The New Continent
14 Capítulo 13 – Líder & Líder.
Notas iniciais
Cory
10 fevereiro, 2200, 13:38.
Tudo estava aconteceu tão rápido me surpreendendo de maneira que não sabia o que pensar nem ao menos como agir. Já se passaram três dias desde que todo aquele reboliço aconteceu e ainda sim sou tomado por um exorbitante sentimento de culpa. Eu sei que eu podia impedir tudo isso. A essa altura Will já deveria ter acordado para que tudo pudesse voltar ao normal, pois ver seu corpo estirado no chão banhado de sangue por todos os lados, bem, aquelas imagens ainda me atormentavam.
Por outro lado conheci novas pessoas que me ajudaram a criar um sentimento inovador que nem mesmo eu sabia que existia. Os Alfalumianos, meio irônico, mas com um tempo aprendi a me acostumar com esse nome e vivenciar suas experiências. Nesse ambiente pairava uma nuvem carregada de uma motivação renovadora, por mais que os seus olhos clamassem socorro, parecia que nada transparecia perto da alegria que ambos tinham uns com os outros.
São um povo de bem, se é que eu o posso chamá-los assim, comandados por um líder, Ralf, mesmo que por poucos dias acho que nos tornamos ótimos aliados, nossos pensamentos são bem convergentes e temos diversos objetivos incomuns. Ultimamente temos Passado todos esses dias conversando sobre nossas vidas dentro e fora deste lugar, pelo visto ele é um veterano melhor do que eu, já deve haver uns dois anos desde que ele saiu de Trípoli, na Líbia. É incrível pensar em todas as coisas que ele já conquistou. Mesmo assim, contudo, não conseguia tirar o pensamento de Will.
— Acho que tem alguém vindo preciso desligar. – Encerrei a vídeo conferência e fui logo levantando de uma das redes, estava cansado de ficar olhando aquele teto de folhas secas.
Ralf adentrou pela única entrada da cabana e vestia uma bermuda camuflada, botas de couro preto, uma blusa sem mangas branca surrada e uma faixa vermelha sobre a cabeça. Ele era muito mais alto que os demais; tinha uma pele morena; olhos mel muito claros o que lhe chamava muito atenção e cabelos castanhos curtos e ralos.
— Como vai bela adormecida? Estava procurando por você, todos da vila já acordaram e você aproveitando a mordomia, levante-se na minha terra não existem preguiçosos – Expressou em meio a um semblante sarcástico. – Apronte-se logo que Jihan e Nofre estão nos esperando ansiosos.
— E sobre a proposta de vocês virem com a gente? Temos um abrigo maior; somos poucos e estamos dispostos a assegurar todos aqui. Além do mais esse lugar é longe de todos os recursos básicos e vocês têm um trabalho imenso de manter tudo isso. – Animei-me durante as palavras.
— Não está gostando da estadia? Acha que consegui ser melhor do que eu? – Disse o sério rasgando a voz rouca. — Estou nesse lugar porque ele é seguro para todo o meu grupo e não fazemos questão de pesar serviços.
Não é nada disso, talvez eu tenha dito de maneira errada, mas acho que podemos fortalecer o grupo e acharmos uma maneira mais racional de sair daqui e creio eu que o lugar a que pretendo levá-los vai ser de agrado de todos. Pelo menos pense no que eu estou te falando? – Supliquei
Esqueça Cory, por mais que a proposta seja proveitosa, eu não vou sair deste lugar, eu finquei raízes aqui, tudo que eu ainda tenho está nesse lugar. Eu pretendo muito ajudá-los, mas ir embora com vocês e inviável. Por favor, não insista. – Disse sereno finalizando a conversa. Ele se virou e foi de encontro à saída. – Ande logo, estamos esperando aqui fora. Vamos ao rio buscar água hoje.
Um pouco inconformado peguei o meu colete; calcei as botas; arrumei um pouco do cabelo e peguei minha mochila para partir. Ao sair do cômodo fui cercado por Zenaya que andava rapidamente na minha direção com um sorriso no rosto, gritando pelo meu nome.
— Cory, Cory ele acordou. O seu amigo acordou. – Disse a garota de olhos puxados saltitando por dentro de suas emoções.
— Will? – Perguntei meio descrente.
— Sim, sim ele esta chamando por você. – Disse a garota alegre.
Não pensei duas vezes, saí correndo em direção a menor cabana em que Will estava e quando cheguei, lá estava ele meio confuso e um pouco desorientado, ele olhou para mim aliviando-se e sorriu. Toda aquela sensação de culpa se esvaiu por inteiro. Só me importava que agora ele estava bem e mesmo passando esse últimos dias rodeado de pessoas, Will extraiu toda a minha solidão emocional.
Entrei satirizando o momento para descontrair toda a tensão. Em seguida perguntei sobre sua saúde e logo vieram mil perguntas sobre tudo o que estava se passando naquele lugar, tentei resumir praticamente tudo o que achava de importante e optei por deixá-lo descansar, afinal Ralf me esperava na saída da vila, então tratei logo de me apressar e deixar a conversa para outra hora assim que retornasse.
Sai da pequena tenda rudimentar e segui até onde estavam em pé Ralf e os outros dos garotos que nos trouxeram até aqui, Jihan e Nofre, sendo respectivamente o magro e o gordo. Segui até eles e quando estávamos preparados para seguirmos caminho a fora. Um garoto demasiadamente pálido e careca sai da cabana principal gritando por Ralf e apontando o dedo em minha direção.
— O que você está cometendo é um absurdo, Ralf. Desde que esse garoto veio para cá. – Ele enfatizou olhando para mim. – Você está diferente, cuidado eles são loucos, querem nos exilar daqui. Por favor, escute o seu amigo não confie nele.
— Do que você está falando Herly? Você tem alguma confissão a fazer, fale agora ou cale-se para sempre. – Disse o líder firme.
— Eu ouvi a conversa de vocês, ele está querendo te cegar, fugir desse lugar é suicídio e você sabe disso Ralf, não venha dizer que eu estou louco. – Clamou Herly. Ralf começou a ficar pensativo e eu comecei a temer qualquer decisão equivocada.
— Tudo bem, Herly, você tem razão não podemos confiar nas pessoas tão fáceis assim. Eu irei até o rio agora e levarei Cory comigo, deixarei o responsável por todos aqui, fiquei de olho também no outro que acabou de acordar, quando eu não estiver você quem manda tudo bem?
A situação se acalmou a partir do momento em que ambos chegaram a um consenso e assim parece que depois disso tudo transcorreu dentro da normalidade, o rapaz jogou um ultimo olhar para mim e Ralf antes de voltar à cabana. Por um momento me senti receoso de deixar Will aqui sozinho. Em seguida logo vi Quaila e me tranquilizei por um tempo, ela veio falar com Ralf e se despedir. Eles são uma espécie de casal e seus gestos um com o outro demonstram grande afetividade, era constrangedor ficar muito perto. Depois de uma despedida geral das pessoas do vilarejo, entramos na gruta e desta vez seguimos sem interrupções.
Durante o caminho Jihan e Nofre se divertiam com piadas e insultos entre eles, por outro lado Ralf permanecera sério e mudo, depois de um tempo aquilo começou a me incomodar e decidi quebrar o gelo:
— Você acredita mesmo que eu sou tudo aquilo que aquele garoto falou? – Perguntei meio sem jeito.
— Não estou preocupado com isso e você não devia se preocupar. Acho melhor ficarmos calados e poupar o fôlego porque ainda temos um enorme pedaço pela frente e isso serve para vocês também crianças – Disse se referindo aos outros dois que preferiram optar por sussurrar a ficarem quietos.
Continuamos a caminhar aquele exaustivo percurso monótono cheio de árvores, vegetações e pequenos animais dos mais exóticos. Fizemos uma pequena pausa para comer, no entanto no cardápio só havia umas pequenas frutinhas rosa azedas que não alimentava em quase nada. Retornamos a andar até finalmente chegamos a um córrego com uma pequena queda d’água donde escorria uma forte pressão das águas fluviais. Tiramos uma espécie de pequenas vasilhas das mochilas e começamos a enchê-las pouco a pouco até todas estarem cheias. Colocamos novamente todos os recipientes cheios e fechados dentro das bagagens e seguimos de volta para a vila percorrendo o mesmo caminho. Depois de um longo período silencioso:
— Ralf, hoje nós iremos ao lago de novo? Estou me sentindo imundo. – Disse Jihan com uma cara engraçada.
Eu também. – Concordou Nofre.
Nada disso, da ultima vez nos empolgamos demais e passamos muito da hora. – Retrucou o mais velho.
— Por favor, Ralf tente ao menos relaxar, até alguém como você merece descanso. – Zombou o magricelo.
— O que você está querendo dizer com isso? Jihan. – Indagou o moreno.
— Nada Ralf, você sabe como o Jihan é, ele não fala coisa com coisa. – Tentou corrigir o amigo. – Mas ainda sim concordo com ele.
— Ta bem, ta bem. Só iremos ficar um pouco, porque depois que anoitece a volta fica muito piore com vocês cheios de medos.
— Medo? Acho que você está falando com os caras errados! – Exclamou os amigos juntos.
— Tudo bem para você Cory? – Perguntou Ralf.
Fui obrigado a concordar a acabar com a felicidade daqueles dois. Por mais que quisesse voltar logo era melhor eu agir parcialmente favorável a tudo. Cortamos por uma nova rota e depois de algum tempo andando sobre ela, percebi que estamos indo de encontro aquele lago de alguns dias atrás, comecei a tremer e ficar em estado de desespero, tive de me conter para as pessoas não suspeitarem de que parcialmente matamos uma pessoa ali. Esse eles vissem o corpo estirado no chão? Ou se o cara era algum tipo de amigo deles? Como se ausentar de tudo isso.
Continuamos a andar até finalmente chegarmos o rio, olhei em volta e nenhum sinal do rapaz assassino e nem de seu corpo. Andei até aonde tudo aconteceu, me afastando do grupo, e logo consegui ver as marcas de sangue arrastada, será que alguém teve a crueldade de fazer alguma coisa com o corpo? Enquanto eu pensava sobre tudo aquilo, escuta os sons dos mergulhos na água, até que Ralf me chamou e me desconcentrou.
Ei, Cory, não vai dar um mergulho? A água está ótima – Eles se divertiam na água como se fosse à melhor experiência que já vivenciaram.
— Ah sim, eu já estou indo.
Olhei novamente o sangue e desisti de tentar entender o que verdadeiramente aconteceu ali. Larguei a mochila e pulei na água, realmente estava muito refrescante em uma temperatura agradável, por um instante tentei boiar e relaxar numa tentativa falha, Logo eles começaram a jogar água entre si como uma brincadeira, então eu resolvi participar-la.
Ficamos entorno de duas horas até o céu nos alertar do quase pôr-do-sol. Recolhemos nossas mochilas e seguimos caminha para vila, por um momento eu me senti feliz de estar naquele lugar, entretanto não demorou muito para que minhas convicções fossem frustradas. Conforme nos aproximarmos do vilarejo fomos invadidos por uma fumaça negra que contaminou a todos nós, como num reflexo todos atravessaram a gruta correndo em direção a vila, com isso os nossos semblantes foram tomados de total terror.
As casas, as pequenas plantações, as árvores, tudo. Foi consumido pela chama que arrastou toda a vida que havia naquele lugar. Eram labaredas enormes que chegava ultrapassar nossas alturas, não havia se quer qualquer algo vívido perambulando aquele local, tudo havia se tornado cinzas.
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