The Lost Hope
18 Madeline
Notas iniciais
— Mad! — Gritou Anna. — Mad, descobri uma coisa.
Desligando a torneira da pia, olhei para a garota. Morávamos aqui há mais de um mês e, como previsto, a parte da limpeza e da comida sempre sobrava para mim. Jessie e Anna bem que tentavam ajudar, mas nunca era do jeito que eu desejava, talvez fosse algum tique de minha parte, mas enquanto eu pudesse fazer o serviço sozinha, eu o faria.
— O que foi dessa vez? — Indaguei, desencostando-me da pia. — Viu alguma aranha?
— Nossa, que engraçadinha. — Anna disse, mostrando-me a língua.— Não é minha culpa se acordei às três da manhã com uma aranha bem na minha cama, prestes a ceifar minha vida.
— Ceifada sua vida ficará se não desembuchar logo. — Zombei. — Agora me conte logo.
— Ok. — Disse, suspirando. — Eu estava escutando Jessie e Will conversando e...
— Desde quando escuta as conversas alheias?
— Cale a boca e deixe-me contar! — Ela disse, lançando um pano de prato em minha direção. — Ela disse que depois de amanhã é o aniversário dela.
— Depois de amanhã?
— Sim. Pensei em fazermos algo para ela, sabe? Um presente ou, no mínimo, descobrir a comida favorita e coloca-la na mesa de jantar.
Pensei por um segundo.
— Precisamos de bolo. Nenhum aniversário é completo sem bolo.
— E refrigerantes.
Seria bem legal se comêssemos bolo com sorvete. — Anna disse, umedecendo os lábios com a língua. — Meu Deus, isso deu fome.
— Bolo de chocolate e sorvete de creme. Que tal?
— Seria perfeito! — Minha amiga gritou, animada. — Mas precisamos guardar segredo.
— Minha boca é um túmulo, mas precisamos nos organizar.
— Você faz o bolo, com toda a certeza. — Anna diz. —Eu posso fazer algo na decoração ou procurar um presente. Will poderia arranjar os ingredientes.
Abri uma das gavetas da cozinha e tirei de lá papel e caneta.
— Vou começar com a lista agora mesmo.
— Acrescente chapéus de aniversário com estampa infantil.
Lancei a ela um olhar de reprovação.
— Chapéus infantis para a Jessie? Tem certeza de que estará usando colete a prova de balas?
— Ok, não foi uma ideia muito boa. Mas seria legal. — Resmungou. Rindo, continuei a escrever os materiais e ingredientes necessários para a festa e seu bolo.
— Sabe o que mais seria legal? — Sugeri, fazendo minha amiga para de devanear com o que quer que estivesse passando por sua mente. — Frango. Um enorme frango acompanhado de molho de pimenta.
— Você e seu vício por frango. — Suspirou Anna. — Mas seria legal se tivesse frango na janta. E, talvez, você pudesse fazer lasanha de frango...
— E talvez eu pudesse ficar de vela no meio da mesa enquanto você e Kaden conversavam ao lado de Will e Jessie. — Falei.
— Espere, você quer que Kaden venha para o aniversário de Jessie? E não namoramos, ou seja, seriámos eu, ele e você como velas.Melhor dizendo, seríamos um castiçal inteiro.
— Me engana que eu gosto...
Anna bufou.
— Ah, cansei. Termine a lista sozinha. — Falou, descendo da cadeira em que estava sentada.
Apenas ri e continuei a me concentrar na lista. A sugestão de sorvete de creme não fora à toa, minha mãe sempre fazia bolo e sorvete de creme no meu aniversário. Como uma onda, a nostalgia e a saudade me invadiram. Como estariam meus pais? E Dixon? Meus olhos já estavam marejados, então forcei-me a pensar em outras coisas. Não queria chorar, não queria ser fraca. Fiquei encarando os azulejos brancos da parede da cozinha, que faziam um belo contraste com o tom amarronzado dos móveis. Apoiando a cabeça nas mãos, fechei os olhos e guiei-me para o meu aniversário de doze anos, quando entupi-me de bolo e passei mal a noite inteira. Eu desejava, mais do que tudo, ser aquela garotinha novamente
* * *
— Anna, cuide do bolo enquanto eu tomo um banho? — Falei,
agitada.
Dois dias haviam se passado desde que eu e Anna começamos a planejar a festa de Jessie. A aniversariante estava distante ultimamente, como se vivesse em seu próprio mundo. Não ria das piadas de Anna ou de minhas gracinhas, passava o tempo todo estudando táticas de defesa e, nas poucas vezes em que Will tinha para nos visitar, conversando com ele.
— Quando devo tirar o bolo do forno? — Indagou a garota.
— Daqui a cinco minutos, no mais tardar. Não precisa fazer nada, só desligue o forno e deixe-o lá dentro que depois termino a decoração.
— Pode ficar tranquila, cuidarei dele como cuido de minha vida.
— Pobre bolo... — Sussurrei, recebendo um olhar reprovador de Anna. — Vou tomar o banho agora.
— Vai logo.
Em um minuto, já estava despida ligando o chuveiro. A água quente era relaxante, como chocolate quente em um dia frio. Se eu fechasse os olhos e me concentrasse, poderia imaginar que essa era apenas mais um banho no complexo familiar e que, após termina-lo, encontraria Dixon com os óculos desalinhados no meio do corredor. Alcancei o sabonete e, logo após me limpar, lavei os cabelos com o xampu, tudo muito cheiroso. Entretanto, um cheiro de queimado interrompeu minha aura de paz.
— Anna? — Gritei, desligando o chuveiro. — Anna!
Um estrondo dominou o apartamento, como panelas caindo. Preocupada, vesti meu roupão e enrolei a toalha nos cabelos antes de sair do banheiro.
— Anna Carol? — Chamei novamente.
— Pode voltar ao banho, Mad. Está tudo sob controle. — Ouvi sua voz.
Ainda não convencida, caminhei até a cozinha. Arrependi-me amargamente.
O bolo, antes todo fofo e com belo aspecto, estava agora queimado.
— O que você fez? — Indaguei, com a voz trêmula.
— Nada!
— Anna...
— Ok, vou ser sincera. Eu coloquei mais fermento, aumentei a temperatura do forno e deixei o bolo por alguns minutos a mais. Mas tudo isso tem justificativa.
Estiquei as mãos e agarrei a forma. O bolo não era mais comestível,por assim dizer, estava arruinado.
— Eu só pedi para que desligasse o forno. — Falei, exaltada.
— Você não é minha mãe, abaixe o tom de voz. — Anna disse, despreocupada. — Vai mesmo discutir com uma droga de bolo? Se é esse o problema, eu procuro os ingredientes e você faz o que quiser com eles.
— Eu não quis gritar. — Falei, apoiando-me na bancada. — Mas é o bolo da Jessie. Ela merecia algo bom.
— Nós podemos fazer outro. — Anna sugeriu,animada.
— Nós não, mocinha. — Proclamei em tom de brincadeira. — Você ficará bem longe da cozinha. Cuide da decoração.
— Ok, ok. Agora pelo menos vá se trocar, não vai cozinhar de roupão.
— E você não vai fazer a decoração com fuligem no rosto.
Anna passou a mão pelo rosto, percebendo tarde demais que era uma brincadeira.
— Me aguarde, Madeline. A vingança chegará de jatinho particular.
— Aposto que sim.
* * *
Anna abriu a porta de entrada do apartamento rapidamente. Ofegante, precisou de alguns segundos para que pudesse falar.
— Jessamine está chegando. — Falou, apoiando-se em seus joelhos. — Rápido, se escondam.
Abaixei-me atrás de uma poltrona e, atrás do sofá ficaram Kaden e Anna. Will abaixou-se e cobriu-se com a cortina, seguido de Tyler. Anna convidara pessoalmente todos eles enquanto eu terminava o bolo.
Em silêncio total dentro do apartamento, todos fomos capazes de escutar o tilintar das chaves de Jessamine. Ela ficara o dia todo fora, Will inventara algo para que ela pudesse se afastar do apartamento e não desconfiar da festa.
A porta abriu-se, em seguida as luzes se ascenderam. Nesse momento, todos nos levantamos.
— Surpresa! — Gritamos em coro. — Feliz aniversário, Jessie.
Eu esperava que Jessie corasse, gritasse ou até mesmo risse, mas o que aconteceu em seguida foi indescritível. No batente da porta, seu rosto se empalideceu como se tivesse visto mil e um fantasmas. Não sabia o que ela faria em seguida, mas tomasse como base sua expressão...
Bom, a festa teria sido em vão.
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