– Filha, vá lá em cima, pegue para mim mais um pouco de tinta. Preciso terminar isso ainda hoje, caso contrário não poderá ter a celebração. – disse Ganja, a rainha de Erbos. Ela segurava um pincel do pelo mais caro que se pode existir, de cabo banhado a prata com pedras de diamante, decorados da forma mais elegante possível pelas mãos da própria rainha. Ganja pintava uma tela observando uma foto de seu próprio castelo, era tradição ela fazer isso todos os anos, e cada ano a tela ficava mais bonita. Ao seu lado direito, no chão, uma caixa de som tão detalhada e brilhante quanto qualquer outra coisa naquele lugar, e conectada ao aparelho de som havia outra tecnologia do mundo antigo, um celular, o mais moderno que se pode imaginar e caracterizado aos gostos da rainha. A música que tocava era um Pop, que agradava à maioria dos cidadãos, incluindo Ganja, é claro. Tanto a agradava que o sorriso da moça era tão lindo quanto um pôr do sol. O motivo do sorriso podia ser a música, a beleza de sua filha Lucia, que aumentava a cada dia ou podia ser também a celebração que viria no dia seguinte, mas isso não importa. O importante é que a rainha deu a ordem à sua filha com um sorriso no rosto que apenas algo muito ruim poderia tirar.
– Pode deixar! Serei rápida como um gato, ou melhor uma gata. – disse Lucia, com um sorriso tão bonito quanto o de sua mãe, a menina apenas se virou e saiu correndo, fazendo seu longo cabelo e seu lindo vestido que ia até pouco acima do joelho balançarem de modo tão lindo quanto estava sendo aquela tarde.
Lucia subia as escadas correndo, não queria atrasar sua mãe com os preparativos da celebração. A cada degrau a velocidade da menina aumentava e com isso, cair lá de cima não era uma coisa tão impossível. Mas de modo algum isso aconteceu, a garota chegou no segundo andar intacta e então já no corredor continuou correndo em direção ao quarto da mãe, com a porta extremamente decorada e brilhante, ao gosto da rainha. Lucia não precisou de muito esforço para abri-la e lá dentro já deu de cara com a mesa de sua mãe cheia de pinceis espalhados. A menina seguiu em direção ao móvel, abriu uma pequena gaveta que tinha nele e pegou dentro dela um pote de tinha preta, um tinha rala com uma cor escura brilhante, rapidamente a menina fechou a gaveta, virou-se e voltou a correr desta vez em direção ao local onde sua mãe estava. Passou, pelo corredor, desceu as escadas, tão rápida quanto as subiu e chegou ao seu destino. A rainha estava de olhos fechados, olhando para cima, com um sorriso.
– Aqui está mamãe! – disse Lucia.
– Você foi rápida. – Ganja respondeu. – Como uma gata!
Uma música calma começou a tocar – “O que sabes sobre o que já passou? Memórias são imagens, e imagens não são verdade” – Era o que a música dizia – “Suas verdades são mentiras, e seus amores ódio. Tanto lutastes por teus objetivos, mas gaguejas quando lhe pergunto quais são. Tu não sabes?”
– Lucia, você pode ir pro quarto se quiser, assista um pouco de TV enquanto termino, e depois poderemos preparar juntas a celebração. – disse Ganja para sua filha.
– Ver você pintando é melhor do que assistir a qualquer daqueles programas de fim de ano. – respondeu Lucia com uma voz de deboche. – Além de que eu gosto dessa música, não gosto de parar de ouvi-la antes do fim.
“Deves lembrar de seu futuro, e não pensar em seu passado. O que se foi não volta mais, mas o que ainda não chegou, só depende de você fazer chegar. Não se deixe levar pela clara escuridão, não seja um peixe voando no céu azul” – era o refrão.
– Como consegue gostar disso? – disse a rainha – Essa música não faz sentido algum.
– Sentido? O que não faz sentido são aquelas músicas de amor que você fica escutando, é pior que as músicas do fim do mundo antigo.
– Olha só como fala dos meus gostos mocinha! – as duas começam a rir muito, então Lucia olha com seriedade para a tela da mãe.
– A perspectiva da árvore. Está errada.
– Minha nossa! Filha ainda bem q você notou isso antes de eu passar a tinta. – Ganja disse quase gritando. – Mas, como você sabe disso?
– Ela está grande demais em relação ao castelo, não respeita o ponto de fuga.
– Isso eu já percebi Lucia, mas, o que quero saber é como consegue perceber isso se nem pinta comigo?
– Intuição. – a menina ri – Brincadeira, a verdade é que andei lendo uns livros novos, e uns do mundo antigo.
– Além de rápida é uma garota curiosa. Minha filha se tornará muito sábia! – a menina sorri – Mas, tome cuidado com o que lê, nem tudo do mundo antigo te ensina coisas boas.
– Eu sei disso, mamãe, sei tudo que eles fizeram, sei que destruíram nosso planeta a séculos atrás, mas aprendemos com nossos erros e trazemos apenas o bom do antigo para o presente.
– Para uma menina de doze anos você é muito inteligente.
– Você demorou doze anos para perceber isso mamãe?
– Para falar a verdade, apenas esperei a hora certa para dizer.
Muita conversa foi jogada fora, a relação das duas foi sempre algo invejável em qualquer família, a música que tocava sempre as agradava, quando uma não estava satisfeita, a outra estava, então pode-se dizer que ambas se divertiram muito até Ganja terminar sua arte. Em seguida elas preparam o castelo para a celebração e depois que terminaram as duas foram se arrumar para a noite que viria.
Algumas horas se passaram, era pouco antes de meia-noite, hora que os convidados chegariam para o evento que iria acontecer. Lucia, saía do banheiro em direção ao seu quarto com uma toalha amarrada em seu peito e um copo de água quente na mão, era inverno em seu país e ela precisaria se esquentar enquanto se trocava. A menina entrou em seu quarto escuro, e antes de acender as luzes ela fechou a porta. Ela deixou que a toalha caísse e em seguida apertou o interruptor, iluminando seu quarto escuro, no mesmo momento a menina vê uma silhueta agachada em cima de sua cama. Lucia se assustou, ela não sabia o que era aquilo. A luz se apaga muito rapidamente depois de ser acesa.
– Sei que vós humanos não gostastes que os vejam nus, então presumo que prefiras a luz apagada. – disse a criatura – Desculpe-me pelo linguajar primitivo, nunca fui terráquea, apenas estudei vossa língua, só preciso que entendas minha mensagem.
A menina estava muito assustada para dizer qualquer coisa.
– Não fiques com medo – a criatura continua – Tu não sofrerás mal algum vindo de mim. Deves me ouvir com muita atenção e respeito apenas. Esse liquido que seguras já foi muito raro, pequena terráquea.
– É, eu sei, li nos livros do velho mundo. – disse Lucia, com uma voz corajosa. – E eu não estou com medo, estou surpresa.
– Gostei de sua pessoa, de sua coragem, normalmente, são mais covardes.
– Normalmente as pessoas são um espelho daquilo que conhecem dos antigos.
– Tu falas muito deles menina. O que conheces dos antigos? Do mundo antigo?
– Eles eram muito parecidos com o que somos hoje. Não conheciam nada sobre o mundo, mas desejavam conhecer. Usavam as coisas que estudavam para ajuda-los, e o que não serviam de ajuda era desperdiçado, mal sabiam que o mundo vivia num equilíbrio. O desperdício, se tornou cada vez maior, e em certo momento o que eles mais necessitavam, a água, se tornou escasso. Muitos morreram, e quando acharam que era o fim, choveu muito forte, por quarenta dias, e quarenta noites. Uns disseram que foi Deus, que nos deu uma segunda chance, afinal, tem o que houve tinha semelhança com o que acontecera. Mas para nós Deus não existe, e essa possibilidade não existe mais. Acredito que seres de outro mundo nos deu essa segunda chance. Hoje, nós vivemos com o melhor que o mundo antigo nos proporcionou, mas com cautela para que não cometamos o mesmo erro que eles.
– Quantos anos terráqueos tu tens menininha?
– Doze.
– Você é muito inteligente para sua idade.
– Minha mãe disse a mesma coisa hoje mais cedo.
– Já disse que gostei de tu menina?
– Sim, já disse.
– Então volto a dizer. – Lucia apenas sorri – Daqui a anos lhe farei outra visita, e espero que lembre do que direi agora. Nós, de fora, vimos potencial nos terráqueos, mas precisamos que nos pague no futuro. É algo simples, então não se esqueça.
– Não esquecerei, de modo algum. – a menina olha para baixo. – Posso fazer uma pergunta, antes de você ir?
– Se eu puder responder.
– Por que eu? Por que diz isso tudo para mim?
– Menina, vá se arrumar. Tu tens uma celebração agora.
– Bem, parece que não vai me responder. Você sabe muito sobre aqui.
– E saberei muito mais quando voltar mocinha.
A criatura apenas vira uma luz, e em seguida some sem deixar nenhum vestígio. Lucia então cai no chão. Assustada, por mais que não parecesse há alguns segundos atrás. Este era apenas o começo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
Fale com o autor