O ar era quente, talvez quente demais para uma noite de Abril, Sam caminhou sobre a areia da praia seguindo as suas duas melhores amigas, na sua mente, apenas o quão estúpido o que elas estavam prestes a fazer era.

:- Eu acho que este é o sitio perfeito! – Lana disse sorrindo, os seus cabelos longos “descansavam” sob os seus seios, em perfeitos caracóis quase tão dourados como a areia que as três jovens pisavam.

:- E eu ainda acho que esta é uma ideia muito estúpida – Sam refilou, observando as suas duas amigas e cruzando os braços sob o peito.

A razão pela qual se entravam ali, era nada mais, nada menos do que um ritual…, sim, hoje em dia ainda existe quem acredite em bruxas e no sobrenatural, Lana era uma dessas pessoas. Sam achava aquilo tudo uma fantochada da cabeça de quem via demasiada tv, ou lia demasiadas creppypastas na internet, já o terceiro elemento do “grupo” Mila, apenas era “arrastada” pelas ideia de Lana, talvez por não ter muito que fazer ou simplesmente porque a maluquice da sua amiga era para ela divertida.

Sam, sentia que toda a sua vida conhecera Mila e Lana, elas tinham crescido juntas, e agora frequentavam a mesma universidade. E toda a sua vida, Sam soube que Lana tinha como se diz em bom Português “um parafuso a menos” , ainda assim, era uma boa miúda, haviam muitos momentos passados juntos que poderiam provar isso, bastava que a jovem fechasse os e pensasse num tempo que não parecia assim tão distante para saber que para além das suas crenças, Lana sempre teve um bom coração.

:- Deixa-te de coisas, eu tenho a certeza que desta vez vai resultar! – Lana anunciou alegremente retirando algumas velas da sua mochila e começando a fazer um círculo com as mesmas.

:- Achas mesmo que vai resultar? – Sam perguntou a Mila que até então se mantivera calada enquanto observava a loira terminar o seu circulo de velas e acender as mesmas

:- Acho que é sempre divertido ver a Lana passar-se quando as suas bruxarias dão errado – Mila riu , apanhando os seus cabelos ruivos num rabo de cavalo.

:- Pronto – Lana finalizou de acender as velas e tirou um velho livro de aspecto sinistro de dentro da mesma mochila de onde anteriormente retira as velas – entrem no circulo e dêem as mãos – Ela ordenou e as suas amigas assim fizeram, uma vez do lado de dentro, Lana pousou o livro bem na sua frente dando uma mão a Mila e outra a Sam – Por favor consentem-se – Pediu ao que Sam apenas suspirou ainda achando aquilo tudo muito tosco.

Não faltou muito até que Lana começasse a ler algumas palavras do livro, palavras que por muito cliché que seja, eram pois está claro numa língua que nenhuma das restantes presentes conseguia entender. Subitamente, o ar pareceu ficar mais frio, mais pesado, Sam franziu a testa sentindo um arrepio pela espinha acima enquanto a sua amiga continuava, agora num tom mais alto, mais agressivo, lendo a passagem do livro num tom que não parecia mais sequer a sua própria voz.

:- Está quase, consigo senti-lo!- Lana gritou, de novo num tom de voz meio sinistro

:- A única coisa que eu sinto é que és passada da cabeça, isto já foi longe demais e eu tenho de ir embora! – Mila queixou-se

:- Apoiado – Sam preparou-se para quebrar o circulo mas Lana apertou a sua mão com força impedindo-a de mexer

:- Não te atrevas! – Ela ameaçou e nesse momento um raio vindo do nada atingiu a areia no meio das raparigas e consecutivamente, Sam.

Sam sentiu um calor espontâneo tomar conta do seu corpo, como que uma descarga de electricidade tivesse tomado conta dela, não foi sequer capaz de entender o que se estava a passar, pois a única coisa que ela sentiu a seguir foi uma escuridão enorme apoderar-se de si.

*********************************************************

:- Olá! – Sam chamou andando pela praia deserta mas não havia sinal das suas amigas – Lana! Mila! – Ela olhou a volta mas tudo o que via era escuridão – Mila! Lana! – Chamou de novo, e quando se virou um figura parou na sua frente – Mas que... ?

:- És tu a escolhida – a figura disse-lhe, tinha voz feminina e pelo que a jovem conseguia entender longos cabelos encaracolados

:- Okay…Isso não nada arrepiante, e rezando para que resposta não venha em forma de eu acabar com a garganta cortada… escolhida para que?

*********************************************************

:- Mas tu ficaste doida?! – ela acabou de ser electrocutada, é claro que temos de chamar uma ambulância! – Sam ouviu a voz de Mila quase gritar

:- Não entendes? Isso significa que funcionou, ela vai ficar bem!

:- Ela—ela vai ficar bem!? Também foste atingida? Ela pode morrer! Ela pode estar morta!

:- Não estou morta… — Sam sentou-se na arreia pousando a mão na cabeça

:- Sam! – Mila apresou-se para a sua amiga ajoelhando a seu lado – Estás bem?

:- Uau que alta moca… — ela esfregou a testa e olhou a amiga – Sim, meio que tive uma alucinação mas tirando isso…

:- Alucinação? – Lana perguntou aproximando-se das duas – o que viste? – a outra olhou-a sem entender muito bem como essa a primeira pergunta a sair da boca dela, afinal ela tinha acabado de ser atingida por um raio não seria o próximo passo uma oferta de a levar ao hospital?

:-Eu não sei, uma mulher, ela disse que eu era a escolhida…

:- Uau que moca – Mila riu

:- Como eu disse… — Sam encolheu os ombros começando a levantar-se

:- Eu sabia, eu sabia que não ia ser tão fácil assim! Aquela… Nunca pode deixar nada no passado, mas desta vez…desta vez será diferente! – Lana deixou escapar fazendo com que as amigas a olhassem confusas

:- Estás a começar a suar como o vilão de um desenho animado… tens a certeza que não tomaste um monte de drogas antes de vir para aqui? – Sam perguntou sendo a habitual miúda irónica – Afinal… um ritual para ganhar poderes mágicos? A sério?

:- Bom, meio que foi mágico teres levado com um raio e estares ai na boa – Mila observou de sobrancelha erguida

:- Mas resultou! – a loira respondeu irritada

:- Ai sim? Então mostra aí um truque, oh Sabrina! – Sam provocou

:- Tudo a seu tempo – Lana pareceu ameaçadora – Agora é melhor irmos…

:- É, para mim já chega de magia por hoje…

*************************************************************

:- Como te sentes? – Mila perguntou a Sam, a duas agora encontravam-se na sala de aula já vazia – Sabes, por causa da cena de ontem

:- Eh , — Sam encolheu os ombros – Foi super estranho mas tudo bem

:- A Lana ficou estranha… reparaste como nos ignorou?

:- Ya, talvez esteja com remorsos de quase me ter frito os miolos

:- Ainda acho que devias ter ido ao hospital …

:- E dizer o que exactamente? Sr. Doutor, então nós estávamos a fazer um ritual, ‘tá a ver, para ganhar poderes mágicos, eu fui atingida por um raio e tive uma alucinação…

:- Não tinhas de contar tudo exactamente…

:- Eu estou bem a serio… — as duas pararam vendo o professor se aproximar de Lana perto da porta, os dois estavam de costas a alguma distancia, então as jovens concluíram que não tinham sido vistas.

:- Menina Perry – O professor dizia – Temos que falar da sua nota no último exame, sabe que se não elevar a sua média é muito provável que não passe nesta disciplina

:- Não sei do que está a falar – Lana aproximou-se ainda mais

:- Estou a falar do sua média, em geral não vai nada bem, eu acho que um pouco mai-- — ele não foi capaz de acabar antes que a loira o olhasse nos olhos pousando uma mão no seu ombro

:- Professor Hilton, eu sou um das melhores nesta aula, a minha média é uma das mais altas, você só está confuso, certo? – O Professor olhou-a durante uns segundos

:- Certo! É uma das minhas melhores alunas! Eu não sei onde estava com a cabeça! – ele sorriu-lhe saindo então da sala.

:- O que acabou de acontecer? – Sam perguntou boquiaberta

:- Mmm… eu gostava de poder responder mas… a Lana é horrível nesta disciplina, eu tive de lhe dar explicações e mesmo assim ela falhou big time no exame!

:- Achas que ela está a pagar ao prof? E por pagar eu quero dizer tipo, com o corpo? – Mila riu

:- Ou isso ou vai na volta e ganhou mesmo poderes mágicos! – as duas riram.

Era de facto um incidente estranho, mas não queria dizer nada demais, certo? Okay, ela tinha sido atingida por um raio e saído sem qualquer mazela, mas… magia não existe… ela estava apenas a fazer filmes, filmes mesmo muito idiotas. A verdade era que Sam não sabia como Lana sempre a conseguia arrastar para a cenas macabras dela, e agora quase a tinha posto a acreditar em magia!

Riu sozinha, talvez aquele raio tivesse mesmo afectado o seu cérebro.