The Long and Winding Road

19 The Best Is Yet To Come


O tempo tinha voltado a correr em Forks, mas ele não corria da mesma forma que antes; havia um cuidado quase reverente em cada gesto, como se todos soubessem que a felicidade podia ser interrompida por um telefonema, por uma carta dobrada em quatro, por um oficial parado à porta com o quepe nas mãos. A casa dos Cullen estava cheia naquela tarde chuvosa, as crianças espalhadas pelo tapete da sala com brinquedos de madeira e risadas altas demais para caber dentro das paredes antigas, enquanto os adultos tentavam fingir que a normalidade era algo simples, algo que se vestia como um casaco. Edward observava tudo com um olhar atento e silencioso, absorvendo cada detalhe como se tivesse medo de esquecer novamente, e foi nesse cenário que Emmett, Jasper e ele acabaram reunidos na varanda lateral, longe dos ouvidos mais sensíveis, para uma conversa que vinha sendo adiada desde o dia do reencontro.

Emmett estava com a cadeira posicionada de frente para os dois amigos, os braços fortes apoiados nos aros metálicos, o sorriso largo contrastando com a ausência de movimento nas pernas, e ainda assim havia nele uma presença tão inteira que Edward sentiu o peito apertar ao perceber o quanto o amigo continuava sendo o mesmo gigante de sempre. Jasper encostava-se ao parapeito, os dedos inquietos tamborilando na madeira, como se a ansiedade ainda fosse um idioma que ele falava fluentemente demais, e por alguns segundos ninguém disse nada, apenas escutaram a chuva fina bater nas folhas. Foi Jasper quem quebrou o silêncio, respirando fundo antes de erguer os olhos claros para Edward.

— Quando disseram que você tinha morrido… — ele começou, a voz baixa e controlada demais para ser natural — eu senti como se tivesse falhado com todo mundo de novo.

Edward franziu a testa, mas não o interrompeu; apenas aproximou-se um pouco mais, como se a proximidade física pudesse aliviar o peso das palavras que estavam por vir.

— Eu adoeci — Jasper continuou, os ombros tensos. — Não foi só tristeza. Foi culpa. Eu via a Bella andando pela casa como um fantasma, via o Anthony perguntando por você, via a Esme tentando ser forte enquanto o mundo dela tinha desmoronado… e eu pensava que, se eu tivesse feito alguma coisa diferente, se eu tivesse insistido mais, você talvez não tivesse ido.

Edward passou a mão pelos cabelos, visivelmente afetado, e balançou a cabeça em negativa lenta.

— Jazz… — ele murmurou, a voz embargada — você não poderia ter impedido.

Emmett soltou um suspiro pesado, inclinando-se levemente para frente, como se quisesse participar não apenas com palavras, mas com o corpo inteiro.

— Foi difícil pra caramba, cara — ele disse, mais sério do que de costume. — Mas o pior não foi perder você. Foi ver a Bella daquele jeito. Ela não estava viva. Ela estava funcionando. Respirando porque precisava cuidar do Anthony… e depois da Charlotte. Mas viver? Não. Aquilo ali não era a minha irmã.

Edward fechou os olhos por um instante, como se cada sílaba fosse uma lâmina atravessando-o com precisão cirúrgica.

— A gente tentou tirar ela daqui — Emmett continuou. — Eu e a Rose queríamos levar todo mundo pra Londres. Mudar de país, começar de novo. Mas ela não saía de Forks de jeito nenhum. Dizia que era aqui que você voltaria se estivesse vivo… e que, se estivesse morto, era aqui que ela ia continuar te esperando.

Jasper engoliu em seco, a mandíbula rígida.

— A Esme e o Carlisle foram uma fortaleza — ele acrescentou. — Eles perderam o único filho… mas não deixaram a Bella desmoronar. Engoliram a própria dor para serem os pilares dela e do Anthony. Eu nunca vi nada igual.

As palavras atingiram Edward com força suficiente para deixá-lo sem ar, e ele sentiu uma gratidão quase desesperada pelos pais, pelos amigos, pela rede invisível que sustentara sua família enquanto ele estava ausente. Ele abriu os olhos novamente, marejados, e encarou os dois homens que haviam crescido ao seu lado.

— Eu não mereço vocês — ele confessou, a voz falhando.

Emmett arqueou a sobrancelha e, de repente, o sorriso torto voltou ao rosto dele, quebrando a densidade do momento.

— Ainda bem que você não presta e vaso ruim nunca quebra — ele declarou, apontando o dedo para Edward com teatralidade exagerada.

Jasper soltou uma risada alta, e Edward acabou rindo também, a tensão se desfazendo em segundos como acontecia na adolescência, quando qualquer tragédia podia ser temporariamente derrotada por uma piada idiota. Por alguns minutos, eles voltaram a ser os três garotos que discutiam música e sonhos no quarto bagunçado de Emmett, como se o tempo tivesse dado uma trégua.

Dentro da casa, Rosalie conversava com Bella e Renée na sala de jantar, a expressão mais vulnerável do que o habitual, os dedos brincando com a borda da xícara de chá já frio. Havia algo de hesitante no modo como ela respirava, como se estivesse ensaiando aquela conversa há dias.

— Eu queria mais filhos — Rosalie disse enfim, a voz suave, quase frágil. — Mas tenho medo. Medo da guerra, medo do que pode acontecer, medo do meu corpo não aguentar outra gravidez.

Bella segurou a mão da amiga com delicadeza, os olhos atentos e compreensivos.

— Existem pesquisadores na Universidade de Iowa — ela começou, animando-se levemente ao falar — que estão desenvolvendo uma técnica de inseminação artificial. Eles coletam o material genético do homem e inserem no útero da mulher sem a necessidade de uma relação no período fértil. Ainda está em fase experimental… não fizeram em humanos oficialmente, mas os estudos são promissores.

Renée arregalou os olhos, impressionada, enquanto Rosalie absorvia cada palavra com uma mistura de esperança e incredulidade.

— Então… teoricamente… — Rosalie murmurou.

— Teoricamente, pode ser uma alternativa no futuro — Bella concluiu, sorrindo com cautela.

A porta se abriu nesse momento e Emmett entrou, empurrado por Jasper, com Edward logo atrás, e ele captou apenas a última parte da explicação.

— Alternativa para quê? — ele perguntou, curioso.

Rosalie corou levemente, mas Bella respondeu antes que o silêncio ficasse constrangedor.

— Para vocês terem mais filhos, talvez.

Emmett abriu um sorriso enorme, os olhos brilhando.

— Eu sempre disse que essa família precisava de mais caos — ele declarou. — E ainda bem que você herdou toda a inteligência da família, Bella.

Ela revirou os olhos, rindo, enquanto Edward observava a cena com uma ternura que parecia não caber dentro do próprio peito.

No andar de cima, Alice desceu as escadas quase saltitando, incapaz de conter a notícia que trazia estampada no rosto.

— Já que estamos falando de bebês… — ela anunciou, parando no meio da sala, as mãos pousadas discretamente sobre o ventre — acho que alguém vai precisar de mais espaço no berçário.

O silêncio foi seguido por um coro de exclamações, abraços e risadas, e Jasper levou as mãos ao rosto por um segundo, emocionado antes de envolver a esposa com cuidado.

Na varanda da frente, Renée, Carlisle e Esme observavam pela janela a confusão alegre lá dentro, os netos correndo pelo quintal sob a supervisão de Edward e Emmett, e havia nos três uma expressão serena, marcada pelo tempo, mas iluminada por algo que só a família era capaz de proporcionar.

— O Charlie estaria enlouquecido com esses netos — Renée comentou, a voz suave, os olhos marejados.

Esme assentiu devagar.

— Ele estaria orgulhoso da Bella… e do Edward — acrescentou.

Carlisle apertou a mão da esposa com carinho.

— A família continua — ele disse simplesmente, e naquela frase havia uma reverência silenciosa aos que se foram.

Mais tarde, quando a casa finalmente silenciou e as crianças dormiam, Edward e Bella caminharam até a beira da floresta, o cheiro de terra molhada misturando-se ao frio da noite. Ele segurava a mão dela com firmeza, como se ainda precisasse confirmar que ela estava ali.

— Eu estava pensando… — ele começou, a voz baixa. — Nós poderíamos viajar. Ver o mundo. Talvez até morar um tempo em Londres.

Bella sorriu, encostando a cabeça no ombro dele.

— Eu viajo o mundo com você — ela respondeu. — Mas Forks é o nosso lar. É aqui que nossas raízes estão.

Ele assentiu, compreendendo.

Ela então ergueu o rosto, os olhos escuros refletindo a lua.

— Se a guerra voltar… você iria novamente?

Edward ficou em silêncio por alguns segundos, ponderando, antes de tocar o rosto dela com delicadeza.

— Eu não sou mais o garoto que saiu daqui — ele disse, firme. — Quando era garoto, eu queria estabilidade como meus pais. Agora eu quero mais ainda. Quero você. Quero nossos filhos. Quero envelhecer segurando sua mão.

Bella respirou fundo, emocionada, mas ainda havia uma sombra no olhar dele, algo que ela reconhecia.

— Eu ainda acordo algumas vezes achando que estou no Vietnã — Edward confessou, a voz mais baixa. — Sonho com o acidente, com a morte do seu pai. Tudo se mistura e o caos piora.

Ela aproximou-se, envolvendo-o num abraço apertado, sentindo o coração dele bater contra o próprio peito.

— Então eu vou te trazer de volta para casa todas as vezes — ela murmurou contra o pescoço dele.

E enquanto permaneciam ali, abraçados sob o céu nublado de Forks, ambos sabiam que a paz que viviam era real — mas também frágil — e que amar, depois de tudo, era um ato diário de coragem.