Notas iniciais
1) Olá ♥ 2) vcs vão notar que eu mudei a idade da Sansa (e consequentemente de todos os personagens) 3) espero que gostem 4) sim eu sei que eu fico 84 anos sem postar. Não, eu tbm não sei o que há de errado comigo :)

Paredes feitas de galhos e folhas a cercavam enquanto ela corria. Sansa não sabia para onde ir, ela nunca estivera ali antes, e mesmo assim era como se já estivesse correndo há anos. Um beco sem saída, uma barreira verde e intransponível que limitava o caminho, ela tinha que retornar e buscar um modo de sair dali.

O vestido não ajudava, era longo com pérolas bordadas em todo ele, tão pesado quanto uma armadura. Os galhos pontudos que espreitavam para fora daquelas paredes agarravam suas saias e seu cabelo como as pequenas garras de criaturas sinistras. Alguém corria atrás dela, e não havia o que temer, aquele era um labirinto onde se perseguia e era perseguido, uma longa brincadeira. Ela não tinha razões para ter medo, tinha?

Willas a estava seguindo. Não, não Willas, ele não podia correr e mesmo que pudesse não parecia interessado em ir atrás dela. Hobber então, era Hobber que tentava alcançá-la com suas declarações e promessas. Talvez Sansa quisesse que ele a alcançasse e que voltasse a lhe dizer todas aquelas coisas gentis que rapazes dizem para moças quando querem conquistá-las.

Mas Hobber não aparecia, e ela continuava correndo, e quanto mais ela corria, mais o labirinto a agarrava. As pérolas se soltavam de suas saias quando ela as puxava e rolavam pela relva. Inúmeras e silenciosas elas se espalharam como segredos.

Então Sansa decidiu parar, e nunca soube o motivo de ter parado. Talvez fosse cansaço, talvez desistência, mas o fato é que parou de correr.

— Sir. Willas?

Ela chamou com a voz fatigada para as paredes verdes. Mas por que chamar Willas, se era Hobber quem vinha? Isso também não importava, pois nenhum deles veio, e agora ela queria gritar por sir. Willas, pois ele era o senhor ali, e se ele mandasse o labirinto todo seria destruído e ela libertada.

— Não, sou eu. Eu sou o senhor, aqui e em todos os Sete Reinos.

Sansa se virou com seu vestido rasgado e cabelos arruinados para encontrá-lo impecavelmente vestido em brocado carmesim.

— Mortos não são senhores de nada, e eu te vi morrer.

Mas isso era mentira. Ela o tinha visto se debater e arranhar a própria garganta mas jamais o vira abandonar a vida em definitivo.

— E eu gostaria de ver mais uma vez.

Sansa adicionou, para a sua própria surpresa. Não valia a pena pensar em Joffrey, não ali. Ela detestaria macular suas primeiras impressões de Jardim de Cima pensando nele e por isso deixara suas memórias atrás dos portões do castelo. Mas se pensasse nisso, se ao menos por um momento ela se lembrasse da figura de Joffrey se debatendo ao chão, Sansa teria vontade rir, de enfeitar os cabelos com flores e cantar pelo reino ‘morto, morto, o rei está morto’. A ideia de estar em um mundo onde Joffrey não mais existia a deixava exultante, e ainda mais contente ela se tornava recordando que ele não tivera uma morte indolor ou digna.

— Você nunca aprende.

O jovem rei estalou a língua no céu da boca, e Sansa tentou recuar mas suas costas foram de encontro com uma desagradável superfície metálica. Um cavaleiro da guarda real foi o que ela encontrou impedindo a passagem dela.

Ela quis gritar quando o cavaleiro a segurou pelos ombros, mas o grito ficou agarrado na garganta.

— Milady jurou ser obediente e leal, mas nunca foi. Seu coração continuou nutrindo as traições perversas de sua família.

As frases que costumava recitar em Porto Real lhe voltaram a ponta da língua. Ela não era traiçoeira como seu irmão, ela rezava pela vitória de seu amado Joffrey, seu pai foi punido por ser um terrível traidor. Mentiras, mentiras e mentiras, que se agarravam na memória como espinhos. Ela não queria ter de dizer nada daquilo outra vez, e resistindo sob lágrimas ela não disse.

— Você precisa aprender.

A pesada mão do cavaleiro, coberta por sua manopla esmaltada de puro branco, atingiu seu rosto, deixando uma bochecha dolorida. O golpe a fez perder o equilíbrio e ir ao chão.

O labirinto então se encheu com as sedas, veludos e plumas de lordes e ladies que a olhavam e cochichavam.

Era Porto-Real outra vez. Porto-Real bem no meio de Jardim de Cima.

‘Não’ Sansa pensou angustiada ‘por favor deuses não’.

Em todos aqueles rostos que a encaram como a um entretenimento Sansa só encontrou um par conhecido, e apesar de um par eram rostos iguais. Horas e Hobber, os gêmeos que ela e Jeyne Poole costumavam chamar de horror e terror aos risinhos.

Horas desviou o olhar quando a viu, mas Hobber ignorou completamente a sua presença. Ele que tinha jurado sua afeição com tanto comprometimento, fingia não ver o seu sofrimento. Sansa queria se esticar e agarrar o casaco de seda azul dele, para o obrigar a reparar nela, mas o orgulho a imobilizou.

Ela olhou para longe dos gêmeos determinada a esquecer que ambos existiam. Mas então toda a corte tinha desaparecido. Joffrey se fora como uma névoa, e junto com ele seu cavaleiro, seus aduladores e os gêmeos. Sansa estava sozinha outra vez, e uma onda de alívio veio de encontro a ela, mas outra vez ela estava sozinha.

Se dessa vez conseguisse gritar, quem ela iria chamar? Seu pai, seu irmão, sua mãe? Estavam todos mortos. Quem poderia tirá-la daquele labirinto?

Uma mão tocou em seu ombro, e em suspiro ela estava de novo na sua cama em Jardim de Cima, desorientada e assustada.

— Perdão milady, a senhora parecia estar no meio de um pesadelo.

Sansa coçou os olhos recobrando a consciência, e viu sua criada de aspecto perpetuamente aterrorizado a encarando.

— Você fez bem — ela respondeu sonolenta — Preciso me arrumar e encontrar lorde Willas no Septo.

— Já é tarde senhora, milorde já deixou o septo. Lorde Willas mandou um criado perguntar se a senhora já tinha despertado, e se não tivesse então eu não deveria acordá-la.

— Por que ele faria isso?

Ao menos na perspectiva dela, a visita que os dois fizeram ao Septo na manhã anterior tinha sido um sucesso. Ela não o importunara com coisa alguma, e se esforçara tanto para ser agradável. O que poderia ter sido tão terrível que ele logo a dispensasse no dia seguinte?

— Está chovendo a cântaros lá fora milady.

A criada respondeu a fazendo se sentir muito tola

— Vou mandar vir o desjejum, senhora. Com sua licença.

Fazendo uma mesura a garota tomou seu caminho para se retirar do quarto, e se vendo agora sem companhia Sansa foi até a janela encarar a paisagem através daquele véu de água caindo dos céus. O labirinto de Jardim de Cima, que lhe causara tantos arrepios em seu sonho, se prostava inofensivo na sombra dos muros do castelo. Ao longe um trovão resmungava em seu berço.

A criada tinha lhe trazido um desjejum quase tão exuberante quanto o que ela tivera com lorde Willas no dia anterior, mas, tal como lorde Willas, Sansa fez uma refeição parca. Depois ela foi vestida e penteada, apenas para perceber que não haviam grandes atividades esperando por ela fora daquele quarto.

— Lorde Willas deixou mais algum recado?

Ela perguntou com a voz tingida de esperança enquanto a menina amarrava uma fita de veludo em sua perna para garantir que a meia não cairia.

— Não milady, mas sir. Hobber quis notícias suas.

Distraidamente a criada migrou sua tarefa para a outra perna.

— O que você acha de sir. Hobber?

— Eu milady?

— Sim, você deve tê-lo visto antes, já parou para pensar nele alguma vez?

— Bem… sempre me pareceu que lorde Hobber e o irmão gostavam de… perturbar outros meninos. Os garotos nobres sofriam com troças vindas deles, mas os garotos simples sofriam o dobro.

— Acha que eles eram cruéis? Que lorde Hobber seria capaz de alguma crueldade?

—Nunca conheci um homem incapaz de crueldade milady, mas que algumas pessoas nascem com mais talento para isso do que outras é um fato. Agora que milorde já não é nenhum garoto talvez ele não veja mais aqueles divertimentos como adequados? De qualquer maneira eu não deveria pensar nisso.

A menina terminou com as meias e agora Sansa estava livre e pronta para o dia. Ela ficou feliz pela menina ter dado respostas sinceras, por um momento tinha temido que o aspecto amedrontado fosse significar que não teria mais que respostas monossilábicas.

— E qual o seu nome?

— Lena milady. Olenna, foi o nome que minha mãe me deu por amor a lady Olenna, mas todos me chamam de Lena, e não seria apropriado se fosse de outra forma.

— E sobre lorde Willas, o que acha dele?

— É um senhor muito bom. Quase não o vemos, e ele quase não pede nada. Mas no ano novo todos os criados receberam um generoso presente, eu até mesmo fui capaz de comprar anáguas novas.

Elas eram muito diferentes, Lena falava de anáguas novas como se fossem ovos de dragão, enquanto Sansa se perguntava quando teria vestidos novos. Se um dia ela se tornasse a senhora de um castelo, iria se certificar que todas as criadas sempre tivessem boas anáguas.

Lena sorriu voltando à sua fisionomia assustada e se encarregando de arrumar as saias da patroa.

— Eu devo mandar algum recado para sir. Hobber senhora?

A criada perguntou antes de sair, esperando uma resposta simples que demorou muito a vir. Sansa queria passar mais tempo com Hobber? Ela podia se dar ao luxo de ignorá-lo? Um dia sem lhe dar atenção poderia afetar as afeições que ele dizia nutrir por ela? Nada disso importava realmente, tudo o que Sansa queria era não ficar sozinha outra vez.

O castelo era diferente com a chuva caindo lá fora. Mais cinzento e melancólico, menos parecido com uma caixa de sonhos, e mais com um amontoado de pedras alvas sobrepostas. Mas se aquela luz não trazia o encanto da manhã anterior, ao menos ela poupava Sansa de distrações e a permitia pensar com clareza. Lorde Willas não queria se casar com ela, então não devia importar se Sansa gostava ou não de Sir. Hobber, o melhor caminho era se contentar com o seu cavaleiro da Árvore.

Que bem fazia o amor afinal? Ela tinha amado Joffrey, e, tal como as heroínas das histórias da velha ama, tinha sido devota à ele, mas aquela canção fora amarga. Já a senhora sua mãe se casara com um homem a quem não amava, e ainda assim foi tão feliz ao lado dele quanto qualquer senhora poderia desejar. Se Hobber fosse gentil, talvez Sansa não fosse se importar em casar com ele.

Marchando ao seu lado, hoje elegantemente vestido com sedas e usando uma corrente de ouro sobre os ombros, Hobber a olhava com o mesmo olhar fascinado do dia anterior. Era adorável que ele a olhasse assim, mas o que aconteceria quando o brilho da novidade começasse a se apagar?

— Eu não consigo parar de pensar que seria melhor se estivéssemos na Árvore. Lá eu tenho raquetes novas, e é claro… uma quadra.

Jardim de Cima era possivelmente o castelo mais bonito que Sansa já vira. É claro que ela não tinha tido tempo ou oportunidade de conhecê-lo por completo, mas ainda assim não lhe restava nenhuma dúvida de que todas as suas dependências seriam tão bonitas e bem acabadas quanto aquelas que já tinha visto. Hobber, no entanto, por algum motivo que ela não conseguia precisar, achou melhor começar o tour pelo castelo justamente pela única parte que ainda não estava completa, a quadra de tênis.

— Bem aqui é o meio da quadra, e ali é de onde vai se assistir a partida — Ele falava apontando para o grande e iluminado salão que estava sendo reformado para sua nova função — É claro que teremos redes, ali e ali elas terão sinos, e se a bola tocar nelas então o jogador ganha um ponto. Já as telas na parte dos espectadores… bem… não queremos que belas damas se machuquem.

Hobber olhou para ela e sorriu ao dizer essa última frase. Com certo receio Sansa viu o cavaleiro caminhar em sua direção, tão cortês e apaixonado que era impossível imaginar que ele uma vez havia lhe dado as costas. Já Sansa, ela infelizmente não tinha qualquer ideia de quais deveriam ser suas reações ao ser cortejada. Uma dama deveria saber quando sorrir, quando corar, quando fazer um gracejo, e quando se retirar, mas ela não sabia, e só podia pensar em uma coisa que queria dizer para sir. Hobber.

— O senhor não faria isso não é mesmo? Machucar uma dama, ainda que ela não fosse tão bela assim?

O cavaleiro se interrompeu na frente dela e a olhou divertido por um longo momento, até que risse.

— Miladay deve se lembrar que eu sou um cavaleiro da Campina, e aqui nós levamos nossos votos muito a sério. Não tenho a intenção de machucar mulher alguma.

Sansa recuou dois passos para trás e tentou soar tão divertida quanto ele, ainda que para ela aquele fosse um assunto de crucial importância.

— Pois eu soube que milorde gostava de atormentar pobres garotos.

Ela segurou as saias do vestido para que não tropeçasse e deu mais alguns passos para trás, Hobber seguiu na direção dela, o sorriso no rosto dele nunca parando de crescer.

— Pois eu mesmo era pouco mais que um garoto, e garotos se atormentam, talvez eu e meu irmão só fossemos melhor nisso do que os outros. Mas veja — Hobber abriu os braços com ares vaidosos — Eu não sou mais um garoto.

Sansa não pôde precisar o motivo, mas quando o cavaleiro deu mais um passo em sua direção, ela se virou e correu no sentido oposto. Seu ar divertido agora menos fingido do que antes, até que por fim uma gargalhada convidativa e sincera escapasse pelos lábios dela. Imediatamente o seu acompanhante correu em sua direção, e o imenso e vazio cômodo fez ecoar os passos e os risos deles.

Ela tinha que admitir, que ainda que fosse Hobber ali, Sansa estava feliz. Ela estava correndo, e sendo tola, e logo outra risada cresceu na garganta dela, a surpreendendo com aquele som que havia tanto tempo ela não ouvia. Às vezes se virava para ver o cavaleiro que vinha atrás dela, e isso só a divertia mais.

Suas preocupações, o sonho daquela manhã, o terror de Porto Real, tudo podia adormecer por um instante enquanto sua juventude e alegria despertavam. Talvez fosse o efeito de Jardim de Cima, onde mesmo com a chuva batendo contra o telhado, era fácil de esquecer que havia um mundo inteiro lá fora disposto a ferí-la. Naquele salão ainda não terminado, com o cheiro e poeira de construção, a fraca luz do sol entrando pelas janelas no alto, e o som, de chuva, de saltos na madeira do piso, e de risadas, naquele salão nada importava a não ser poder ser outra vez uma garotinha ingênua que fantasiava com o amor de um cavaleiro sulista.

E como se desperta de um sonho, Sansa sentiu a mão de seu cavaleiro apanhando a sua e a fazendo girar na direção dele. A distância entre eles se tornou então indecorosa, e todo o seu pudor a alertou que deveria se afastar, mas Sansa não podia dar atenção a isso, não quando estava com o coração saltitante, as bochechas tingidas de vermelho e os lábios sorridentes.

— Eu jamais lhe machucaria milady, para você eu serei como… como… — Ele titubeou procurando sua declaração até que dissesse triunfante — Como o herói de uma canção.

Sansa talvez nunca tivesse escolhido aquele rapaz Redwyne como seu herói. Ela e Jeyne tinham decidido, tão logo puseram os olhos nos gêmeos, que eles eram de uma aparência desagradável. Horror e terror, ambas os tinham apelidados, os dois que além da falta de beleza, também não eram polidos em sua cortesia, ou habilidosos na justa.

Colocá-los de lado foi o mais natural dos movimentos, e Sansa jamais pensou em reconsiderar suas opiniões. Mas agora, ainda que continuasse sem motivos para admirar a cortesia ou a justa do cavaleiro, ela tinha de admitir que começava o achar bastante bonito.

O que Jeyne Poole, onde quer que estivesse, diria? Talvez ela não fosse poder conter o riso quando soubesse que Sansa achava o Terror bonito, ou talvez também Jeyne mudasse de opinião. A fase antes de se tornar um homem podia ser cruel com os rapazes, ou assim dizia a septã quando Sansa e Jeyne trocavam troças sobre a aparência de algum menino. E como o próprio Hobber tinha feito notar, ele não era mais um garoto.

— Veja só!

Quando ele exclamou sorrindo e olhando para os sapatos dela, Sansa reparou não só que continuara segurando a saia com uma das mãos, mas também que sua meia descera até o tornozelo. A fita que a criada prendera tão cuidadosamente deveria ter se soltado quando ela resolvera correr como uma tola.

— Milady não deveria fugir de mim — Hobber falou se ajoelhando diante dela — Pois não tem motivos para tal.

Mais delicadamente do que Sansa teria previsto, ele tomou o tornozelo dela e se pôs a lhe ajeitar a meia. O mesmo pudor que lhe alertara momentos antes que devia afastá-lo voltou a advertir, e tal como antes Sansa o ignorou.

As mãos de sir. Hobber guiavam sua meia de volta, e enquanto faziam isso Sansa podia senti-las por cima do tecido. Havia algo de caloroso, e algo de receoso naquele toque, e talvez por isso ela estivesse tão curiosa com a sensação. Era impossível se lembrar de outra ocasião onde um rapaz tocasse sua panturrilha, pois esta jamais existira.

Ela era obrigada a reconhecer, contudo, que a sensação era boa. As mãos de Hobber se moviam lentamente, tomando seu tempo ao subir pela perna dela. Sansa podia pedir que ele parasse, Hobber a olhava como se perguntasse se devia se afastar, mas ela estava curiosa demais para saber como era sentir aquele toque um pouco mais acima. Só um pouquinho acima falava consigo mesma um pouco mais e eu o mandarei parar. Mas e se ela não mandasse? E se a sensação fosse boa o suficiente para querer continuar?

Hobber então alcançou a parte de trás do joelho dela, e Sansa sentiu quando ele gentilmente acariciou aquela região com o polegar. Ela já pouco se lembrava da meia que permanecia entre a pele dela e as mãos dele, e por isso mesmo passou a temer o quão alto ele poderia ir se ela não o detivesse.

— Já é o suficiente Sir.

Ela disse pondo a mão sobre ombro dele, e para seu alívio Hobber afastou-se de pronto.

— Eu só queria ajudar

Dando um sorriso de lado que era jovial demais para ter qualquer traço de retidão, ele se levantou com os olhos brilhando na direção dela.

— E já ajudou o suficiente sir.

Sansa usava o mais leve dos tons, não só porque devia, mas também porque queria. Talvez ela até mesmo estivesse começando a desejar que a outra meia caísse também. Não era por Hobber, ou por querer ficar perto dele, e sim pela curiosidade daquela coisa nova de estar tão perto de um rapaz que tentava conquistar sua afeição. Sem ameaças, e sem temores. Sem odiá-lo ou achá-lo horrendo. Nesse cenário onde tudo era novo, e nada a impedia, de que outra maneira ela conseguiria estar além de curiosa?

— Espero poder ajudá-la outra vez no futuro, espero poder estar sempre a disposição de milady.

Ele parecia obstinado em sua tentativa de soar amável e inofensivo, mas havia qualquer coisa no brilho daqueles pequeninos olhos azuis que impediu Sansa de acreditar que as intenções do cavaleiro fossem de qualquer modo inocentes. Ela não se importou. Nem mesmo quando ele aproximou o rosto salpicado de sardas e ansiedade, não ela não se importou. O coração dela acelerou sem que isso tivesse qualquer ligação com a recente corrida.

Sansa silenciosamente sussurrava para si mesma que estava às margens de um beijo, e dessa vez um beijo de verdade, dado por um cavaleiro. Ela ainda não tinha certeza se Hobber serviria como o cavaleiro com o qual ela sempre sonhara, mas isso não a impedia de gostar da antecipação, do nervosismo, da incerteza. Sansa se decidiu, enquanto ele aproximava o rosto do dela, que hoje não se importaria de ser beijada por ele.

Lady Sansa!”

Ela ouviu o nome dela ecoando pelo salão, afugentando os pássaros que se acomodaram nas vigas do teto, e a fazendo saltar para longe de Hobber como se o cavaleiro tivesse sido empossado por um enxame de vespas.

— Lorde Willas!

Tudo o que Sansa pode fazer, quando viu seu protetor no lugar de onde a plateia assistira as partidas, foi uma mesura desajeitada. Um calor tomou suas bochechas de tal forma que Sansa teve certeza de que seu rosto sempre alvo estava com uma constrangedora coloração avermelhada.

— Milady — Ele respondeu ao assombro dela com um maneio de cabeça — Talvez meu primo possa fazer a gentileza de cedê-la por alguns instantes, há um assunto que eu gostaria de tratar com a senhora.

Muito estupidamente ela olhou para Hobber, que ao contrário dela não parecia nada constrangido, antes disso estava impaciente. Os sentimentos de Hobber, no entanto, não faziam qualquer diferença, Willas já tinha oferecido o braço para que ela o acompanhasse, e não tinha nada em sua postura que sugerisse que ele aceitaria uma negativa.

Sansa então abandonou Hobber, sem que isso significasse um sacrifício, e correu para tomar o braço de seu lorde Willas.

Willas não tinha o costume de se imaginar em uma situação como aquela, interrompendo o namoro dos mais jovens como um velho ressentido. Mas ele também não podia permitir que sua protegida tivesse qualquer mácula em sua honra enquanto estivesse sob a guarda dele, e de qualquer forma, havia assuntos mais importantes que requeriam a atenção de lady Sansa.

Ela andava silenciosa e encolhida enquanto pendurada no braço dele, o que não o fazia sentir nem um pouco confortável. Um carcereiro, um desmancha prazeres, o que será que ela pensava dele?

— Me diga, lady Sansa, quantos dias do seu nome a senhora já teve?

Willas perguntou na tentativa de pôr fim àquele silêncio embaraçoso.

— Dezesseis… milorde.

— Hobber não é muito mais velho que você, e eu vejo que os dois estão se dando bem.

— Ele estava apenas me mostrando o castelo.

Pobre moça, se justificando com pressa e temor, quando a intenção dele não era acusá-la, e sim se certificar que o futuro que lady Olenna lhe planejara não a tornaria infeliz.

— Quanta bondade a dele. Espero que da próxima vez vocês não sejam interrompidos.

Lady Olenna tinha razão quando dizia que de todos os netos Willas era o que tinha as piores piadas. Ele então resolveu se resignar em relação a sua falta de jeito e se manteve quieto até que chegassem.

Foi com grande alívio que ele abriu a porta do quarto, um cômodo bem arejado e iluminado dividido em dois espaços, uma antecâmara e um dormitório. De decoração simples, mas elegante, Willas achava que aquele era um lugar mais apropriado para uma moça.

— O que acha, milady?

Como sempre fazia depois de ter passado tanto tempo em pé, Willas procurou um assento, e ficou tão agradecido ao se acomodar que não notou lady Sansa imóvel no batente da porta.

— Esse… Esse é o seu quarto, senhor?

Ele virou o rosto na direção dela, transbordando de constrangimento.

— Não! Deuses, Eu não… — Willas suspirou na esperança de conseguir formar uma frase — Não seria apropriado seria?

Sansa não respondeu com palavras, mas o rosto dela se suavizou e até mesmo a sombra de um sorriso podia ser vista. Ele pôde ficar mais calmo ao vê-la entrando no cômodo.

— Na verdade — Willas voltou a dizer — Esse pode ser o seu quarto, se assim quiser.

— Meu? Há algum problema com o meu quarto atual?

É horrendo’ ele pensou consigo mesmo.

— De maneira alguma, eu só achei que talvez fosse se sentir mais confortável aqui. Além disso, essa é a ala da família, todos os Tyrell dormem aqui, e já que agora é nossa protegida, para todos os efeitos também é parte da família.

Ela sorriu um sorriso mais sincero e andou em direção à ampla janela ignorando o resto do ambiente.

— O labirinto — Lady Sansa disse com o olhar voltado para o exterior — É possível vê-lo de todos os quartos não é verdade?

— Sim, é claro. Ou ao menos eu acredito que sim.

— Então… Se alguém se perdesse, seria possível encontrá-la apenas olhando pela janela?

Willas não entendeu o interesse da menina pelo labirinto, ele próprio pouco pensava sobre o emaranhado de paredes verdes junto às muralhas.

— Não vejo porque não, ainda que não me lembre de alguém que tenha se perdido. Todos que demoram a sair de lá o fazem por vontade própria. Mas agora, milady, existe outro assunto além do quarto.

Sansa desviou o olhar da janela, mas havia qualquer coisa nela que dizia que não queria discutir assunto nenhum. Ele se sentia tentado a deixá-la em paz, no entanto, este não era um luxo que pudesse concedê-la.

— Hobber gosta muito da senhora, não gosta?

Ela olhou para os próprios pés ao invés de responder, e Willas não pôde dar atenção a isso, ainda que ela não quisesse conversar, teria de ouví-lo.

— Meu primo, ele… me fez entender que milady teria lhe dito algo de muito íntimo.

— Não consigo me lembrar de ter dito nada dessa natureza.

Sansa tomou sua parte no diálogo com os ombros encolhidos.

— Hobber acredita, que apesar de casada, a senhora permanece donzela, e eu sou obrigado a perguntar se isso é verdade.

No apoio estofado destinado a acomodar os pés do ocupante da poltrona, lady Sansa se sentou, ela tinha que olhar para cima a fim de encará-lo. E diante daqueles olhos azuis úmidos e entristecidos, Willas fazia todo o possível para desviar o olhar.

— Eu pedi a sir. Hobber que não fosse muito espontâneo sobre certos tópicos, pois eu nunca conheci os assuntos carnais de um casamento. Fiz mal?

Willas encontrou um defeito imaginário no braço da poltrona, e se pôs a analisá-lo com a ponta do indicador.

— Sei que a senhora tem desejo de anular seu casamento — Ele falou olhando tão pouco quanto podia para ela — Uma alegação de que foi obrigada a se casar pode gerar resultados, mas com a alegação de que não houve consumação é certo que conseguiremos uma anulação. O que milady precisa ter em mente é que os septões serão obrigados a colocarem certos pudores de lado, eles perguntarão sobre os detalhes do seu leito conjugal, e podem… eles vão pedir um teste para confirmar a sua condição.

— Um teste?

— Receio que um meistre terá de fazer um exame bastante intrusivo.

— O grande meistre costumava ser intrusivo em seus exames.

Willas abandonou o estofado como se jamais tivesse reparado nele e olhou para sua protegida, sentada ali aos seus pés. Quando ele achava estar a ciente de todas as vilanias da qual ela tinha sido vítima, Willas se surpreendia. Não havia nada naquela menina delicada que o fizesse acreditar que ela seria capaz de tomar participação na morte de um rei, mas ainda que ela tivesse orquestrado a coisa toda, ele não teria nenhuma vontade de criticá-la, antes ele a presentearia com um par de brincos.

— No entanto, não vejo por qual motivo devemos obedecer os septões em cada detalhe. Você é uma dama nascida de uma grande casa, se diz que não houve nada, então não houve. Sua palavra deve ser o suficiente.

Mesmo assim Willas sabia que não era. Com a menina sendo acusada de tantas coisas, e com a coroa querendo se apossar de sua herança, a palavra dela não tinha serventia, mas ele esperava que ao menos a dele fosse ter. Willas agradecia pela carta que tinha enviado para Porto Real, ela deveria servir como bálsamo para a aliança Lannister Tyrell que tinha sido ferida quando lady Olenna resolvera salvar o pescoço de uma menina.

E talvez’ Ele pensou encarando lady Sansa sentada ali aos pés dele ‘Isso faça com que só haja uma rainha em Porto Real’.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.