O dia seguinte ao funeral de Edward foi o primeiro dia em que Bella realmente compreendeu o significado da palavra sobrevivência.

Não era viver.

Era continuar existindo quando uma parte de você já não estava mais no mundo.

A caixa entregue pelos militares estava sobre a cama, intacta, pesada como um fragmento físico da ausência de Edward.

Bella demorou vários minutos antes de abrir.

Quando finalmente o fez, o cheiro das roupas dele ainda estava presente dentro do recipiente.

Havia camisetas dobradas cuidadosamente, fotografias da família, objetos pessoais e uma carta inacabada.

A letra de Edward estava ali, interrompida no meio de uma frase.

Falava sobre a guerra.

Falava sobre a esperança de que ela terminasse.

Falava sobre sonhos que ele teve durante a última noite em que escreveu.

“Bella,

Hoje sonhei com o bebê.

Era uma menina.

Tenho certeza.

Ela tinha seus olhos.

Acho que deveríamos chamá-la de Charlotte se for menina.

Quando a guerra acabar, quero caminhar com você e Anthony pela praia…”

A frase terminava ali.

Bella tocou o papel com as pontas dos dedos, como se tentasse sentir o pulso do homem que escrevera aquelas palavras.

A caixa tornou-se o último vínculo físico que ela possuía com Edward.

A família tentava fazê-la comer.

Renée insistia com voz suave.

Esme colocava comida na mesa e pedia que Bella se sentasse com todos.

Anthony perguntava quando o pai voltaria.

Bella respondia sempre da mesma forma:

— O papai está trabalhando.

Mas quando todos se distraíam, ela voltava para o quarto.

Fechava a porta.

E deitava-se em posição fetal sobre o travesseiro de Edward, abraçando o objeto como se fosse o único resto vivo do marido.

Foi assim que Jasper a encontrou.

Ele bateu na porta.

Nenhuma resposta.

Abriu lentamente.

O coração apertou imediatamente ao ver a irmã naquele estado — abraçada ao travesseiro, corpo encolhido, silêncio absoluto preenchendo o quarto.

Jasper fechou a porta atrás de si.

Sentou-se perto da cama.

— Bella…

Ela não respondeu.

O silêncio permaneceu por quase um minuto antes que ele voltasse a falar.

— A culpa é minha.

Bella virou o rosto lentamente.

— O que você está dizendo?

As mãos de Jasper tremiam levemente.

— Eu deveria ter ido naquele lugar. Eu estava com febre por causa da inflamação do ouvido. Edward foi no meu lugar.

O choque atravessou o rosto de Bella.

Ela ficou imóvel.

Não chorou.

Não falou.

Apenas o encarou como se tentasse processar a informação que mudava tudo dentro dela.

Jasper continuou:

— Eu sinto como se tivesse matado meu melhor amigo.

Bella permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de dizer:

— Não fale isso.

Mas sua voz era vazia.

Porque dentro dela algo já estava quebrado demais para ser consertado.

Os meses seguintes foram sobrevivência.

Bella não vivia, ela apenas continuava existindo.

A gravidez avançava em meio ao luto pesado, numa madrugada, entrou em trabalho de parto.

O nascimento foi rápido, mas doloroso.

Carlisle realizou o procedimento com mãos firmes, embora o próprio rosto estivesse marcado pela tristeza silenciosa que carregava desde a morte do filho.

Quando a criança nasceu, o choro preencheu o quarto.

Era uma menina.

Bella segurou a filha com mãos trêmulas.

— Charlotte — disse ela.

Carlisle confirmou lentamente.

— Charlotte Swan Cullen será o nome registrado, como Edward desejou.

A menina tinha traços delicados.

Bella beijou a testa da filha antes de fechar os olhos, como se naquele momento estivesse tentando sentir Edward através da vida que ele ajudara a sonhar.

No Vietnã, Edward despertou do coma numa casa simples do povo Denali.

O teto de madeira e o som distante da natureza foram as primeiras coisas que ele percebeu ao abrir os olhos.

Eleazar Denali estava ao lado dele.

— Você está vivo — disse o homem.

Edward tentou se mover, mas o corpo estava extremamente fraco.

— Minha família… — murmurou.

— Você ficou desacordado por meses — respondeu Eleazar. — Ainda não está em condições de viajar.

O pensamento imediato de Edward foi Bella.

— Eu preciso avisar minha esposa.

Eleazar explicou que levaria algum tempo até que pudesse retornar à base militar.

Edward assentiu com dificuldade.

Tânia visitava-o frequentemente.

Ela o observava com silenciosa admiração.

Um dia, enquanto ajudava a trocar os curativos dele, reuniu coragem para falar.

— Eu acho que você poderia se apaixonar por mim — disse ela, a voz baixa.

Edward ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder.

— Você é mil vezes mais linda que as estrelas, Tanya.

Ela sorriu, com tristeza contida.

— Mas?

Edward olhou diretamente para ela.

— Você já sabe a resposta.

Fez uma pequena pausa.

— Meu coração tem uma única dona.

— Bella — disse Tânya.

— Sim.

Ele fechou os olhos por um momento.

— Ela é tudo o que existe para mim.

Em Forks, Bella segurava Charlotte enquanto observava a chuva cair contra a janela.

O mundo havia mudado.

A guerra ainda existia.

E entre dois continentes separados pela dor e pelo silêncio, um homem ainda respirava pensando na mulher que esperava por ele.