The Losers plays it.
3 III- I want you She's so heavy
Notas iniciais
III
I want you (She’s so heavy)
I want you
I want you so bad
Roger tentou me alegrar o trajeto todo, algumas vezes funcionava. Outras não. Mas assim que coloquei os pés no prédio dos rapazes, me senti bem melhor do que estava quando deixei a minha casa, com a promessa de mandar cartas, afinal tinha o endereço novo de minha mãe agora.
–John foi trabalhar. – Roger me avisou, abrindo a porta logo abrindo a porta do apartamento 504.
Quinto andar. E aquela merda não tem elevador.
O lugar era incrivelmente pequeno. Assim que abri a porta, vi a sala de serviço e a cozinha à minha direita, a sala logo a frente e um pequeno corredor te levava par o banheiro e o quarto. Fim.
–Hm... Deixa que eu levo a suas... Mochilas. – Roger disse, pegando a bagagem de mão e minha mochila escolar e praticamente jogando-as no quarto. Não disse nada. Roger fazendo uma boa ação era algo que não deve ser interrompido. – Está tudo bem mesmo?
–Claro que está, Uncle Sam*. – O provoquei, beliscando sua barriga.
–Uncle Sam, é? – Ele aproximou a mão da minha cintura, o desgraçado sabe que eu tinha cócegas. Bati na palma de sua mão, mas ele não desistiu. Trouxe meu corpo para mais perto e passou a ponta de seus dedos pela minha cintura, enquanto eu gritava ria. – I want you to U.S.Army! –Ele riu. Como uma pessoa exagerada que eu sou, comecei a escorregar entre os braços de Roger e puxei sua gola para baixo, junto com meu corpo. Logo, nós dois estávamos no chão, fazendo cócegas um no outro e rindo como retardados.
–Não! Chega! – Ri – Já deu, Americano. Já deu!
Cai no chão com ele ao meu lado, rindo vez o outra e respirando com força.
–Deus! Até quando vocês vão me chamar de Americano?! – O moreno virou o rosto, deixando-o de frente para o meu. Podia sentir sua respiração alterada voltar ao normal. Perto. De. Mais. – Minha mãe é britânica.
–Você nasceu na Califórnia. Então cale a boca! – Dei um tapa de leve em seu ombro, ainda deitados no chão. Tenho um pouco de medo do fato de meu coração acelerado não ser só pelo fato de eu estar rindo e rolando no chão até agora pouco.
–Mas eu vivi apenas dois anos lá!
O pai de Roger era americano. Foi convocado para guerrear no Vietnã. Roger tinha dois anos quando ele morreu, e os dois Watsons restantes se mudaram para a Inglaterra.
Me aninhei no tórax de Roger, enquanto o mesmo passou um braço pela minha cintura e brincava com meu cabelo.
–Você não tem medo? – Perguntei. Se Roger ainda não recuou ao tocarmos no assunto “Pai/ Guerra/ Vietnã” Acho que eu posso continuar.
–Do que, Jude?
–De ser convocado. Sabe...? A guerra ainda não acabou, você é americano e maior de idade... Pode ser convocado a qualquer momento.
Pude ouvi-lo suspirar. Confesso que estava comemorando mentalmente o fato do meu coração não ser o único disparado. Mas levando em conta o quando rimos, não tem muito motivo para ficar feliz.
Pare de pensar nisso, Judy!
–Ah, Jude... Não me chamaram até agora, e ter um padrasto médico tem lá suas vantagens... – Ele abriu um sorriso de canto. – Ele assinou um documento dizendo que eu sou esquizofrênico, para o caso da carta chegar para mim. E não vão nem fazer exames. Ninguém liga para o pobre soldado que vive na Inglaterra.
Dei de ombros, sentando no chão frio.
–Ok Uncle Sam. Eu vou arrumar minhas coisas. – Me levantei e ele estendeu o braço, puxei e ele se pôs de pé.
Vinte minutos depois, John chegou no apartamento. O óculos Buddy Holly incrivelmente sexy escorregado até a ponta do nariz.
Como eu odeio esse óculos.
–Hey Judy, Hey Roger, o que tem para comer? – Perguntou. A voz rouca e o nariz vermelho indicavam um resfriado.
–Aw, meu bebê está doente? – Roger sorriu para John, que apenas revirou os olhos.
–Roger, eu se fosse você, calava a boca e começava a desenhar. Aposto que esqueceu do trabalho.
O sorriso do baixista sumiu após o que John disse. Saiu correndo pelo corredor enquanto o vocalista ria e pegava uma maçã da fruteira.
–Ai, como eu sou bandido! – Ele fez uma voz afeminada e riu, jogando a cabeça para trás e tirando os óculos. Oh não! –Judy, não quero abusar da sua pessoa, mas comer a comida do Roger é pedir para ter uma intoxicação alimentar... E eu estou espirrando como louco. Nada higiênico numa cozinha... Será que pode cozinhar para nós?
Ouvi Roger rir exageradamente, revirei os olhos.
–Sim John, eu posso. – Mais risos exagerados.
–Vamos fazer uma aposta! – Roger ainda ria quando propôs isso. – Se sua comida for melhor que a minha, eu e o John vamos de vestido para a faculdade. Promessa.
–Opa, opa! – John quase gritou. – Que história é essa?
–Calma, Johnny Boy. Se a comida dela for pior que a nossa, ela terá que...
–Dormir no sofá! – John deu a ideia, recebendo um olhar torto de Roger. – Qual é? Aquilo é desconfortável pra caramba!
–Não. Ela terá que sair com a gente. De acordo, Jude?
Concordei com a cabeça, imaginando os dois com vestidos coloridos e colados.
Ugh... Visão dos infernos...
–Combinado então. John, deixe eu copiar seu desenho, por favor...
Nós três estávamos sentados na mesa redonda. As panela com um caldo amarronzado bem no centro. Nossos pratos em volta.
–Ah Jude. Comece a rezar para ter ficado bom. – John riu.
Eu sou uma perdição na cozinha, mas mesmo assim cozinhei para os rapazes. Não poderia perder a visão dos dois rapazes vestindo vestidos. Poderia chantageá-los pelo resto da minha vida!
O vocalista se serviu primeiro, cheirou de leve a sopa e colocou no prato. Roger fez o mesmo, assim como eu.
–Lá vamos nós. Três. Dois. Um. – Contei, logo colocamos as colheres cheias dentro de nossas bocas.
John foi o primeiro a ter qualquer reação. Cuspiu a sopa. Pudera, estava horrível mesmo, confesso!
–Puta merda! – John disse, ainda tossindo. – Isso... Tá... – Mais tosses — Pior do que a comida do Roger! Sem ofensas, Judy.
Doeu, claro que doeu. Mas ninguém precisava saber, então apenas sorri e concordei.
Roger chegou a engolir a sopa, fazendo uma careta logo em seguida. Eu delicadamente cuspi no prato.
–Ah Jude... – Roger começou – Acho que você vai ter que sair com a gente...
John e ele começaram a trocar olhares. Assustador.
–Sexta. Não temos horário. Prepare algo para comer e durma logo. Saímos cedo e você tem escola amanhã. – John tentou soar responsável.
–Ok. – Fui para a cozinha. – Boa noite, rapazes.
Eu dividia o espelho do banheiro com Roger, enquanto eu passava sabe-se lá qual camada de rímel, o rapaz se barbeava. John circulava vez ou outra com uma toalha presa na cintura, como a de Roger, a minha toalha presa ao tórax.
Não. Ninguém aqui tem músculos definidos.
–Vamos logo, se não as garotas solteiras já terão par! – John bateu no pulso, indicando que estávamos atrasados. Ele correu até o quarto para se vestir enquanto eu terminava minha maquiagem.
Roger logo deixou o banheiro e eu pude terminar de secar meu cabelo. Logo depois indo para o quarto (Agora vazio) e vestindo um vestido colorido e sandálias de couro. Os rapazes já estavam na sala. Diga-se de passagem, John estava com os óculos.
Juro, se eu acabar entre os lençóis com John, a culpa é toda do óculos. E da calça boca-de-sino apertada. Bom, isso não vem ao caso.
Entramos na Kombi e John foi dirigindo. Não demorou muito para chegarmos em Liverpool.
–Hm... Divirta-se, Judy. – John sorriu, entrando na nossa frente.
Segurei o braço de Roger com força, fazendo-o parar antes de entrar no local. A noite quase sem estrelas e o poste sem luz dificultava ver seu rosto, mas aposto que ele estava rindo da minha cara de assustada.
–Vem logo, Jude. Você perdeu a aposta! – Ele me arrastou. – Não. Sem dramas.
Bufei e entrei no lugar. Uma banda tocava ao vivo num palco improvisado. Luzes coloridas para todos os lugares, um cheiro forte de maconha preenchia todo o ambiente. Algumas mesas redondas de madeira estavam nos cantos do bar enquanto várias pessoas dançavam no centro.
–Servida? –Um rapaz me mostrou um cigarro. Saltei com o susto, apenas ouvindo Roger rir.
–Se solte, Jude. Não vamos deixar você acabar nua na cama de um dessas caras. Prometemos.
–Pare de rir! – Bati em seu ombro.
Roger me arrastou até o meio do lugar, onde uma banda acabava de tocar. O moreno procurava John. Quando o achou, arrastou-o junto comigo para o palco.
–Bom Jude, só te explicando... Aqui, quem sabe tocar ou cantar, sobe no palco e faz. E como nós sabemos... – Ele sorriu. – Você sabe tocar I want you, dos Beatles, não?
Concordei com a cabeça.
–Ótimo! Depois dessa banda, iremos tocar. Bom, é isso. Não se distancie demais. Fim. – John disse, indo logo em seguida para um grupinho de garotas.
Roger revirou os olhos, disse algo que eu não entendi e me arrastou até um balcão no fundo do bar. Nos sentamos e ele disse algo para o barman, logo o mesmo trouxe uma bebida amarelada.
Eu começava a sentir tédio naquele lugar. Não me parecia uma boa ideia sair dali e ir dançar. Roger foi bebendo em seu canto, só dirigiu a palavra novamente para mim depois de um bom tempo.
–Você quer? – Neguei com uma careta.
Virou o copo garganta abaixo, fazendo uma careta logo em seguida. Deve ter pedido mais um para o Barman.
–Que diabos está fazendo? — Segurei seu braço antes de beber mais. Ele estava louco?!
–Bebendo. – Ele respondeu. – É o que alguns fazem quando estão tristes, sabia?
–O que te entristece? – Ele bebeu mais um pouco do copo.
–Jude, eu não vou bem na faculdade, tenho uma banda a caminho do fracasso, a garota que eu gosto mal tem noção disso e... Ah, eu menti para você, não tenho um documento assinado pelo meu padrasto dizendo que sou esquizofrênico. Só queria te acalmar. Aliás, por que estou contando tudo isso para você? Pois é, Jude, eu posso acabar indo para uma guerra. Isso não é louco?
Eu senti meu queixo cair, mas não fiz questão de fechá-lo. Não sabia se estava triste, com dó, chateada, surpresa ou tudo isso junto. Era informação demais sobre uma pessoa que eu julgava conhecer tão bem, mas não reconhecia quando ele estava triste!
Senti sua mão fria sobre a minha. Agora uma bebida azul estava no copo dele. Deve ter colocado tudo na conta de John. Pobre vocalista.
Dois braços envolveram minha cintura e me abraçaram. Apenas encostei minha cabeça no seu ombro, sentindo o cheiro de cigarros e creme pós barba e álcool. Suas mãos espalmaram minhas costas enquanto eu ainda tentava raciocinar algo.
–Hm... Rog... Eu acho que... Você bebeu demais... E...
–Foram só alguns copos, Jude! – Ele riu. – Está parecendo minha mãe! Ah! Eu volto logo, ok?
O moreno saiu um pouco cambaleante em para a porta, sumindo em uma multidão de pessoas, voltando um tempo depois com um pequeno objeto branco entre seus dedos, de princípio, achei que fosse um cigarro qualquer, mas ao chegar mais perto, vi que era um baseado.
Roger, por que você ama me encrencar?
–Relaxe, Jude! – Ele disse com um sorriso.
Belo sorriso, espero que continue intacto quando eu arrastar sua cara no asfalto.
Não me ache careta, leitor! Mas sabe-se lá onde John se meteu, e Roger não pode dirigir desse jeito se quisermos continuar vivos. E bom... Eu não sei dirigir.
Ele tragou o cigarro uma vez enquanto eu observava a fumaça se dissipar no ar, me ofereceu uma vez. Bom... Eu não tenho nada a perder, não é? Não sou eu que vai dirigir.
Peguei com a ponta dos dedos e os levei até meus lábios. Senti uma estranha sensação de paz, mas isso não duraria para sempre, eu sabia disso. De qualquer maneira, é algo que eu experimentaria de novo, apenas para ter a sensação de falsa liberdade novamente.
Poderia até parecer “quase” fofo nós dois conversando naquele momento. Tirando o fato que dividíamos um cigarro de maconha, tínhamos olhos vermelhos e Roger tinha um quantia considerável de álcool no corpo.
–The Losers! Aonde estão? – Sai de meus devaneios ao ouvir a voz distante de alguém. Roger apontou para o palco. John estava lá com outro homem.
Era nossa vez? Que divertido!
Fomos até o palco e eu peguei a guitarra. Era tão pesada! Não. Chega Judy. Chega. Roger pegou o baixo e John foi até o microfone. Dessa vez eu não sentia o nervosismo que eu sempre tive ao subir no palco. Talvez porque eles estivessem todos nus. Não. Ai meu Deus...
–Jude? – Roger sussurrou em meu ouvido. – Vendo todos como?
–Nus. – Eu disse. Eles apenas riu.
John fez a contagem e eu comecei a introdução. Roger logo entrou com o baixo e por fim, John cantava com uma maldita voz rouca. Pareciam estar gostando. Ou talvez estivessem apenas chapados. Jamais fiquei sabendo.
Quase gritei de alegria quando vi que eu estava acabando minha parte. Sei lá, era estranho, meus dedos doíam, de ambas as mãos, afinal, eu não tinha palheta. Eu realmente não gostava daquela sensação, mas para minha quase alegria, vou poder culpar o Roger por isso.
Fiquei sorrido que nem uma idiota quando a música chegou ao fim, esperando aplausos ou algo. Realmente pude ouvir, mas hora abafado, hora alto. John puxou nós dois para fora do palco e disse:
–Parece que se divertiram, uh?
Roger riu e depois colocou:
–Não tanto quanto você. O roxo em seu pescoço...
–Ora, então se divirtam mais! Volto para buscar vocês depois. Tenho assuntos inacabados. – Ele riu e saiu entre a multidão. Roger riu e me arrastou mais uma vez, agora para perto de uma das paredes do local.
–‘Tá se sentindo bem? Tudo tranquilo? Alguma bad trip? – Roger disse, aproximado a boca de meu ouvido para que eu ouvisse melhor.
Balancei a cabeça em concordância.
–Escuta, Jude... – Ele voltou a falar. – Eu estou bêbado, chapado, não vou me lembrar de muita coisa amanhã e com certeza vou acabar tendo uma ressaca. Posso fazer pelo menos uma coisa dessa noite valer a pena?
–Pode... Eu acho... Sei lá.
Ele aproximou seu rosto do meu, encostando nossos narizes. O que não é vantagem, nós dois somos excepcionalmente narigudos.
–Posso ou não?
–Pode. Vai logo, Roger.
Sem perder tempo, ele desgrudou nossos narizes e virou o rosto, colando seus lábios nos meus logo em seguida e apoiando suas mãos em minha cintura enquanto eu passava meus braços por seu pescoço, sentindo um frio na barriga.
–Então eu faço sua noite valer a pena? – Eu ri. Ah, se eu lembrasse de isso amanhã...
–Faz, caramba. Faz.
Devagar ele passava seus lábios entre os meus e logo sua língua pediu passagem. Era engraçado como não conseguia raciocinar muita coisa enquanto tinha sua língua quente junto à minha. Duvido muito que isso fosse efeito da maconha, assim como algumas mordidas em meu lábio inferior.
Nos separamos não por falta de ar, mas porque uma mão puxou o braço de Roger. John estava parado na nossa frente com a maior felicidade estampada na cara. E nós dois sem entender nada e de lábios vermelhos.
–Um... Um... caradaBeatRecordsadorouoquefizemoselequervertodaabandatocandojuntaachoqueconseguimosumagravadoraesperonãoterinterrompidonadanóstemosqueirparacasa – John disse eufórico.
–Para tudo, repete. – Roger disse, passando um braço pela minha cintura.
Ei, ei...
–Eu disse... Um cara da Beat Records, uma gravadora, adorou o que fizemos no palco, ele quer ver toda a banda tocando, acho que conseguimos uma gravadora. Espero não ter interrompido nada, vamos para a casa. Ah, para a sorte de vocês, eu não bebi essa noite. Hm... É isso. Vamos?
Balançamos a cabeça em concordância e fomos arrastados até a Kombi.
Lembrando ou não do que aconteceu essa noite, de certa forma, valeu a pena.
I want you so bad
It’s driving me mad
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