isso? – perguntei.
– KI! – berrou.
Trinquei os dentes, nunca tinha alimentado um esquilo antes. Resolvi tentar uma fruta, acho que esquilos comem frutas. Peguei uma banana da fruteira e descasquei, arrancando um pedaço e estendendo-o ao bicho. Juli puxou a banana da minha mão, enfiando a fruta na boca tão rápido que eu quase não consegui ver. Arquejei, ele mastigava muito rápido.
– Desde quando você está desse jeito? Tsubaki não deu comida para você? – falei, sacudindo a cabeça – Eu vou matar a Ema, porque ela sempre esquece você aqui?
– Ki – disse Juli, encarando-me com aqueles olhinhos.
Suspirei, dando-lhe mais um pedaço de banana. Sentei-me em um banco, parando para pensar na minha vida por um tempo. O esquilo continuou comendo, seu ritmo diminuía de acordo com a quantidade de banana que ele ingeria. Suspirei, repassando as duas últimas semanas em minha mente. Tudo estava errado, era como se minha vida estivesse de pernas para o ar. Minhas certezas já não eram tão certas, se fossem, eu não teria traído meu namorado. Louis me amava, mas cuidava de mim com tanto carinho que eu não conseguia recusar seus toques suaves. Tsubaki estava estranho, eu vira como ele se portara a pouco. Tinha algo em seu olhar que não me deixava ir, ainda que sua presença me incomodasse no momento. E ainda tinha Natsume, quem eu temia estar enganando. Ele disse algo sobre uma chama ter sido acesa para mim em seu peito, eu não era a garota mais esperta do mundo, mas aquilo só podia ser uma chama de amor, e não era o amor que eu queria que ele me desse. Ou era?
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Bufei, batendo a mão na testa. Eram muitas perguntas sem resposta, muita dúvida para uma cabeça só. Se não fosse tão tarde eu não estivesse tão ferrada, eu ligaria para Yelisei e chamaria-o para sair. Pelo menos um amigo eu tinha, com ele eu podia conversar. Eu detestava estar sozinha, aquilo era frustrante.
– Ki – disse Juli.
Pisquei, o esquilo gesticulava em minha direção. Tinha comido a banana toda, mas ainda parecia estar com fome. Ri pelo nariz, sacudindo a cabeça. Catei algumas nozes na fruteira ao lado da pia, jogando-as para Juli por cima do ombro. Ele pegou todas, e logo começou a comer. Achei um banco alto ao lado da bancada e puxei-o para onde estava o esquilo, posicionando-a de modo correto. Sentei, soltando um suspiro. Juli comia, olhando-me de vez em quando. Mordi o lábio, incerta. Eu não estava sozinha, e se Louis dissera que Juli era bom com conselhos. Eu não estava louca, ainda, mas não custava tentar. Além do mais, eu confiava em Louis. Sacudi a cabeça, Juli terminou de comer suas nozes e ficou me encarando, como se esperasse alguma coisa.
– Ei, preciso conversar – falei, encarando o esquilo.
– Ki – ele disse.
Revirei os olhos, ele ficou me olhando.
– “Ki” uma ova, eu te dei comida, você vai me ouvir – falei.
– Ki – repetiu, me encarando.
Estremeci, desviando o olhar. Era estranho ter um esquilo te encarando, engoli em seco.
– Eu estou ficando louca – falei – Não tenho para onde correr, eu não tenho ninguém para conversar.
Lancei-lhe um olhar de esguelha, o esquilo agora sentara. Pisquei, aquilo era cômico.
– Meu porto seguro era Louis, mas agora que eu sei o que ele sente por mim, eu não posso mais confiar muito nele – falei – Estou rodeada por homens aqui, sua dona é muito tímida para saber do que eu estou falando, e eu tenho medo de conversar com a mamãe. Eu não tenho para onde correr, estou entrando em desespero.
– Ki – disse Juli.
Bufei, ele aproximou-se de mim. Observei-o, o esquilo agarrou meu dedo. Sacudi minha mão, ele chiou.
– Até você quer me agarrar, assim eu não aguento – resmunguei – Só fique quietinho, eu só preciso de um par de orelhas.
– Ki – disse Juli.
Ele sentou-se diante de mim, erguendo sua cauda. Seus olhos fixaram-se em meu rosto, encarei minhas unhas.
– Eu traí meu namorado – falei – Estava bêbada, tão bêbada que não consegui me livrar de Tsubaki, e acho que nem queria. Eu não sei o que está havendo comigo, eu sou feliz com o Akira, mas sinto que meu coração está realmente vacilando.
Encarei o esquilo, ele me encarou de volta. Soltei um suspiro pesado, engolindo em seco.
– Eu não sei o que fazer, quanto mais eu penso, mais eu me enrolo – falei, sentindo a voz embargar – Eu quero estar aqui por todos eles, mas não tenho forças nem para me manter firme por mim mesma. Eu não sei o que fazer, Juli.
Senti minhas lágrimas começarem a escorrer, engoli em seco. Fiquei cavando minhas unhas, meu esmalte começou a sair.
– Ki, ki – disse Juli.
Ele parecia ter suspirado, funguei. Ri pelo nariz, encarando-o.
– E agora eu estou conversando com um esquilo, a que ponto eu cheguei? – perguntei, rindo de novo – Eu sou tão solitária que meu único amigo é um animal que me odeia, eu quero morrer.
Bufei, sentindo minhas lágrimas começarem a sair com mais força. Funguei, sacudindo a cabeça.
– Kiii – disse Juli.
Ri, mesmo não querendo. Aquele “ki” prolongado fora a gota, sequei meus olhos.
– Tem razão, eu devia parar de me esconder como uma garotinha e encarar a situação – falei, engolindo em seco – Amanhã eu vou ligar para Akira, vou dizer a verdade. Ele vai me odiar, mas ele merece saber o que aconteceu.
– Ki – concordou Juli, balançando o rabo duas vezes.
Sorri, soltando um suspiro choroso. O esquilo avançou até minhas mãos, suas patinhas dianteiras agarraram meus dedos. Ri, compreendendo o que ele queira dizer. Afaguei sua cabeça, ele soltou um ressonar preguiçoso do fundo da garganta. Sorri, suspirando de novo.
– Parece que eu estava enganada, falar com um esquilo não é nada ruim – falei.
– Ki – disse Juli.
Ele enfiou-se em minhas mãos, deitando-se nelas como se fossem sua cama. Ri, o esquilo fechou os olhos.
– Obrigada, Juli – falei.
Ele não respondeu, deveras, ele é um esquilo. Revirei os olhos diante da minha estupidez, talvez eu estivesse mesmo ficando louca.
E um esquilo foi meu melhor amigo naquela noite.
IMAGEM ESPECIAL
Azusa Asahina (Er... Eu pegava)

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