The Lost Princess
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Miranda estava praticamente sendo carregada, a dor que preenchia seu interior se juntava com a física e quase a impossibilitava. O movimento que fazia com suas pernas era automático, não recebia a minima atenção de sua mente, caso ela começasse a flutuar, não perceberia. Seus pensamentos corriam rapidamente, e logo uma sensação de culpa se apoderou de sua cabeça. Ela sabia que este seria seu destino, sofrimento, soube disso no momento em que pronunciou aquelas malditas palavras. Porém ela jamais imaginara que o seu sofrimento chegaria desse jeito. Ela pensou que ela seria punida, que ela seria levada, mas é claro que isso seria muito fácil, agora ela percebe sua estupidez ao acreditar em tal hipótese.
Ela sofreria, é claro. Mas isso seria primeiramente atingindo aqueles a qual pertencia seu amor, e apenas depois que ela já estivesse quebrada, lhe dariam um fim a sua dor.
Os pensamentos de James corriam tão rapidamente quanto os dela. Ele estava preocupado com a rainha, seu corpo estava pálido, porém além do rubor que atingia seu rosto, ele podia perceber através de sua pele que ela estava febril. Praticamente todo o seu peso estava apoiado sobre o corpo de James, ele entendia, suas forças já estavam esgotadas. Logo o pouco que lhe restava também se acabaria...
— Majestade... majestade... Miranda. — chamou James com o intuito de chamar-lhe a atenção, e tentar mante-la desperta — Como estás te sentindo?
- Despedaçada. — falou ela, de uma maneira que mostrava que não pretendia adicionar nada a sua curta resposta.
Ela parou de andar, tirou o peso de seu corpo do ombro de James e andou até uma pedra, mesmo com a relutância de seu companheiro, que insistia que eles não deveriam parar. A bela rainha sentou-se na pedra e encarou o jovem homem que estava a sua frente, olhou diretamente a seus olhos, e não precisou pronunciar uma única palavra para ver que ele já havia a entendido. Ele sabia exatamente o que ela pensava, o que ela desejava, porém não poderia permitir. Ela o desafiava quando se opusera e sentou-se. O desafiava a ignorar aquilo que no fundo também sentia e continuar seguindo em frente. Ela estava lhe dando uma válvula de escape, uma maneira de ele desistir sem admitir isso, de seguir o outro caminho possível sem se preocupar com a consciência. James prologou o olhar da rainha, não se atrevendo a desviar seus olhos por nem um segundo, com um medo intenso de que se ele o fizesse ela desapareceria, que ela iria partir. Miranda não se preocupava, apenas o olhava, tentando não piscar. Ela tinha esperanças de que ele sua aceitasse proposta silenciosa. De que ele desistisse dela e fosse em frente. Logo os inimigos o alcançariam, cerca de vinte, talvez trinta minutos... Miranda o olhava profundamente, como se pudesse sentir a alma do rapaz, e a cada segundo que se passava sua esperança ia desaparecendo aos poucos, e ela pressentia que ele não seguiria com o plano que ela havia formulado.
Um silencio assustador caiu sobre eles, os pássaros pararam de cantar, o vento parou de soprar e as folhas das árvores pararam de causar seu ruído, o ar parou ao seu redor. James sentia como se Miranda estivesse dentro de sua mente, enxergando até os maiores pecados de sua alma. Depois de certo tempo e reflexão, James percebeu que não poderia prolongar mais a situação em que se encontravam, logo as tropas os alcançariam e tudo estaria perdido, e Miranda não demonstrava interesse em quebrar essa estranha conexão que lhes ocorreu. O jovem rapaz deu mais uma boa olhada nos olhos de uma beleza exuberante que a rainha possuía, e em seguida falou em voz alta e clara:
— Nós precisamos ir agora. — disse ele enquanto começava a se aproximar da rainha.
— "Nós" precisamos? — questionou ela com um olhar de desapontamento se apoderando de suas belas feições, o resto de esperança que possuía acabara de sumir — Você precisa ir. Vá. Vá e me deixe. E então estarás livre...
— Não se atreva a repetir isso, não vou te abandonar. Não depois de tudo. Falhei com todos, mas não vou falhar com você - pronunciou ele com um grande pesar na voz, agindo como se a culpa dos ocorridos fosse dele, como se ele não tivesse sido capaz o suficiente para impedir o inevitável — Vamos.
Rapidamente ele se aproximou dela e estendeu a mão em um convite de desistência, para que ela se deixasse levar. Ela segurou sua mão e levantou, ficou momentaneamente atordoada, mas se manteve firme e não permitiu a si mesma demonstrar sua fraqueza, ela tentou andar para seguirem seu caminho, mas não demorou muito a desmoronar. Assim que deu os primeiros passos sentiu uma dor invadir seu corpo de maneira surpreendente, e assim ela seguiu de encontro ao chão. James foi rápido o suficiente e a segurou enquanto caia, ajeitou-a em seus braços, agora a carregava por completo, mas graças a seu forte físico isso não era problema. Ele passou um de seus braços sob a nuca de Miranda, segurando-a pelos ombros, enquanto o outro estava passando por debaixo de seus joelhos. Ela olhou-o nos olhos mais uma vez, mas agora de uma maneira atordoada, e logo em seguida perdeu a consciência nos braços do outro. Esse seguiu seu caminho, não podia esperar mais tempo e perder a vantagem que tinham. Agora ele percebia que manter uma carruagem com sentinelas a certa distancia do palácio foi uma das melhores ideias que pudera ser tomada. A cada minuto que se passava mais preocupado ele ficava com sua rainha, ele sabia que no fundo de seus pensamentos ela desejava não acordar mais, que desejava ficar em seus braços eternamente, que desejava a morte. Ela havia perdido tudo que possuía em um dia, tudo. Ele se preocupava com sua saúde, não tinham mais o rei, nem o duque ou a baronesa a seu lado. A segurança da rainha era tudo, e sua saúde estava em risco. Dado aos acontecimentos daquela noite, ela não pode ter os cuidados necessários durante ou depois do parto, ele se preocupava que isso pudesse afeta-la de algum modo, que poderia prejudica-la.
— Vamos, só mais uns minutos, estamos quase lá — sussurrou ele mais para si mesmo do que para qualquer outro, ele sabia que precisava continuar, e que logo chegaria ao local, mas a tentação de abandonar tudo ainda se encontrava presente.
Agora uma leve garoa começara a cair, em partes ele ficou feliz, pois isso ajudaria a aliviar a febre da rainha. Depois de mais alguns poucos minutos de caminhada ele finalmente chegou a carruagem, nesse momento já estava quase desmoronando.
— Peter! Peter apareça. — gritou ele, ele sabia que era Peter que estava de sentinela naquele dia.
Em alguns segundos saiu detrás da carruagem um Peter sonolento, com os olhos cansados mas também uma expressão sorridente, raramente alguém ia a encontro deles (a não ser quando se realizava a troca de turnos dos sentinelas) e sempre que vinham lhes visitar era ótimo. Mas assim que ele encarou James e viu a posição em que se encontrava, seu rosto assumiu uma expressão sombria e extremamente séria. Não foi necessário uma palavra para ele entender que esta não era um visita ocasional, e sim a primeira vez em que os recursos de fuga da carruagem seriam utilizados.
— Diabos, o que está acontecendo? O que se passa com a rainha? — disse ele seriamente enquanto se virava novamente para a traseira da carruagem — Charles, Charles venha aqui! Precisaremos de seus cuidados médicos, meu jovem.
Logo em seguida apreceu um jovem que James nunca havia visto, todas as vezes que aparecera ali, o médico que estava presente era Christopher. O jovem Charles também tomou conta da situação rapidamente e voltou correndo para onde veio.
— O que aconteceu com Christopher? E quem é esta criança que esta aqui? — disse ames enquanto se aproximava da carruagem.
- Chris foi transferido para o castelo a dois dias, e Charles pode aparentar ser muito novo mas ele é bom meu caro amigo, é sim.
Nesse momento o jovem médico voltou segurando uma maleta e rapidamente abriu a porta da carruagem e ajudou James a entrar,esse já dera ordens para Peter preparar os cavalos. Assim que entrou na carruagem James colocou Miranda deitada em um dos bancos, tirou sua capa, a dobrou e colocou sobre a cabeça da rainha, queria acreditar que era apenas para dar-lhe o máximo de conforto possível, mas sabia que ele fazia isso para lhe dar um aspecto mais vivo, tentando fazer ela parecer mais viva para seus próprios olhos, olhos que precisavam ver ela de maneira segura, acolhedora, como se estivesse apenas dormindo. Depois que terminou de ajeitar a rainha, se sentou no banco do lado oposto, encarando aquelas bochechas rosadas e febris. Charles abriu sua maleta e lá dentro James reconheceu alguns instrumentos e certos medicamentos, rapidamente Charles revirou a bolsa, agarrou algumas coisas e se aproximou de James, que colocou o braço entre eles impedindo o rapaz de se aproximar.
- Cuide dela primeiro — disse James, que assumira um tom altruísta e sério — ela deu a luz no castelo, não recebeu nenhum cuidado necessário.
- Você esta sangrando — retrucou Charles, utilizando o mesmo tom.
James pareceu confuso por um momento, imaginando da onde o garoto havia tirado aquela conclusão, mas logo percebeu o motivo daquela frase inesperada que havia acabado de ouvir. Olhando para baixo ele viu um ferimento em seu abdome, que já havia criado uma mancha de sangue em suas vestes que antes estavam cobertas pela capa. James analisou a ferida, não era muito profunda e já havia parado de sangrar, o fato de ele não ter percebido o machucado até então só fortalecia sua ideia de que aquilo poderia, com certeza, esperar.
- E ela é a rainha. — disse finalmente ele, dando um fim a aquela discussão.
Charles soltou um longo suspiro, olhou aquele homem que estava a sua frente com atenção. Não era muito mais velho que ele, uns 5 ou 7 anos, mas ainda assim o havia tratado como uma criança alguns estantes mais cedo. Poucos acreditavam puramente na capacidade que Charles tinha, nem confiavam em todo o talento que ele havia desenvolvido. Era um dos mais espertos, se não o mais esperto, dos ambientes que vivenciava. Mas ainda assim era considerado muito novo aos olhos das pessoas, muito novo para ser um médico, muito novo para salvar sua vida. Mas encarando agora o rosto de James, ele via algo em seus olhos, mas não era o mesmo que via nos olhos de todos. Não era aquela expressão de insegurança que todos transmitiam perante ele. Não, não era medo, era emoção, seu olhar estava carregado de uma emoção desconhecida. Sentimentos, preocupação... Charles aceitou o fato de que ele estava colocando a rainha antes de si mesmo, mas viu isso como lealdade, fidelidade aos seus serviços de protege-la, ignorou o outro sentimento que se mistura com a preocupação no brilho daqueles olhos. Finalmente se deu por vencido e voltou seu corpo para a rainha. Aproximou-se dela e começou a examina-la. James o observava sério, e uma leve tensão tomou o ar, seus pensamentos corriam a mil. Chris havia sido transferido para o castelo, dissera Peter. Isso o consumia por dentro, significava que seu amigo estava agora, provavelmente, morto. Depois de certo tempo ele foi arrancado de seus pensamentos pela voz de Charles, a carruagem já havia começado a andar.
- Você disse que ela deu a luz hoje, mas isso foi antes do tempo...
- Bem, provavelmente com tudo o que aconteceu, a pressão, a dor, a emoção.. deve ter adiantado. Foi ela que encontrou o rei, o palácio inteiro pode ouvir os gritos da pobrezinha, quando cheguei ao quarto, ela estava abraçada ao corpo do marido, chorando desesperadamente, beijando-o como se isso fosse sumir com a adaga que estava cravada em seu peito — James disse isso com um grande pesar, o sofrimento que estava estampado no rosto da rainha durante aqueles momentos era uma coisa dolorosa para se assistir.
Assim que teve coragem o suficiente para levantar os olhos do chão e encarar Charles, ou melhor, assim que conseguiu esconder suas lágrimas e olhar para Charles, tomou um susto. O jovem rapaz o encarava com uma expressão confusa no rosto, os olhos arregalados, ofegando ao invés de respirar.
Charles já não acreditava que estava ouvindo aquilo, depois de um segundo de confusão ele finalmente entendeu, o rei estava morto, e o mundo aos seus pés pareceu cair, mas como poderia isso ser verdade? O que havia acontecido? Depois de poucos momentos de aflição ele finalmente tomou coragem para perguntar, uma pergunta que ele já sabia a resposta, mas que era necessário ser feita.
- O rei.. esta.. o rei está morto? — balbuciou ele da melhor forma que podia, não estava conseguindo formular as frases corretamente, e levou um tempo até conseguir juntar as palavras de forma lógica.
James abriu a boca para responder, porém não conseguiu pronunciar nem a primeira palavra. A carruagem parou bruscamente, com o tranco da parada inesperada todos foram atingidos, Charles caiu por cima da rainha, aproveitou de sua posição para protege-la do que quer que estivesse acontecendo, James que estava sentado no banco contrário voou para frente, batendo com a cabeça na quina do acento a sua frente. Aquilo o deixou tonto, eles caiu no chão e um leve filete de sangue começou a escorrer por sua testa, ele estava caído, não conseguia se levantar, com muito esforço sentou-se no chão, apoiado a lateral interna da carruagem. Foi difícil focalizar a visão, estava tonto, enjoado.. depois de um tempo conseguiu centralizar Miranda, por estar deitada ela quase não sentiu o impacto, continuava desmaiada tranquilamente. Charles assumira uma posição protetora, talvez até assustadora. Se encontrava em pé, em frente ao banco de Miranda, as pernas entre abertas, braços flexionados ferozmente, com uma adaga em uma das mãos, pronto para protege-los. James não conseguia ver para onde ele estava olhando, tentando protege-los de que? Depois de certo esforço ele viu que Charles estava voltado para a porta da carruagem, sua visão saiu de foco de novo... ele não conseguia ver nada... conseguiu focaliza-la novamente. Um silencio assustador tomou conta do local, Charles ainda estava naquela posição de luta, com um olhar felino pintando seu rosto. James, que havia escorregado e novamente estava deitado no chão, sentou-se de novo, com certa dificuldade. Conseguiu focar sua visão em Charles novamente, ele ainda estava sentindo tonturas. Mas ele logo voltou a realidade, ou quase. A porta da carruagem abriu bruscamente, a luz ofuscante que entrou no ambiente antes escuro e o cegou novamente, um grito preencheu o silencio, e James não conseguia sair do chão.
Fale com o autor