The Nature Kingdom
8 Vizinhos
Notas iniciais
Max pôde apenas observar os amigos partindo, sem ter coragem de fazer alguma coisa. Até porque conhecia suas amizades e sabia que, mesmo que tentasse fazer algo, eles não mudariam de ideia. Gary, talvez, sim. Como ele mesmo dissera, não achava aquilo sensato e estava mais empolgado com a missão do que com qualquer outra coisa. Max percebia isso. Todavia, o moreno tinha uma leve queda pela garota, por isso, e só por isso, é que decidiu acompanha-la. Kate, porém, tinha opinião forte e, quando queria alguma coisa, nada podia detê-la.
O garoto estava prestes a dar meia-volta, a fim de retornar ao lago e comunicar a decisão dos amigos à Faon, além, é claro, de dar continuidade à missão. Contudo, aquela mesma série de lembranças invadiu sua cabeça. A memória dos pais e de todos os seus momentos juntos. Ele franziu a testa e abaixou a cabeça. A tristeza estava presente de novo.
Tudo podia ser diferente. Se eu não aceitasse essa missão, se eu não entrasse naquele maldito buggy, eu não estaria com saudade, eu não estaria triste agora. Estaria perto das pessoas que amo e é isso o que importa! Rapidamente, a raiva tomou o lugar da tristeza e, pouco depois, ele se sentia mais confuso do que com raiva, como se um monte de sentimentos se misturassem em meio aos seus pensamentos e lembranças. Ele não aprovara a atitude dos amigos. Mas agora, com todas aquelas memórias, sentia raiva de Faon também.
E foi com esse sentimento que se pôs a correr em direção aos amigos. Sabia que não durariam muito na floresta. Sentiriam fome, sede, além da possibilidade de se depararem com alguma ameaça. Aquele planeta possuía árvores. Era perfeitamente possível que houvesse outros seres lá, perigosos ou não. Concluía-se, então, que teriam de voltar, mas, se ele estivesse presente, poderia convencê-los a retornar mais rapidamente.
— Gary! Kate! — Gritava, já começando a ficar sem fôlego.
Depois de algumas passadas longas, avistou-os por entre as árvores, a uma distância razoável de onde estava. Eles pareciam estar parados, procurando pelo som. Ao se aproximar, Max notou que estavam olhando para ele com feições um pouco confusas.
— Tá fazendo o que por aqui? Não foi você quem falou que as coisas não funcionam assim? — Perguntou Kate. Havia um leve tom de irritação em sua voz.
— Desde que sejamos rápidos. Bem rápidos. — Explicou o garoto.
— Você está seguindo a gente e não ao contrário. Vamos ficar o tempo que quisermos e onde quisermos. — Retrucou a garota.
— Calma, Kate! Pega leve com ele... — Exclamou Gary, olhando para frente, mais concentrado do que o normal.
Eles retomaram a caminhada e, dessa vez, permaneceram calados. Tudo o que se ouvia eram seus próprios passos. O sol já não era tão forte, ainda mais com toda aquela folhagem das árvores, que impedia a entrada de luz e calor. Até mesmo o vento, que antes corria suavemente, tinha parado por completo.
Depois de cerca de quinze minutos, o silêncio foi quebrado por Gary, que, com tom de curiosidade, perguntou:
— Já não era pra gente ter encontrado aqueles homens de novo?
— Como assim, aqueles homens? — Perguntou Max, franzindo a testa.
— Ah, é, a gente nem se lembrou de te contar...
— Que homens, Gary? — Tornou a perguntar, em um tom mais sério.
— Quando vim aqui pela primeira vez, para procurar comida, escutei um barulho. Parecia ser um grupo de trabalhadores cochichando. Além disso, tinha uma voz que se destacava e que eu deduzi ser o chefe. — Explicou Kate. — Quando Gary acordou e me achou, nós fomos até o local onde eu tinha escutado a multidão e então ele tirou as mesmas conclusões.
— E vocês contaram à Faon ou Gaia?
— Deu tempo, por acaso? — A jovem respondeu, olhando séria para seu amigo. — Nós iríamos. Não pense você que estávamos escondendo isso ou algo do gênero.
— Eu não disse isso. Só queria saber se eles estavam informados.
— Será que estamos indo na mesma direção de antes? — Questionou Gary.
— E por que você quer tanto saber? Quer bater um papo, enquanto toma uma xícara de chá com os caras? — Retrucou a garota.
— Não, mas... — O moreno comentou, começando a rir. — Sei lá, me parecia uma boa ideia.
Com essa última afirmação, eles voltaram a se concentrar na caminhada. Olhando sempre para frente, sem deixar, porém, de observar alguns aspectos daquele lugar. Kate segurava o braço esquerdo com a mão direita, às vezes escorregando-a até o antebraço, às vezes subindo-a até o ombro. Seus pijamas já estavam secos há tempo, mas o vento gélido de começo de tarde retornara em pouco tempo, fazendo com que todos sentissem frio.
Depois de alguns minutos, andando sempre com o olhar fixo no chão, Max percebe algo de diferente. A princípio, pensou que fosse apenas mais uma irregularidade do terreno. Mas, ao parar para analisar melhor, consegue definir o que aquilo realmente era. Uma pegada. Marcado no solo, o vestígio tinha uma forma ovalada, só que um pouco mais comprida. Era como se alguém de botas tivesse passado por ali.
O garoto se ajoelha para olhar melhor, passando o polegar delicadamente pela pegada. Estava seca e fria. Direciona os olhos para frente e nota que os amigos estão um pouco adiante, ainda andando. Ele se levanta e acelera um pouco o passo para alcança-los.
— Vocês têm noção da importância disso?
— Ih... O Senhor Felicidade Florestal voltou! — Brincou Gary.
— Por anos e mais anos, nós, seres humanos, viemos questionando se estamos sozinhos no Universo. Bem... Essa dúvida já me foi mais que esclarecida. Primeiro, a aparição de Faon e Gaia. Depois, esse planeta cheio de árvores e plantas. E agora, estamos prestes a encontrar mais uma espécie racional! É tudo tão surpreendente...
Ele se afastou um pouco, subindo por uma leve inclinação no terreno. Mantinha a cabeça baixa, procurando por mais pegadas. Acelerou o passo, ficando cada vez mais distante dos amigos.
De repente, sentiu vontade de sair correndo, de novo. E o fez, sem pensar muito. Desviava habilmente dos troncos, olhando para o alto das árvores de vez em quando. Mas preferia focar no chão, para que não tropeçasse em nenhuma raiz ou pedra. Sentia o vento bater em seu nariz e em suas orelhas, onde sentia mais frio. Apesar disso, não se incomodava. Apenas corria.
Quando percebeu, estava muito longe de seus amigos. Muito longe. Já não conseguia mais vê-los e chegou a ficar com medo de se perderem. Virou-se rapidamente e começou a andar em direção a eles, em um ritmo bem devagar, devido ao cansaço. Suas pernas doíam e o frio começara a incomodar discretamente.
Novamente, olhando para baixo, distinguiu uma pegada em meio às folhas no chão. Quando ia se agachar para observá-la mais de perto, ouviu sons de passos e voltou a andar, já gritando:
— Achei outra pegada!
De repente, Kate e Gary surgiram por de trás das árvores, bem ao seu lado. Mas o som que ouvira vinha de sua frente. O garoto começou a ficar um pouco confuso, estreitando os olhos. Mas logo pensou na possibilidade de Faon e Gaia estarem procurando por eles.
— Cara, você não sabe como está sendo infantil com esse papo de árvores, pegadas e descoberta de espécies. Eu não ligo! — Berrou a loira.
— Pode ficar em silêncio um segundo? — Perguntou Max, sem tirar os olhos da floresta.
— Como é que é? — Retrucou Kate, obviamente ofendida. — Eu vou falar o quanto eu quiser, Max, você não manda em mim!
— Desculpa te informar, Kate, mas é você quem está sendo infantil agora. — Falou Gary.
— Quietos vocês dois! — Ordenou Max, sussurrando. Ele realmente queria descobrir que passos foram aqueles.
— Eu não consigo acreditar. — Declarou a garota. Suas feições indicavam que ela estava pasmada. — Você só pode ter perdido o juízo!
— Kate, escuta. Acabei de ouvir sons de passos e não foram os seus. Acho que pode ter sido Faon procurando por nós. Se você não quiser ouvir sermão, se não quiser voltar ao lago, então sugiro que fique quieta! — Sussurrou.
No mesmo segundo, todos se calaram. Kate odiava quando Max era autoritário daquela forma, apesar de ser algo bem raro. Mas acima de tudo, detestava a ideia de reencontrar com aquele velho, que era ainda mais ditatorial.
Pouco tempo se passou, e o som se repetiu. O que quer que estivesse lá, havia parado durante a conversa e agora se aproximava. Ia quebrando galhos e pisando na folhagem que cobria o terreno. Ainda não era possível enxergar nada além de árvores, mas os jovens sabiam que faltavam poucos metros para o encontro.
Max agachou-se e começou a andar, silenciosamente, na direção contrária. Olhou para trás e fez sinal para que seus amigos o seguissem. Eles hesitaram por um momento, mas acabaram por obedecê-lo, dando uma última olhada para trás.
Tinham andado menos de cinco metros, quando uma flecha passou zunindo e atingiu uma árvore. O objeto tinha vindo da direita, o que criou a suspeita de haver um segundo elemento por ali.
— Por acaso, — começou Gary — Gaia ou Faon estavam portando arco e flechas?
— Não. — Respondeu Max. — Não estavam.
— Eu também não vi. — Declarou Kate.
Os adolescentes trocaram rápidos olhares e perceberam que todos os três estavam assustados. Sem pensar duas vezes, levantaram-se e saíram em disparada. Max começou na frente, mas Gary, por praticar mais atividades físicas, conseguiu ultrapassá-lo. Kate era a que menos corria, por isso ficou atrás.
Correndo por alguns pouquíssimos minutos, acabaram por atingir uma área que não conheciam, onde a vegetação era menos densa e as árvores mais espaçadas entre si. Mais não podiam prestar atenção naquilo. Nem mesmo Max, que apreciava esses pequenos detalhes.
Kate estava desesperada. O coração acelerado e as pernas fazendo o maior esforço possível. Por muito pouco, seus óculos não voaram para longe. Contudo, a garota estava sempre olhando para trás, desatenta aos obstáculos no caminho. De repente, sentiu seu corpo sendo levado ao chão. O impacto foi tão grande, que seu nariz começou a sangrar no mesmo instante. Ela olhou para trás de relance e percebeu que havia tropeçado em uma raiz. Droga! Pensou.
— Gente! Dá pra me esperar? Eu caí! — Gritou, tentando enxergar os amigos, que se afastavam rapidamente.
Eles olharam para trás e, depois, um para o outro. Acenaram positivamente com a cabeça e partiram na direção da loira. Em questão de poucos segundos, já estavam ao seu lado, tentando levantá-la.
Repentinamente, outra flecha veio na direção deles, mas acabou acertando a árvore, novamente. Mais duas vieram, atingindo o mesmo alvo. Max deduziu que o inimigo não queria machucá-los de verdade. Talvez, quisesse apenas dar um bom susto e nisso tinha êxito.
Kate demorou um pouco para ficar de pé, sem saber o porquê. Quando conseguiu, depois de certo esforço dos amigos, não pôde dar um passo sequer, já que um cavalo apareceu bem em sua frente, empinando e relinchando furiosamente.
O animal possuía o tamanho normal de um cavalo terrestre e parecia bastante saudável e bem cuidado. Seu diferencial era o tamanho dos pelos, que eram extremamente longos. Além disso, tinham uma cor muito escura e, ao mesmo tempo, reluzente, assim como pedras de ônix. Os olhos do equino eram igualmente negros.
Mas ele não estava sozinho. Sobre seu dorso, havia um cavaleiro. Um homem alto, belo e bem vestido, com roupas que Gary, mentalmente, classificou como medievais. Mas não era um ser humano, de fato. Seu nariz era extremamente fino e pontudo, mas não muito grande. E o que mais chamava a atenção era seu olhar, ou melhor, seus olhos. Olhos de um laranja vivo e ardente, chegando a ser hipnotizante. Olhos que, junto com o resto de seu rosto, destacar-se-iam em qualquer lugar.
Os jovens ficaram paralisados por alguns segundos, apenas observando boquiabertos. Tentavam processar todas aquelas informações, enquanto cavalo e cavaleiro andavam de um lado para o outro, encarando-os de volta. Por fim, Max saiu do encantamento e conseguiu dizer:
— Vocês estão vendo o mesmo que eu?
— Não é uma boa hora pra isso, Felicidade Florestal. — Balbuciou Gary.
— Nohcs mmok! — Gritou o homem.
Sua voz era, de acordo com Gary, parecida com a de um locutor de rádio. Era profunda e tão hipnotizante quanto seus olhos. Porém, aquelas palavras eram frias e transmitiam medo e insegurança. O trio acabou saindo do estado de transe, quando, por causa das palavras ditas, sentiram cada osso e cada músculo vibrar, como se quisessem fugir desesperadamente de seus corpos.
Dentro de alguns segundos, mais três cavalos chegaram, devidamente acompanhados por seus cavaleiros. Pouco depois, vários outros homens foram se aproximando, sem qualquer animal de montaria. Alguns demonstravam raiva, enquanto outros estavam mais curiosos. Todos vestiam roupas parecidas, os cavaleiros mais elegantes, com trajes tão semelhantes, que poderiam ser uniformes. Já os outros eram mais simples e alguns estavam até um pouco sujos. Alguns traziam picaretas, outros possuíam adagas e havia ainda os que não portavam nada. Todos tinham aquelas mesmas características: nariz fino e olhos alaranjados, uns mais vivos, coloridos e hipnotizantes, outros nem tanto.
— Ión oh gnãr íhgn iôt läsau agnáet na. — Declarou o primeiro cavaleiro.
— Jöt sered áp gik! — Gritou um homem barbudo e gordinho.
— Seéw gels ôs kyl ellüh. — Disse um velhinho.
— Sôjo sól y... — Sussurrou outro, que parecia ter por volta dos vinte anos.
— Yuiítsü no joō wa kûroi me o mótsu kõto ga dekímasü. — Falou alguém.
A esse ponto, havia uma roda de pessoas em volta dos adolescentes. E eles só podiam ficar lá, parados, observando a pequena multidão, assustados, sem saber o que poderia acontecer.
De repente, a roda se abriu em um ponto, bem na frente do trio, e de lá saiu um cara parecido com o primeiro cavaleiro, mas esse não era muito bonito, por causa das várias cicatrizes e rugas no rosto. Não era nem muito velho, nem muito novo. O laranja de seus olhos estava meio que apagado, sem muita cor, sem muito brilho. Mas, apesar de tudo, o homem conseguia transmitir poder e autoridade.
— Oahséij öwiz! — Gritou ele, em tom de ordem.
— Ión oh gnãr íhgn iôt läsau agnáet na. — Repetiu o primeiro cavaleiro.
— Sôjo sus nöc asáp euq? — Perguntou, dirigindo-se ao cavaleiro. — Etnémelb abôrp, oicalap léd sê ãcihc al. Órep euq asáp nöc sól sorto? Sorgên sôjo? On sê lamrön. On sê larutãn.
Voltou a atenção aos jovens e franziu as sobrancelhas, como se estivesse tentando se lembrar de algo. Respirou fundo e, com certa dificuldade, disse:
— Mi nome és Paxton. Sou o líder de os Minerradorres de Classe Trés. Quem som vocês? De onde vierram? O que fazem por aqui?
Houve silêncio por alguns minutos.
— É impressão minha, ou o tiozão fala de um jeito muito estranho? — Perguntou Gary.
— Não te impressiona o fato dele falar a nossa língua? — Perguntou Max, com o olhar fixo em Paxton.
— Essa daí não é minha língua! Nem aqui, nem na Terra.
— Pode ser o sotaque desse planeta. — Sugeriu Kate.
— Vocês não estão entendendo a gravidade disso. — Falou Max. — Primeiro, descobrimos que há vida fora da Terra. Depois, descobrimos que essa vida é racional. E agora... Eles falam a nossa língua!
— Andem! Respondam! — Ordenou Paxton, que parecia um pouco surpreso.
— É... — Começou Max, escolhendo as palavras cuidadosamente. — Eu sou Max, essa aqui é Kate e esse é Gary.
Um burburinho começou. As pessoas da roda estavam cochichando entre si, falando naquela língua incompreensível.
— Nós saímos para dar um passeio pela floresta e... acabamos nos perdendo.
— Mas de onde vocês saírram?
— É... bem... nós saímos... — Max não sabia o que dizer. Não podia falar a verdade. Não podia dizer que viera de outro planeta. Não podia correr o risco de ser acusado de mentiroso.
— Diga-me, criança, qual a sua orrigem? És filho de minerradorres, ou veio de o palácio?
Kate pensou em responder que vieram do palácio, mas não o fez. Apenas olhou para Max, esperando que o amigo tivesse uma resposta melhor. Mas ele não tinha; estava tão inseguro e assustado quanto ela. Dirigiu o olhar a Gary. Surpreendentemente, o moreno estava inexpressivo. É sério que ele está achando alguma graça nisso? Perguntou-se. Contudo, preferiu não tirar nenhuma conclusão. O garoto estava sempre animado, sempre fazendo alguma piada ou brincadeira. Mas esse não era o caso. Acho que não, concluiu.
De repente, um garoto surgiu na multidão. Parecia ter a mesma idade dos jovens terráqueos. Era relativamente alto, tinha cabelo castanho claro, curto e espetado, e seu olhar era de pura curiosidade.
Kate encarou o garoto, quase tendo um ataque cardíaco. Ele era, simplesmente, a coisa mais bonita que alguém poderia imaginar. Seus olhos alaranjados e seu nariz pontiagudo combinavam perfeitamente com o resto do rosto. Cada detalhe parecia ter sido esculpido pelos melhores artistas da época do Renascentismo. Eu estou vendo um anjo, um deus grego ou isso é só... uma incrível ilusão de ótica?
Todo o medo, toda a ansiedade, toda a preocupação que havia nela se extinguiu naquele momento. Sua mente estava completamente focada naquela visão divina. Um arrepio percorreu por seu corpo, antecedendo um longo suspiro apaixonado. Se morresse agora, morreria feliz. Mas o que ela queria mesmo era morrer com ele.
Porém, as deliciosas sensações não duraram por muito tempo, pois a voz de Paxton tornou ao local:
— Pelo jeito, vocês non sabem a resposta. Ou serrá que sabem, mas non querrem contar?
O homem virou-se para um dos cavaleiros e balançou a cabeça positivamente. Quando seu olhar retornou aos adolescentes, parecia bem mais desafiador.
— Vamos descobrrir, meus caros. E já que non pôde ser de o jeito fácel, terrá de ser de o jeito difícel!
Ele mal tinha acabado de falar e a roda se abriu novamente, dando passagem a quatro homens. De certa forma, eles eram parecidos com os outros, por possuírem os olhos alaranjados e o nariz fino. Mas o porte físico era totalmente diferente. Gary perguntou-se se havia academia naquele planeta. Se a resposta fosse afirmativa, aqueles caras deviam passar um bom tempo lá. Ou talvez tomassem algum tipo de anabolizante extremamente poderoso.
Com seus quase dois metros e meio de altura, avançavam lentamente, talvez por causa do peso de seus musculosos corpos. De qualquer forma, parecia que eles tinham assustado até mesmo as pessoas da roda. Tinham um olhar vazio, sanguinário, digno de vilão de filme. Olhar que estava fixo nos três jovens, cujos corações estavam disparados, diante do inevitável perigo.
Max parou para pensar por um momento. Não havia escapatória. Várias pessoas assustadas, formando um círculo em volta deles. O olhar frio e desafiador de Paxton. Quatro cavalos pronto para capturá-los, caso conseguissem fugir. E agora, homens enormes e sanguinários, que podiam não ser muito ágeis – nem muito inteligentes, a julgar pelo tamanho reduzido de suas cabeças – mas tinham, pelo menos, cinco vezes a força de qualquer um ali.
Um deles foi em direção ao garoto, cujo olhar demonstrava pavor e pedia por piedade. O estranho ser pegou no braço de Max e puxou-o levemente, afastando-o da árvore onde estava encostado. Sua mão era grande, fria e áspera, cheia de veias saltadas e estranhas cicatrizes.
Ao olhar para o lado, o adolescente percebeu que seus amigos também estavam sendo carregados. Um dos gigantes, que parecia ser o líder, ia à frente, abrindo caminho pela multidão.
Em poucos segundos, Paxton começou a seguir o quarteto. Dois dos cavaleiros, incluindo o primeiro, seguiam logo atrás. As pessoas da roda começaram a se mexer também, indo atrás da dupla de cavaleiros e à frente dos outros dois.
De repente, um clarão invadiu o local, cegando a todos temporariamente. Max precisou colocar a mão livre na frente dos olhos, assim como muitos outros. A visão da floresta e das outras pessoas que estavam ali desaparecera por completo. Um leve murmúrio invadiu o ambiente; as pessoas começavam a se agitar. Por mais que parecesse o contrário, o clarão não durou muito, logo dando lugar a um denso e estranho nevoeiro. A visibilidade ia se recuperando lentamente, apesar de ainda não ser cem por cento.
De repente, Max sentiu seu corpo indo ao chão, sendo carregado para longe do gigante logo em seguida. Só agora pôde notar que, por causa do inesperado clarão, o homem havia soltado seu braço. À medida que ia se afastando, percebeu que ninguém mais notara sua ausência, pois as pessoas estavam muito ocupadas tentando entender o nevoeiro.
Ao olhar para o lado, viu que seus amigos também estavam sendo carregados, olhando para a multidão envolta pelo nevoeiro. Surpreendentemente, não havia nada os segurando. O trio estava simplesmente sendo puxado, como se um ímã estivesse atraindo-os.
O garoto, então, deixou-se relaxar e fechou os olhos.
–//-
Repentinamente, sentiu que havia parado. Abriu os olhos rapidamente e levantou-se. Depois de uma rápida olhada em volta, constatou que estava de volta às redondezas do lago, onde o buggy caíra.
Seus amigos estavam ali, levantando-se e tentando tirar a sujeira das roupas com as mãos. Suas feições variavam de inexpressivas a sérias. Eles se aproximaram, sem dizer uma sequer palavra. Apesar do leve som que as águas da cachoeira emitiam quando caíam no lago, havia silêncio. O mais estranho é que não havia sinal algum de Gaia ou de Faon, que deveriam estar ali.
Uma rajada de vento passou pelo local, fazendo com que a folhagem das árvores se agitasse. Só agora puderam perceber que o sol estava começando a se por.
— Eu não fiquei muito preocupado durante as duas primeiras horas. — Falou uma voz, vinda de trás dos adolescentes.
Eles se viraram e viram que Faon se escondia em meio a algumas árvores. Rapidamente, o Inspetor saiu de seu esconderijo, revelando seu rosto sério e seus braços cruzados.
— Ah... — Bufou Kate, revirando os olhos. — E que comece o sermão!
— A gente ficou fora por mais de duas horas? — Perguntou Max, inocentemente.
— O tempo aqui passa mais rápido do que na Terra, meu jovem. — Disse Faon, aproximando-se.
Sons de passos interromperam a conversa, mas logo ficou claro que era só Gaia se aproximando, bem atrás do velho.
— Ficamos assustados, crianças! — Declarou a moça. Seu rosto mostrava preocupação e um pouco de angústia. Uma de suas mãos estava em volta do pescoço, descendo lentamente em direção aos seios. — Ainda mais quando vimos que aqueles brutos estavam prestes a levá-los.
— Vocês assistiram a tudo? — Perguntou Max novamente.
— Vimos o suficiente. — Respondeu Faon.
— Resposta clássica de filme de drama! — Reclamou Kate.
— Eles é que são culpados, vou logo avisando. — Falou Gary, tentando se defender. — Eu falei que seria melhor voltar. Eu falei!
— Cala a boca, Gary! — Ordenou a loira.
— E não pensem vocês que foi fácil fazer todos aqueles efeitos especiais! E quanto a trazer vocês até aqui? É demasiadamente sofrido realizar qualquer tipo de magia quando minhas energias estão baixas e meu poder é reduzido!
— Poder reduzido? — Perguntou Max.
— Faon descobriu que suas magias não têm o mesmo impacto aqui. Uma magia maior pode estar fazendo esse bloqueio. — Explicou Gaia.
— Uma magia maior? Espera aí... Você é um Inspetor, uma das coisas mais poderosas do Universo! — Exclamou o garoto, sem entender muito bem a situação.
— Do que isso importa?! — Gritou Kate. — Vocês deviam estar felizes que conseguimos sobreviver àqueles primitivos!
— Eu não diria primitivos. Apesar do sotaque pra lá de estranho, eles estavam falando a nossa língua. Quer dizer... Paxton falou a nossa língua. — Opinou Gary.
— A questão, meus jovens, é que vocês demonstraram enorme irresponsabilidade. Não estão aqui apenas passeando. Entendo que tudo é muito novo e diferente para vocês, e os fatos estão sucedendo-se de maneira muito rápida. Mas a partir do momento que concordaram em embarcar nessa missão, terão de controlar a curiosidade e agir com mais paciência.
Você realmente acha que fizemos isso por pura curiosidade? Perguntou Kate, mentalmente. Inocente você, não? A garota teve de se segurar para não abrir um leve sorrisinho. Começou a pensar que, futuramente, poderia usar essa inocência de Faon a seu favor. Só não sabia como.
— E agora terão sua segunda chance. Poderão provar a mim e à Gaia que são capazes de continuar com a missão. Poderão mostrar responsabilidade, sensatez e paciência.
— O que quer dizer com isso? — Perguntou Max, curioso.
— Como já sabem, para que possamos contornar esse contratempo que tivemos com a queda do buggy, precisamos consertá-lo. Só assim poderemos viajar até o destino planejado anteriormente.
— E como é que você acha que faremos isso? Não temos condições nenhumas de consertar essa lataria destroçada! — Declarou Kate, reclamando.
— E quem disse que deixarei vocês tocá-lo, mocinha? Eu sou o único que pode lidar com problemas relacionados a qualquer veículo de Inspetores.
— Faz sentido. — Concordou Gary.
— Tá, mas... Nem mesmo você tem muitos recursos aqui. Ainda mais quando sua magia está fraca. — Disse Max.
Apesar de inocente, a fala do garoto pareceu mexer com Faon de alguma forma, talvez o irritando, talvez o entristecendo. O homem abaixou a cabeça por um instante, deixando sua longa barba branca tremular ao vento. Rapidamente, voltou o olhar aos jovens durante alguns segundos, depois mudando o foco para o alto da cachoeira.
— Eu terei de sair do planeta.
— Oi? — Perguntou Kate, curiosa e já um pouco animada.
— Como assim? Aonde você vai? — Perguntou Max, começando a ficar preocupado. Faon era o único ali que poderia fazer alguma coisa diante de uma nova aparição dos mineradores. Era o único que poderia defendê-los.
— Voltarei à Cidade Mãe. — Contou o velho. — Lá é o único lugar onde poderei achar as ferramentas necessárias para o conserto do buggy, além de inúmeros manuais de como fazer isso.
— Faon mecânico. — Disse Gary, rindo. — Essa eu quero ver!
— Eu e Gaia já providenciamos alimento para essa noite. Podem beber a água do lago à vontade; mais limpa e pura não poderia ter. Quanto à higienização pessoal de cada um, acho melhor esperarem até que eu pense em algo. Não queremos poluir a nossa única fonte de água. Portanto, sem banho!
— Só pode ser brincadeira! — Reclamou Kate, cruzando os braços.
— Terei de partir agora, meus jovens. Preciso ganhar tempo.
— Não pode esperar até amanhã? — Perguntou Max.
— Infelizmente, não. Mas chegarei ao amanhecer, de acordo com meus cálculos.
Enquanto falava, dirigiu-se até a margem do lago, agachando-se para pegar um pouco da água com as mãos. Levantou-se rapidamente e continuou:
— Agora, crianças, um último aviso: não saiam da cúpula.
— Cúpula? Mas que cúpula? — Perguntou Gary.
Sem responder, o homem jogou para cima a água que estava em suas mãos. Por incrível que pareça, ela continuou subindo, até chegar a uma altura de cinco metros do chão, quase se perdendo de vista. Por um momento, nada aconteceu. Mas dentro de alguns segundos, ela começou a se espalhar para os lados e para baixo, formando a tal cúpula.
— Essa cúpula. — Informou Faon, quando a água atingiu o solo, indicando que a cúpula estava completa.
— O que ela faz? — Perguntou Kate.
— Deixa tudo aqui dentro invisível aos olhos daqueles nativos. Se eles se aproximarem, não poderão ver o buggy e nem vocês. Por isso é que não devem sair. — Disse, indo em direção à cúpula, como se quisesse sair. — Apenas descansem, crianças. Apenas descansem.
Virou-se e deu um passo para fora, hesitando um pouco. Quando saiu, ainda estava completamente seco, como se a cúpula não fosse mais feita de água. Deu uma última olhada na cachoeira, no buggy e no quarteto que deixaria para trás. Levantou a cabeça e abriu os braços. Com uma das mãos, segurava seu cajado, que, estranhamente, não estava ali antes. Um clarão invadiu o local, fazendo com que todos dentro da cúpula tapassem os olhos com uma das mãos. Quando o clarão terminou – dessa vez, bem mais rapidamente – Faon não estava mais ali.
O quarteto olhou para o céu e tudo o que puderam ver foi uma luz brilhante, parecida com uma estrela, se afastando rapidamente. Lá se fora Faon.
–//-
A noite chegou num piscar de olhos. Gaia estava um pouco afastada, ajeitando diferentes tipos de cobertas no chão, se preparando para dormir. O trio de adolescentes estava perto do buggy. Max e Kate dormiriam dentro do veículo, enquanto Gary ficaria do lado de fora, bem ali ao lado.
— Você vai tentar fugir de novo, senhorita Kate? — Sussurrou Gary, para que Gaia não escutasse.
— Dessa vez, ela vai completamente sozinha. — Declarou Max, também sussurrando.
— Que ingênuos vocês, não? O velhote vai embora, e a dama e as crianças dormem tranquilamente, apenas esperando pelo dia seguinte, sem fazer absolutamente nada. Que graça! — Respondeu a garota.
— E o que diabos você faria fora da cúpula? Já não passou aperto suficiente com os mineradores? — Perguntou Max, um pouco irritado.
— Ora... Ainda sabemos muito pouco sobre eles e... Pra derrotar um inimigo, devemos conhecê-lo bem, não acha?
— E quem disse que são inimigos? E quem disse que precisam ser derrotados?
— Ah, mas você só pode estar de brincadeira! Se você gosta de fazer amizade com gigantes que te arrastam para uma tortura, o problema é seu.
— Não são amigos, nem inimigos, Kate. São pessoas das quais devemos manter certa distância. Só isso. — Deu uma pausa, deixando o ambiente em completo silêncio. — Você às vezes parece que gosta de correr atrás do perigo.
— O que eu não gosto, Max, é da ideia de ser o cãozinho treinado do Faon!
— Nós não somos cãezinhos treinados!
— Ah, é mesmo? Então me diga: você realmente acha que toda essa missão vai trazer algum benefício para nós?
— Faon nos prometeu que traria paz de volta à Terra.
— E você acreditou, é claro... Max, meu querido, entenda: só ele vai sair beneficiado. Está só usando a gente. Usando Gaia. Não sei o que pretende conseguir com tudo isso. Eu ainda não entendo! Mas o fato é que viraremos lixo quando tudo acabar. Voltaremos à Concordia, àquela vidinha pacata e sem graça de antes. Ninguém vai reconhecer a gente como heróis!
— Então é isso que você espera? Reconhecimento? Kate, você é perturbada! — Exclamou o garoto, se arrependendo logo em seguida, quando a loira dirigiu um olhar furioso a ele.
O silêncio tornou a pairar pelo local, enquanto os jovens terminavam de ajeitar suas coisas. Max abriu sua mochila e deu uma rápida olhada na foto que carregava. Seus pais sorriam alegremente na imagem, assim como ele. Sentiu um enorme aperto no coração, mas controlou-se, decidindo guardar a foto, fechando a mochila em seguida.
Rapidamente, todos se despediram com boas-noites e deitaram-se, tentando arduamente pegar no sono, depois do agitado dia. Com exceção de Kate, que se deitara apenas para aguardar, silenciosamente, até que todos pegassem no sono. Principalmente Gaia, que, se visse a loira tentando escapar, estragaria com seus planos. Se um de seus amigos visse, o problema seria bem menor, já que eles não poderiam detê-la. Na verdade, existia o risco de Gaia acordar em meio ao falatório dos jovens, mas essa era uma situação que a garota poderia contornar.
Esperou cerca de quinze minutos e levantou-se vagarosamente. Ajeitou os óculos no rosto e olhou em volta, certificando-se que ninguém estava acordado. Saiu do buggy com cautela, quase pisando em Gary, que estava deitado de bruços.
Descalça, sentiu a terra úmida sujando seus pés. Não tomar banho, pensou. Eu adoeço muito mais facilmente quando fico sem tomar banho, o que é muito, muito raro. Respirou fundo e começou a andar, em direção à floresta, mas acabou parando em frente à cúpula, para verificar se realmente continuaria seca. Levantou a mão e atravessou-a, ficando naquela posição por alguns segundos. É... Eu vou ficar bem, constatou.
Quando estava do lado de fora, porém, assustou-se com a fala de alguém bem atrás dela, provavelmente dentro da cúpula:
— É, tá confirmado. Ela não tem juízo algum. — Era Gary, que estava de pé, com os braços cruzados, olhando para a garota. Ao seu lado estava Max, com um olhar sério.
— E então, vocês vêm? — Perguntou a loira, abrindo um sorriso.
— Chega, Kate! Chega dessa rebeldia desnecessária!
— Ok, então. Durmam bem. — Disse ela, ironicamente.
Quando se virou, mal conseguiu dar o primeiro passo, pois Gary agarrou seu braço.
— Me solta, Gary! — Gritou a jovem.
Com um rápido movimento, conseguiu se soltar e, sem pensar duas vezes, começou a correr, para longe dali. Gary e Max trocaram rápidos olhares, concordando em correr atrás, rumo à floresta.
A garota estava bem à frente, se afastando cada vez mais da cúpula e fazendo enorme esforço para que seus amigos não conseguissem alcançá-la. Sentia o vento noturno bater em seu rosto e a terra coberta de folhagem em seus pés. Prestava o máximo de atenção possível, para que não tropeçasse em nada, como aconteceu da última vez.
Porém, uma estranha voz a fez parar. Sabia que não era a voz de nenhum de seus amigos, que, aliás, estavam se aproximando depressa. Também não pôde entender o que havia sido falado.
— Chega, Kate. Vamos voltar à cúpula e dormir! — Disse Gary, parando bem em frente à loira.
— Não, espere aí, acho que ouvi uma voz. — Disse a jovem, em um tom de voz quase sussurrante.
— Tá vendo? Outro motivo pra irmos embora. Não queremos um novo encontro com os mineradores.
— Não foi um minerador.
— E como você sabe?
— Só escuta, Gary!
Por um momento, todos ficaram em silêncio, incluindo Max, que acabara de chegar e agora olhava para o topo das árvores.
— Olá, amigos!
Os jovens pularam de susto. A voz era bastante aguda e o tom de voz, impressionantemente alto, quase como um grito. Ainda não era possível identificar de onde viera, mas o trio olhava ao redor desesperadamente, tentando descobrir. Seus batimentos cardíacos estavam acelerados, não só por causa da corrida. Seja lá o que tivesse falado, não era um minerador, definitivamente.
Houve uma rápida agitação na folhagem das árvores e, em seguida, nas folhas caídas no chão. Curiosa, Kate agachou-se, aproximando-se de um arbusto bem à sua frente. Depois de algum tempo analisando, perguntou aos amigos:
— Galera... É impressão minha ou... Esse sapo falou com a gente?
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