The New Girl in the House
2 Adotada
Notas iniciais
– Nina, tem um inseto no seu cabelo – disse Akira, abrindo um sorriso enorme.
Arregalei os olhos, meu coração vacilou por um segundo. Sacudi meus cabelos, gritando sem parar. Akira rolava de rir, apertando sua barriga com as mãos. Parei se me sacudir, meus olhos estavam arregalado de pânico. O moreno ao meu lado ainda ria, parando um segundo para respirar.
– Você não perde esse seu medo de insetos, é divertido brincar com isso – disse Akira, secando uma lágrima que soltara ao rir de mim.
Semicerrei os olhos, Akira voltou a rir.
– Você é um completo idiota – falei.
Dei-lhe as costas, fingindo estar com raiva. Entrei no grande prédio antigo, cruzando os braços e pisando forte. O lugar tinha estilo de instituição de ensino, já que era um orfanato-escola. No térreo ficava as salas de aula e as instalações da escola, juntamente com os escritórios e arquivos dos residentes. No primeiro andar ficavam a ala infantil, separando os quartos masculinos e femininos com um corredor largo. No segundo andar ficava os dormitórios das meninas, e cada quarto tinha uma letra e numeração. No terceiro andar ficavam os dormitórios dos meninos, organizados como os das meninas. Era no terceiro andar que ficavam os chuveiros comunitários, separados por sexo, claro. No ultimo andar ficava o telhado, lugar onde Akira e eu sempre ficávamos. Comíamos todos juntos nos refeitório do primeiro andar, e passávamos a maior parte do dia nos jardins e salas vazias.
Passei pela frente da sala dos arquivos, lembrando-me de como costumava ter curiosidade em entrar naquele local antes. Esqueci disso quando conheci Akira, ele foi o único que convenceu-me á não me meter na vida dos outros.
– Senhorita Kazama – chamou-me alguém.
Virei para trás, um pouco em estado de alerta. Annelise Mishima andava até mim, séria como sempre.
– Bom dia, diretora – falei, batendo continência.
Ela parou á alguns passos de mim, sempre cautelosa e firme.
– Venha comigo – chamou-me – Precisamos conversar no meu escritório.
Assenti, seguindo-a. O escritório da diretora do orfanato ficava bem na entrada do orfanato, o que era bem lógico, levando em conta que era o único lugar que os adultos visitavam. Algumas crianças aguardavam a diretora na porta da sala, faziam parte do esquadrão que vendia biscoitos para ajudar a pagar algumas contas. Mishima dispensou-as com um aceno de mão, suspirei. Todos ali já estavam acostumados com a personalidade dela, mas eu ainda me surpreendia com sua rigidez com algumas criancinhas. Sra. Mishima abriu a porta, indicando o interior da sala.
Entrei com as mãos enfiadas nos bolsos, analisando o interior da sala que eu já cheguei a frequentar muitas vezes. A mesa enorme estava posicionada bem no centro da sala, junto com a cadeira da diretora. Estantes cheias de livros povoavam as paredes da sala, disputando espaço com alguns quadros com prêmios e fotos de residentes antigos. O que mais chamou minha atenção foram as cadeiras de visitantes, que estavam ocupadas por um casal.
O homem era um tanto pálido, cor que fazia contraste com seus cabelos negros. Seus olhos eram castanhos e pareciam gentis, ele me pareceu um típico pai. A mulher era loira e possuía gentis olhos azuis, e me pareceu uma típica mãe. Eles me pareceram o típico casal sem filhos que eu já tivera o desprazer de conhecer, deviam estar á procura de um filho para poderem viver felizes para sempre. Esse roteiro não me era estranho, mas eu detestava o final.
– Senhor e senhora Hinata, está é garota de quem lhes falei – disse a Sra. Mishima, pegando-me pelos ombros.
Eles sorriram para mim, me senti como um cãozinho de loja de animais.
– É um prazer conhecê-la, a Sra. Mishima nos disse ótimas coisas a seu respeito – disse o homem, levantando-se.
Ergui uma sobrancelha, Sra. Mishima apertou meus ombros. O homem estendeu a mão para me cumprimentar, apertei sua mão com certa firmeza.
– Um aperto firme para uma garota delicada – aprovou, dando um sorriso um tanto paternal.
– Não tenho certeza se sou delicada, mas obrigada – falei, um pouco cautelosa.
O casal riu, risadas discretas. Sra. Mishima sacudiu-me levemente, lembrando-me de que eu iria me arrepender por aquela grosseria mais tarde.
– Sente-se, Nina – disse a diretora, lançando-me um olhar firme – Vamos tratar de assuntos sérios agora.
Ela indicou uma cadeira vazia, ao lado da mulher. Pensei em dizer que queria ir embora, mas algo no olhar da diretora me fez ir quase correndo para a cadeira. Sentei-me, cabisbaixa. A mulher afagou minha mão, encarei-a. Ela sorria gentilmente, me parecia o tipo de pessoa que não merecia minha grosseria. Tentei sorrir, mas saiu uma careta desfigurada.
– Muito bem, Nina Kazama – disse Annelise, voltando-se ao seu computador – Boas notas, boa índole, boa aluna. Respeita a autoridade do professor, não contribui com a bagunça na sala de aula, representante de turma e vice-líder do conselho estudantil.
Evitei bufar, todos aqueles títulos não contavam para absolutamente nada. Eu só tinha a confiança das crianças, e quando se tem isso, é fácil mandar nelas.
– Parte estudantil ótima, com certeza uma aluna exemplar – disse a diretora, dando um mínimo sorriso para mim – Atribuímos esse comportamento a nossa direção, já que quando a senhorita Kazama chegou, ela era como uma selvagem.
Trinquei os dentes, tentando ficar calma.
– Como explica seu comportamento inicial, Nina? – perguntou Sra. Mishima, me encarando.
Senti os olhos do casal sobre mim, me senti mal.
– Meus pais tinham acabado de ser assassinados bem na minha frente, acho que fiquei um pouco chocada – ironizei, ela conhecia minha história, tanto que ministrava-me seções com o psicólogo do orfanato.
O casal ainda me olhava, o homem ainda tinha aquele olhar paternal. A mulher apertou minha mão, olhando-me de forma afetada. A diretora assentiu, cruzando as mãos.
– E como explica sua mudança? – perguntou.
Olhei para ela, aquela mulher estava me forçando a ser grossa.
– Eles não me criaram daquela maneira, eu não podia continuar daquele jeito – respondi – Me esforcei para subir de nível, queria dar orgulho a eles.
O casal me olhava de forma diferente agora, era quase como se eles tentassem me entender, de verdade. A diretora assentiu, voltando seu olhar para seu monitor.
– Muito bem, fez um bom trabalho – ela disse.
Aquilo era o mais próximo que eu já chegara de ser elogiada por ela, soltei um suspiro aliviado.
– Outro ponto em questão, seu relacionamento com seus colegas – ela disse.
Estanquei, dando um tranco para trás. A mulher ainda segurava minha mão, e espantou-se um pouco com o susto.
– Mostra ótimo entrosamento, é amiga de todos e todos parecem confiar em você – disse a diretora, me encarando – Pode explicar isso?
Soltei outro suspiro de alivio, agradecendo mentalmente que Akira e eu fossemos tão discretos. As leis do orfanato ficaram mais rígidas desde que uma das residentes engravidou de um dos residentes, os namoros eram completamente proibidos.
– Bom, eu não sei – respondi, sendo sincera – Eu só sou eu mesma.
A diretora assentiu, olhando agora para o casal.
– Isso responde suas perguntas? – perguntou.
O homem olhou para a mulher, que assentiu discretamente.
– Sim, responde – ele disse, encarando a diretora.
– Fizeram sua decisão? – perguntou a diretora, sem esperar que o homem fechasse a boca.
O homem olhou para a esposa outra vez, a mulher olhou para mim. Li sua expressão, ela estava quase maternal. Sua mão apertou um pouco a minha, e ela deu um sorriso.
– É ela – ela disse, olhando-me nos olhos – Ela é perfeita.
Pisquei, incrédula. O homem sorriu, sua mão segurou minha mão livre. Olhei para minhas mãos, ambas ocupadas. Me senti como uma garotinha outra vez, do jeito como se sentia quando meus pais me levavam ao parque em tardes de domingo. Meus olhos começaram a arder, minha respiração começou a pesar. Puxei minhas mãos para esconder meu rosto, minha garganta se apertou como se alguém estivesse tentando me enforcar.
– Miwa, leve-a lá para fora – disse o homem, falando um pouco mais baixo – Eu cuido da papelada.
– Sim, querido – disse a mulher, Miwa – Vamos, minha querida.
Senti meus ombros serem abraçados, levantando-me da cadeira. Minhas mãos ainda escondiam minhas lágrimas quentes, que insistiam em sair. Fui guiada para fora pela mulher, evitei seu olhar. Ela abraçava-me pelos meus ombros, puxando-me delicadamente para mais perto dela.
– Não precisa chorar, minha querida – ela disse, dando um delicado beijo em minha testa – Não chore.
Tentei engolir o choro, mas era mais forte do que eu. Eu ficara ali por dois anos, e sempre era rejeitada pelos casais que passavam. Eu não entendia o motivo, era assim tão repulsiva que ninguém me queria?
Miwa me levou para os jardins, que estavam cheios de gente. Reconheci Akira perto de uma das cerejeiras, senti seu olhar preocupado me seguir por onde a mulher me guiava. Ela me sentou em um banco vazio, sentando ao meu lado. Ela tirou minhas mãos do meu rosto e secou minhas lágrimas, deixei que ela o fizesse.
– Me conte, porque está triste? – ela perguntou.
Neguei com a cabeça, fungando.
– Eu não estou triste, senhora – respondi, minha Voz saiu fraquinha – Só estou acostumada a ser rejeitada, ninguém nunca me quis.
Ela soltou um suspiro afetado, afagando meus braços.
– Não se preocupe, querida – ela disse, olhando-me de forma quase carinhosa – Você não vai ser mais rejeitada, nós vamos ficar com você.
Olhei em seus olhos, ela me olhava de forma maternal. Não pensei, apenas atirei-me em seus braços, chorando como uma criança. Miwa me abraçou, soltando um doloroso suspiro.
– Arrume suas coisas, nós vamos leva-la para casa amanhã – ela disse, falando baixo – Esteja pronta amanhã ás dez.
Assenti, recuperando meu autocontrole. Separei-me de Miwa, ela segurou minhas duas mãos.
– Não se preocupe, Nina – ela disse, dando um sorriso – Você vai ter uma família.
Sorri, internamente feliz.
– Obrigada, senhora Hinata – falei.
– Miwa – corrigiu, suspirando – Ou mãe, se você quiser.
– Tudo bem, “mãe” – falei, brincando.
Nós duas rimos, eu estava gostando cada vez mais dela.
IMAGEM ESPECIAL
Akira Yushima

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