Alice

Eu estava em uma mesa de metal. Só enxergava um teto branco, com uma iluminação fortíssima que quase me cegava. Um par de olhos violetas me encararam de cima. Meu pescoço estava imobilizado, assim como todo meu corpo, preso por tiras de algo que parecia ser couro. Senti ferros sendo atravessados pelo meu corpo e um líquido gelado adentrar minhas veias; meu corpo automaticamente entrou em convulsão e senti um calor imenso inundar meus braços e pernas. O homem de olhos violeta usava uma máscara branca, daquelas que os japoneses com misofobia usam, e uma touca também branca. Depois de convulsionar dolorosamente, tudo ficou escuro e eu acordei.
Já tive esse sonho milhões de vezes, e sempre acordava suada e com medo. Precisei tomar um banho frio pra acordar bem. Morava sozinha naquela cidade grande, atraída por uma bolsa de estudos integral pra um curso de filosofia. Sim, filosofia, pode imaginar como os meus pais me encheram o saco por escolher uma profissão tão desmerecida? Pois é.
Uma neblina gelada cobria a cidade, e eu odiava aquele clima úmido e frio. Vesti meu sobretudo preto de sempre — se eu pudesse nunca o tirava, era muito confortável — e atravessei a rua em busca da melhor padaria do bairro.
Lá dentro estava quente e aconchegante, e eu prestava atenção no noticiário local enquanto esperava meu café. Três homens foram presos não muito longe da minha rua acusados de assassinato e tortura. Sinistro.
Meu café veio bonitamente embalado em um copo grande, que me daria energia pra encarar as aulas super teóricas e ir pro estágio mais tarde. Levantei da mesa e, indo em direção à porta, esbarrei em uma pessoa que tinha acabado de entrar. Era um rapaz aparentemente da minha idade, e nada em sua aparência explicaria a sensação esquisita que tive ao esbarrar nele: uma corrente elétrica — literalmente — percorreu meu corpo e um flash de memória veio até mim; o flash era rápido, mostrava aquele par de olhos violeta me encarando, que vi no sonho.

— Desculpe... — murmurei, encarando um cara que nunca vi na vida com a maior cara de sonsa. Ele tinha estranhos olhos marrom-avermelhados, que contrastavam com a sua pele tão pálida que chegava a ser doentia. Sua boca se abria aos poucos, como se não soubesse ao certo o que falar, e o estranho me devolvia o olhar perdido e confuso. Suas sobrancelhas se uniram em uma careta de total desnorteamento. Cocei o pescoço – hábito bobo que eu tinha, sempre que estava impaciente ou irritada – e me voltei para a saída, com meu café milagrosamente intacto. Dia esquisito.