The Lost World of Guertena [HIATUS]

1 Welcome to The Lost World of Guertena


Notas iniciais
Boa Leitura! o/

Ib entendia o que se passava diante de seus olhos.

Ele estava morrendo.

A garotinha de apenas nove anos foi criada para ser forte, não demonstrar fraquezas, mas naquele momento sentiu as lágrimas preencherem seus olhos enquanto via o rosto de seu companheiro ficando cada vez mais pálido, a respiração entrecortada do rapaz de cabelos arroxeados doía no coração da garotinha. Culpa pesava em sua consciência, talvez se ela não fosse tão fraca...

Sabia que aquilo era uma despedida, mesmo assim, agiu como o rapaz queria. Prometeram se encontrar assim que ele melhorasse, mesmo ela sabendo que isso jamais iria acontecer.

Ela correu para a saída, sentindo como se cada passo para longe dele fosse uma facada em seu coração...

"Gary está dormindo" era o que ecoava na mente da jovem que repetia o pensamento na tentativa de acreditar naquilo.

Com as lágrimas escorrendo pela face, ela apertava forte o isqueiro que pegara com o rapaz. Quando estava na metade da escada que levava até a possível saída, uma risada infantil ecoa pelo ambiente fazendo a garota hesitar.

Mais três degraus e a jovem para de forma brusca ao avistar uma criança loira sorrindo de forma psicótica segurando uma rosa azul com suas pétalas espalhadas pelo chão aos seus pés.

"Bem-me-quer!" exclama a garota virando-se para a outra "Agora podemos ficar juntas para sempre, Ib!"

—_______________________________

Ib desperta em um salto ofegando.

Aquele não era bem um pesadelo, mas o peso em seu peito não era um sentimento muito agradável.

— Ib, você está bem? — A garota se assusta ao ouvir uma voz masculina e se vira encarando um par de olhos esverdeados preocupados.

Mark, seu namorado.

Quer dizer, ex-namorado.

Ib olha em volta, aos poucos sua mente vai se acalmando e ela se lembra de onde estava.

Ônibus. Passeio da Faculdade à Galeria de Artes.

— Este não é seu lugar. — A jovem de olhos vermelhos responde meio ríspida — Onde está Maureen?

— Foi ao banheiro e agora quer o lugar dela de volta. — Maureen aparece cortando qualquer que viesse a ser a resposta do rapaz colocando as mãos na cintura parecendo uma mãe brava.

Mark bufa revirando os olhos e se retira do assento murmurando algum xingamento à melhor amiga de Ib que apenas lhe aponta a língua denunciando o nível de sua maturidade.

— Não sei porque ele ainda insiste. — Maureen suspira cansada se atirando sobre seu assento, seus cabelos negros rebeldes estavam presos com dois hashis em um coque bagunçado cheio de fios soltos.

Ib dá de ombros impassível.

— Talvez porque ainda nós não tivemos "A Conversa". — Ela faz aspas com os dedos — Não que exista algo para se falar, ouvir ele falar. Ele decidiu por nós e por mim, tudo bem. — Ela finaliza dando de ombros.

Maureen olha preocupada para a amiga.

— Você não precisa se fazer de forte, fingir que está tudo bem pode piorar. — Ela olha para baixo e junta as mãos na da jovem de cabelos castanhos sorrindo — Mas eu compreendo que você sempre foi assim, só quero que saiba que eu vou estar aqui, quando precisar.

Ib sorri agradecida para a garota e retribui o aperto na mão dela.

O resto do trajeto até a galeria é feito em silêncio. Ib tentava entender o sonho que tivera, mas conseguia apenas se lembrar de pequenos flashes deste.

Quando o ônibus parou o grupo de universitários desceu entre conversas animadas e risadas. Ib e Maureen também falavam com alguns colegas que comentavam sobre a última festa em que se encontraram.

A garota sente uma brisa fria sacudir suas madeixas castanhas e um arrepio cruza sua espinha ao encarar o grande prédio.

Um misto de tristeza e nostalgia atinge a garota que se recorda de ter estado lá antes, quando criança.

— Tudo bem, Ib? — Maureen para ao seu lado fixando seus olhos castanhos na amiga que parecia em transe encarando a Galeria.

Ib desperta de seus pensamentos com o chamado da melhor amiga e sorri tranquilizando-a.

— Tudo bem, eu só... — Ela volta o olhar para o prédio e ambas começam a caminhar seguindo o grupo para dentro do local — Eu estive aqui antes, meus pais me trouxeram no meu aniversário de nove anos.

Maureen faz uma careta.

— Que tipo de pais levam uma criança no seu aniversário à uma Galeria de Arte?

Ib dá de ombros sorrindo.

— Aparentemente, os meus.

— Por sinal, mocinha — Maureen encarna a mãe repreendedora cruzando os braços — Você deixou passar batido seu aniversário, nem pense que vai escapar, nós vamos fazer alguma coisa, atrasadas mesmo.

Ib faz uma careta, mas não contraria a amiga, sabia que quando Maureen colocava algo na cabeça, não havia força no universo que fizesse ela mudar de ideia.

A verdade é que Ib não gostava muito de seu aniversário. Não que houvesse ocorrido algo que a fizesse ter trauma da data, ela apenas se sentia ruim nesse dia em especial, como se uma depressão repentina tomasse conta de si e ela sentisse que não deveria estar comemorando o fato de estar mais um ano viva, parecia injusto.

Ib para na familiar recepção do lugar e fica surpresa ao ler um cartaz de exibição que havia pendurado em um cavalete logo na entrada.

— O quão irônico isso pode ser? — Ela murmura mais para si mesma.

"O Mundo Perdido de Guertena — Especial de Dez Anos" — Maureen para ao seu lado lendo em voz alta, em seguida se vira para a amiga — Foi essa exibição que você visitou há dez anos? Legal!

— É, mas não tinha esse "Perdido" no nome.

Maureen pega um folheto das mãos de um dos colegas que passava por ali. O rapaz reclama, mas a garota age como se nada tivesse acontecido e se volta para Ib que ria discreta do ato dela.

— Aqui diz que há dez anos houve uma exposição desse Guertena, nessa mesma época encontraram um depósito que ficou por anos desconhecido onde havia várias obras perdidas, ou escondidas, dele. — A morena franze o cenho lendo com dificuldades por estar sem seus óculos — Intrigante, misterioso, Guertena sempre criou obras que carregavam paixão e blá, blá blá... — Ela revira os olhos e observa o verso do folheto que continha algumas imagens — Eu, sinceramente acho um pouco tenebrosas essas criações dele, mas por isso escolhi essa faculdade, quem entende de verdade a Arte?

Ib ri. Adorava fazer esses passeios com sua melhor amiga.

A dupla começa a caminhar pelo local, a Galeria estava movimentada naquele dia, logo mais as garotas descobriram que havia mais duas escolas fazendo tour pelo lugar.

Ib reconheceu algumas das antigas obras que eles resolveram expor por ali. Abyss on the Deep chamou a atenção da garota que por instinto passou longe da obra sem saber o porquê. Viu também os manequins sem cabeças e aquele sofá nada convidativo. Aquele lugar com certeza lhe rendeu alguns dias de pesadelos.

Ao subirem para o segundo andar perceberam que lá se concentrava a maior parte das obras perdidas de Guertena, Maureen parecia uma criança hiperativa tirando fotos e fazendo anotações para o futuro trabalho que elas fariam juntas sobre as obras vistas.

— Pelas tintas de Da Vinci! Olha só isso aqui!!! — Maureen puxa a mão de Ib ignorando algumas regras da galeria como "Não correr" e "Não gritar" e arrasta a amiga até o fundo daquela área.

Ib não entendeu a exaltação da outra até ver os quadros dispostos na parede.

Sentiu outro arrepio.

Os quatro quadros das Ladies estavam dispostos um ao lado do outro. Lady in Red, Lady in Blue, Lady in Green e Lady in Yellow eram simples quadros pequenos perto do grande e majestoso quadro posicionado acima destas, mais centralizado.

— Olhe essa moldura, Ib. — Maureen comenta maravilhada — Aposto que Guertena guardou a mais bela para essa obra. Acha que era alguém especial pra ele?

Ib observa a mulher no quadro. Seja ela quem fosse, dá para ver a paixão com que fora pintada. Apesar da semelhança com as Ladies, os cabelos castanhos e os olhos avermelhados, a riqueza dos detalhes denunciavam que aquela mulher era especial. O brilho romântico em seu olhar, a iluminação da pintura que a deixava um tanto misteriosa, os cabelos adornados com rosas vermelhas espalhadas por toda sua extensão e a beleza ressaltada dela mostra o amor que Guertena devia sentir por aquela mulher.

Em baixo um pequeno quadrinho citava o nome da obra: My Lady.

— Puxa, ela se parece com você, Ib.

As duas garotas, concentradas na obra, dão um pulinho de susto quando Mark surge silencioso atrás delas. O rapaz também parecia um pouco embasbacado com a obra de arte.

— Você não tem outro lugar pra se perder não? — Maureen fala revirando os olhos.

Ib ouve Mark retrucar, mas se desliga da discussão prestando bem a atenção no quadro à frente.

De fato, se observasse com atenção, veria muitas semelhanças entre a garota e a mulher do quadro. Mas se Ib pudesse, chutaria que aquela é alguma tia um pouco mais velha, talvez até sua mãe, mesmo tendo o mesmo formato de nariz e a boca pouco pequena, a pessoa desenhada com certeza era mais velha.

— Argh, vamos dar o fora daqui, Ib. — Maureen pega na mão da outra a puxando para o outro lado — A companhia está insuportável.

Ib se esquece do quadro por um momento e ri ao ver Mark exclamar algum xingamento. Maureen sempre fizera o tipo super protetora e sempre que Ib não demonstrava seus sentimentos, a garota o fazia pelas duas (como odiar Mark, por exemplo).

As amigas entraram em uma conversa animada sobre os quadros quando Ib vê uma figura familiar caminhando entre um grupo de crianças de uniforme.

— Steve? — A jovem chama surpresa.

Um garotinho ergue a cabeça procurando por quem o chamava pela multidão e abre um sorriso animado ao encontrar a dupla de garotas que acenava chamando sua atenção.

— Mana! Maureen! — Sendo quase uma cópia, Steve puxara muito da aparência da irmã mais velha. Mas mesmo possuindo os cabelos cor de chocolate e olhos cor de sangue, Steve era uma criança enérgica e animada, sem falar de bastante inteligente para apenas nove anos de vida.

— E aí pirralho! — Maureen ergue a mão para o menor que atinge esta fazendo algum tipo de cumprimento secreto, Ib ri dos dois e logo mais recebe o irmão em um abraço

— Passeio da escola? — A mais velha pergunta ao se separar dele.

Steve assente.

— Estamos em uma aula de Introdução ao Bicho-Papão.

Maureen dá risada com a piada do pequeno e aponta para uma escultura azul de alguma mulher que parecia estar se desmanchando.

— Eu poderia facilmente ter pesadelos com isso.

Ib balança a cabeça em negativa para os dois, mas sem parar de sorrir. Porém seu olhar atinge uma parede que separava a sala levando para um corredor largo e seu sorriso morre. Algo dentro dela gritava "Perigo" como um alarme de incêndio incessante que repetia, repetia e repetia sempre o mesmo som.

A garota ouve Maureen e Steve a chamarem e só então se dá conta de que estava caminhando naquela direção. Acaba ouvindo os dois a seguindo, por isso nem se dá ao trabalho de responder.

Ao virar no largo corredor sente seus olhos arregalarem, não entendia o porquê de todo aquele desespero, mas sentiu seu coração bater incontrolavel em seu peito e suas mãos tremerem. Levando a mão até o peito, Ib sentiu o ar lhe faltar, mas estava confusa, não entendia porque seu corpo reagiu daquela maneira desesperadora.

Até porque, aquele era um dos quadros mais fofos daquela galeria.

A última obra de Guertena — Steve parou ao seu lado lendo o texto de descrição — Mary.

— Uou! — Maureen exclama chegando mais perto da obra sem perceber o pânico da amiga — Olha só essa moldura! E eu achando que só My Lady tinha ganhado tratamento especial!

Maureen tinha uma estranha paixão por molduras, e aquela em especial — dourada e adornada com rosas amarelas entalhadas nas dobras inferiores — ganhou seu amor.

— Há boatos de que é a filha de Guertena que nem chegou a nascer.

Assustando o — agora — trio, Mark mais uma vez surge entre eles sem ser percebido.

— Ô estrupício! Com que direito você acha que pode magicamente brotar do nosso lado fazendo comentários?! — Maureen, atingindo o limite de sua braveza, para perto do rapaz cutucando seu peito com o dedo indicador.

— Os incomodados que se retirem. — O rapaz dá de ombros em desdém para a garota que abre a boca ultrajada.

Steve dá uma risadinha da briga infantil dos amigos de sua irmã, mas acaba se concentrando em Ib que parecia em choque encarando a pintura da bela garota loira com vestido verde.

— Eu diria que de todas as obras, essa foge do padrão. — Ele fala ao lado da irmã que volta seu olhar para ele — Só não entendo porque você está com essa cara.

Ib olha para suas mãos e o mais novo percebe que estas tremiam.

— Eu também gostaria de saber. — Ela murmura — Mas algo nessa pintura me assombra, como se o fato de ela estar aqui significasse algo muito ruim.

— Algo muito ruim vai acontecer com seus amigos se eles continuarem a gritar dessa maneira aqui dentro. — Steve comenta apontando para trás deles.

Ib só então percebe que a dupla começara a se estapear igual a duas garotinhas chamando a atenção de algumas pessoas da volta.

Suspirando pesado, Ib apenas para de frente para Maureen e Mark que, ao perceberem sua presença, param com o que estavam fazendo e sorriem ingênuos como se nada estivesse acontecendo.

— Às vezes eu acho que voltei para o jardim de infância. — A jovem de olhos avermelhados começa seu sermão colocando as mãos na cintura — Meu irmão se comporta melhor do que vocês e ele é dez anos...

As palavras morrem em sua boca.

— Mana? — Steve chama a irmã que estava se comportando de uma maneira muito estranha naquele dia.

Mas Ib não prestou a atenção nele, não prestou a atenção em mais nada, apenas se aproximou com passos lentos da parede oposta à do quadro Mary sentindo um aperto no peito.

Lembrou-se daquela pintura. Há dez anos, quando sua mãe a chamara para irem embora da galeria, por alguma razão desconhecida ela estava estagnada em frente àquela obra, onde um belo rapaz de cabelos arroxeados escorava-se em uma parede adormecido enquanto segurava uma rosa azul em mãos.

Dez anos depois, ela estava da mesma maneira.

Sem entender, em sua memória o quadro apenas mostrava o garoto dormindo com uma rosa, agora ao olhar a obra, parecia como se o tempo tivesse passado no desenho também, a pintura parecia mais sombria, o ambiente mais sujo, o rapaz estava agora coberto de galhos de roseiras com algumas rosas azuis espalhadas por seu corpo e cabeça, a mesma expressão serena estampava seu rosto, mas por algum motivo, Ib sentiu-se culpada.

Forgotten Portrait.

Sem que percebesse, lágrimas escorriam pelo rosto pálido de Ib, que sentiu como se aquele peso em seu coração aumentasse e ela estivesse se esquecendo de algo importante.

Sem se dar por conta do que fazia, Ib ergue a mão esticando-a mesmo em seu interior sabendo que aquilo era contra as regras da Galeria. Ela desliza as pontas dos dedos sobre a tela áspera pela tinta sentindo a textura da obra. Seu peito se apertou ainda mais e isso fez com que mais lágrimas caíssem.

— Não me diga que está apaixonada por um cara de uma pintura, Ib? — Mark, fazendo o que faz melhor, surge com um comentário desnecessário que é ignorado por Ib.

— Você não tem nenhum rabo-de-saia para correr atrás, não? — Maureen fala bufando.

A discussão dos dois segue como um eco distante aos ouvidos de Ib, sua mente, por alguma razão, estava desligada do mundo. Ela estava tendo uma luta interna desde que entrara naquele lugar. O que diabos estava acontecendo com ela? Porque aquelas obras mexeram tanto com seu emocional? Porque estava tudo tão confuso? Uma mistura de tristeza, medo e nostalgia reviravam-se em seu interior causando um repentino mal-estar na garota.

O que desperta Ib de seus devaneios, é uma pequena mão que segura firme na sua. Abaixando o olhar, ela encontra Steve a encarando de forma bastante preocupada.

— Mana, está tudo bem?

Quantas vezes mais ela ouviria esta pergunta naquele dia?

A jovem funga e limpa as lágrimas mostrando um sorriso para o irmão.

— Está tudo bem... — Ela volta a encarar o desenho do rapaz sentindo uma palpitação estranha, como ansiedade — Sabia que há dez anos, nossos pais me trouxeram aqui? — Ao ver a surpresa se mostrar no rosto do mais novo ela prossegue — Era meu aniversário e depois de sairmos daqui, fomos jantar fora. Foi nessa noite que eles me contaram que mamãe estava grávida de você. — Ela sorri para Steve — Foi o melhor presente de aniversário que eu recebi na vida.

Steve cora com as palavras da irmã mais velha, nunca na vida vai estar preparado para ouvir coisas afetuosas vindas dela.

— Awwwn que coisa mais linda! — Ib revira os olhos para o gritinho de Maureen.

— Eu não sei como vocês ainda não foram expulsos daqui. — Ela comenta divertida puxando o irmão pela mão.

Os irmãos passam por Maureen e Mark que os seguem tentando permanecerem quietos. Ib olha para trás, observando o quadro ficar cada vez menor conforme se afastava.

Um dos colegas de Steve o chama, ele se despede das garotas com um aceno e segue com a sua turma da escola para algum tipo de instrutor que iria lhes fazer as explicações dos quadros.

Ib, Maureen e Mark (que não desistiu de ficar por perto) seguem agora mais silenciosos pelo salão admirando as novas obras. A melhor amiga e o ex-namorado da outra trocam um olhar confuso, ambos pensavam na mesma coisa: Ib estava estranha. E mesmo estando sempre brigando, no fundo ambos compartilhavam a mesma preocupação com a garota.

Afinal de contas, antes de tudo estragar, os três já foram melhores amigos.

Ib estava avoada demais para perceber a frustração da dupla atrás de si. Ela seguia sem rumo olhando desatenta para a exposição quase atropelando alguns transeuntes.

Não tirava o garoto do quadro de sua cabeça.

Ela se xinga. Sentia que estava deixando algo de lado, mas não conseguia se lembrar do quê. Seu interior gritava em desespero pedindo para ela recordar, mas nada vinha, apenas uma imensa tristeza e culpa.

Tudo por aquele rapaz.

Parando no meio do caminho. Ib se vira determinada a voltar para ver aquele quadro, mas encontra Maureen parada admirada olhando para um imenso quadro.

— Onde está Mark?

Maureen dá de ombros.

— Desistiu de bancar o Stalker. Ei, Ib, olha só isso, parece que é um desenho de todas as suas obras mescladas.

A jovem olha para o lado, o extenso quadro lhe era familiar, mas assim como Forgotten Portrait, parecia modificado, mais elaborado.

A obra continha desenhos meio borrados de várias das obras de Guertena, algumas não estavam na galeria, Ib nem se lembrava de vê-las em algum momento. Todas as artes estavam misturadas como se fosse uma junção de eventos. Como um resumo do trabalho de Guertena.

Mundo fabricado. — As palavras de Maureen causam outro arrepio na melhor amiga, porém, este era um arrepio assustador.

A luz atrás das garotas pisca fazendo-as darem um pulo assustadas encarando a lâmpada que se apaga.

Ib tem um déjà vü.

— Isso foi assustador. — Maureen comenta com a mão sobre o peito dando uma risadinha tensa — Vamos ver se faltou luz no resto da galeria. — Ela fala pegando na mão da melhor amiga e puxando-a para saírem daquele corredor.

— Ouço passos. — Ib sussurra, sem saber o porquê — Tem alguém por perto.

— O que é estranho, essa galeria não estava lotada? — Maureen soava descontraída e despreocupada, mas Ib sentiu o aperto em sua mão aumentar um pouco.

Ao chegarem no salão principal os olhos de ambas se arregalam.

Vazio, exceto pelas obras.

— Okay... — Maureen olha em volta à procura de alguma alma viva, mas nada encontra — Acho que evacuaram o prédio.

As duas descem correndo as escadas para o primeiro andar e encontram as portas fechadas, elas forçam tentando abri-las, mas a tentativa é inútil. Estavam trancadas.

— Que segurança estúpida a dessa Galeria! — Maureen exclama furiosa — Nem se deram ao trabalho de averiguar se todos os corredores estavam vazios.

Os passos voltam a soar calando a morena que olha para cima.

— Tem alguém lá. — Maureen sussurra.

Ib assente sentindo tudo familiar demais, mas não menciona isso.

Antes de subirem, a dupla passeia pelo primeiro andar em busca de uma outra saída, mas nada encontram, a saída de emergência também estava bloqueada.

Ao passarem por um quadro onde estava pintada uma espécie de urso de pelúcia fofo, Maureen para encarando a criaturinha.

— Parece que ele está nos seguindo com o olhar. — Ela comenta fazendo uma careta engraçada.

Ib para ao seu lado observando o ursinho. Sem perceber o que estava fazendo, a jovem de olhos avermelhados estica a mão pressionando o nariz do bichinho.

Um barulho semelhante a uma buzina de brinquedo ecoa pelo lugar fazendo as duas garotas se assustarem muito. Elas trocam olhares preocupados, afinal podia aquilo ser uma alucinação coletiva? Porque ambas podiam jurar que o som veio do aperto do nariz do urso.

— Vamos subir. — Ib fala tomando a frente percebendo que a amiga a seguia sem pensar.

Um miado estridente soa de um dos quadros quando as duas passam. Maureen ofega, mas segue Ib que não parara de andar.

— Isso está ficando bizarro. E você está tranquila demais, Ib.

Ib não sabia o que responder. Ela estava com medo, mas desde pequena ela evitava perder a calma, ainda mais em situações apavorantes. Se criara como uma criança forte e independente e não era de seu feitio surtar.

— Tem alguém na janela! — Maureen corre subindo o resto das escadas grudando a cara no vidro da pequena janela — Está um breu lá fora, não enxergo nada.

Quando a amiga se afasta um passo da janela, Ib arregala os olhos ao ver uma silhueta sombria surgir pelo vidro. Maureen grita e cai sentada quando alguém bate forte contra o vidro.

— Que porra foi essa?!?!

Ib sacode a cabeça confusa. Ela imaginou que algo do tipo iria acontecer, por isso não se assustou, mas como ela sabia disso?

— Acho bom isso não ser nenhuma daquelas pegadinhas! — A morena levanta-se exaltada andando em direção ao salão principal.

Ib sente uma estranha necessidade de ir conferir os quadros Mary e Forgotten Portrait, mas acaba seguindo Maureen que se dirige para o corredor onde elas estavam quando a luz se apagou.

— Isso não estava aqui antes. — A morena comenta baixinho, Ib nunca a vira tão preocupada e acabou se sentindo culpada.

Mas culpada pelo quê?

Seguindo o olhar de Maureen, Ib vê uma tinta azul escorrendo do quadro Mundo Fabricado.

— Mas o quê...

Antes que Maureen pudesse terminar sua frase, algo estoura atrás das duas. Parecia que balões de tinta caíam do teto se rompendo contra o chão formando uma letra. As duas se aproximam da parede como se aquilo fossem bolas de fogo e encaram assustadas uma frase sendo formada ali.

"Aqui Ib"

— Ib, o que diabos 'tá acontecendo aqui?! — Maureen estava com os olhos lacrimejando já.

Mas Ib estava perdida em pensamentos. Ela se vira par trás e percebe que a tinta azul formava devagar algumas palavras.

"Você já sabe o caminho... Venha se divertir com a gente."

— Ib? — Maureen choraminga querendo explicações da outra.

No fundo Ib sentia, ela sabia onde ir, mas essa realidade lhe apavorou porque só comprovava que todas aquelas sensações eram verdadeiras, e ela de verdade deixou algo esquecido para trás.

E estava arrastando sua melhor amiga junto a isso.

— Temos que descer.

Maureen suspirou fechando os olhos, mas não retrucou em nada. Estendeu a mão para Ib que segurou firme na sua tentando passar um pouco de confiança para a mais alta.

A descida foi feita em silêncio, exceto pelo eco insistente de seus passos. Elas não encontraram mais ninguém na galeria, não sabiam de quem eram os passos ouvidos antes, mas nem mesmo se lembraram desse fato naquele momento.

— Oh, não. — Maureen geme frustrada ao ver a que cerca que circulava a obra Abyss on the Deep estava com uma abertura com marcas de pegadas em frente à esta.

— É a única saída. — Ib fala encarando a obra como se estivesse prestes a enfrentar um fantasma de seu passado.

E no fundo, ela sabe que é exatamente isso.

Maureen não pergunta nada, não reclama, nem mesmo fala sobre procurarem outra saída. Apenas aperta de leve a mão de sua melhor amiga demonstrando que estava tudo bem, ela confiava em Ib.

Em seguida ambas pulam, mergulhando na profunda escuridão.

Notas finais
E aí? O que acharam? Me apontem os erros, por favor. Não deixem de comentar e até o próximo! o/
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.