The Nature Kingdom
2 Confusão Espacial
Notas iniciais
Faon acordou num pulo quando ouviu o barulho da chuva. Passou a mão nos cabelos e sentiu que estavam totalmente despenteados. Sua cabeça doía um pouco. Só então notou o que estava errado. Não era para ser um dia chuvoso. Pelo menos, não naquele local. Ele inspecionaria o planeta por alguns meses e, pelo jeito, na primeira semana, já podia relatar um erro. De acordo com os Registros, aquela chuva só deveria vir no segundo mês do ano. Deveria ligar para a Central de Inspeção e fazer a reclamação, mas eles provavelmente mandá-lo-iam fazer um relatório e ficaria por isso mesmo.
Depois de pensar por um tempo, em meio ao barulho da chuva, andou de um lado ao outro da caverna onde estava "hospedado". Até que o lugar não era tão ruim assim. Era úmido e um pouco frio, mas como o dia estava bem quente, não se sentia incomodado. Nos dias anteriores, bem no comecinho da tarde, o céu ficara bem ensolarado, mas agora, as nuvens cobriam qualquer raio de sol. A caverna estava ainda mais úmida e ainda mais fria, mas, em todos esses anos de profissão, já esteve em situações piores. Havia água e comida ali, além de sua "querida" cama feita de folhas de bananeira.
Era um planeta relativamente pequeno e sem nenhuma movimentação. Só havia cavernas e florestas cheias de plantas tropicais de diferentes espécies. Alguns morros que Faon não tinha disposição para subir e alguns raros rios, de água clara e brilhante. Nenhum animal. Tudo muito parado, calmo e extremamente chato. Não havia nada para fazer. Ele estava acostumado a inspecionar planetas mais movimentados. Mas havia uma ordem a ser cumprida ali. Aquele mundo estava desequilibrado e era seu dever relatar qualquer problema.
Resolveu então, ignorar a chuva e sair para dar uma volta entre os morros, que deveriam ter um pouco menos que duzentos metros. Sentia os pingos frios caindo sobre seus ombros...
De repente, seu cajado vibrou. Aquilo indicava que alguém queria falar com ele. Por telepatia. O cajado funcionava como um grande receptor de magia dos Inspetores, que atribuíam várias funções ao objeto. O único ser pensante naquele lugar, além dele, era a "dona" do planeta, Vigésima Gaia Menor. A voz da mulher ecoou repentinamente em sua cabeça, parecendo sonolenta, mas ao mesmo tempo, desesperada:
— Desculpe-me pela chuva. Eu errei a página. — Para fazer qualquer coisa em um planeta, seu dono tinha que recitar um texto do Livro de Todas as Magias. Não era complicado, mas os livros eram sempre velhos e os textos quase sempre se apagavam com o tempo. E era extremamente complicado conseguir outro, por causa de toda a burocracia. Por isso, muitos donos preferiam consertar os livros. Mas isso, muitas vezes não dava certo.
— Entendo, mas isso é um problema e eu não posso deixar passar. Você podia descer um pouco de sua nuvem e nós poderíamos conversar. Eu talvez possa facilitar o seu lado. — Pensou Faon de volta.
Mesmo conversando por telepatia, o Inspetor percebeu o suspiro da moça. O silêncio reinou por um tempo. Se ela tivesse mais de dez erros, perderia o controle sobre aquele planeta sem nome. Não era grande coisa, mas ela não queria ser rebaixada.
— Tudo bem. Vamos conversar... — Pensou ela, descendo da nuvem e aparecendo repentinamente ao lado de Faon. Sua aparência era tristonha e estava cabisbaixa. Seu vestido branco azulado brilhava, iluminando seu rosto magro. Seus cabelos compridos, morenos e cacheados balançavam de acordo com o soprar do vento.
De repente, a terra estremeceu. Aquilo era coisa de dragão ou ogro gigante. Ambos se assustaram, obviamente, pois sabiam que eram os únicos seres ali, além das plantas. Pensar em dragões e ogros era terrível, mas o que surgiu por entre as árvores, era algo pior: um Slarg. Slargs eram monstros gigantes (mais de sete metros de altura) de pelos esverdeados com aparência suína, andar bípede e fome de terra e pedras.
— Eu não faço ideia de onde surgiu isso! — Disse Gaia, apavorada.
Faon não respondeu. Ao ver que o enorme Slarg se aproximava, começou a correr, em direção ao pé da montanha. Gaia foi junto, segurando seu vestido, que agora estava um pouco sujo de terra úmida. Ela tropeçou em uma pedra e caiu, quase que de cara no chão. Ao vê-la, Faon disse rapidamente:
— Levante-se! Precisamos ir à Cidade Mãe! — E dizendo isso, desapareceu como um holograma...
–//-
Faon apareceu rapidamente em uma das plataformas de transporte da Cidade. Depois de uns dois minutos, na plataforma ao lado, chegou Gaia. Ela parecia estar muito assustada ainda. Seu vestido não emanava o mesmo brilho de antes.
— Eu juro que aquilo não foi um erro meu! Alguém deve ter colocado aquilo lá, só para sabotar a inspeção! — Falou, com a voz fraca e uma expressão de medo.
— Calma! A inspeção não é tão severa assim. Nós vamos descobrir o que aconteceu.
Lançando um olhar de reconforto, tombou a cabeça suavemente para o lado, indicando que deviam sair dali. Gaia pôs o pé para fora da plataforma e observou o ambiente ao seu redor. Eles estavam no Aeroporto da Cidade Mãe, lugar onde as pessoas podiam ir e vir de diversas maneiras. Seguiram a calçada, descendo a rua e rapidamente já estavam em uma das ruas principais.
Tudo ali era muito moderno e mágico. Pessoas andavam pelo comércio, ninfas completamente nuas passeavam pelos parques e Inspetores dirigiam-se apressados à Central de Inspeção, um prédio suntuoso, de mais de trinta andares, no final de uma rua comprida. Lá, Inspetores de todas as partes do Universo podiam relatar erros e receber novas ordens, de acordo com os Registros, que eram atualizados de cem em cem anos.
Um hygioni, habitante do planeta Hygon, cumprimentou Faon, ao passar por ele. O velho mal se lembrava do transeunte, mas por educação, sorriu e cumprimentou de volta. Ao virarem em uma ruela, percebeu uma loja cuja placa indicava chamar-se Yahya Saynuay. Rapidamente, deduziu que o vendedor deveria ser do planeta Aynay, pelo excesso de a e y nas palavras.
— Pode ter certeza que, além de verificar quem colocou aquele monstro lá, a Secretaria vai entender seu caso. Não há o que temer. — Disse Faon, quando a dupla entrou na rua da Central.
Não demorou muito e já davam o primeiro passo para dentro do prédio. A feição alegre do Inspetor rapidamente se esvaneceu. Um alarme tocava alto e as pessoas corriam desesperadamente para a porta onde ele estava. Por pouco, não foi pisoteado pela multidão. Alguns gritavam a palavra incêndio. Tudo foi se esclarecendo rapidamente, mas uma coisa ele não entendia. Com tantos Inspetores (que tinham poder suficiente para apagar ou criar fogo), como as pessoas podiam se apavorar daquele jeito? Havia algo de estranho naquilo tudo.
Ao olhar para o lado, percebeu que Gaia estava ainda mais apavorada. O velho forçou um sorriso e adentrou no prédio. Mesmo com medo, a mulher o seguiu em meio todo aquele tumulto. Guiado pelo rastro de fumaça e lutando para não ser derrubado, ele abriu a porta das escadas e começou a subir. Não era indicado usar o elevador num momento daqueles.
Suas roupas e mantos atrapalhavam sua movimentação e por isso, usando a magia do cajado, transformou suas roupas velhas em um terno novinho e confortável. Era estranho, porém, ver um homem vestido daquele jeito com aquela barba branca e comprida, combinando com o cabelo. Não era habitual para ele usar roupas tão formais, mas ele não tinha tempo de se importar.
Foi uma subida cansativa até o vigésimo sétimo andar, mas finalmente, estavam no lugar certo, onde o fogo começara. Cada andar possuía seis salas, três de cada lado. Eles seguiram até a penúltima, a sala 275, no final do corredor. A porta já estava aberta, o que era bom, mas a fumaça estava por todos os lados, o que podia sufocá-los. Aliás, eles nem viram fogo algum, apenas aquela fumaça preta e densa. Faon seguiu, quase que rastejando, até o banheiro, que parecia ser o foco de todo aquele fumegar.
Ao adentrar no local, Faon viu claramente, dentro da pia, um cubo de metal com um furo em cada uma das seis faces, todos eles fumegando. Não havia incêndio. Aquilo era uma armação! Mas pra quê? Pra quem? E quem estava por trás disso? Ele não sabia no momento, mas certamente iria descobrir...
–//-
Pegou o cubo e o analisou por um momento, jogando-o no vaso sanitário pouco depois. Por causa da água, o objeto parou de funcionar quase que imediatamente. Aos poucos, a fumaça presente na sala foi saindo pelas janelas e pela porta e depois de uns cinco minutinhos, já não havia mais quase nada. Ele olhou pela janela e viu as pessoas apavoradas na rua, observando o prédio. Só então lembrou que Gaia ainda estava escondida no corredor. Sem sair do banheiro, gritou:
— Pode entrar!
— Conseguiu apagar o fogo? — Perguntou ela, com a voz fraca e baixa.
— Não havia fogo.
— Mas como assim? — Disse ela, entrando na sala devagar e já firmando a voz. Agora já não parecia mais assustada, mas curiosa e um pouco confusa.
— Era tudo uma armação. Só havia fumaça aqui. — Falou Faon, olhando seu reflexo no espelho e depois observando a mulher chegar.
— Armação? Mas pra quem? Por quem? Pra quê?
— Essa é a parte que eu ainda não sei. — Respondeu, saindo do banheiro.
— E como fica o meu caso?
— Acho que teremos de voltar amanhã, quando tudo estiver funcionando normalmente. Aposto que eles vão dar um jeito em tudo. — Explicou Faon, tentando reconfortá-la.
— Mas não podemos deixar pra amanhã! E se essa armação foi feita por alguém perigoso? Um bandido intergaláctico, talvez? A Central pode estar correndo risco! Não é só o meu caso que precisa ser resolvido.
Antes que ele argumentasse qualquer coisa, um barulho, vindo do corredor, interrompeu a conversa. Ambos saíram apressados da sala e pararam na porta, para ver o que tinha acontecido. O que eles viram deixou-os um pouco surpresos: um homem vestido como um astronauta. Mas o diferente era que seu uniforme era preto e no meio, havia o símbolo de radioatividade. Provavelmente, ele era da equipe especial da Central Geral de Emergências. A CGE era como a polícia e o corpo de bombeiros da Cidade Mãe, e havia ainda a "equipe especial", que geralmente cuidava dos problemas que envolviam radioatividade, criminosos intergalácticos e até mesmo, alguma praga de outros mundos.
— Vocês precisam sair desse prédio agora. Ele está sendo interditado. Há um alto risco radioativo aqui e vocês correm grande perigo. — Disse o homem, com voz robótica.
— Mas aqui só tem fumaça! — Protestou Faon, contraindo a sobrancelha em sinal de confusão.
— Exatamente, senhor. A fumaça é radioativa. Se vocês a inalaram por muito tempo, vão precisar de cuidado médico. — Afirmou, sem se aproximar.
Uma estranha raiva invadiu o corpo do Inspetor. Ele não sabia o porquê, mas sentia que algo estava muito esquisito naquilo tudo e, claramente, aquele homem de preto estava relacionado ao problema. Ainda com pressentimentos ruins, saiu de trás da porta, para melhor encarar o astronauta.
— Eu não preciso de nenhum cuidado médico! Se me dá licença, eu tenho assuntos mais importantes para resolver do que essa falsa radioatividade. — Gritou ele, indo em direção à porta da escada. Antes que a alcançasse, o homem entrou na sua frente, impedindo-o.
— Desculpe-me, senhor, mas não posso deixá-lo sair assim. Como eu já falei antes, você corre grande rico de vida.
— Quem vai correr grande risco aqui é você, se não sair da minha frente. — Alertou Faon, encarando-o com as sobrancelhas ainda contraídas.
O homem fez uma cara de raiva, em tom de desaprovação. Como que em resposta, sacou uma arma de choque de um bolso e segurando o botão de ligar, levou o objeto até o braço de Faon, tudo com muita rapidez. O Inspetor caiu trêmulo no chão, sem nenhuma chance de se defender.
Gaia assistiu horrorizada àquilo. Ela ainda estava encostada na porta, com medo, ainda mais agora que corria o risco de levar um choque. Olhou rapidamente para Faon, que já havia parado de tremer, mas ainda estava no chão, provavelmente apagado. Ao voltar seu olhar para o homem de uniforme, percebeu que ele a olhava com um sorriso malicioso, quase como um psicopata. Segurando sua arma, perguntou em tom sarcástico:
— Você quer ter o mesmo destino, madame?
–//-
Gaia acordou um pouco tonta e sem lembrar-se muito bem do que havia acontecido. Só conseguiu recuperar a memória depois que se lembrou das palavras "incêndio", "armação" e "radioativo". Teve uma rápida lembrança de Faon tomando um choque. Mas ainda assim, não conseguia se lembrar do que havia acontecido a ela e nem o porquê de estar num leito de hospital! Ela olhou de um lado para o outro, um pouco apavorada, massageando a cabeça. Do seu lado direito, havia um homem deitado numa maca. Faon!
Ela tentou esticar o braço até ele, mas não conseguiu. Parecia estar sem forças. Então começou a chamá-lo, no intuito de avisá-lo sobre a situação. Ele mexeu a cabeça, afundando-a no travesseiro, mas não acordou. Estranhamente, ela sentia mais força nas pernas do que nos braços, então, sem pensar muito, deu um chute não muito forte na perna dele. Ele levou um susto e jogou as cobertas para um lado, sentando-se rapidamente e olhando o ambiente, com uma cara que era mistura de sono com susto.
— O que está acontecendo aqui? — Perguntou, sentado ainda. Começou a massagear a cabeça também e observou o local onde estava. Era um grande salão branco, cheio de macas e leitos e de luminosidade bastante intensa.
— Pelo jeito, você levou um choque e eu simplesmente apaguei, não sei como. Acho que aquele pessoal nos trouxe para cá e pra sua informação, estamos em um hospital. — Ela respondeu bem baixinho para não incomodar ninguém.
— Ah, claro! Agora me lembro da sensação do choque: terrível! — Exclamou o homem, arregalando os olhos e balançando a cabeça logo depois.
— Você tem alguma ideia do que está acontecendo?
— Ou estão tentando mudar os Registros ou estão tentando se apoderar da Cidade. Talvez, até mesmo as duas coisas. Certamente, os responsáveis são pessoas de certo poder e influência dentro da CGE. Existe muita gente ruim dentro daquela corporação.
— Você acha que possa ser algo maior? Algo como tomar o poder do nosso Supervisor e futuramente, dos outros três Supervisores, até atingirem um d'Os Superiores?
— Os Superiores comandam o Universo por muito tempo, eles não seriam facilmente enganados. Quanto aos Supervisores, eu diria que também há a possibilidade deles estarem envolvidos nessa.
A conversa sessou-se por um instante, enquanto os dois pensavam. Gaia, que estava mais próxima da janela, olhou para fora e sentiu um leve vento gelado passar por seu rosto. O céu estava bem azul, quase sem nuvens. Ela deu um longo suspiro e ouviu Faon começando a falar:
— É tão estranho, sabe? Será que as pessoas não vão notar nada? Nem ao menos os Secretários e Inspetores? Nós sempre temos muita coisa para fazer e... — Ele parecia buscar por palavras. — E acho que alguém vai reclamar. — Sua mão estava no queixo e seu olhar direcionado ao teto. Estava muito pensativo.
— Já parou para pensar que poderíamos estar correndo um risco Universal? Temos que unir forças e se as pessoas não notarem, temos de avisá-las! Como vamos pedir ajuda, se os "mocinhos" são os grandes vilões? — Ela falava cada vez mais depressa. Parecia estar com medo do que poderia acontecer, mas ao mesmo tempo, estava entusiasmada.
— É uma situação complicada e eu sei como você se sente. É como se não pudéssemos pedir ajuda a ninguém. — Deu uma pausa. — Mas durante todos esses anos de inspeção, eu já vi muita coisa. Muita coisa boa, inclusive.
— O que você quer dizer com isso? — Perguntou a moça, virando-se e prestando mais atenção. Sentia que ele estava planejando alguma coisa.
— Há um planeta, não muito longe daqui. Atualmente, não tem dono. Mas uma vez, eu fui inspecionar lá e... Surpreendi-me. O povo de lá é, em certa parte, parecido conosco: sempre em busca de poder, liderança e ordem. Mas há algo de especial neles. Eles são... É difícil de dizer, mas... Eles são criativos, inovadores e vivem com a emoção e com vários sentimentos profundos que até mesmo eu achei confuso. Há algo de raro neles. Algo que talvez nunca encontremos em outro lugar do Universo. Acho que podem ser úteis, de alguma forma.
— Se nem mesmo nós, com poder considerável, podemos fazer algo...
— Não custa nada tentar, não é mesmo? — Ele interrompeu.
— É. Talvez se bolarmos um bom plano... — Ela parou para pensar, tornando a olhar para a janela.
De repente, uma rajada de ânimo invadiu seu corpo. Lembrou-se de seu planeta e como ela ficava feliz em vê-lo crescer. Um turbilhão de pensamentos veio logo depois e sua animação só crescia. Afinal, o que de pior poderia acontecer? Levantou-se rapidamente, chamando a atenção de algumas pessoas no local. Com um sorriso, perguntou:
— Mas então, você não me falou o nome do planeta.
— Ah, sim. É Terra.
Fale com o autor