The Missing Rainbow
8 Slivia
A loja era muito maior do que aparentava. Fileiras e fileiras de estantes lotadas de livros, algumas bolas de cristal, vasos, quadros e espelhos antigos, tudo coberto com uma espessa camada de pó, como se ninguém entrasse na loja há anos. Uma sineta soou quando abrimos a porta, mas como ninguém veio nos receber começamos a andar pelo lugar, olhando tudo entre as estantes, mesas e baús.
Não pude deixar de notar as penas espalhadas pelo chão, aos montes sobre baús e prateleiras das estantes, dentro dos livros e vasos. Penas de um vermelho vivo, vibrante que parecia deslocado no meio de tanto pó.
– Olá? – Chamei – Tem alguém aqui? Ei! – Gritei mais alto e como não tivemos nenhuma resposta meus amigos me acompanharam no coro.
– Por Zeus! Parem com essa gritaria toda! – Respondeu uma voz áspera vinda dos fundos da loja – Querem derrubar o prédio? – A porta se abriu e a dona da voz apareceu. Uma senhora muito velha, as costas totalmente curvadas, usava um vestido verde musgo muito comprido que cobria tudo até os pés. Com mangas largas e longas, ela cobria também as mãos, de forma que a única parte visível de seu corpo era o rosto. Um rosto muito enrugado, com olhos pequenos e separados que lembravam os de um pássaro, cabelos compridos e muito vermelhos.
– Com licença, senhora – Começou Yuri – Você é a dona da loja?
– Ora, mas o que temos aqui? Quatro jovens semideuses! Sabe, visitas assim são bem raras. Sou Slivia, sejam bem-vindos a Lost And Found! Fiquem á vontade, vou preparar um chá.
Não sei como Slivia adivinhou que éramos semideuses mas se alguém se incomodou com isso não perguntou. Começamos a olhar a loja. Provavelmente lá havia algo do qual íamos precisar, do contrario Íris não nos mandaria até lá. Passei os olhos por inúmeros espelhos, quadros, vasos e velharias do tipo, mas só uma coisa realmente me chamou atenção: Uma pequena garrafa, tão pequena que cabia na minha mão fechada, com um liquido multicolorido dentro. As cores mudavam constantemente como meus olhos e na rolha que lacrava a garrafa havia um numero 1. Eu tinha certeza de que tinha achado a dádiva de Íris.
– Pessoal! – Gritei – Ei, gente! Acho que encontrei o que estamos procurando!
Todos vieram correndo e concordaram que aquilo era o que procurávamos. Nesse momento, a porta dos fundos de abriu e Slivia entrou na loja, carregando uma bandeja com 5 xícaras floridas com chá fumegante.
– Sentem-se, crianças! Sintam-se em casa. – Sibilou Slivia
– Desculpe-nos, Slivia, mas já encontramos o que buscávamos e temos que ir embora. Quanto custa? – Disse Felipe, indicando a garrafinha em minha mão.
– Crianças, crianças... Vocês querem a Poção das Cores 1, não? – Disse Slivia, calmamente colocando a bandeja de chá em uma mesinha – Infelizmente, não posso deixá-los partir.
– O que? Porque não? – Recuei apreensiva, sentindo o perigo em sua voz.
– Há décadas que não recebo visitantes tão suculentos – Disse ela, deixando cair o vestido e ficando apenas com algo que presumi serem roupas intimas embora parecessem sacos de estopa e revelando seus braços, que não eram braços e sim asas. Asas de passaro com mãos humanas, com penas vermelhas, as mesmas espalhadas pela loja. Seus pés também eram de ave. Enormes pés amarelos e escamosos que saiam diretamente da base de suas canelas enrugadas. Slivia era uma harpia. – Seria uma tremenda tolice deixá-los irem embora.
Instantaneamente pressionei meu colar. Em menos de um segundo, todo o grupo estava armado e pronto pra a luta. Yuri atacou primeiro, suas espadas emanando arcos de eletricidade, mas Slivia foi mais rápida e ele acabou eletrocutando um conjunto de gatinhos chineses de porcelana.
Slivia agora voava sobre nossas cabeças e Felipe lançou de uma só vez 5, 6, 7, 8 facas apenas para cravá-las no teto de madeira enquanto a harpia bailava no ar, zombeteira.
Pedro lançou sua espada rapidamente, que apesar do desvio se Slivia, abriu um grande corte em suas costas. Subitamente, Yuri invocou uma nuvem de tempestade e sobre ela subiu até ficar frente a frente com sua oponente. No ar, começaram a luta: Espada contra garras.
Yuri ia dando choques e abrindo cortes profundos na pele e asas da harpia, enquanto Slivia arranhava furiosamente o rosto e braços do garoto com seus pés galináceos. A batalha parecia não ter fim quando numa investida rápida de Slivia, Yuri se desequilibrou e desabou no chão. Pedro e Felipe correram para ajudá-lo, mas eu permaneci em meu lugar. A harpia se desconcentrou da luta por um momento, rindo com satisfação por ter derrubado seu oponente. Era minha oportunidade de acabar com aquilo. Em um segundo, joguei minha adaga, acertando-a bem no meio do peito e instantaneamente transformando-a em um monte de areia dourada.
Segurei firme a pequena garrafa e fui ajudar Lukas que por sorte estava bem. Saímos correndo do lugar e numa última olhada para trás visualizei uma mensagem em uma névoa colorida, provavelmente de minha mãe, em uma das janelas da velha loja, apenas uma palavra: “Johnny”.
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