The Middlebury Academy
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Na medida do possível, era um dia como outro qualquer na Middlebury Academy. Os alunos chegavam, um a um, pela manhã. Não leva muito tempo para que alguém que nunca sequer ouviu falar no lugar se familiarize. Middlebury é um lugar comum, dentro do protocolo.
May Phillips, por exemplo, era mais uma dos milhares de novos estudantes. Se sua beleza fosse medida de acordo com a escala de Annabeth, uma aspirante a blogueira do sétimo ano, May seria considerada “bonitinha”.
— Boa sorte na escola, querida. – Dizia a mãe, a quem May ora amava e ora odiava ao deixá-la na porta da escola. Ah, se ela ao menos soubesse que ser deixada pela mãe na porta da escola fosse como pular de um prédio em uma piscina de ácido para a “elite” de Middlebury.
May desceu do carro sem dizer nada, apenas retribuiu a fala da mãe com um sorriso, evitando um longo discurso que viria a seguir. Com um certo frio na barriga, subiu a escadaria da entrada principal. Apesar de a escola não ser muito grande, a entrada era quase gloriosa, adornada por grandes esculturas contemporâneas e atuais. Passando por alguns grupos, May ouviu frações de suas conversas. Passou menininhas arrumadas do oitavo ano, nerds veteranas, gays hardcore, patricinhas, hippies... Era como se aquela grama mal cuidada e sem graça fosse ricamente preenchida pelos mais diversos tipos de gente.
— Tray Phillips? – Perguntou um garoto que talvez se posicionasse na mais alta posição na escala de Annabeth.
— May. – Gaguejou a menina, com um olhar bobo.
— Enfim. Eu fiquei responsável por dar boas vindas aos alunos novos. Preciso do seu nome, idade e ano.
— May, 15, primeiro ano.
— Essa é a parte que eu finjo que leio um texto e... A sua sala é a primeira do segundo corredor. Só tem um primeiro ano, portanto sem desculpas pra entrar na sala errada. Se alguém perguntar fala que eu te levei lá. – Discursou o garoto, sem nem sequer olhar pra ela.
May tomou seu caminho. Christofer, o menino que a “recebeu”, era um ano mais velho. Tocava bateria em uma banda de rock e, ocasionalmente, era amado por todas as garotas da escola. Como May era a última da lista, Chris deixou os papéis na secretaria e caminhou até a sala de aula, emburrado, ignorando todos os olhares curiosos. Chegou na sala já atrasado e, sem pedir licença, sentou-se no seu lugar de costume.
— Bom, pode entrar, Sr. Black. – Ironizou a professora, uma velhinha corcunda e ressentida.
Chris puxou um bloquinho de notas da mochila, pegou uma caneta do bolso e, utilizando sua incrível habilidade de ignorar professores com vozes estridentes e qualquer outro som externo, começou a escrever algo que parecia uma poesia.
Estendem-me um cálice da vida que já não quero mais
Seus olhos brilhantes acenam sorridentes para minha própria alma
Meu maior desejo é conseguir essa inexistente paz
Essa ilusão, esse devaneio, esse sonho embaçado, essa calma.
Sem perceber, Chris começou a cantarolar baixinho.
E por mais que esse fosse o momento mais especial
É impossível sorrir quando o cálice já está vazio
Estou só fitando sua doçura possivelmente anormal
Desejando que algo tire de minha mente esse frio
— Chris? – Chamava a professora.
Esse desespero não costumava ser usual
Essa tolerância pela psicose devia ser banida
Por mais que eu saiba que isso é anormal
Não consigo só expulsar da minha vida
— Chris? – Repetia a professora, impaciente.
E essas rimas, por mais medíocres que sejam,
Sossegam meu ser, fazem do mundo mais sólido
De quem eu já fui, palavras me beijam
Estou confortável nesse grande palco pálido
— Cristofer Ignnot Black! – É, foi um grito bem impaciente esse.
— Sim? – Dizia Chris, despreocupado. A professora pareceu impressionada por sua falta de interesse em saber o motivo da histeria.
— O senhor poderia, pelo amor de deus, me responder? – Seu tom de voz ainda era impaciente.
— Responder...?
— Oliver Cromwell. Quem era Oliver Cromwell. – Dizia a velha, num drama tão desnecessário quanto decepcionado.
— Era mais um desses caras narigudos e cabeludos que tem nos retratos dos livros de história. Possivelmente ele está envolvido em alguma guerra ou revolução e era casado com alguma mulher com quadris largos e férteis.
Sarah Hastings, a patricinha que sentava ao lado de Chris, pareceu fazer um imenso esforço para não rir. Irritada por ouvir algumas tosses, claramente emitidas para disfarçar um riso, a professora liberou a turma.
Uma garota loura, incrivelmente magra, com os cabelos lisos desgrenhados e uma roupa oitentista entrou na sala do segundo ano um pouco tensa para falar com Chris. Ela acabou esbarrando nele no caminho. Quando a viu, Chris pareceu um pouco menos melancólico.
— Olá, linda. – disse ele, com uma imensa ternura. A garota, quase sem querer, deu-lhe um forte e apertado abraço.
— Eu não quero te ver assim, Fluffy. – Cochichava a menina, quase com os olhos cheios d’água. – Eu sei que é difícil, mas também sei que você é forte o bastante.
Os dois começaram a andar pelos corredores, e Chris parecia bem melhor. Ele disse alguma coisa sobre como odiava que ela a chamasse de Fluffy e ela riu. Os olhares estavam sempre voltados para Chris, e isso era algo incômodo na maior parte do tempo. A menina se despediu, tentando esconder sua irritação pelos olhares constantes.
— Tenho que ir, Chris. Amanda me mandou um texto enorme via mensagem de texto. Acho que estamos namorando... Mas tem tantos smileys que chega a ser confuso.
Chris riu.
— Tchau, irmãzinha. Te amo.
— Claro que ama! – dizia Amelia, meio risonha e meio apressada em ir embora dali.
Caminhando lentamente até sua próxima aula, com o celular na mão e extremamente concentrada em digitar, passou pelo grupo mais amado e odiado de toda a Middlebury: Cate, Alicia e Gia eram as loiras, magras, bem vestidas e maquiadas mais desejadas por todos. Elas fitavam Amelia da cabeça aos pés. Era incrível como, mesmo sendo loura e magra, nem o dedinho do pé de Amelia poderia, um dia, lembrar o de alguém daquele grupo.
— Olha essas meias até os joelhos, o que ela tem na cabeça? – cochichavam umas para as outras.
Logo após Amelia, passou May, que parecia tão apressada quanto a colega. Elas nem imaginavam que formariam uma dupla, sem querer, no trabalho que seria anunciado hoje.
Chris, do outro lado da escola, passava por outro grupinho típico: os festeiros. Alguns chamavam de drogados, outros de playboys... É, essa raça. Fluffy ganhou esse apelido graças á uma de suas festas de halloween.
— E aí, Fluffy? – Acenava um garoto alto e moreno, que desgrudou de uma patricinha com a blusa decotada e cabelo jogado para falar com Chris. – Vamos dar uma reuniãozinha lá na minha casa hoje. Se você quiser, leva umas amigas. E não se esquece do dinheiro que tá me devendo.
— Que dinheiro, cara?
— Você não vai me fazer falar aqui? O negócio que você comprou de mim mês passado. – A segunda frase foi um cochicho.
— Aquilo. – Chris pegou um bolo volumoso de dinheiro da carteira e pagou ali, na hora. – Tem a mais. Quero mais trinta gramas.
O garoto pareceu estar impressionado com Chris, tanto pelo dinheiro quanto pelo pedido.
— Hoje à noite, amigo. Sem falta.
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