Notas iniciais
Percy
Apesar de estar sonhando, Percy pode sentir o cheiro do mar. As ondas se quebravam violentamente contra a praia.
Percy se sentou na areia úmida. O vento frio da manhã lhe fustigou o rosto, enquanto a água gelada tocava a ponta de seus dedos. As gordas e pesadas nuvens cinzentas, deslizavam pelo céu.
Ele apoiou as mãos sobre os joelhos e encarou as ondas quebrarem.
— Você sabe o que acabou de fazer? – a voz partiu de algum lugar atrás dele, o que o fez virar a cabeça e encarar a silhueta parada ao seu lado.
— Sim pai, eu sei o que eu acabei de fazer. – Percy virou a cabeça lentamente, voltando a encarar o mar. – E não me arrependo.
— Não se arrepende? Perguntou Poseidon sentando ao seu lado.
— Não. Quer dizer, acho que não. – Percy sentiu seu rosto esquentar. – Eu tenho medo de magoa-lo. E isso me faz ficar com medo. É tudo meio novo para mim.
— Todos lá em cima reprovam isso. – Poseidon parecia indiferente em meio à situação. — Menos a Afrodite, ela esta pulando de alegria.
— E o senhor?
— Não sei exatamente o que pensar sobre isso. – Poseidon deu de ombro. – Afinal, eu quero ver você feliz, mas é difícil.
— O que? Aceitar que eu estou afim de um garoto? – um leve tom de irritação passou pela voz de Percy, enquanto ele fechava as mãos com forças.
— Não... – Poseidon deixou as palavras se perderem por alguns segundos. – E a Annabeth? Você a amava, não amava?
— Sim pai, eu a amava. Bem no verbo passado mesmo. – Percy revirou os olhos. – Agora, mal nos falamos, e eu to bem assim.
Percy virou a cabeça e encarou o pai. Seus olhares se cruzaram, enquanto ambos davam um sorriso fraco.
— Eu preciso ir. – disse Poseidon se levantando. Ele sacudiu a areia do shorts de praia e caminhou em direção a água. – Eu só quero o melhor para você, Percy. E se é isso que lhe faz feliz, então eu também fico feliz.
— Obrigado Pai. – Percy abriu um largo sorriso. – Amo o senhor.
— Também te amo, filho. – Poseidon acenou, enquanto seu corpo se transformava em água, e ele sumia em meio ás ondas.
Percy abriu os olhos lentamente. O corpo de Nico ainda estava colado ao seu, em uma posição confortável. Ele sorriu, enquanto o olhava dormir.
A chuva ainda caia furiosamente do lado de fora, e o som dos pingos batendo contra o telhado e as portas de vidro fez Percy querer voltar a dormir, mas seu estomago roncou alto demais.
— Pelo amor dos deuses. – sussurrou Nico. – Isso foi seu estomago ou estamos sofrendo algum ataque?
— Cala a boca Di Ângelo. – resmungou Percy.
Nico se virou e encarou Percy. Seus olhares se encontraram e ambos reviraram os olhos.
— Você parece um filhotinho de Husky. – disse Nico sorrindo.
— Eu espero que isso tenha sido um elogio. – Percy deu um sorriso travesso. — Ou eu vou ter que te bater.
— Você nem ousaria. – Nico se sentou. Ele jogou os braços para o alto e soltou um longo bocejo, enquanto se espreguiçava.
— Aonde você pensa que vai? – Percy segurou o braço esquerdo de Nico e o puxou, fazendo com que o mais novo deitasse novamente.
— O que você pensa que ta fazendo? – Nico tentou se soltar da mão de Percy, enquanto o mesmo puxava a coberta e cobria os dois até a cabeça.
— Deixando o mundo normal lá fora. – respondeu Percy sorrindo.
— Nem vivemos no mundo normal, menino peixe.
— Não começa com os apelidos, pelo amor dos deuses.
— Ah, que foi? Não gosta de ser chamado de menino peixe? – provocou Nico.
— Calado caveirinha. – Percy mexeu as sobrancelhas e deu um piscadela.
— Ta, sem apelidos.
— Gosto assim.
Os minutos se arrastaram lentamente. Os lábios de Percy encontraram os de Nico em um beijo calmo e lento.
— Eu vou buscar comida. – disse Percy após um tempo. – Já volto.
Antes mesmo que Nico pudesse protestar, Percy já havia se trocado e atravessado a porta.
À chuva havia diminuído sua força, mas mesmo assim foi o suficiente para encharcar Percy enquanto ele caminhava até o refeitório.
Havia alguns semideuses espalhados pelas varias mesas que ali se encontravam. Alguns disseram “Oi” e “Bom dia” ao verem Percy adentrando o recinto. Outros apenas acenaram com a cabeça.
Percy pegou uma bandeja e começou a enchê-la com comida. Desde pãezinhos a cupcakes grandes e azuis. Ele pegou duas canecas grandes de chocolate quente e deu um jeito de equilibrar tudo aquilo, enquanto se dirigia para fora do refeitório. A fina garoa lhe fez se sentir satisfeito consigo mesmo, apesar dele não saber o motivo.
— Quer ajuda? – a voz feminina partiu de algum lugar a sua direita, mas Percy não precisou se virar para ver a quem ela pertencia.
— Não, obrigado Annabeth. – disse ele sem parar de caminhar.
— Ah, qual é Percy? Você ainda esta com raiva?
Percy a ignorou. Seus pés afundando no chão lamacento, molhando a barra da calça. Ele apertou a bandeja e acelerou o passo até parar em frente à porta de seu chalé. Percy equilibrou a bandeja em uma mão e empurrou à porta.
— Foi impressão minha ou eu ouvi a voz da Annabeth? Perguntou Nico, assim que ele passou pela porta.
— Você tem uma boa audição, garoto. – Percy colocou a comida sobre a mesa e jogou a bandeja no chão.
— Pois é. – Nico se levantou. Ele estava vestido com uma calça jeans surrada, mas seu tronco estava nu. – O que ela queria?
— Aparentemente, me ajudar a trazer essas coisas pra cá. – Percy revirou os olhos. – E aposto que ela ia querer entrar e conversar. Infelizmente eu estou sem paciência.
— Até para mim? – Nico franziu a testa, enquanto se aproximava do mais velho. Seus braços se abriram e ele passou os braços em volta da cintura de Percy.
— Você é uma exceção. – Percy sorriu, então seus lábios tocaram a testa de Nico.
— Por que tantos cupcakes azuis? – Nico soltou Percy lentamente e puxou uma cadeira.
— Sem perguntas, apenas coma. – Percy se sentou, de frente para Nico e ambos se encararam por um segundo. – Nem pense nisso.
— Nisso o que?
— Você fez aquele olhar maligno. Eu não gosto quando você faz esse olhar.
— Eu não fiz olhar nenhum, louco.
— Se você está falando.
Nico jogou a cabeça para trás e começou a rir.
Os minutos se passaram, enquanto os dois semideuses comiam lentamente e o amor predominava por ali. Mas mal sabiam eles que logo algo iria acontecer e ambos teriam que deixar o lar e partirem em uma missão que talvez fosse sem volta.
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