The Melting Snow
3 Capítulo 2

Lady Olenna não era reconhecida por ser uma criatura de hábitos, mesmo assim ela ainda guardava alguns costumes como cativos e jamais abria mão deles. Talvez o mais representativo desses costumes fosse sua tradição particular de colher ela mesma as flores que iriam adornar seu quarto. Havia um jardim em especial onde a rainha dos espinhos gostava de praticar o antigo hábito, era um lugar reservado, afastado dos jardins favoritos, cercado por um muro de pedra branca.
Quando Willas queria encontrar sua avó aquele era um dos primeiros lugares onde pensava em procurar, e na maioria dos dias ele obtinha sucesso. Naquela tarde não foi diferente e ele encontrou a frágil figura de lady Olenna com uma cesta repleta de flores pendendo em um dos braços.
Era perfeitamente simples de encontrá-la, se soubesse onde se procurar, mas era impossível de surpreendê-la. Willas acreditou que estivesse se movimentando de maneira discreta — ainda que a bengala lhe desse um aspecto desajeitado — e mesmo assim sua avó foi capaz de identificar sua presença sem nem ao menos desviar os olhos de suas flores.
— Ora meu bem, estava começando a desconfiar que você nunca viria me receber.
Ele depositou um beijo na macia bochecha dela, como sempre fez desde que era menino, e depois se sentou aliviado em um dos bancos de pedra dispostos pelo jardim.
— Imagine a minha surpresa — Ele disse com um suspiro depois de conseguir se acomodar — Quando descobri que não era apenas a senhora minha avó que eu teria de receber. Chegou uma carta de Porto Real, enviada pelo pequeno conselho, e a princípio eu achei ridícula a sugestão de que lady Sansa tivesse vindo para Jardim de Cima com você, mas então encontrei nossa hóspede nos corredores e deduzi que o ridículo era eu. Por que não me contou?
— Meu querido, você deve reconhecer que um bom senhor se faz consciente de quem está sob o seu teto. Nós chegamos ontem a noite e em nenhum momento eu fiz questão de esconder a menina. Onde você estava?
Willas rolou a bengala entre as mãos, remoendo o constrangimento infantil que sentia ao confessar um pequeno deslize.
— Eu passei a noite mapeando as estrelas, e pedi para não ser incomodado.
— E o que fez pela manhã?
— Bem, em algum momento eu teria de dormir.
Lady Olenna revirou os olhos por trás das pálpebras enrugadas. As mãozinhas manchadas pela idade se ocupavam ininterruptamente das flores.
— Você precisa de uma esposa que o mantenha acordado durante a noite fazendo herdeiros, e não mapas de estrelas.
— É por isso que lady Sansa está aqui?
— Não! Ora meu querido, você tem sido muito determinado em sua luta contra o matrimônio, agora me deixaria decepcionada vê-lo derrotado.
Maris apareceu trotando como um potro recém-nascido, e como seu focinho completamente molhado ela respingou água nas saias de Lady Olenna. A cachorra exibia um franco descaso com relação ás posses da família Tyrell, e já tinha destruído algumas dezenas de dragões dourados com suas travessuras. Willas afagou as orelhas dela quando Maris veio se deitar nas pernas do dono.
— Ela esteve bebendo água de uma das fontes outra vez —acusou sua avó — você nunca teve um cão tão arruaceiro!
— Você diz que não quer me impor casamento — Willas disse pondo de lado as infâmias sobre Maris — Não tenho como retribuir todo seu afeto minha avó! Mas, no entanto, não é engraçado? A mesma carta que dizia que Lady Sansa estava aqui, também me informava que a menina está sendo acusada de regicídio, e que diante disso ela perdeu qualquer direito de herdar as posses de seu pai. Ela é só uma garota sem nada no mundo, e que se dependesse da corte ficaria sem a cabeça também. Que incrível coincidência que justo agora eu não seja mais o pretendente dela.
O discurso de Willas não fez desviar a atenção que Olenna dava às suas flores, e nada do que ele disse pareceu constrange-la.
— Sem nada no mundo você diz. Isso não é verdade, ela tem uma bela aparência, e uma cabecinha de vento, o que poderia ser mais irresistível para um homem do que essa combinação? E além disso ela tem amigos. Nós iremos garantir que ela viva uma boa vida.
— Sim — Willas concordou — Vamos garantir que ela fique feliz ao lado de alguém que goze de nossa confiança. E então um dia não haverá nenhum Lannister cercando o trono, nesse dia Margaery irá sussurrar no ouvido de nosso reizinho que lady Sansa deveria ser a senhora de Winterfell, e não um lorde nortenho qualquer que tenham escolhido para lhe roubar a herança. E eu ouço dizer que você já tenha alguém em mente.
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Willas deu três batidinhas na porta com o nó do indicador. Quando uma das duas grandes partes de mogno foi aberta um rosto tímido e redondo apareceu, e ele desejou ser dispensado.
— A senhora está jantando.
A garota falou piscando os olhos castanhos em confusão, como se não soubesse o que fazer depois da informação ter escapulido pelos seus lábios.
— Pode dizer que desejo vê-la, se não for incômodo?
Ainda com sua confusão a criada acenou com a cabeça e sumiu dentro do quarto. Lady Sansa poderia alegar alguma indisposição e simplesmente dizer que não poderia vê-lo, e parte de Willas quis que ela o fizesse, que o desse mais tempo para pensar em como lidar com a situação, mas logo a menina confusa voltou e abriu a porta para que ele entrasse e cumprisse a angustiante tarefa de se encontrar com lady Sansa.
Se pela manhã ela tinha uma doce excitação, agora sua postura expressava total reserva. As mãos presas na frente do corpo pareciam trancá-la e mantê-lo longe. Willas não poderia culpá-la.
— Obrigada por me receber, milady.
Ele foi o primeiro a quebrar o silêncio, e o fez com o sorriso mais caloroso do qual foi capaz, mas esse singelo gesto de simpatia não pareceu capaz de comovê-la, e um sorriso pouco animado foi toda a resposta que conseguiu dela.
A criada passou apressada retirando os vestígios do jantar da patroa, e quando ela saiu tudo se tornou duas vezes mais constrangedor.
— O senhor gostaria de sentar? Talvez esteja com sede.
Willas aceitou o assento mas dispensou qualquer bebida.
Haviam duas poltronas macias forradas de um adamascado cor de âmbar. Eram confortáveis, mas horrorosas, e sua presença era capaz de contaminar todo o quarto com mau gosto. Por que colocar Lady Sansa ali? Naquele ambiente extravagante e afetado?
— A senhora realmente gostou desses aposentos?
Ele perguntou tentando disfarçar sua incredulidade.
— Sim! E não me importo de permanecer aqui.
A resposta dela fez com que Willas mirasse as próprias botas por um instante. Ele mordeu os lábios contendo um sorriso. Sua avó falava de lady Sansa como se a menina fosse um filhotinho dócil, mas ao que parecia ela já ameaçava mostrar os dentes.
Quando ele voltou a encará-la, sua interlocutora permanecia em pé, rígida, sólida e bela como a imagem da Donzela no Septo. Estava agradecido que ela não tivesse decidido se sentar nas poltronas medonhas, ao invés disso a garota Stark tinha como fundo uma tapeçaria de caça onde lordes, ladies, criados, cães e falcões figuravam um caos colorido.
Todas aquelas cores faziam a tapeçaria custar tanto quanto um navio de guerra, e lhe davam a sensação de que logo seria engolido por aquele vertiginoso mundo feito de tramas.
Willas resolveu focar seu olhar apenas na figura graciosa e agradável de lady Sansa, que mesmo ressentida não perdia nada de seu frescor e beleza. Os Lannisters tinham lhe tirado sua herança, e mesmo assim Willas conseguia ver os rapazes da Campina se acotovelando para ter a mão dela.
— Eu não fui muito cortês essa manhã, e peço que me desculpe.
Mas Sansa não respondeu nada, ela permaneceu com o rosto solene, e Willas foi obrigado a continuar sozinho.
— Na verdade, eu estava preocupado.
— Preocupado?
Finalmente ele viu um lampejo de curiosidade nos olhos azuis dela.
— Acredito que minha avó tenha lhe explicado que tipo de acusação está sendo feita envolvendo o seu nome.
— São mentirosas.
— Eu não acredito em nenhuma delas, milady, e certamente não vou manda-la de volta. Mesmo assim, passou pela minha cabeça que aqueles que a acusam talvez resolvam buscar algum tipo de retaliação.
Finalmente ela cedeu e abriu mão de seu posto para se afundar na poltrona adamascada diante dele. Sansa não disse nada, apenas o fitou esperando por maiores explicações.
— Talvez no futuro fosse melhor se manter sempre com companhia até que a situação esteja toda esclarecida. Vou colocar um guarda a sua disposição, se milady não se opor a ideia.
— Estou acostumada com guardas.
Ela apoiou o rosto em uma das mãos, e o fitou com certo desespero. Willas não estava acostumado com aquele tipo de situação, e certamente não ficou confortável. Depois de se ajeitar na poltrona ele tentou dar uma chance para o outro motivo de estar ali, mas não encontrou modo de falar sobre Hobber quando a menina era aterrorizada com uma acusação de assassinato.
— Você é nossa protegida agora.
A frase saiu mas seca do que ele pretendia, e arranhou o ar com sua simplicidade gélida. O que poderia ter soado para ela? Talvez que tivesse apenas saído da sinistra vigilância dos Lannister para cair na dos Tyrell, deixando de ser propriedade de um para se tornar a do outro. Mas essa não foi de maneira nenhuma a intenção dele.
Ser a protegida de Jardim de Cima significava que lady Sansa não teria de retornar à corte enquanto vivesse, que ela teria todas as suas necessidades atendidas, que caso fosse sua intenção se casar Willas garantiria um bom dote, que para todos os efeitos práticos ela era uma Tyrell agora. Mas olhando a expressão de Sansa, não era possível acreditar que ela estivesse vendo sua nova condição com muita alegria.
— Há quartos melhores do que esse... — Ele declarou, desesperado em trocar de assunto — Há muitos quartos na verdade, e milady pode escolher o que preferir.
— Gosto deste.
Mesmo com essas poltronas horríveis? Willas fez a pergunta mentalmente, seus olhos percorrendo o aposento repleto de enfeites e flores, com combinações desarmoniosas de tapetes, painéis de madeira chamativos recobrindo as paredes, uma tapeçaria gritando demais para um quarto, e para coroar tudo uma profusão exuberante de musselina ornava a cama. Devia haver um pavão em algum lugar, escondido debaixo da cama talvez.
Sansa Stark, com sua aparência delicada e ingênua parecia prestes a ser soterrada por tanto exagero, e ele queria muito que ela tivesse quartos mais apropriados.
A criada por fim voltou com seus passos tímidos, e pareceu o momento perfeito para se retirar.
— Caso haja qualquer coisa que possa ser feita pelo seu conforto, por favor, não hesite em me pedir.
Willas se colocou de pé com alguma dificuldade, se prometendo que no futuro ele deixaria esse tipo de tarefa para um membro mais carismático da família. Ele desejou uma boa noite de sono para Lady Stark, mais uma vez reforçou que ela deveria procurá-lo caso precisasse de alguma coisa, e deu aquele encontro embaraçoso como encerrado, mas então quando estava a meio caminho da porta Willas ouviu a voz agora dócil da menina o chamando.
— Lady Olenna me disse que o senhor prefere fazer suas preces na primeira hora da manhã, imagino que seja solitário. Eu poderia lhe fazer companhia...
— Não seria muito incômodo? Quero dizer, acordar tão cedo sem ter o costume.
— De maneira alguma — Ela respondeu sorrindo — Acho que acordar um pouco mais cedo me fará mais bem do que mal.
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Os jardins eram cobertos por um véu feito de luz pálida e vestígios de orvalho, o véu que cobre todo o mundo a cada início de manhã trazendo o frescor de esperanças renovadas. Naquela luz o caminho para o septo era ainda mais bonito, e a caminhada lhe dava um pouco de conforto. Talvez não fosse tão difícil conquistar a afeição de Ser. Willas, ele podia não ser tão simpático e caloroso quanto sua imaginação uma vez sugerira, mas era importante que o herdeiro da Campina gostasse dela, só assim Sansa se sentiria de fato uma protegida e não uma refém. Além disso, ela já tinha conhecido como era a vida quando o homem mais poderoso do castelo não lhe tinha afeição.
Willas era diferente de Joffrey, ou assim ela queria acreditar. Ser. Willas tinha lhe pedido desculpas, Ser. Willas ficou preocupado com ela, e agora Ser. Willas lhe esperava na porta do Septo com um ar sereno e amistoso.
Ele sorriu quando a viu, mas não era um sorriso entusiasmado. Maris, por outro lado, abanou a cauda com extrema felicidade, e uma vez que Sansa se aproximou a cadela veio cumprimentá-la.
— Um animalzinho simpático, não é?
Willas perguntou, seu olhar tinha um ar analítico que fez a declaração parecer mais com uma teoria do que com um gracejo. “E você” Sansa pensou com um sorriso. “é um animalzinho emburrado”
— Tive receio que milady fosse preferir dormir — Ele disse lhe oferecendo o braço livre — Eu não teria lhe culpado.
— O ar da manhã tem algo de muito revigorante, é por isso que senhor gosta de vir tão cedo?
— Na verdade eu gosto de ter o Septo vazio. Nesse horário os criados estão muito ocupados, e minha família muito inconsciente.
Ele pareceu pensar no que tinha acabado de dizer enquanto eles entravam no Septo e, por seu constrangimento repentino, Sansa pôde dizer que Ser. Willas não tinha ficado satisfeito com sua própria fala.
— É claro que... uma companhia como a de milady é ainda melhor que a solidão.
Sansa não conseguiu se decidir se acreditava nele ou não, mas definitivamente gostou da afabilidade da resposta.
— Meus irmãos sempre tiveram mais domínio sobre as delicadezas da cortesia do que eu — Ele continuou, e tão rápido que Sansa teve dificuldade para entender — Onde devemos por nossas preces hoje?
Ser. Willas estava certo, era fácil ver que ele não era tão bem versado na cortesia quanto seus irmãos mais novos, mas Sansa não queria se importar com isso, a franqueza dos modos dele deveria ser o suficiente por enquanto.
— Na Mãe
Sansa deu um aperto amigável contra o braço dele e sorriu, mas não havia sido ela quem escolhera para qual face de Deus deveriam orar, e sim Maris que entrara displicentemente no Septo para se acomodar próximo da Mãe, tão familiarizada com o mármore, os cristais e as flores douradas que Sansa foi obrigada a acreditar que a cadela fazia isso sempre.
Ser. Willas a conduziu até os pés da enorme estátua cujos braços abraçavam um bebê e eram abraçados por rosas. Dezenas de velas queimavam perto do pezinho que espiava para fora do longo vestido de mármore. Sansa recebeu mais uma vela de seu anfitrião, quase uma obra de arte pequena delicada e esculpida que ele tirara do bolso para por nas mãos dela.
No primeiro instante, enquanto acendia o pequeno mimo que Willas lhe entregara, ela pensou que se tratava de nada mais que uma gentileza, mas então Sansa pôde ver pelo canto de seu olho com quanta dificuldade o herdeiro de Jardim de Cima se ajoelhava.
Ele queria me distrair, queria ter certeza que eu não o veria com dor.
O pensamento veio para deixa-la envergonhada por ter olhado, e no mesmo instante ficou claro porque Ser. Willas gostava de ter o Septo vazio. O mínimo que Sansa podia fazer era levar um tempo maior do que o necessário para acender a vela antes de se ajoelhar com uma facilidade constrangedora ao lado dele.
A verdade era que ela não estava ali por causa dos deuses e sim por causa de Willas Tyrell, se agarrando a cada oportunidade de conquistar a afeição dele. Sansa se viu incapaz de se concentrar em uma prece, ao invés disso ela aproveitou o momento para estudar o homem ao seu lado.
Apesar de ter sido dotado da mesma boa aparência dos irmãos, era inegável que o herdeiro de Jardim de Cima não tinha o carisma resplandecente que Sansa tinha acreditado ser uma característica de todos os Tyrell. Até mesmo os adoráveis cachos que adornavam a cabeça de Margaery, Loras e Garlan, ele cortara, transformando um cabelo que podia ser tão exuberante em prático. Tudo nele era prático, Sansa tinha que reconhecer, suas roupas podiam ser elegantes e bem cortadas, mas não tinham nenhum adereço além do necessário, e até o número de palavras que usava em uma conversa parecia ser contado para evitar qualquer tipo de excesso.
Que criatura curiosa ele era, se abstendo das vaidades ao seu dispor para se ajoelhar no Septo e vestir uma expressão que Sansa não podia decifrar se se tratava de concentração profunda ou dor excruciante. Estando ali, com aquele homem estranho que parecia capaz de levar sua praticidade aos limites da frieza, pareciam ter se passado séculos desde que sussurrara o nome dele contra o travesseiro. Não, não tinha sido o nome dele, tinha sido o nome de outro homem, outro Willas que nascera, vivera e morrera apenas na imaginação de Sansa.
Em seu coração Sansa pedia para a Mãe que lhe ajudasse a conhecer Willas Tyrell, mas ela não olhava para aquela convidativa face de deus, e sim para o próprio Tyrell estudando-o e tentando decifra-lo. Pareceram horas em que ela passou analisando o fio que começava a soltar do gibão, a manchinha no couro da bota, o anel de ouro que adornava o início do dedo anelar. Pequenos detalhes que não lhe diziam nada mas aos quais ela se apegava mesmo assim.
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