The Lost Hope
2 Madeline
Notas iniciais
Acordo com o barulho do despertador. Levanto-me da cama com dor nas costas, pois infelizmente o colchão cedido é duro demais. Acordo com o barulho do despertador. Levanto-me da cama com dor nas costas, pois infelizmente o colchão cedido é duro demais.
Mas poderia ser pior, eu poderia ser uma das quais recebeu o destino de morrer jovem.
Vou até o pequeno banheiro cinza (que, aliás, é cor predominante no quarto. Paredes, cama, escrivaninha e até a porta é cinza.)
Lavo o rosto, escovo os dentes e prendo meu cabelo preto em um rabo de cavalo, conforme mandam os militares. Encaro-me no espelho, lembrando que certa vez minha mãe dissera que eu tinha descendência asiática. Percebo isso nos meus olhos, que são um pouco mais miúdos do que o do resto do pessoal. Minha pupila está dilatada, tomando conta de quase todo o castanho da íris.
Encaminho-me para o quarto, visto o macacão vermelho de magas longas (que não combina em nada com minha pele cor de café com leite), que é o uniforme de todos.
Olho no relógio e vejo que ainda faltam cinco minutos para o café da manhã. Então resolvo pegar novamente a carta, a carta que contém meu destino.
Apesar de já conhecer cada linha daquilo, eu a releio todos os dias, como se pudessem mudar magicamente.
Senhorita Madeline, destinada a se casar com Dixon aos vinte e um anos ,ter dois filhos e passar o resto de sua vida cozinhando, limpando e exercendo seu papel de mãe.
Até aqui tudo bem, sempre quis me casar (claro que não muito nova, quero dizer, tenho vinte anos, mais um a me caso) e constituir uma família verdade, militar, Agora virá a parte que mais odeio, a que desejo todos os dias que esteja diferente.
Quando completar 25 anos e três dias,deverá matar seus próprios pais à facadas.
Após tantos anos, ainda me choco com essa parte. No inicio eu chorei, pensei em me matar, em fugir e até em protestar, mas com o tempo só sobrou a ira. Um governo não pode ter tanto poder assim, é desumano. E, sinceramente, matar meus pais? Quando li a carta, pensei que fosse erro de digitação, mas não “O governo nunca erra”, diz um dos bordões dos militares.
O despertador apita novamente, me avisando que meus cinco minutos já se acabaram. Pego então a chave e saio do quarto, andando pelo longo corredor lotada de quartos iguais ao meu e pessoa uniformizadas.
Em meio ao mar de gente, os rostos que vejo todos os dias (e que não aparentam serem muitos anos distantes de minha idade) me deixam passar desapercebida, e eu agradeço. Quero dizer, aqui somos todos iguais, todos jovens que abandonaram suas famílias aos 18 anos (conforme a ordem do governo) cujo destino é se casar e ter uma família, continuar o ciclo da vida. Começamos a descer as escadas, degrau por degrau.
– Oi, Madeline. – Diz Dixon
– Ah, oi.
– Como foi sua manhã?
– Garoto, ela acabou de começar.
Dixon sempre foi meu amigo,por isso não reclamei quando recebi a notícia de que iriamos ser casados. Não que eu o amasse, mas antes se casar com alguém que nunca te faria mal do que com alguém que mal conhece.
Nem preciso olhar para trás para saber como ele está, aposto que seus cabelos loiros estão despenteados, e que os olhos cor do mar estão focados na frente, concentrados no caminho. Também aposto que o zíper que corre o macacão está mal arrumado, resultado da pressa e do sono. Aposto também que seus óculos estão tortos e que ele está se encolhendo para falar comigo, resultado de seus 1,85 de altura.
Ele arruma um espaço para andar do meu lado, e está igualzinho ao imaginado.
– Entre tantos andares a gente tinha que ficar logo no último? O governo poderia colocar um elevador,porque descer até o térreo todos os dias já está me deixando com raiva. — Reclama Dixon
– Por que não sugere isso em seu chá da tarde com o presidente? -Falo
– Claro. Será que ele prefere camomila ou hortelã?
Dou um sorriso, mas não rio. Faz muito tempo que não faço tal coisa.
– Será que eles vão nos deixar comer mais hoje? Estou morrendo de fome. — Dixon fala, encarando o teto. Quase tropeça em um degrau.
– Se lembra da regra? " Uma maça,uma xícara de café e meio pedaço de pão"
– Um absurdo.
O encaro,falar mal do governo,mesmo que seja em uma conversa informal com seus amigos ou familia é algo completamente errado e criminoso,é pedir para morrer.
– Shhh — Falo,tapando a boca dele
– Quer nos ver mortos?
– Acho que não é possível se ver morto,quero dizer, já vou estar morto.
Dou um tapa brincalhão em sua cabeça,permanecemos o resto do caminho em silêncio
Ao chegar no andar térreo, que consiste em um enorme refeitório, Dixon e eu pegamos nossa porção de comida e nos sentamos à enorme mesa de aço.
Do outro lado da mesa está Bellaiz, uma vizinha da época em que ainda morávamos com os pais. Ela é o que chamam de “garota fantástica”, ruiva, olhos verdes, magra e curvilínea, não há um só garoto nesse lugar que não repare sua presença, porém nem isso a livrou do destino. Apesar de ser expressamente proibido comentar sobre seu destino, algumas pessoas confiam o bastante nas outras para contar, e acho que até o dia de hoje o governo nunca ficou sabendo disso. Certa vez, a garota estava chorando , desesperada, penso que ela só precisava de alguém para desabafar, então sem mais nem menos ela me agarrou pelo braço e contou tudo: Estava destinada a se casar, porém dois meses depois ela seria jogada do lado de fora dos muro e cercas de proteção do complexo, viveria nas ruínas do mundo e, alguns anos depois, quando seu corpo já estivesse esgotado de viver nos limites, cometeria suicídio.
Mas,olhando para essa garota alegre em minha frente, é difícil acreditar que recebera tal destino.
Mordo um pedaço do pão, seguido por um gole de café.
– Vai comer sua maçã? – Indaga Dixon
– Pare de ser esfomeado, acabou de comer a sua.
– Não sou esfomeado.
– É sim, não sei como continua magro.
Ele faz uma careta
– O governo quis assim, então quem sou eu para contrariar?
Mordo mais um pedaço do pão.
Os auto falantes do refeitório chiam, seguidos por uma voz que nos avisa que , em cinco minutos, começaremos nossas atividades matinais. Engulo o resto da comida, juntamente com a maçã. Me levanto e saio do prédio, indo até o pavilhão do lado de fora.
O lugar onde moramos é estranho: De um lado ficam as casas, onde vivem as famílias e jovens até os dezoito anos, do outro lado, fica o complexo militar, onde ficam os jovens treinados para a batalha e, no meio, ficam o prédio e o pavilhão para os jovens que são treinados para a família, jovens como eu.
Entro no pavilhão cinza, depois entro em uma das salas (sim, é um pavilhão, e tem salas) e dou de cara com fogões, comida e tudo o que é preciso para cozinhar, já que a aula é de “cozinha – nível três”.
– Está atrasada. – Diz a Sra.Lattymore.
Sra. Lattymore é uma mulher baixa, de uns cinquenta e poucos anos. Seus cabelos são brancos, e seu rosto miúdo fica quase escondido por conta de seus enormes óculos.
– Não estou – Digo, olhando para o relógio na parede – Ainda falta um minuto.
– O governo pune quem o desafia.
– Chegar um minuto adiantada é um desafio?
– Bater boca é um desafio. Agora vá se sentar, hoje aprenderemos a fazer uma ceia de natal.
* * *
Minha ceia tinha tudo para ser perfeita e ganhar o prêmio, não fosse o peru "sem sal", como disse a Sra . Lattymore.
Saio do pavilhão e passo o resto do dia atarefada com as coisas que nos treinam para a família, no fim do dia volto para o prédio e, quando o sinal de toque de recolher toca, me deito e fico remoendo algumas coisas antes de dormir.
É assim que são todos os meus dias: Acordar, tomar café, treinar para ser uma boa mulher da família,almoçar, treinar mais ainda, jantar e dormir.
Às vezes que quero fugir, mas para onde iria? Lá fora existem zumbis e outros perigos, quero dizer, sobreviver lá fora é quase impossível pelo o que o governo fala. Além de tudo, não quero abandonar minha família, mas também não quero mata-los.
Me sinto dividida, fugir e correr risco de vida ou ficar aqui e ter que matar meus pais?
Eu só não quero fugir sozinha, odeio a solidão. Se tivesse alguém junto... Mas quem? Dixon é certinho demais, nunca faria algo assim. O jeito é tomar coragem um dia desses e fugir, enfrentar o mundo.
Sem perceber,adormeço.
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