The Losers plays it.
5 Hunky Dory V- Queen Bitch
Notas iniciais
Part II – Hunky Dory
V-Queen Bitch
I'm up on the eleventh floor
And I'm watching the cruisers below
He's down on the street
And he's trying hard to pull sister Flo
Voltamos à estaca zero, mas ao menos tínhamos uma “quase garantia” de que se conseguíssemos um empresário, teríamos uma chance na gravadora.
O problema é conseguir o empresário.
Como eu não estava mais em aulas, trabalhava de manhã e tarde como babá de um casal de gêmeos encapetados. Harriett trabalhava em um café, Keith em um bar, Roger em uma biblioteca e bom... John continuava varrendo cabelos e ouvindo as mais diversas fofocas.
Keith era o único que trabalhava de noite, voltando apenas as 3h da manhã, o que deixava Harriett incrivelmente preocupada. Mas certa noite, o baterista realmente voltou com algo bom para falar.
–Sabe aonde eu trabalho? – Keith perguntou, a pele ainda descascando devido ao dia em Liverpool.
–Sim, sim, o que tem? – John tentou se ajeitar na cadeira. A culpa não é minha se a sunga do rapaz era curta demais. Só lamento.
–Então, lá tem umas apresentações ao vivo... Eu posso falar com o Bobby, talvez ele nos deixe tocar... Sei lá...
Um silêncio reinou na sala. Keith finalmente teve uma boa ideia. Isso realmente está acontecendo?
Roger teve a bondade de dizer algo:
–Depois de tanto tempo... Ao menos uma ideia... Meu Deus. Enfim! – Bateu as mãos – Pode falar com o Bobby? Seria adorável.
Todos começamos a rir de seu sotaque. Embora todos falássemos da mesma maneira, vez ou outra achávamos o do baixista muito mais acentuado. Talvez só gostássemos de implicar com ele mesmo.
–“Adorable” – John ria, tentando imitá-lo. – Nem eu consigo falar desse jeito! E olha que eu nasci aqui!
–A-do-ra-ble. – Roger disse quase sem paciência. – Voltando ao Keith... Você pode falar com Bobby?
–Poder eu posso. Seria adorável, não?
Que dedo feio, Roger.
3h30. Esperávamos Keith abrir a porta a qualquer hora. Podíamos ouvir apenas nossa respiração acelerada e vez ou outra os rapazes dizendo: “Pare de apertar minha mão!” “Dói, sabia?”
Meia hora depois a porta se abriu. Harriett quase dormira, mas eu ainda estava acordada. Keith parecia cansado quando entrou, mas ainda tinha um sorriso no rosto. Nos acomodamos em volta dele como crianças se acomodam em volta da avó contadora de histórias.
–Então... – Ele começou. Nossos olhos brilhavam. – Ele concordou... – Carreiras de dentes amarelados quase brilhavam no escuro. – E vai até nos pagar! – Risos nervosos ecoaram na sala – Vamos começar na... Segunda... Ás 2h15.
–S-segunda? Temos pouco tempo! – John estava histérico – Keith, monte sua bateria, Roger, afine os instrumentos, temos que ensaiar. Meu Zeus... Vamos logo!
–John.... – Harriett tentou segurar seu braço
–Não Harriett! A gente tem pouco tempo e...
–Joh...
–Temos muito o que f...
–John! – Harriett elevou o tom de voz, atraindo nossa atenção.
–O que?! – O vocalista praticamente gritou, voltando os olhos azuis para a ruiva.
–Temos que dormir! Keith está cansado, nós estamos cansados! Podemos resolver isso amanhã.
O moreno suspirou frustrado e se desculpou, dizendo que deveríamos dormir. Não desobedecemos. A ruiva ficou na sala para falar com Keith sobre algo e John se trancou no banheiro. Esse é o momento constrangedor que eu e o cara que toca baixo na banda ficamos sozinhos.
–E ai? – Ele sentou na cama de solteiro, onde eu e Harriett dormíamos.
–E ai o que? – Sentei-me ao seu lado.
–Você já sabe, né?
–Do que? – Cutuquei sua barriga magra.
–Que vamos todos sair de casa amanhã.
–Por que? Vão me levar pra mais uma festa?
–Não. Mas o Keith e a Harriett vão ficar. Depois te explico mais. Você sabe, né? Que quando dois adultos se amam, eles... – Roger riu, provavelmente da minha cara.
–Sim Rog, eu sei! – Mais risadas e um beliscão no braço.
Roger não tinha “covinhas”. Aquilo não poderia ser considerado uma covinha. Quer dizer, começava como uma, mas descia até o final do rosto. De qualquer forma, não deixava de ser atraente.
Após nosso riso cessar, um silêncio prevaleceu. Era irritante. Eu conseguia ouvir coisa ou outra que Harriett dizia. Discutiam sobre como era onde iriamos tocar.
Senti meu coração disparar do nada, como sou só um pouquinho exagerada, achei que estivesse tendo um ataque cardíaco. Foi com quase desgosto que percebi que tal coisa estava ligada ao fato do moreno segurar minha mão.
Raios.
Não, isso não é bom. Ok, é bom sentir os dedos calejados do baixista entre os meus. Mas sentir tal frio na boca do estomago e seu coração acelerado não é. Ok? Ok.
–Jude – Ele chamou. – Sabia que os americanos costumam ter os dentes brancos e alinhados?
–Mesmo com essa arcada dentária vergonhosa, você continua sendo americano. – Depositei um beijo em seu nariz.
–Merda. – Soltou nossas mãos – Aliás, estou pensando no que poderíamos tocar. Beatles foi a primeira coisa que eu pensei. Mas... Tem Pink Floyd também. Ah, Yardbirds parecia uma boa ideia.
–Podíamos tocar Led Zeppelin. – Ele fez uma cara confusa – Aquela banda do vocalista que gemia “babe” toda a hora.
–Ah! – “Ah” curto. Ok, ele entendeu. – The Who seria legal... Hm... Qual o nome daquele loiro maquiado mesmo? Que cantou sobre um travesti...
–David Bowie. A música é Queen Bitch...
–Isso! Podíamos tocar essa música também.
–É... – Bocejei. – Keith e Harriett vão demorar?
–Sei lá.
Senti meus olhos pesando. Sentia que toda a adrenalina que eu senti esperando o Keith abrir a porta foi se esgotando e o sono predominava meu corpo novamente. Roger deve ter percebido, pois deu espaço para que eu deitasse.
–Boa noite, Rog. – Sussurrei enquanto me aconchegava no travesseiro. Ouvi a porta do banheiro ser destrancada, provavelmente John saíra de lá. Não demorei muito mais para pegar no sono.
–-
Não tínhamos ensaiado muito, estávamos nervosos e observávamos as outras bandas no palco. Roupas extravagantes, homens com mais maquiagem do que eu me atreveria a passar e vozes incríveis. Isso jamais negarei. O que aqueles homens tinham de cabelo, tinham de voz. Ok, péssima comparação.
Um rapaz que Keith me disse ser o tal Bobby subiu no palco. Um magricelo de roupas coloridas e quase quarenta anos com uma voz grave e rouca e madeixas loira-sujas. Tinha uma cicatriz horrível na batata da perna. Keith disse que ele participara da segunda grande guerra.
–A próxima banda é Uncle Sam Blues! – Bobby anunciou – Só não os temam como fazem os americanos merdinhas, obrigado!
Todos os nossos olhares se viraram para Roger, que corou enquanto os olhos azuis acompanhavam Bobby deixar o palco.
–Ele foi ferido por um americano. Não sei como o confundiram com um nazista... – Keith explicou.
A banda que subiu no palco continuava com o estilo “glam”. A vocalista era negra, tinha uma voz poderosa. Nenhuma branquela britânica conseguiria chegar no seu timbre. Assistimos ao “show” e aplaudimos como todos. Podia ser só impressão minha, mas os aplausos de lá duravam pelo menos três minutos. Sem exagero.
Bobby subiu lá mais uma vez, agora com um corte na maçã do rosto. Keith disse que ele costuma se meter em brigas de bar.
–E agora, uma banda que eu espero que seja boa, apesar do nome merda. – Ele piscou para Keith, que sorriu. – The Losers.
Subimos no palco, vulgo eu fui arrastada pelo John, e nos arrumamos. Harriett sentou em frente ao teclado e Keith no banco da bateria. Não chamávamos muita atenção, nossas roupas eram normais, nada extravagante ou brilhoso.
Passei a correia pela cabeça e a sustentei em meus ombros, assim como Roger fez com a sua. John foi até o microfone, talvez tremesse um pouco. Isso eu consegui impedir, mas o frio na barriga ainda não passara. Olhar para a plateia me dava ânsia, não de nojo, mas de medo. Sentir que tem pessoas olhando para você e esperando o possível e talvez o improvável. Era nosso primeiro show, tínhamos que fazer algo consideravelmente bom.
Keith fez a famosa contagem “One, two, three, four!” E começou a formar a batida com calma. Algumas pessoas ainda olhavam para nós, talvez esperando algo mais animado. Eu logo palhetava num ritmo um pouco diferente de Keith. Harriett entrava junto com Roger e eu começava com as batidas.
A voz de John ecoava no ambiente, rouca e calma. O vocalista estava sem óculos, fiquei imaginando como via toda a plateia. Talvez distorcida ou apenas como borrões.
Assim que terminamos as cinco músicas (Que alcançaram os 20 minutos que podíamos permanecer no palco. Afinal, éramos “carne nova”, devíamos ir com calma) Pude ouvir os aplausos nem tão intensos. Talvez fossemos apenas novatos, talvez não tivessem gostado do que tocamos, talvez não tivessem gostado de nós.
Descemos do palco e apenas Keith realmente suava. Nós quatro estávamos apenas “cansados”. Pudera, Keith deu um show na bateria. Nenhuma novidade.
Harriett percebeu isso também, mas a ruiva acabou indo falar com Bobby, demorando um pouco para chegar na Kombi.
–E ai, gostou do Bobby? – Keith perguntou.
–Um pouco grosso... – Harriett confessou. – Mas... Ele disse que eram nossas roupas. Nosso estilo... Entendem?
–Não. – Eu disse.
–Então... É que todas as outras bandas eram Glam, perceberam? Eles estão acostumados com isso. E vamos lá, vocês três que já usaram drogas... – Ela apontou para os rapazes. Ufa. – Pessoas coloridas chamam muito mais a atenção, não?
Eles concordaram.
–Aonde você quer chegar com isso?
–Soltem as bichas interiores de vocês. – Ela sorriu. – O sábado é meu e da Judy. Beijos.
A ruiva entrou na Kombi e fechou a porta.
–O que quer dizer “O sábado é meu e da Judy”? – Roger arregalou os olhos.
–Hm... Pelo que eu entendi, a gente vai deixar vocês parecidos com aqueles caras lá. Sabe? – Eu ri quando vi a cara de John. – Mas sei lá, Harri que disse, não eu. – Ergui os braços em rendimento.
John poderia até dizer algo, mas estava completamente rouco. Não bebeu nada enquanto estávamos lá, dizendo que passaria mal. Talvez tudo o que ele pensasse agora fosse “Vadias malditas”
She's so swishy in her satin and tat
In her frock coat and bipperty-bopperty hat
Oh God, I could do better than that
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