The Lost Number
11 Nº 10: A Perda.
Notas iniciais
Só houveram duas vezes em que Silver temeu por sua vida.
A primeira foi aos 2 anos, quando fora obrigado a usar uma mascara e a morar num lugar escuro recebendo ordens de um homem cruel e mascarado, tendo apenas Blue como apoio.
A segunda foi aos 16 anos, quando percebeu que aquela mesma garota que tinha sido sua única família por tanto tempo, sumira para sempre dentro de um desfiladeiro.
Mas ele não quebrou, não se rendeu ao medo daquela vez como tinha feito aos 2 anos. Porque, de novo, apareceu algo para impedir que ele quebrasse.
Naquele momento, era a morena que se segurava ao seu braço como se a vida dela dependesse disso.
Ele conseguia sentir, mesmo que o aperto dela fosse forte, o quanto suas mãos tremiam. Contou mais de uma vez, enquanto observava pelo canto do olho, a garota sendo rápida em limpar as lágrimas que ameaçavam cair.
Apesar de tão gentil e animada, ela era uma menina forte. Sentia inveja.
Sabia que Green mantinha sua distância ao segui-los e se perguntou — com muito remorso — se o soco que dera ainda doía em sua pele. Não se orgulhava de ter feito o que fez, mas no momento não tinha forças pra pedir as devidas desculpas ou falar qualquer palavra que fosse.
Ele se sentia fraco, tonto até. Seus pés estavam pesados e seu coração batia rápido demais em contraste com seu estado abatido, o ambiente escuro e tenebroso ao seu redor parecia sussurrar em seus ouvidos que ele não tinha porque ter esperança.
Seus amigos haviam desaparecido. Blue estava morta.
Por que deveria continuar tentando?
Sentiu algo apertar sua palma e seus olhos cansados se moveram para olhá-la. Os dedos pequenos e finos de Lyra envolviam sua mão enluvada que, apesar do tecido relativamente grosso, não o privava de sentir o calor dela.
O toque parecia tão familiar, tão aconchegante, tão certo.
Quando fora a primeira vez que ele segurou a mão dela?
–E cá estamos nós! — O moreno de olhos dourados exclamou, apontando para uma casa velha, suas paredes tinham buracos, as telhas estavam despencando, as árvores atrás dela já tinham perdido todas as folhas e o vento que passava pelas frestas emitia um som bem desagradável.
–Fizeram um trabalho e tanto esse ano. — Crystal comentou, impressionada e piscou ao perceber algo se mexer ao seu lado. Ao virar o rosto, sentiu uma gota descer por sua testa. — ...Lyra? Tudo bem?
A morena, que tremia e tinha os braços colados ao corpo pareceu assentir.
–Uh- Uhum!
–Ah, Ly-chan! — Gold se virou para ela com as mãos nos bolsos e sorrindo divertido. — Não me diga que você ainda tem medo de casas mal-assombradas.
–E- Eu não! — Ela se endireitou na mesma hora, se forçando a olhar para frente. Silver, que estava há alguns passos de distância dela, suspirou.
–Não se preocupe, Lyra. É tudo de mentirinha. — A outra morena tentou acalmá-la, pondo uma mão em seu ombro.
–Eh? Quer dizer que você não tem medo, Crys? — Gold perguntou.
–Claro que não. Por que eu teria? — Ela franziu o cenho.
–Pra eu poder segurar sua mão durante o caminho, ué. — Ele respondeu sorrindo e a garota corou um pouco, quase perdendo a compostura.
–S- Sinto muito te desapontar, mas não vai ser preciso.
–Poxa…
Lyra teria dado uma de suas risadinhas pelos dois, mas estava ocupada demais lidando com seu pulso acelerado no momento. Seus olhos castanhos fitaram o ruivo que continuava impassível.
Ele percebeu e a olhou de volta.
–Sim?
–A- Ah, nada. É só que você parece tão calmo, estou com um pouco de inveja… Hehe.
Ele levantou uma sobrancelha.
–Não tem com o que se preocupar. É como a Crystal disse, não é de verdade.
Lyra se encolheu, assentindo.
–É, né… D- Desculpa.
O garoto a encarou, mas antes que pudesse sequer pensar em falar algo mais, seu amigo de olhos dourados exclamou:
–Certo, simbora! E Silver, nada de fugir, você vem também.
–Eu sei, eu sei. — Resmungou baixinho, ainda se perguntando como tinha concordado a fazer aquilo.
Já dentro da casa, o ruivo observava a morena ao seu lado silenciosamente. Ela pulava a cada minuto, a cada barulho que ouvia por mais irrelevante que fosse.
Sua atenção mudou para um grito curto que veio de algum ponto a frente deles — e que fizera Lyra pular outra vez -, percebeu Crystal com a mão sobre o peito e respirando fundo.
–Droga, isso me pegou de surpresa…
–Tem certeza que não quer que eu segure sua mão, Crys?
–C- Cala a boca, Gold!
Silver suspirou outra vez e sentiu algo bater contra suas costas, olhou para trás imaginando que fosse um dos contratados da atração, mas piscou ao ver a dona daquele enorme chapéu branco encolhida atrás de si.
Ela pareceu perceber o que tinha feito e recuou, olhando para o lado.
–D- Desculpa, foi sem querer…
–Tudo bem.
Mas percebeu as lágrimas que se formavam nos cantos dos olhos dela.
Lyra realmente odiava casas mal-assombradas, não é mesmo? Ele estaria mentindo se dissesse que não ficara com um pouco de pena.
Talvez tenha sido a pena, talvez tenha sido por ter passado muito tempo com Blue, Crystal ou até mesmo Gold, mas ele sinceramente não via porquê em impedir-se de fazer o ato que pensara.
Silver estendeu sua mão para ela.
–Eh? — Lyra piscou.
–Você está com medo, não? Ficar se assustando direto e pulando sem parar só vai fazer mal pro seu corpo.
A morena baixou o rosto.
–Eu sei… Eu estou tentando superar…
–... Mas por agora, pode segurar minha mão se isso vai te fazer sentir melhor.
Ela voltou a encará-lo, olhos arregalados.
–...Bom, não precisa se não quiser…
–Não!
A morena agarrou sua mão, talvez com um pouco de força demais. Silver reprimiu uma careta. Ai.
–O- Obrigada… — A garota sorriu para ele, seus olhos molhados e bochechas rosadas. — E- Eu vou parar de chorar agora.
O ruivo apenas continuou a olhando, mas assentiu por fim.
–Tudo bem.
E Lyra não soltou sua mão até que chegassem ao fim da casa. Bom, não que ele se importasse muito, as mão dela tinha um quente agradável.
–-
Ele percebeu, sem muita dificuldade, que Lyra era o tipo de pessoa que se apegava muito fácil.
–Silver-kun!
Ele piscou e olhou para trás.
–Lyra? — Perguntou quando ela o alcançou. A morena pôs as mãos nos joelhos e tentou recuperar o fôlego.
–Que bom… Que eu te achei…!
–Aconteceu alguma coisa?
–Ah, bem… Não é nada grave, não se preocupe.
–Então, pra quê precisa de mim?
–Você vai ver! — E agarrou sua mão, o puxando logo em seguida. Silver quase tropeçou, mas manteve o ritmo.
Meia hora depois, estava com uma casquinha de sorvete nas mãos e a encarava, sério. Moveu seu olhar para a morena a sua frente que comia a dela alegremente.
–... Lyra?
–Hm? — Ela respondeu, desviando sua atenção do sorvete.
–Você me chamou só para… Tomar sorvete?
–É!
Silver continuou a encarando e a morena piscou, confusa.
–Não seria melhor ter convidado o Gold ou a Crystal?
Silêncio se seguiu. Ela apoiou um dos dedos no queixo e inclinou a cabeça. Ele esperou.
–... Não acho que é questão de ser melhor? Digo, quando eu soube dos sorvetes de Goldenrod, você foi a primeira pessoa que passou pela minha cabeça.
Seus olhos prateados se arregalaram levemente.
–... Por que?
–Porque nós somos amigos, ué. — Ela respondeu sem hesitar, como se fosse a coisa mais fácil do mundo. — E eu gosto de você, Silver-kun!
–-
–Espera!
–Lyra, agora não!
–Mas por que?!
Ele parou e se virou para encará-la. Lyra o estava seguindo desde que saíra do laboratório do Professor Elm e naquela altura, eles já estavam em Azalea Town.
Ela era tão persistente.
Lyra sempre, sempre, sempre fazia questão de segui-lo para onde fosse. Não importava quantas vezes ele a dispensasse, ela não desistia.
–Porque não precisa vir comigo, eu consigo me virar sozinho.
E ainda assim… Mesmo que ele continuasse a dizer não, algo dentro dele o fazia sentir um pouco de arrependimento por isso.
–Eu sei que você consegue! Nunca duvidei de você.
–Se é assim, não se preocupe e volte para New Bark.
–Espera!
Ele continuou andando.
–Silver-kun!
E apertou o passo.
Junto desse arrependimento, surgira um estranho medo de que um dia ela atendesse os seus pedidos.
–Silver-kun!
O garoto não entendia, depois de um tempo que a conhecera e a morena se aproximara dele, ele ficava muito confuso perto dela. Não entendia algumas ações que sentia vontade de ter quando Lyra estava por perto, tão pouco os pensamentos que o assombravam.
–Silver!
As mãos pequenas dela agarraram a sua direita com força e ele parou outra vez.
Tê-la segurando sua mão — fosse para arrastá-lo para algum lugar, para lhe chamar a atenção, para se sentir mais segura quando estava com medo — já havia se tornado um hábito. Ao ponto que ele não sentia vontade de recolhê-la uma vez que ela entrelaçava seus dedos aos dele.
Ele virou o rosto lentamente e suas orbes prateadas encontraram com olhos castanhos expressivos.
Lyra apertou sua mão.
–Eu não vou embora.
A morena estava de cenho franzido, determinada. Ele encarou aos mãos dela por alguns segundos, percebendo como elas pareciam ainda menores perto das suas.
Silver suspirou.
–Posso saber por que, então?
A pergunta pareceu pegá-la de surpresa, pois arregalou os olhos e ficou olhando para os lados. Ele esperou, ainda a encarando e isso pareceu fazê-la perceber que não tinha escolha.
Lyra olhou para baixo, triste.
–Você tá sempre tão sozinho, Silver. — Ela não usara o honorifico, foi a primeira coisa que ele percebeu. A segunda foi o tom dela que mudou drasticamente. — E eu não entendo.
O ruivo permaneceu calado.
– Você é gentil, ajuda quem precisa… — Ela olhou para suas mãos. — Então, eu não entendo porque você insiste em se isolar. Digo, você briga com o Gold quase sempre, mas você não o odeia, não é?
Bem, aquilo era verdade. Gold era irritante ás vezes, mas ele não tinha motivos para odiá-lo.
O ruivo percebeu que ela o encarava esperando por uma resposta, por isso assentiu.
–Foi o que eu pensei. — Ela murmurou. — ...Eu realmente não entendo.
–Não tem o que entender… — E virou o rosto. — Eu apenas me viro melhor sozinho.
–Mas eu não quero te deixar sozinho! — Lyra exclamou e bateu sua testa no ombro dele, empurrando-o para trás um pouco.
O ruivo piscou por ter sido pego desprevenido e encarou a morena, sentiu algo faiscar dentro de si quando percebeu que as orelhas dela estavam tão vermelhas quanto seu cabelo.
Então era por isso que ela estava escondendo o rosto, não é…
Silver suspirou.
–Teimosa.
Lyra o olhou, incerta. Ele não a olhava de volta.
–Tá bom, já que você quer tanto, eu não vou te impedir.
A morena se afastou e sorrindo abertamente para ele.
–Un! Obrigada, Silver…! — Ela corou outra vez e cobriu a boca com uma das mãos. — ...K-kun! Silver-kun! Des… Desculpa.
Ele deu as costas para ela.
–... Pode me chamar como quiser…
E voltou a andar. Ela o observou se afastar e deu um pequeno sorriso, percebendo por si mesma, o avermelhado que aparecera nas orelhas dele — quase imperceptíveis por causa de seu cabelo.
– Espera por mim, Silver!
Foram tantas as vezes que ele a empurrara, que ele se afastara… E em cada uma delas, Lyra insistiu em continuar segurando suas mãos. Em continuar junto dele, em lhe fazer companhia, em lhe dar suporte.
E naquele momento, mesmo que parecesse que fosse ela que estava procurando por tudo aquilo, sua presença já era mais do que suficiente para o ruivo. Ele não podia se dar ao luxo de perder a cabeça outra vez, ainda mais com a vida dela em jogo também.
–...Silver. — Ela murmurou, mas o ambiente estava tão quieto que não foi difícil ouvi-la e parou de andar, fazendo com que ele parasse também.
O ruivo se virou para ela, ligeiramente confuso em meio a sua exaustão.
–O que foi, Lyra…?
Ela demorou mais um pouco até finalmente falar.
–Cadê o Green-kun? — A pergunta fez os olhos prateados de Silver se arregalarem e ele olhou para a direção onde o mais velho estivera.
Nada. Nem sinal dele.
Silêncio.
–Eu não acredito… — Ele murmurou enquanto a morena o olhava, preocupação nublando seus olhos castanhos.
–-000--
–Não, não, não… — Crystal murmurou para si mesma sem parar enquanto segurava seu casaco no peito do garoto caído a sua frente. O tecido amarelo tornava-se mais avermelhado a cada vez que ela tentava o ajeitar melhor sobre Gold.
Suas mãos tremiam e seus batimentos estavam tão desregulados ao ponto de começarem a afetar sua pressão e sentidos. Ela não tinha certeza se era por isso ou por causa das inevitáveis lágrimas que sua visão começara a falhar. Talvez os dois.
–... V- Vai com calma que tá doendo, Crys… — A morena o ouviu falar em um filete de voz e sentiu mais lágrimas se formarem. Como raios ele conseguia falar como se só fosse mais um machucado de quando ele se metia em alguma confusão e ela tinha que fazer os curativos?
Aquilo não era uma machucado bobo. Não era só desinfetar e colocar um band-aid. Como ele se atrevia a ficar sorrindo numa hora dessas?!
–Idiota… Idiota! — Falou um pouco mais alto que antes, lutando contra o sangue que insistia em tingir seu casaco cada vez mais.
–Qual é, Crys… Não precisa chorar... — Gold falou. — Não parece... Com você...
–Eu posso chorar se eu quiser! — Ela repreendeu e as gotas finalmente caíram quentes pelas suas bochechas. — E para de falar! Você tem que fazer o mínimo de esforço possível!!
–Pode deixar, Doutora. — Brincou e tossiu logo depois. O filete vermelho que escorreu pelo canto da sua boca foi a gota d’água para Crystal.
–Por que você tá sorrindo?! — Ela exclamou, sentia seus dedos molhados e quentes, seu casaco já não conseguia absorver mais do que aquilo e o sangue começou a manchar sua pele. A noção disso a estressou ainda mais. — Seu idiota! Por que?! Por que você fez isso?!
O sorriso do moreno desapareceu aos poucos e seus olhos dourados, outrora mais brilhantes, apenas a fitaram deixando que ela continuasse seu monólogo.
–Por que você é tão imprudente?! Será que você sequer tem noção que tem praticamente um buraco no seu peito?! — Ela retomou o fôlego. — Isso tá te fazendo perder muito sangue, Gold!
Explotaro estava encolhido ao lado do seu treinador, mas não fazia um único som, apenas continuava ali parado. Archy estava ao lado de Crystal e também mantinha-se quieto, ele podia não ter tido a melhor das relações com o garoto, mas ele tampouco queria que Gold morresse.
–Você quer morrer, por acaso!?! — Ela berrou por fim, não aguentando mais e pouco se importando se os Unowns iam ouvi-la ou não. — Por que você se jogou na minha frente?! Por que você foi tão idiota!?!
Agarrou o tecido do casaco com força, resistindo a tentação de dar ao moreno o soco que ele tão merecia no momento. Suas lágrimas caíam em total desarmonia com seus batimentos, com seus soluços, nada dentro de si parecia trabalhar em conjunto.
Todo o peso daquela situação pareceu cair em seus ombros no momento que ela percebeu o garoto no chão, uma mancha vermelha lentamente se formando por baixo de seu casaco. Crystal sentia como se fosse partir a qualquer instante.
Um toque, no entanto, uma mão sobre as suas a puxou de volta de seu desespero e ela voltou a olhar para o rosto do moreno. Ele sorria.
–Eu acho que… Foi para que você não ficasse assim...? — Gold falou, sua voz cada vez mais fraca.
A morena quase sentiu vontade de berrar outra vez.
Ela sabia. Ela sabia que aquela seria a resposta dele. Gold era tão idiota, tão descuidado. Ela estava com tanta raiva dele, com raiva por ele se importar tanto com ela, com raiva dele não pensar duas vezes em se usar como escudo para protegê-la e com raiva por ele estar disposto a desistir da própria vida pela dela.
–Foi mal, Crys… Eu não gosto da ideia de ter ver machucada.
–Idiota…! — Ela chorou e moveu suas mãos para segurar a dele. — Idiota, seu idiota!! Imbecil! Estúpido!!
–Não chora, Crys…
–Cala a boca!
Gold continuou sorrindo.
–Eu não sei... O que fazer quando você chora, Crys… — E tossiu, mais vezes que antes. A garota levantou a cabeça e o encarou. Ele estava com o cenho franzido, mas quando percebeu que ela o olhava, deu um dos seus famosos sorrisos confiantes.
O lábio inferior da morena tremeu, sua garganta ardia e sua cabeça começava a latejar. No fundo, ela só desejava que aquilo fosse um pesadelo.
Mas não era.
Era real.
O calor se esvaindo do corpo de Gold era real, o sangue em seus dedos era real, os olhos foscos dele eram reais.
Tudo era real.
–Ei, Crys.
Ela o olhou. Ele a olhou de volta, seu sorriso parecia calmo demais, nem um pouco do feitio dele.
–... Sorri pra mim?
Silêncio.
Crystal fechou os olhos com força e balançou a cabeça.
Ela não gostara daquele tom.
–Crys…
Balançou a cabeça outra vez.
–... Por favor?
E parou.
Crystal encarou as suas mãos entrelaçadas as dele, ela as segurava com tanta força, como se aquilo bastasse para mantê-lo vivo.
Respirou fundo.
Enquanto movia suas bochechas, podia sentir a pele afetada pelas lágrimas secas, mas que continuava a ser molhada pelas novas que saíam de seus olhos e não pareciam ter fim. Gold merecia o melhor sorriso que ela pudesse dar no momento, então deu o melhor de si para que seus lábios não tremessem.
Como se fosse uma brincadeira de mal-gosto, sua visão clareou naquele momento e ela pode ver o rosto do moreno a sua frente quase que perfeitamente.
Crystal sorriu.
Filetes claros escorriam pelos olhos dourados que ao poucos perdiam seu brilho, o garoto soltou o que parecia uma meia risada.
–...Valeu, Crys… — Voltou seu olhar para os olhos dela. — Isso vai parecer brega… Mas seu sorriso é o meu favorito…
Logo depois, seus olhos ficaram opacos e seus dedos se soltaram dos dela.
A garota abaixou a cabeça e a encostou no peito de Gold, sorrindo durante todo o movimento.
Apenas seu choro pôde ser ouvido pela floresta seca.
–-000--
Green amaldiçoou pela décima quinta vez em pensamento.
Sua mente era a única coisa que parecia funcionar no momento, já que seu corpo estava mais para um peso morto. Ele estava lento, mas não conseguia ir mais rápido nem se quisesse, suas pernas não o obedeciam, era quase um milagre que elas ainda andassem.
O garoto sempre tivera orgulho da sua força de vontade de aço e talvez fosse ela que ainda o mantivesse são no momento, mas ele conseguia sentir suas energias se esvaindo aos poucos.
“Cuida do Silver pra mim, tá bom?”
Fechou as mãos em punhos com força.
Enquanto acompanhava Silver e Lyra, ele tinha prometido para si em pensamento que o mínimo que ele podia fazer por Blue era de fato tomar conta do seu irmão mais novo e impedir que acontecesse com ele o mesmo que acontecera com a morena. Ainda mais em um lugar tão hostil quanto aquele.
No entanto…
Lá estava o líder de ginásio, no meio do nada e sozinho. Tinha perdido os dois de vista, de uma única vez.
Ele se sentia tão inútil. Não salvara Blue, não salvara Silver, não salvara Lyra, não conseguira e não conseguiria salvar ninguém.
Green percebeu lentamente que aço era muito mais fácil de quebrar do que ele imaginava.
Ouviu um som estranho atrás de si e quando olhou para trás, percebeu dois Unowns flutuando há alguns passos dele. Eles giravam entre si, com seus olhos vermelhos parecendo brilhar fantasmagóricos, num movimento quase hipnótico.
Ou de fato, pois seus olhos verdes não conseguiram se desviar deles, nem quando ambos os Pokémons psíquicos começaram a brilhar, preparando seu ataque.
–Um fim merecido, eu suponho.– Uma parte de si pensou.
E fechou os olhos no momento que eles atiraram.
–-000--
Lyra fungou mais uma vez e usou suas mãos para limpar as lágrimas que ameaçavam se formar.
–Pode chorar se quiser, Lyra. — Ela ouviu o ruivo falar enquanto ainda segurava firmemente a sua mão.
Ela comprimiu os lábios.
–... Eu estou bem, não vou chorar. — Respirou fundo. — Eu prometo.
–Não é algo que você precise prometer.
–Mesmo assim…
Ela o ouviu suspirar e encarou suas mãos conectadas.
–... Você é tão forte, Silver… — A morena murmurou. — Não fica chorando que nem eu…
Silêncio.
–Eu chorei agora a pouco, esqueceu?
–Mas não era culpa sua, já que… — Não conseguiu terminar a frase. — Digo, era natural que você chorasse…
Sem resposta.
–Só que você se recompôs, está aguentando… Eu não consigo parar de choramingar.
Mais silêncio.
–... Desculpa. — Lyra murmurou e abaixou o olhar, encarando seus pés.
Sentiu seus olhos ficarem molhados de novo e se xingou em pensamento, mas o aperto que recebeu da mão de Silver a fez parar por um momento.
–Eu só consigo porque você está aqui comigo.
Ela arregalou seus olhos castanhos e levantou a cabeça, encarando as costas do ruivo.
Sentiu um pequeno sorriso tremer em seus lábios.
–Sil…
Ele parou de andar de repente e aquilo a interrompeu.
–... Silver?
–Droga… — A morena o ouviu chiar baixinho e olhou por cima do ombro dele.
Parado a frente dos dois, flutuando suavemente, estava um Unown.
Lyra arregalou os olhos e se virou rapidamente na direção de onde tinham vindo andando, talvez eles pudessem fugir…
Mas parou.
Atrás deles, estava outro Unown, flutuando da mesma forma.
Aos poucos, mais dos Pokémons psíquicos apareceram e começaram a rodeá-los, flutuando mais rápido que os dois primeiros, formando uma barreira silenciosa e ameaçadora.
Não havia escapatória. Eles estavam presos.
Por coincidência, Lyra apertara a mão de Silver no exato momento que ele apertara a sua.
“Eu só consigo porque você está aqui comigo.”
Era irônico, a garota se deixou pensar. Apesar de alegar que não parava de chorar, a única coisa que ainda lhe dava forçar para continuar andando e não se render ao medo era ele, mas ao mesmo tempo era ela, tão medrosa e pequena, que o motivava a seguir em frente também.
Quando foi que ficaram tão dependentes um do outro? Lyra não sabia.
A relação dos dois começou tão breve, tão de repente e aos poucos foi crescendo.
Era ela empurrando ele para um lado, era um sorvete compartilhado, era ele encobrindo suas mentiras quando se metia em alguma confusão, eram os dois passando uma tarde de verão descansando embaixo de uma árvore, era ela o usando como escudo, era ele a carregando nas costas quando torcera o tornozelo…
Eram os dois desejando cada vez mais a presença um do outro, arrumando desculpas para se verem…
Até o ponto que estarem juntos parecia mais natural do que estarem separados.
Lyra abriu um pequeno sorriso enquanto lágrimas desciam por seu rosto.
–Ei, Sil. — Ela o chamou e o tom fez com que ele prestasse atenção imediatamente.
–... Hm?
–Você tem medo de morrer?
Silêncio.
–Não sei… Nunca parei para pensar nisso.
Ela segurou o riso. Já esperava uma resposta assim dele.
Os dois Unowns de antes começaram a brilhar.
–Eu tenho… Muito até… — A garota encostou suas costas nas dele. — Mas é estranho… Com você aqui, eu não sinto tão medo…
Os olhos prateados dele piscaram algumas vezes antes de se fecharem e ele se encostou a ela também, segurando sua mão com firmeza.
–...
Os Unowns dispararam.
–Eu também. — Ela o ouviu murmurar antes que tudo ficasse branco.
–-000--
Ele imaginou que levar dois tiros simultaneamente lhe causaria muita dor, mas na verdade, Green não sentia nada. Ele apenas continuava ali, parado, de pé.
Literalmente.
Franziu o cenho, confuso. Quando abriu seus olhos — lentamente -, esperou seu cérebro registrar o que acontecia e quando ele o fez, congelou.
Continuou abrindo seus olhos até que ficassem arregalados.
Uma Clefable estava em cima dos dois Pokémons psíquicos — e que pareciam desacordados — enquanto uma de suas patinhas ainda brilhava.
Atrás dela, estava uma garota de longos cabelos castanhos, estatura média e esbelta, mesmo que seus braços tivessem alguns arranhões e seu pé direito estivesse numa posição que alegava que estava mancando.
Ela virou o rosto para encará-lo e Green foi inundado por duas piscinas profundas de azul.
Não podia ser…
–Por que raios você ficou parado aí? — Blue resmungou com o cenho franzido.
A vida é tão
surpreendente que nós
ficamos pasmos
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