The Lovers
3 ── Snake Room
Notas iniciais
A dor e o medo da maldição haviam voltado com força total.
Eu não podia ficar ali, presa dentro de casa, com aquelas lembranças rodando na minha cabeça. O rosto de Roy não saía da minha mente. Não era algo que eu podia enfrentar sozinha naquele momento, não sem perder o controle. Eu precisava me afastar, fazer algo que me permitisse focar em qualquer coisa que não fosse aquela maldita maldição.
Respirei fundo, me recompus o suficiente para parecer normal, coloquei o casaco e saí pela porta.
Decidi ir até a Oficina Terra Nova, um espaço onde eu costumava moldar barro com as mãos. Havia algo de terapêutico em sentir a argila fria entre os dedos, dando forma a algo totalmente novo. Além disso, eu gostava de estar entre os velhinhos que frequentavam o lugar. Eles eram tranquilos e cheios de histórias de vida.
A oficina sempre me acolhia com uma calma que eu não encontrava em nenhum outro lugar. As pessoas ao redor, com seus cabelos grisalhos e sorrisos gentis, trabalhavam devagar, sem pressa. Pareciam estar em paz com o tempo. Eu, por outro lado, estava sempre correndo contra ele.
Assim que coloquei as mãos no barro, Marie, uma senhora de cabelos brancos como algodão, inclinou-se na minha direção com aquele olhar malicioso.
— Hoje você tá com cara de quem tá fugindo de alguma coisa — Ela disse, me observando com olhos curiosos.
— Fugindo? Eu… só precisava de um tempo pra pensar — respondi, tentando parecer casual enquanto começava a moldar uma figura indefinida.
— Ah, esses jovens sempre com "coisas pra pensar" — interrompeu Pierre, o mais falador do grupo, com uma risada. — Eu, quando tinha sua idade, pensava só em como pagar as contas e se ia ter comida na mesa. Tudo mais simples, né, Marie?
— Não que você conseguisse pensar em muita coisa, Pierre — retrucou Marie, piscando pra mim. — O coitado sempre foi meio devagar.
Dei uma gargalhada, lembrando que eles mal sabiam a idade que eu tinha. Achava engraçado como os mais velhos sempre gostavam de pegar no pé dos jovens, desde muitos séculos atrás até a atualidade. Mas naquele momento, me senti mais leve por um instante. Estar ali com eles era como entrar numa bolha onde o tempo passava devagar.
— E então, o que é dessa vez? — perguntou Marie, apontando para o pedaço de barro que eu estava moldando. — Não vai ser outra jarra, né?
— A última tava linda, vocês que não entendem de arte — retruquei, rindo, enquanto olhava pra massa disforme que já começava a tomar forma.
Mas conforme eu trabalhava, percebi que, sem querer, estava moldando algo muito familiar.
Meus dedos seguiam um padrão quase que automaticamente. As linhas do rosto que eu esculpia no barro estavam ficando cada vez mais nítidas, e quando me dei conta, o nariz, o contorno da mandíbula e até os olhos... eram dele. Roy.
Soltei um suspiro profundo, meus ombros caindo com desânimo. Tentei disfarçar e desfazer a escultura com um movimento rápido, mas dona Marie, com a atenção de uma águia, não deixou passar.
— Ahá! Sabia que tinha alguém nesse seu pensamento, mocinha! — ela exclamou, cruzando os braços com um sorriso satisfeito. — Vai, confessa, quem é o sortudo?
— Que sorte nada, Marie — brinquei, tentando manter a leveza na voz enquanto amassava o barro entre as mãos. — Só tô praticando, nada de especial.
— Praticando? — Pierre interrompeu, erguendo as sobrancelhas. — Você tá é apaixonada! Desde quando?
Milênios.
— Namorando? — gargalhei, balançando a cabeça. — Nem perto disso! Mal conheço a pessoa.
— "Mal conheço"... — Dona Marie imitou o tom da minha voz, zombando de mim. — É assim que começa, menina. Primeiro “mal conhece”, depois tá sonhando acordada, e quando vê... tá aqui com a gente, fugindo pra moldar barro porque não quer pensar no dito cujo!
Soltei uma risada sincera, mas havia algo de desconfortável em como ela estava, de certa forma, certa. Eu estava fugindo. Fugindo da dor, da maldição, e, mais ainda, de Roy. Não importava o nome, ele era o mesmo. E eu, por mais que tentasse negar, já me via envolvida de novo.
— Já vi esse olhar antes. — Disse Charlotte pela primeira vez desde que cheguei. Ela era uma senhora viúva, que gostava bastante de pintar os cabelos de amarelo vivo e usar joias.
— Que olhar? — perguntei.
— O olhar de quem tá tentando não pensar em alguém — Pierre respondeu, inclinando-se para me encarar por cima dos óculos. — A gente já foi jovem, sabia? Pode acreditar, as coisas só pioram se você tenta evitar.
Pioram ainda mais se deixar acontecer. Pensei.
Suspirei, com um semblante triste.
— Ah, minha querida — Marie começou, colocando uma mão no meu ombro com um gesto reconfortante. — Se tem uma coisa que aprendi nesses anos todos, é que fugir só faz a estrada ficar mais longa.
— E os problemas maiores — completou Charlotte, acenando com a cabeça. — Mas não se preocupe, a gente tá aqui. Se precisar de uns conselhos, ou só desabafar, pode vir. E se não quiser, só continua moldando esse barro aí. Dá pra resolver muita coisa com as mãos ocupadas.
Eu sorri, com os olhos marejados, agradecida pelo apoio deles, mesmo que não soubessem o quão fundo aquela conversa tocava. Mas nesse mesmo fundo, eu sabia que o barro não seria o suficiente para moldar o que realmente precisava ser consertado.
༄
Saí da oficina já tarde, o céu começava a escurecer, e o silêncio das ruas contrastava com o barulho dos meus pensamentos. Passei a tarde toda lá, moldando, conversando com meus amigos, tentando não pensar no que tinha acontecido mais cedo. Mas agora, com o fim do dia se aproximando, não queria voltar pra casa, não enquanto Brune estivesse acordada. Não queria ter que explicar nada, nem sabia se Roy havia comentado algo com ela.
Então, decidi ir até o Snake Room. Não que fosse meu lugar favorito, mas o bar oferecia uma certa dose de anonimato. Eu poderia me perder entre os estranhos, deixar que as conversas e a música abafassem a gritaria interna que acontecia na minha cabeça.
Mas, pra minha surpresa, o Snake Room estava calmo naquela noite.
A primeira vez que descobri aquele lugar foi por puro acaso. Faltava pouco tempo até a próxima lua cheia, e a última coisa que eu queria era esbarrar com alguma das minhas irmãs kitsunes perambulando por aí. Lá dentro, o lugar estava abarrotado de gente, o som de uma banda reverberava pelas paredes. Não me lembro do nome da banda, nem da música que tocava, mas lembro da sensação de estar cercada de corpos, como se o peso de mil vidas estivesse sobre mim e, ao mesmo tempo, eu estivesse completamente sozinha.
Naquela noite, bebi mais do que o normal. O álcool não me afetava como a qualquer humano, meu corpo meio sobrenatural tornava difícil alcançar aquela embriaguez que os outros buscavam tão facilmente. Mas eu insisti, copo após copo, na esperança de alcançar o alívio temporário. E consegui.
Quanto mais tempo eu passava na forma humana, mais eu sentia meu espírito kitsune enfraquecer. Era como uma lâmina de dois gumes — uma vida entre os humanos me trazia liberdade, mas também me afastava do que eu era de verdade. E, por isso, toda lua cheia, eu precisava me entregar ao Ritual dos Lírios.
Era uma cerimônia antiga, uma homenagem à nossa deusa Inari, onde eu me transformava de volta em raposa. Se eu não o fizesse, meu lado espiritual começaria a se desfazer aos poucos, uma dor insuportável tomaria conta de mim, e pior: minha alma poderia se romper para sempre. Morrer não era uma opção, não enquanto eu ainda tivesse a esperança de libertar a alma de Roy desse ciclo infernal.
Aproximei-me do balcão, percebendo que só havia uma pessoa sentada nas cadeiras altas, um homem. Ignorei a presença dele e foquei em quem realmente interessava naquele momento.
— Um drink qualquer, o que tiver de forte — murmurei para o bartender, sentando-me em um dos bancos altos.
O bartender assentiu, virando-se rapidamente para preparar o pedido. Cruzei os braços sobre o balcão, soltando um suspiro baixo. Aquele silêncio esquisito parecia me sufocar, então qualquer coisa para anestesiar os sentidos era bem-vinda.
— Um drink qualquer? Que ousada... ou só indecisa? — ouvi uma voz ao meu lado, aveludada e baixa, quase que sussurrada para si mesmo.
Olhei de relance na direção do homem que estava sentado ao meu lado. Não o conhecia, mas havia algo nele, algo na postura descontraída e no sorriso de canto que me fazia sentir que eu já o tinha visto em algum lugar. Ele tinha um ar de quem não ligava para muita coisa, seus cabelos vermelhos batiam na altura do queixo e suas vestes descoladas com certeza não passavam despercebidas.
— Talvez só cansada demais pra me importar — respondi, sem olhar diretamente para ele.
Ele deu um sorrisinho de lado, como se achasse graça na resposta.
— Bom, não quero saber o motivo de estar cansada, não é da minha conta — ele disse, levantando a mão de forma despreocupada. — Mas se servir de algo... — Ele apontou com o queixo na direção do cardápio de drinks na parede. — O "Devil's Fire" é um dos mais pedidos daqui. Forte o suficiente pra fazer você esquecer o que quer que seja por algumas horas... ou pelo menos fingir que esqueceu.
Franzi as sobrancelhas enquanto encarava os nomes na parede. O nome, por si só, já indicava que não era um drink pra qualquer um.
— Quem sabe na próxima rodada, ele já está preparando algo pra mim — Rolei os olhos para o bartender, que agora estava mexendo nos objetos na bancada interior.
O homem ao meu lado fez um barulho com a boca, chamando a atenção do bartender.
— Ela quer o da casa — Disse ele rapidamente, sem enrolação.
O bartender assentiu e virou-se mais uma vez para continuar seu trabalho. Em cerca de dois minutos, ele me entregou sua obra-prima.
Olhei para o copo que o bartender havia colocado à minha frente. O "Devil's Fire" tinha uma cor avermelhada e intensa, como se fosse feito de chamas líquidas. O líquido parecia vibrar à luz suave do bar, com tons alaranjados misturados que lembravam brasas incandescentes. Na superfície, uma leve fumaça subia lentamente, dando um ar perigoso à bebida.
Havia uma fatia de limão queimado enfeitando a borda do copo, junto com um pequeno ramo de alecrim que, de algum modo, parecia exalar um aroma defumado. Quando aproximei o copo do nariz, o cheiro era uma mistura forte de especiarias e algo levemente doce, como mel, mas com uma pitada picante no fundo.
— O nome faz jus à aparência — murmurei, sem tirar os olhos do drink.
— E ao gosto também — ele acrescentou, com um sorrisinho provocador, enquanto cruzava os braços. — Cuidado, esse tem uma pegada forte.
Ergui o copo devagar e dei o primeiro gole. O líquido desceu queimando pela minha garganta, com uma intensidade inesperada. Arregalei os olhos, surpresa, e quase que imediatamente tossi levemente, tentando disfarçar. Era realmente forte, mais do que eu esperava.
— Caramba… — sussurrei, colocando o copo de volta no balcão enquanto ainda sentia o ardor no peito.
Ao meu lado, o homem soltou uma risada baixa, claramente se divertindo com a minha reação.
— Eu avisei — ele comentou.
Enquanto eu tentava me recuperar da queimação na garganta, algo começou a chamar minha atenção. Um grupinho de jovens, sentados em uma mesa não muito distante, estava cochichando entre si, trocando risinhos e lançando olhares furtivos na minha direção. Franzi o cenho, desconfiada. Instintivamente, passei a mão pelo meu rosto, imaginando que poderia ter algo errado com a minha aparência. Mas logo percebi que não era eu o centro da atenção deles.
Eles estavam apontando discretamente para o homem ao meu lado, tentando tirar fotos de forma nada sutil.
Sem desviar os olhos da sua própria bebida, o homem suspirou.
— Acho que chegou a minha hora de ir — disse ele. Então levantou-se com a mesma postura descontraída de antes, como se os olhares e as tentativas de fotos fossem algo que ele estava acostumado a presenciar, pelo menos mais do que gostaria.
Antes que ele pudesse dar o primeiro passo, minha curiosidade me venceu.
— Ei, espera — chamei, virando na direção dele. — Qual é o seu nome?
Ele parou e olhou por cima do ombro.
— Castiel — respondeu de forma casual, antes de seguir seu caminho e desaparecer pela porta.
Assim que o nome saiu de sua boca, algo clicou na minha mente. Castiel. Claro, agora tudo fazia sentido. Ele era integrante do Crowstorm, aquela banda que vez ou outra fazia shows no Snake Room.
༄
Com o efeito dos drinks ainda percorrendo minhas veias, embora soubesse que logo meu corpo imortal dissiparia a embriaguez, decidi aproveitar o momento de leveza enquanto podia. Sentia uma calma artificial tomando conta de mim, um conforto estranho que sabia que não duraria. Paguei a conta, cambaleando levemente ao me levantar, e comecei a caminhar em direção à porta.
Havia bebido mais dois “Devil’s Fire” e mais três de outros tipos de drinks fortes.
O ar noturno estava fresco, e as ruas quase desertas estavam imersas em um silêncio agradável enquanto eu seguia meu caminho de volta pra casa. O mundo ao meu redor parecia um pouco mais suave, os pensamentos sombrios, por um momento, se aquietaram. Brune, provavelmente, já estaria dormindo a essa altura, o que era perfeito. Não estava pronta para explicar nada.
A cidade parecia dormir, com poucas luzes piscando aqui e ali. Estava quase no quarteirão de casa quando, sem perceber, esbarrei em alguém que vinha na direção oposta. O impacto foi leve, mas me desequilibrei por um instante, sentindo uma onda de surpresa e desconforto.
— Desculpa... — murmurei, dando um passo para trás e levantando os olhos para a pessoa em quem tinha esbarrado.
Levantei os olhos, meio tonta, para encarar a pessoa em que havia esbarrado. E então, meu coração parou. Ali, parado na minha frente, estava Roy.
Ele parecia tão surpreso quanto eu, seus olhos arregalados ao me reconhecer. Depois de um momento, seu semblante se suavizou em um sorriso desconcertante.
— Parece que estamos sempre nos encontrando ultimamente — comentou ele, sua voz carregada de um tom divertido. — Você está bem?
Eu tentei encontrar alguma resposta adequada, mas o álcool ainda fazia efeito e minha mente estava um pouco confusa.
— Eu... sim, só... — Comecei, mas as palavras não saíram como eu pretendia. — Não queria te ver aqui.
— Uau, você é bem sincera — Disse ele com uma risada.
Tentei me recompor, mas a confusão ainda pairava sobre mim. A tentativa de parecer normal estava indo por água abaixo.
— É só... o efeito dos drinks — tentei explicar, mesmo que as palavras saíssem emboladas. — Eu não costumava beber tanto, mas hoje... bem, hoje foi um dia esquisito.
Roy levantou uma sobrancelha, seu olhar se tornando mais atento enquanto me observava.
— Parece que você já teve bastante por hoje — comentou ele, com um tom preocupado.
— Não precisa se preocupar, estou bem — falei, balançando a cabeça para afastar a sensação de tontura. — Só estou... um pouco desorientada. E não é como se... eu estivesse bêbada, só um pouco…
Ele deu um sorriso de canto, soltando o ar pelo nariz em uma risada abafada.
— Só um pouco, claro. — Ele se aproximou um pouco mais. — Olha, se você está bem, ótimo. Mas, se não for um problema, eu queria te acompanhar até em casa.
Eu ri, embora o som fosse mais um misto de risada e tosse.
— Parece que você tá mais preocupado com a minha segurança do que eu mesma — comentei com a voz grogue — Você sempre foi assim! — Afirmei em voz alta, apontando para ele de forma acusatória.
— Eu sempre… o quê? — Ele arqueou uma sobrancelha em dúvida, mas para minha sorte, ele estalou a língua e balançou a cabeça, assumindo que eu simplesmente não estava dizendo nada com nada. — Esquece. Vem, vou te guiar até em casa. Você mora com a Brune, né?
A oferta era tentadora. Naquele estado, a ideia de ter alguém ao meu lado parecia muito melhor do que enfrentar o caminho de volta sozinha. Concordei com um aceno de cabeça.
— Obrigada, Roy. Acho que aceito a companhia — disse eu, tentando manter o equilíbrio enquanto começávamos a caminhar.
Quando chegamos ao prédio, minha visão estava um pouco turva e as escadas pareciam uma montanha íngreme. Olhei para cima e vi que teríamos que subir três andares sem a ajuda de um elevador. Maldita seja a Brune por não escolher um lugar com elevador. É mais barato. Ela disse. Respirei fundo, tentando reunir forças para enfrentar a minha escalada, mas assim que dei o primeiro passo, a sensação de vertigem tomou conta de mim e quase caí.
Roy estava ao meu lado rapidamente, suas mãos firmes segurando meus braços antes que eu fosse com a cara de encontro ao chão.
— Ei, calma aí — disse ele, com uma voz suave e tranquilizadora. — Parece que subir escadas não é bem o seu forte nesse momento.
Eu tentei protestar, mas a ideia de subir aqueles lances sozinha me parecia impossível. Senti a mão dele na minha cintura enquanto ele me olhava com um sorriso suave.
— Deixa eu te ajudar — ele ofereceu, e antes que eu pudesse protestar mais, ele me ergueu nos braços, de forma que fiquei segurando seu pescoço enquanto ele me carregava.
O calor dos braços de Roy ao meu redor era reconfortante e quase protetor. Seus músculos estavam tensos e firmes, o que me fazia sentir uma sensação de segurança. O leve cheiro amadeirado que exalava dele misturava-se com um sutil aroma de cloro de piscina. A combinação dos cheiros era inesperadamente agradável.
Enquanto subíamos os degraus, percebi que minha cabeça estava encostada em seu ombro, e a sensação do seu corpo quente me envolvia por completo. Eu sabia que me arrependeria depois por ter me permitido sentir tudo aquilo, mas que o meu eu do futuro se resolvesse, porque aquela sensação estava tão boa que eu não podia simplesmente interromper.
Finalmente, chegamos ao terceiro andar. Roy se abaixou suavemente e me colocou de volta no chão. Olhei para ele com um sorriso agradecido.
— Obrigada — falei, tentando ser o mais clara possível. — Você realmente me salvou.
— De nada. — Ele sorriu novamente. — Agora está entregue. Imagino que tenha as chaves.
Assenti, procurando na minha bolsa e mostrando-a em seguida pendurada entre os meus dedos.
— Vou nessa — disse ele, com uma expressão sincera. — E tente não fazer isso com frequência. Nem sempre pode ter alguém amigável pra te ajudar.
Roy deu uma última olhada para mim antes de se afastar, virando-se para o hall e começando a descer as escadas. Seus passos se afastavam gradualmente, e eu esperei até deixar de ouvi-los antes de me virar para a porta do apartamento.
Com um esforço considerável, consegui abrir a porta e entrei, estava tudo escuro. Mas eu não precisava de luz pra saber o caminho exato até o sofá.
Assim que cheguei ao estofado, não pensei em mais nada. Me joguei nele com um suspiro profundo, os braços caindo ao meu lado enquanto minha cabeça repousava em uma das almofadas. A sensação de relaxamento era quase instantânea. Com o corpo ainda quente e um pouco embriagada, fechei os olhos e deixei o cansaço tomar conta de mim.
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