The Loyal Husband
4 A biblioteca real e um príncipe confuso
Notas iniciais
Seung não conseguia parar de falar, contava todas as novidades, tudo o que acontecera e tudo o que passou pela sua mente desde que chegou ao palácio, e sentados no banco de pedra do jardim, rodeado de belíssimas rosas brancas, ele contava o motivo de suas preocupações.
Yuga ouvia tudo atentamente, tentando entender o raciocínio de Seung, que ao mesmo tempo que enxergava aquilo como uma benção dos Espíritos, também achava que aquilo tudo não passava de uma punição. Felizmente, ela tinha a coisa certa (e mais ou menos óbvia) pra se dizer;
— Eu acho que nem você nem o príncipe fizeram algo para ofender os espíritos, e mesmo que tivessem feito algo, essa não é a melhor ideia para se punir alguém... O que você deve fazer é se esforçar bastante para aprender tudo rapidamente, e se tornar o esposo real que todos esperam que você seja.
— Eu sei mas... Também tem outra coisa me incomodando... Algo que o príncipe disse no banquete...
— Ah não, o que aquele principezinho disse?! Ele te ofendeu?! Por que se ele te ofender eu juro que pego ele por aquelas tranças perfeitas e acabo com aquele rosto esculpido pelos...
— Não! Espera! Não se pode falar do príncipe assim no palácio! Ele só falou que eu não posso dar um herdeiro para ele, o que... é verdade né...
— Mas para quê se preocupar com isso?! O homem tem seis mulheres lindíssimas esperando uma palavra dele para se deitarem com ele. Herdeiro é o que não vai faltar nesse palácio.
— Bem... E se ele não gostar de mim?
— Você quer dizer, se ele não gostar de homens?
— Sim...
— Ha ha ha ha! Não se preocupe com isso. Os Espíritos não escolheriam um homem se o príncipe não gostasse dos dois sexos... Ha ha ha.
A gargalhada de Yuga era boa de se ouvir, Seung tinha sentido falta dela nos dois dias que passara no palácio. Era bom ter alguém familiar perto dele, pois os próximos cinco meses seriam bem peculiares.
— Sabe o que eu ouvi das concubinas?
— Hm?
— Elas só têm o direito de dormir com o príncipe depois que ele se tornar rei, e, bem... Depois que ele dormir comigo.
— Nossa! Mas isso é melhor ainda! Você vai ser deflorado pelo príncipe, e quem sabe ele também não é virgem? Não há problema nenhum nisso. Você deveria se acostumar com a ideia de ser um homem prometido agora. Deve agir como um esposo. Mas... Já que você vai ser o primeiro a dar pro... digo, a se deitar com o príncipe, você tem que se preparar né?
— O quê?!
— Oras, você tem que se preparar mentalmente, e fisicamente também, para satisfazer o príncipe. Você tem algum truque? Sabe como usar a língua? O que você sabe sobre sexo?
— Y-Yuga! Não fale assim!
— Meu Deus dos Mares, você fica todo vermelho só de pensar em chupar o príncipe! Eu daria tudo pra assistir a primeira noite de vocês. Ha ha ha ha!
— Eu não sei porque eu vim falar disso com você, sua pervertida!
Seung se levantou, e deixando Yuga chorando de rir, o rosto ardendo, correu até o palácio. O sol já estava se pondo e o céu tinha uma cor alaranjada, o vento frio fazia as tranças de Seung balançarem, e ele não se deu conta que tinha alguém vindo em sua direção até que se chocou contra ela.
O baque foi forte, e a pessoa quase não se moveu, pôde sentir que era um homem pelo peitoral firme, e quando essa pessoa agarrou Seung pelo braço, o impedindo de cair, este teve a oportunidade de ver Bon-Hwa de perto pela primeira vez.
O príncipe cheirava a ameixas, e seu rosto era ainda mais belo de perto, mas dessa vez, tinha uma expressão irritada e muito séria.
— Mas o quê...
Ele disse, ainda agarrando Seung.
— Eu estive procurando por você, por acaso se esqueceu que hoje nós temos que passar a tarde juntos para nos conhecermos melhor?!
Ele disse, a voz firme.
— Ah... Eu... Me desculpe.
Bon-Hwa soltou Seung bruscamente, quando notou que ainda segurava seu braço, e sua feição voltou a ser serena e relaxada.
— Não tem importância, vamos.
Bon-Hwa se virou e Seung se apressou ao seu lado, a diferença de tamanho dos dois era pequena, os cabelos de Seung apenas roçavam o nariz do príncipe
— Então... onde vamos?
Seung perguntou, sem saber ao certo como deveria chamar seu marido.
— Que tal a biblioteca?
Bon-Hwa disse, um pequeno sorriso em seus lábios rosados. Seung percebeu que ele provavelmente gostava muito daquele lugar.
— Seria ótimo. Mesmo que eu não tenha estudado muito... Sempre gostei de ler.
— Isso é maravilhoso. A nossa biblioteca é enorme. É bom ter alguém que goste de ler por aqui.
— Oh, as outras não gostam de...
— Não! Não é isso, é só que... É bom ter um homem que goste de ler por aqui além de mim.
O coração de Seung se iluminou com a ideia de o príncipe gostar de sua presença ali. Um sentimento bom começou a se espalhar dentro dele, e subitamente, seu coração começou a bater mais rápido.
— Eu espero que você aprenda a ler hangul rapidamente, e então você vai poder ler os meus livros favoritos. Quem sabe você não gosta.
— Eu adoraria.
Os olhos de Bon-Hwa se encontraram com os de Seung, e por um momento ambos se encararam, ambos apreciando a beleza de seu parceiro.
Bon-Hwa sacudiu a cabeça e seguiu adiante, andando mais rápido. Um sentimento de tensão entre os dois.
— Bem... Do que mais você gosta?
Seung perguntou, seu rosto estava corado, e seu coração palpitava. Estavam passando pelos corredores do palácio, em uma parte que Seung não conhecia. Estava ansioso por ver a biblioteca e sentir o aroma dos livros.
— Gosto de lutar, mas não da luta em si. Não sou apaixonado pela guerra mas a emoção da batalha é algo que me agrada. Não pensar, agir, e agir através dos instintos. É algo maravilhoso. Também aprecio arte, música. Gosto de doces mas detesto o frio. O inverno é uma época muito ruim pra mim...
Seung pôde ver, nos olhos azuis do príncipe que havia algo a mais ali, talvez uma memória ruim, algo que aconteceu que ainda o assombrava, mas eles não tinham intimidade para discutir certas coisas ainda.
— E você? Seung da província amarela. Conte-me mais sobre você.
— Er... eu não tinha muitos momentos de lazer mas eu sempre achava uma forma de me divertir. Eu amo nadar, passava horas em lagos e riachos. Nunca soube desenhar mas Yuga tem um talento incrível, você provavelmente iria gostar dos desenhos dela. Era um dos meios que ela tinha de ganhar um pouco de dinheiro... Vendendo seus desenhos.
— Parece interessante. Estou curioso.
— Também gosto de apreciar as cores das coisas. Tecidos, flores, frutas...
— Me diga uma coisa de que não gosta.
— Bem... Eu não gosto de várias coisas... Acho que não tenho algo que eu realmente deteste.
— Entendo...
Chegaram em uma porta de madeira larga e esverdeada, havia algo escrito na parede mas Seung não entendia o que dizia.
— Bem vindo à biblioteca, sinta-se livre para vir aqui a qualquer momento. Todos os livros aqui, agora também são seus, e sempre que quiser pedir algum livro novo, fale com a bibliotecária e ela cuidará de tudo.
Bon-Hwa abriu a porta e o aroma de livros que Seung sentiu era inebriante, passou pela porta e viu, com grande alegria, as enormes estantes, repletas de livros com capas de diferentes cores. O salão era enorme, e as paredes eram cheias de livro até o teto. Seriam necessárias escadas enormes para pegar um dos livros na parte mais alta. Ao fundo havia algumas mesas e confortáveis cadeiras, a biblioteca era iluminada por velas aromáticas que faziam o lugar parecer ainda mais aconchegante. No momento estava vazia, e Seung não podia conter o enorme sorriso em ver tantos livros que em breve poderia ler.
— Isso é incrível! Tantos livros!
Seung parecia uma criança em uma loja de doces, e um pequeno sorriso orgulhoso aparecia no rosto de Bon-Hwa, que tinha um certo carinho pela biblioteca, sua parte favorita do palácio.
— De diversas províncias. Alguns com a assinatura do autor.
— Tantas cores!
— Capas de diversos tecidos e com ilustrações esplêndidas.
— O aroma é incrível!
— Esse lugar é perfeito.
Os dois disseram em uníssono, e gargalharam, como velhos amigos.
Pelos próximos minutos eles passearam por entre as estantes, pegando um livro aqui e ali de vez em quando, sentindo o cheiro, as texturas, Seung tentando decorar os gêneros dos livros que cada estante continha. Estava feliz, se sentia bem ali, e se sentia alegre por estar se dando bem com Bon-Hwa. Aquilo parecia um bom começo para ambos.
Bon-Hwa perdera a postura séria e agora fazia piadas, sorria, vez ou outra tocava o braço de Seung e o puxava pela mão. Tinham muitas afinidades e o tratava como um velho amigo. Estava descontraído, e decidiu levar Seung para seu lugar favorito da biblioteca.
— Vem comigo.
Disse, tomando a mão de Seung e o encarando, olhos nos olhos. Sorrindo, ambos foram até uma escada que ia para uma das paredes, uma estante antiga ficava lá, com um espaço sem livros.
Bon-Hwa subiu primeiro, acostumado com os degraus, tinha feito aquele trajeto centenas de vezes antes. Estava animado em mostrar aquilo para Seung. Ele seria a primeira pessoa a ver seu "lugar escondido" da biblioteca. Se sentia bem com ele, estava confortável. Não tinha que fingir, atuar, ele dizia o que sentia, sorria, não tinha que manter a postura séria e educada. Era isso o que gostava com as suas concubinas, e desde aquele momento, sabia que com Seung não seria diferente.
Subiram todos os degraus até a parte vazia, no topo da estante. Bon-Hwa se apoiou na madeira e entrou no pequeno espaço que havia moldado ao longo dos anos que passava ali. Seung teve um pouco de dificuldade em passar pela estante, mas com a ajuda de Bon-Hwa, ele se sentou na confortável manta que cobria a parede de pedra onde estavam apoiados. O lugar era aconchegante, tinha o cheiro de ameixas de Bon-Hwa, mas não era só isso. Uma enorme janela de vidro, logo atrás, com uma belíssima vista para as montanhas, o jardim, e as estrelas que agora brilhavam no céu escuro, faziam todo aquele momento perfeito.
— Você gostou?
Bon-Hwa perguntou, sorrindo.
— Mas é claro! É lindo! Essas estrelas! E essa vista do jardim! E é tão confortável.... Como você achou?
— É uma história engraçada, eu era apenas uma criança, estava procurando um livro mais antigo, tinha passado vários dias que o meu pai não estava por perto, lutando pelo reino e eu queria me distrair um pouco, então eu subi e achei esse buraco oco com a janela. No dia seguinte eu tinha quebrado uma escultura antiga e minha mãe estava furiosa, eu corri e me escondi aqui e ninguém foi capaz de me achar. No final minha mãe não brigou mais comigo porque estava tão preocupada com o meu desaparecimento... Ela sabia que eu estava passando por um momento difícil com o meu pai lutando fora... Acho que isso nos fez mais unidos.
Bon-Hwa sorria, e Seung percebeu que gostava mais e mais daquela expressão tranquila de seu esposo.
Se aproximou dele e tocou sua mão lentamente.
— Fico feliz que estamos nos dando bem.
Seung disse, sorrindo.
Bon-Hwa não sabia o que estava acontecendo. Seus sentimentos estavam tão confusos, se sentia um bobo. Ao mesmo que tempo que não queria aceitar a ideia de ter Seung como seu esposo, percebia que ele era mais do que imaginara no começo. Se apegava aquela personalidade tímida e simples, e não podia deixar de notar o quão bonito ele era, na sua simplicidade e humildade ele era perfeito. Não sabia o que pensar, ou o que sentir, mas naquele momento, não se importava.
Segurou a mão de Seung apertada, e se aproximou de seu rosto pardo, roçando seus lábios no dele, com uma das mãos em seu rosto pequeno, e o beijou. Sentindo o gosto de seus lábios mais carnudos, rosados e macios. Sua língua abraçando a dele, como uma dança. Seung acariciava seus cabelos e o puxava pra si. Naquele lugar apertado, mas confortável, com as estrelas iluminando, o aroma de canela de Seung misturado com o dos livros era inebriante, e seus lábios pediam por mais.
Subitamente, algo em si despertou, e ele não podia acreditar no que estava fazendo. Como poderia beijar um homem tão facilmente? Ainda tinha que resolver toda aquela situação, conversar com o Grande Ser, reverter aquele casamento desonroso, não podia aceitar tamanha desgraça para seu reinado. Seung não estava preparado para ser seu esposo real. Mal conseguia ler!
Separou seu rosto do dele, e encarou os olhos assustados do simples Seung, que avançou pedindo por mais.
Bon-Hwa virou o rosto e o empurrou levemente, se levantando em direção a escada, tentando não bater a cabeça no pequeno teto. Não conseguiu olhar para Seung e desceu as escadas o mais rápido que pôde. Saiu da biblioteca às pressas em direção ao seu quarto, se culpando por tamanha irresponsabilidade. Deixara se levar pelo momento e agora passara a impressão errada para seu falso esposo. Como podia ter sido tão tolo?!
Seung, por sua vez, não entendia nada do que acontecera. Ainda podia sentir o gosto de Bon-Hwa em sua boca, e o calor de seu toque.
Tinha feito algo de errado? Foi muito apressado? O príncipe provavelmente tinha uma impressão errada dele. Mas o que podia fazer se ele era tão... bonito... Não! Tentou afastar os pensamentos impuros que invadiam sua mente, tinha que resolver aquela situação embaraçosa!
Foi em direção as escadas e desceu lentamente, tinha pavor de altura mas se sentia tão seguro com Bon-Hwa por perto que nem tinha pensado nisso...
Saiu apressado da biblioteca apenas para esbarrar em Mei, que assustada, quase caiu.
— Nossa, me desculpe! Você... você viu o príncipe?
Seung perguntou, olhando para todos os lados, enquanto segurava os ombros de Mei para ela não cair.
— Estão todos no salão para o jantar... Tem que se apressar! O rei não gosta de esperar!
— Mas e Bon-Hwa? Preciso falar com ele!
— Ele já está lá! Só falta você!
Seung sentiu um frio na barriga enquanto caminhava até o salão. Não saberia como agir diante do príncipe e queria resolver aquela situação o quanto antes. Não entendia o que tinha feito de errado mas sabia que estava começando a sentir algo por Bon-Hwa, e ao mesmo tempo que achava que ele também tinha sentimentos por ele, ele tinha a impressão de que o príncipe ainda não tinha aceitado a ideia de ter um esposo.
Mas o que poderia fazer? Os espíritos não se enganavam. Certo?
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