The Minstrel

2 Capítulo 1: Contos de uma China Antiga.


CHINA — CIDADE DE YUNG, aproximadamente 475 a.C – Reinos Combatentes.

Agora vamos para uma época em que a China estava em guerra, uma rivalidade imperial, que determinaria os feudos e quem era digno de ser único e onipotente imperador de todo reino. Os relatos trazem ao mundo uma atmosfera única, que envolveu a China em um dos períodos mais singulares da História. Uma fase turbulenta e obscura decorrente de contínuos enfrentamentos, alianças que poderiam ser facilmente corrompidas, traições, ataques surpresa e impiedosos assassinatos foram os ingredientes de um quadro político em rápida evolução que levou ao fortalecimento do Estado de Qin, beneficiado por sua posição estratégica favorável, a oeste do rio Amarelo, em Shaanxi, e protegido por sólidas defesas naturais.

Durante este período existiam sete reinos: Qin, Qi, Zhao, Han, Wei, Chu e Yan. O reino de Qin acabou por conquistar os restantes seis, ficando a China unificada sob um mesmo governo, o mesmo sistema de escrita e de pesos e medidas.

Bo Liang, era uma das serviçais do General Jun Yuan, representante leal da corte imperial do Reino de Qin – tal qual veio conquistar mais tarde os outros seis reinos restante. Veio até o monopólio central de Qin, através do incentivo familiar, que devia conhecer o mundo – ou parte dele – e se tornar independente. Sua família é de origem camponesa, plantando arroz, trigo, cevada, entre outros grãos nas longínquas montanhas do norte, cresceu então em um ambiente de mulheres reservadas, submissas ao chefe da família, onde a culinária e os cuidados domésticos eram passados entre as concubinas do ciclo familiar, porém tudo era visto com amor, carinho e senso de prosperidade. As Montanhas de Jade eram frias e úmidas, entretanto eram calmas, longe do temor da guerra, apenas o rigoroso inverno podia preocupar os habitantes dali. Possuíam este nome, pois na primavera quando o sol ungia os picos gelados, derretendo a neve e o gelo, o musgo brotava pelas rochas dando o aspecto esverdeado, ficando assim conhecidas por Montanhas de Jade.

Entre passos cruzados avançava na penumbra pelo corredor, seu rosto estava tremulo devido a chama da vela que carregava. Em suas mãos, uma tabuleta de madeira, a vela em um candelabro dourado abria o caminho à sua frente. Copos de argila preenchiam o resto do espaço, eram pintados em um rubi e âmbar, cores típicas do Reino de Qin. O aroma de ervas era evidente e preenchia o ar, uma leve fumaça dançava sobre as bordas dos copos, era chá fresco. Um rastro de sombra ficava por onde a garota passava, pintando as paredes feitas de papel – parecia-se com pinceladas em um papiro – e em seguida desapareciam, engolidos pela sombra que habitava os cômodos. O Palácio do Rei Dragão era uma construção de infinitos corredores e quartos compartilhados, portas podiam ser deslizadas e expandir um cômodo, assim como fechadas, bloqueando caminhos. Era um verdadeiro labirinto de tatames. A noite estava quieta, ouvia-se apenas grilos e chacais. Os guardas imóveis preenchiam as muralhas do palácio, como grandes totens que afastam mal agouro. Elmos em plumas vermelhas, estandartes em bandeira dourada. Trajados em couro e seda, estavam em seus postos, atentos e imóveis, balbuciando entre si como estavam cansados e com saudades da família.

Cessou seus passos quando chegou até certa altura do corredor, ajoelhando-se perante uma porta, depositando ao seu lado a tabuleta. Seus lábios romperam o silêncio enquanto abria a porta:

—Com licença, General Yuan, venho trazer o chá como o Senhor havia pedido.

—Sirva-nos Srta. Liang. – A voz aristocrata ordenou.

Quieta, adentrou o cômodo pouco iluminado. Homens de grande influência reuniam-se em um círculo e discutiam entre si. A fumaça de kiserus preenchia o ar, junto o cheiro de suor e bafo de álcool. A porta ao fim da sala estava aberta, permitindo que um pouco de ar puro pudesse adentrar o cômodo. Um jardim oriental podia ser visto ao fundo – calcário branco, espelho d’água, carpas, lanternas, todos os aspectos estavam presentes ali – iluminado pela luz da lua.

Sempre que aproximava-se de um dos senhores, ajoelhava-se e posicionava um copo à direita da pessoa para que esta pudesse servir-se.

A porta deslizou bruscamente e uma sombra entrou no cômodo ajoelhando-se rapidamente em reverência. Quando ergueu sua cabeça, a expressão arrogante de uma mulher preencheu o cenário. Suas sobrancelhas eram arqueadas e seus cabelos negros eram rebeldes, um topete brandido e o resto dos fios escorriam por trás de suas orelhas e desciam por suas costas. Uma vestimenta de couro, tecido finos e cordões manufaturados, ornamentada por penas de corvo. Era destoante sua aparência, porém impactante.

—As suas ordens mestre... – Sibilou entre seus lábios venenosos, suas íris escorriam pela linha d’água lançando um olhar de arrogância contra Liang.

A serviçal então abraçou a bandeja desconfortada.

—Yuran, repasse o protocolo aos senhores.

—Como deseja. – Ela levantou-se e pôs-se a frente dos cavalheiros.

—As tropas inimigas do sul estão avançando, logo agora que estamos tão próximos de nós unificarmos tudo em um único reino, precisamos de uma estratégia de batalha para que não possamos perder mais soldados, acabar com este inimigo e terminar com uma grande desvantagem numérica, isso poderia fazer com que os recentes senhores unificados, aproveitassem então disto e atacassem com todas suas tropas em um momento de fraqueza e uma nova fase de recrutamento.

—Muito bem, os Senhores tem alguma resolução ou estratégia em mente? – Sugeriu o General.

—Lóngshén, tā huì bāngzhù wǒmen de ruǎnruò de shíhòu... – Cochichou Liang.

—Chinês tradicional? – Debochou Yuran. – Pensei que já estivesse familiarizada com a forma simplificada.

—Espere, o que disse Srta. Liang?

—De onde venho o Chinês Tradicional ainda é muito utilizado, não frequentamos muito a escola por ser uma área remota, então nos é ensinado através de geração. A anciã de nossa aldeia, nas Montanhas de Jade, nos contou uma lenda uma vez: “O deus dragão, ele irá nos ajudar no momento de fraqueza...” – Estava cabisbaixa, em respeito e também por medo de ser repreendida.

—Bah! Não temos tempos para lendas, muito menos para crenças. A menos que tenha um plano de guerra ou sua aldeia sejam eruditos e mestres nas artes da batalha, apenas faça seu serviço Srta. Liang.

—Isto mesmo, serviçais não devem se intrometer em assuntos burocráticos. Por hora irei me retirar senhor, averiguarei os limites da cidade real para ter certeza de nenhuma horda se aproximando.

—Como quiser Yuran, sempre será útil à mim e ao povo de Qin.

Yuran levantou-se silenciosa e desapareceu nas sombras do corredor cerrando a porta.

—Srta. Liang? – O General chamou sua atenção.

—Senhor?

—Apesar de não ser muito religioso, os deuses foram brutos com minha pessoa, mas acredito que ainda exista esperança e fé em sua alma, reze por nós enquanto estivermos no campo de batalha, és muito religiosa, precisamos de pensamentos positivos em relação aos ventos que sopram contra nós.

—Sim, Senhor. Reunirei as outras serviçais e iremos até o templo do palácio, acenderemos incensos e oraremos ao deuses serem misericordiosos em relação aos seus homens.

—Fico honrado em ouvir isto de você... Nos de licença agora, iremos discutir as últimas instâncias.

—Como quiser General Yuan. Com licença.

A serviçal levantou-se quieta, abraçando sua tabuleta de madeira e carregando o candelabro, deslizou a porta com seus dedos esguios e mergulhou na penumbra do corredor. Passos curtos e rápidos faziam seu caminho, enquanto a chama da vela queimava o assoalho em luz. Algumas portas entreabertas deixavam a luz da lua entrar, criando faixas brancas e reluzentes pelo extenso corredor. Estava indo para a cozinha e o nervosismo aflorava sua pele, num suor frio e trêmulo, tinha consciência de que a cidade seria atacada, mas não qual escala seria este ataque e nem se sobreviveria. Ultimamente muitos assassinos de elite estavam sendo utilizados pelos senhores da guerra, adentrando os palácios furtivamente e assassinando os líderes. Então um riso sádico invadiu seu consciente. Um par de botas negras emergiu de um resquício de sombras, que rodopiou como uma serpente e afundou-se no chão desaparecendo. As botas começaram a caminhar sozinhas na direção de Bo ganhando forma enquanto a luz ungia-as, pele pálida vestia o couro.

—Ora, ora... – Yuran emergiu da escuridão.

—Não devia estar vigiando os muros, Yu Ran? – Liang fez uma pausa entre as sílabas, estava claro que não estava contente com a presença da mulher.

—Sabe que não gosto que me chamem assim, porque insiste? – Apertou o olhar mordendo os lábios.

—Este é seu nome, devia se sentir mais orgulhosa dele.

—Era, no passado. Tola.

—Desde que serve o General Yuan? Ocultando seus dons? – Bo investiu com fatos.

—Dons? Do que está falando? O ar rarefeito de onde vêm e as suas crenças devem ter te atormentado.

—Você é uma feiticeira Yu Ran, e isto é muito claro! Usa as sombras como atalhos e desde que se aliou ao General Yuan, ele veio a ganhar diversas batalhas, você tem os olhos da serpente, consegue prever tudo...

Yu Ran socou a parede, atravessando o papel que a revestia. Uma brisa dançou entre as mulheres, a chama da vela dançou e um pequeno corte surgiu na bochecha da garota. Seus olhos escarlate brilharam fitando a serviçal e acompanharam enquanto a gota de sangue escorria por seu cenho. Sua língua dançou pelos lábios e ela riu entre dentes.

—Que imaginação fértil...

Sua mão tocou a cintura de Bo, empurrando-a contra a parede, as íris da garota dilataram quando se encontravam com os olhos sádicos de Yu Ran, estava em uma situação realmente peculiar e perigosa, não havia uma forma de reagir, a não ser ter seu psicológico estável e tranquilo.

—Não sei qual são suas intenções, mas não vejo maldade em você. Seu plano para nós, deve ser muito maior que só uma simples traição... Que os deuses a guiem, assim como eles o trouxeram a este plano.

—Eu vim acabar com esta guerra, guarde estas palavras.

A mão de Yu Ran dançou no ar, pronta para atacar, Bo deixou seu psicológico explodir como uma torrente, fechou seus olhos, suas pernas tremeram e tudo desabou. O candelabro mergulhou no assoalho e apagou-se, tudo ficou escuro e a mulher já não estava mais ali.

Notas finais
O capítulo ainda vai ter continuação, deixei um rastro de curiosidade no ar. Pelo que já entendemos a misteriosa mulher leal a General Yuan é de fato uma feiticeira, mas qual são seus planos para o Reino de Qin? Acabar com a guerra? E o que Bo Liang tem a ver com tudo isso! Uma simples garota camponesa, serviçal no Palácio do Dragão, de grande fé e coragem.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.