The Lived Kiss Of The Death!
2 The End of War. The Love in the Death!
Notas iniciais
Garanto que se vocês gostaram da idéia que o prólogo mostra, vocês gostarão do capítulo em si.
Mias uma coisa.Infelizmente o título do capítulo não coube todo então diminui. Na história logo abaixo, tem o título original. Boa leitura.
The End of War. The Beginning of the Battle. The Love in the Death!
O ano… Não importa. Não importa o ano, a dinastia ou quem é o imperador no momento.
Em qualquer época existem guerras. O império sempre está ameaçado. Atacado por nações vizinhas em busca de terras e escravos. Grupos criminosos tentando destronar o Imperador e transformar a nação em alguma utopia qualquer. Ou mesmo exércitos de exilados tentando “dominar o mundo”, que resolveram começar por nós. O que é o caso nesse momento.
Sim. Nesse momento eu estou em uma batalha. Talvez a ultima. Espero que não. Mas sobreviver a uma guerra é pura questão de sorte. Não importa o quão forte seja o guerreiro, ou o quão bem ele saiba manusear uma espada. Cercado por centenas de milhares de soldados, entre inimigos e aliados, suas habilidades só garantirão que ele leve um número pouco maior de inimigos consigo para o submundo. O único motivo para um soldado sair vivo de uma batalha e voltar para seu povoado, casa e família é se aliar a sorte. Sorte para não se tornar uma das vítimas. Sorte para que vença a batalha. E sorte para ficar vivo até sua volta para casa. É assim a vida de um soldado.
Acredita-se que um soldado, na guerra, esteja lutando para proteger sua família, sua nação, sua honra. Não interessa. Seja o motivo qual for, ele está ali contra a sua vontade. A maioria está ali por obrigação.Não por mando de nosso imperador, mas presos a promessas, a desejos pessoais, filosofias tolas ou visualização de um futuro de glória. No meu caso. Não tinha nada de melhor a fazer.
Vou lhes contar agora um pouco de minha história enquanto estou engajado nessa guerra idiota. Nasci em uma província pobre. Minha mãe faleceu ao me trazer a esse mundo. O que arrasou meu pai. Nunca o culpei por me odiar. Eu era o homem que havia matado a mulher que ele tanto amava. Creio que era assim que ele me via apesar de ser seu filho. Vivíamos na miséria. Meu pai tinha bastante dinheiro quando se casou com minha mãe. Ele foi um dos líderes de tropas no exército imperial. Mas depois que sua amada esposa faleceu, se entregou a bebida, a prostituição e ao jogo. Perdeu tudo que tinha, por fim. Mantendo somente um belíssimo colar que dera a minha mãe as vésperas de meu nascimento. Ela nunca teve a chance de usá-lo. Meu pai já não suportava mais viver. Mas não queria partir de forma covarde tirando a própria vida. Dizia, quando bêbado, que jamais poderia encarar seu amor se partisse como um fraco, diferente do guerreiro que ela conheceu. Então na primeira oportunidade, voltou ao exército. Partiu para uma guerra qualquer, e no campo de batalha permaneceu. Eu tinha 8 anos. A mim não restava muita coisa a não ser sobreviver. Continuei a honrar a memória de minha mãe e meu pai. Como disse, nunca o odiei. O respeitava por ser tão fiel ao seu amor.
Sobrevivi. Da melhor forma que pude. Mas não havia perspectiva de futuro para mim. Assim que pude, entrei para o exército. Isso foi com 13 anos. Cedo demais, porém usei a pouca influência que o nome de meu pai tinha para conseguir uma exceção. Mas fiquei fora de guerras até completar vinte. Aprendi a manusear uma espada e a montar, mas continuei a ser um simples soldado. Tinha o mesmo nível que os demais soldados treinados. Meses depois fui a minha primeira batalha e finalmente morri. E também renasci.
A guerra era exatamente como os velhos diziam ser, mas vista de perto, bem diante de meus olhos, se tornava ainda pior. O suor, o sangue, o cansaço. Tudo isso era real e agora eu sentia em mim. A forma com que fiquei assustado com tal carnificina... Jamais havia sentido medo igual antes. Bárbaros gritando. Homens se acotovelando. O sangue que pinchava de vermelho as faces zangadas desejosas de mais sangue como verdadeiros animais ferozes. Sem razão. Sem consciência. Apenas instinto. Conheci um lado do inferno naquele dia.
E foi justamente naquele lugar, naquele dia, naquele inferno, que vislumbrei um anjo.
Aquela batalha teve um fim. E eu, milagrosamente, contrariando todas as possibilidades, sobrevivi. Não fiz absolutamente nada na batalha. Se contasse aqui minha passagem por essa luta, certamente vocês terminariam de formular suas opiniões sobre mim. Condenariam-me e abandonariam esse texto. Eu descobri que sou dotado de uma sorte sem precedentes. Ao fim da batalha, entre as comemorações de meus companheiros vivos. Vi algo diferente. Vi alguém diferente. Alguém que não deveria estar ali.
Ela era linda. Tinha pela clara, que sob os raios mórbidos do sol parecia brilhar como ouro branco. Seus cabelos compridos e negros como noite causavam um contraste com seu rosto que dava a sua bela face um destaque a mais sendo impossível desviar o olhar. Seu rosto era ornamentado por um par de olhos verdes levemente opacos. Mas que brilhavam como esmeraldas. Sobrancelhas negras e nariz fino. E seus lábios. Ah! Seus lábios. Eles eram lindos, linhas perfeitas e uma tonalidade graciosa de rosa. Incrivelmente desejosos. Como se sua presença em tal lugar e em tais circunstâncias fossem, deveras, entranho, os demais detalhes sobre aquela belíssima moça eram ainda mais.
Incrivelmente vestida com um Shihakusho negro semelhante aos de samurais. Com sandálias e meias brancas. Inacreditavelmente, com uma bainha na cintura e uma katana na mão direita. E impossivelmente. Chorando.
As lágrimas escorriam de seus orbes esverdeados deslizando lentamente por sua lisa e bela face e caindo pesadamente aos seus pés. Se misturando ao sangue. Hesitante, aproximei-me lentamente daquele maravilhoso ser, cujo qual aparentemente, e estranhamente, somente eu via. Ela pareceu ignorar minha presença. Como se eu fosse o ser invisível ali. Olhei ao chão e não entendi pelo que ela chorava. Não havia ninguém a sua frente. Apenas uma possa de sangue. Nenhum corpo próximo. Minha atenção foi roubada por esse fato apenas por um curto segundo e guando busquei seu rosto novamente ela havia sumido Sem dar qualquer sinal, sem deixar qualquer vestígio. Deixando apenas a curiosidade.
Pensei estar tendo uma alucinação devido à adrenalina em mim. Mas nem mesmo eu, em meu sonho mais fantasioso e inspirado, regado de amor e prazer, seria capaz de visualizar tão bela criatura. Era difícil crer que em meio a aquele inferno eu pudesse ter uma visão assim. Mas era mais difícil crer que era algo real sendo eu o único a vê-la.
Enfim. Sobrevivi àquele dia. Mas, de certa forma, também morri naquele mesmo dia. Naquela batalha eu assassinei e deixei para trás toda a minha vida e desejo de que ela se acabasse logo. E renasci querendo sobreviver cada dia apenas para ter a chance de poder me encontrar novamente com ELA. O anjo que vi no inferno.
Outras batalhas vieram. E em cada uma delas, ELA estava. Eu sempre a vi. Enquanto digladiava com o inimigo para poder continuar vivo, eu a observava. Ela simplesmente passeava por entre os soldados. Andava calmamente entre eles sem dar importância aos golpes de espadas que voavam a sua volta. E assim como ela não se importava com nossa batalha, ninguém parecia notá-la no meio dela. Somente eu. Ela era meu anjo único. Minha alucinação pessoal. E mesmo que eu tentasse me convencer que era apenas isso. A simples visualização daquele magnífico ser era o suficiente para repensar tal teoria. Na verdade, sequer me importava com o que exatamente ela era. Se era apenas uma visão minha, ou se era o anjo da morte que apenas eu podia ver. Eu a seguia pelo campo de batalha. Onde quer que ela fosse, eu a seguia lutando com qualquer um que aparecesse no caminho. Às vezes simplesmente a perdia de vista para logo encontrá-la novamente chorando frente a uma possa de sangue que não deveria estar ali. Que provavelmente somente eu via. E que somente a ela importava. Foi assim por cinco anos.
Assim, o tempo foi passando até chegar aos dias atuais. Cinco anos lutando. Cinco anos sobrevivendo. E cinco anos me apaixonando cada vez mais por ELA.
Foi assim que cheguei até aqui. Foi assim que cheguei ao hoje. Minha vida era para ter se apagado á muito tempo atrás. Mas eu me mantive vivo.Apenas para poder lutar novamente. Apenas para continuar a vê-la. Não luto por minha nação, por minha tropa, ou mesmo por minha vida. Luto apenas para saciar meu desejo ganancioso de poder desfrutar da visão daquele anjo uma vez mais. Havia se tornado quase que uma obsessão. Um vício necessário para que eu continue a viver.
Ainda continuo a trocar golpes com soldados do exército rival. Mas minha atenção é sempre d’ELA. Que agora realizava um de seus estranhos rituais. Ao longo desses cinco anos eu a observei. Apenas. Tinha medo de confrontá-la. De me aproximar e interrogá-la. Tinha medo de fazer qualquer coisa e ela desaparecer para sempre. E, acima de tudo, tinha medo de que fosse realmente uma simples miragem.
Por um momento minha atenção foi totalmente d’ELA. Um homem havia tombado a pouco próximo a mim. Não reparei quem foi nem quem o fez. Não sabia se era inimigo ou aliado. Apenas assistia a aquela cena como se estivesse em um teatro. O homem, ajoelhado no chão, olhava para suas mãos, aturdido, enquanto, a passos lentos, meu anjo se aproximava dele. O soldado ergueu a cabeça visualizando-a assim como eu. Ela parou frente a ele, disse algumas palavras inaudíveis para mim e depois ergueu a espada que carregava acima da cabeça. Porém, ao invés de golpear o homem, ela tocou sua testa com a base do punho. Uma luz azul intensa e ofuscante cobriu todo o corpo do soldado e ao diminuir ele havia desaparecido restando em seu lugar apenas uma borboleta negra. Já havia presenciado tal cena diversas vezes antes, mas sempre me hipnotizo pela mesma.
Quando tornei a me concentrar no combate, percebi que bem diante de mim estava o comandante do exército inimigo. Seu líder. O responsável por aquela batalha. Pensei em talvez agradecer por me dar a oportunidade de ver meu anjo novamente, mas ele poderia não entender meu ato. Principalmente porque ele vinha em minha direção com a espada erguida destilando um golpe vertical em mim. Defendi-me com a sorte que tinha erguendo minha espada e medindo forças com ele. A confusão das batalhas a minha volta havia se dispersado. O motivo? A guarda pessoal dele. Como todo o bom líder, ele jamais entraria em campo sem se proteger. Tendo os melhores guerreiros do seu exército ao seu redor para manter o perigo de uma luta, que é a constante confusão, longe, ele marchava abrindo caminho pelos soldados que lutavam, eliminando qualquer um que entrasse em seu caminho. Pela direção que tomava, certamente estava indo de encontro com meu general a fim de ter uma luta incrível ou acabar com essa batalha de uma vez por todas. Como eu fui parar ali entre eles eu realmente não sei.
Ao meu redor havia um círculo. E agora eu era obrigado a engolir minhas palavras. Numa situação como a minha, Não seria a sorte que definiria quem sairia vivo ou não. Naquele momento eu tinha certeza de minha derrota. De minha morte. Ele era mais velho, mais experiente, mais habilidoso e mais forte que eu. Seria impossível ganhar em tais condições de luta. Já estava para desistir e permitir que aquilo acabasse da forma mais rápida possível. Foi quando uma luz azul brilhou em meu coração e eu me lembrei d’ELA. Eu nunca tive nada na minha vida. Não tive família. Pais. Amor. Carinho. Amizade. Não tinha nada nem ninguém por quem lutar. Mas agora eu tinha. Tinha ELA. Meu anjo. Procurei-a em meio às batalhas enquanto meu adversário resmungava coisas comigo que fiz questão de ignorar. Foi quando olhei por cima de seus ombros que a vi. Linda. Brilhante. Divina. E...
Durante todas as batalhas que participei e, principalmente, todas as vezes que a vi e a vislumbrei, sempre a olhei de costas ou de perfil. Mas, pela primeira vez desde que a vi na minha primeira guerra, ela olhava em minha direção. Não atravessado. Mas realmente olhava para mim. Não sei se ela tinha algum interesse em minha luta ou se simplesmente olhou para nós, mas, de fato, seus olhos verdes me miravam. E por um segundo apenas eles se cruzaram. Inexplicavelmente senti algo percorrer todo o interior do meu corpo. Como um calafrio, porém quente e por dentro. Algo inexplicável sem dúvida. Meus olhos percorreram toda a extensão de seu corpo. De sua face ao pescoço. Depois ao tronco. Quadril e pernas. E finalmente os pés, voltando novamente a sua face. Naquele momento nenhum de nós se mexia. Nem mesmo o peso da espada de meu inimigo sendo forçada contra minha lâmina eu sentia. Deixei meu olhar transpassar toda a convicção que tinha de que ela era real e que eu a via. E sorri ao ver sua face mudar de curiosidade para uma leve feição de espanto. Foi o suficiente. Ela era real. Não era uma miragem nem uma ilusão minha. Era tão real quanto o ar que espiro. Invisível aos meus olhos, mas real. E as sensações que tive quando nossos olhares se encontraram... Eu tinha que senti-las novamente. Tinha que me encontrar com ela. Tinha que continuar vivo. Tinha que vencer. Poderia por um fim naquela batalha e finalmente me encontrar com ela. Conversar. Escutá-la. Declarar-me. Finalmente eu tinha alguém pra voltar, por quem lutar. Lutaria, venceria. E daria a minha vida. Tudo por ELA.
O sangue salpicou minha face. Molhado. Quente... Porém, não mais que o que corria em minhas veias e pulsava em meu coração. A lâmina da espada de meu inimigo passava a lateral esquerda de meu abdômen enquanto a minha transpassava o lado esquerdo de seu peito. Venci. E sobrevivi. Graças a ELA. Tudo pelo meu anjo. Somente por ELA.
Derrotado e a beira da morte, o homem a minha frente cai de joelhos levando minha espada ainda enterrada em seu peito. Seu olhar era de incredibilidade diante de sua derrota. O corpo a minha frente tombou lentamente para trás, escorregando pela minha lâmina, porém o homem a minha frente manteve-se ajoelhado. Estava certo, diante de tudo que vi nesses anos, que o homem que permaneceu a minha frente era um espírito. Ele já estava morto. Derrotado. Minha espada ainda estava em seu peito, mas diferente de antes, onde ela o transpassava, agora ela passava direto por ele. Onde antes havia um fino buraco feito por minha espada, agora tinha um buraco enorme, que atravessava seu peito até as costas. A lâmina passava direto por ele. E, diferente dos demais, ele não possuía uma corrente no peito. Antes que pudesse reagir, ele simplesmente começou a gritar como se somente agora sentisse a dor do ferimento que causei. Porém seu grito parecia mais desesperador, e mais assustador que um simples grito de dor. Foi quando o ritual macabro teve início. Uma gosma branca saiu de seus olhos e boca e cobriu seu rosto. Seu corpo começou a se transformar e tomar uma forma deformada da de antes. Quando finalmente percebi o que possivelmente estava acontecendo com ele, ele já havia se tornado o que eu suspeitava. A gosma branca enrijeceu virando uma espécie de máscara macabra. Então, a criatura mirou-me com seus olhos vermelhos e soltou um rugido estrondoso que somente eu ouvi, mas desejava não ter ouvido ou visto coisa igual. A fúria transbordava de seu olhar enquanto sua pavorosa bocarra salivava apreciando o aperitivo a sua frente. Eu. Foi quando ele simplesmente falou.
- Maldito! Está doendo... Muito! Eu vou... Te matar!
Minha reação foi única. O ataquei com a espada. Sabia que correr não surtiria efeito algum. Porém, não esperava que minha espada sequer o tocasse. Aquele, de fato, era o meu fim. Seria devorado por aquele estranho demônio. Ele ergueu a pata cheia de garras afiadas pronto para me retalhar, porém, antes que ele se movesse em minha direção, seu braço voava para longe de seu corpo. Quando finalmente minha mente se permitiu raciocinar, e meus sentidos voltaram a funcionar, eu pude ver o que havia me salvado. Na verdade devo dizer quem. Diante de mim, segurando a espada para o alto em forma de ataque enquanto aquele demônio lamentava o braço perdido, estava ELA. Meu anjo.
Ela abaixou a espada e fez um movimento forte com ela em direção ao chão fazendo com que o sangue na lâmina caísse no solo a limpando. Ela virou-se para mim e me olhando nos olhos falou de forma serena e meiga.
- Você está bem? Não está ferido, está? – Na verdade ela perguntou. Ou afirmou. Não sei ao certo.
Sua voz era como o som do mais afinado pássaro pousado num galho de cerejeira na primavera. Era como ouvir a voz de um anjo. Sim, pois não era possível mortal algum ter uma voz como a dela. Era algo que só poderia ser explicado como sendo celestial. Divino. A forma como as palavras ditas dançavam em meus ouvidos faziam com que todos os sons a minha volta sumissem por completo. A forma serena e meiga totalmente despreocupada com que ela me indagou não condizia com o que ela acabara de fazer. Mas não importava. No segundo em que sua melodiosa voz alcançou meus ouvidos, eu paralisei. Meu corpo, minha alma, podiam ainda estar lá, mas minha mente não. Ela voava longe. Sendo guiada por aquela melodia ao paraíso e mais além. Durou apenas uma frase que ela pronunciou, mas minha mente atravessou anos, gerações, séculos afins entre passado e futuro. Atravessou dimensões e planos, para novamente retornar ao meu corpo, onde ELA ainda esperava uma resposta. Provavelmente já começara a pensar que talvez eu realmente não a visse. Mas antes que minha felicidade se esvaísse antes de começar. Acenei um sim fechando minha boca que havia aberto involuntariamente. Deixei que minhas vistas se enchessem mais com sua beleza.
- Você é ainda mais bela vista assim de perto.
Foi o que disse em minha mente, porém minha voz me traiu e permitiu que tal comentário se transformasse em palavras. Ela olhou-me surpresa enquanto um tom rubro enchia sua face ornamentando-a ainda mais. Deixando-a cada vez mais bela.
Trocávamos olhares de perplexidade, curiosidade e paixão. Sendo o último apenas de minha parte até o momento. Quando os olhares se tornaram mais intensos, nossa atenção foi desviada ao perceber que o demônio, que outrora foi humano, fugia. ELA encarou-me novamente.
- Espere um minuto, por favor. Serei rápida. Volto logo. – Foi o que ela me disse.
Antes que pudesse responder qualquer coisa ou mesmo falar algo qualquer, ela sumiu da minha frente para aparecer frente ao demônio. Ele tentou atacá-la ao ver que somente a fuga não o salvaria. Com uma maestria que eu jamais vi em soldado algum, sendo ele um capitão ou um general, ELA cortou seu outro braço e rapidamente cravou a espada entre os olhos da fera. Girou o punho e fez um corte vertical em direção ao céu rasgando a máscara da fera que começou a desaparecer lentamente como se evaporasse. Seus movimentos eram leves e rítmicos. Apesar de serem poucos, e rápidos, eles não deixavam de ter uma suavidade que lembrava uma dança. Uma dança mortal para quem estivesse ao seu alcance, mas linda para quem a vislumbrasse a distância. Simplesmente era como se só existíssemos nós nesse imenso mundo. Na verdade, meu mundo limitava-se do ponto onde eu estava até ELA. Mais nada existia antes, depois ou entre nós. Somente ela existia nesse mundo. Porém o mundo enxergava minha existência e parecia cansado de ser ignorado.
Depois de encerrada a breve luta ela voltou-se novamente sua vista para mim. Novamente cruzamos olhares, e cada vez mais minha admiração... Minha paixão crescia por aquela magnífica criatura. Ela me deu um presente completamente inesperado. O melhor presente que já ganhei de alguém. ELA me deu um sorriso. Tímido. Talvez devido aos meus olhares, mas ela sorriu a mim. Involuntariamente, um sorriso brotou de minha face. Um sorriso de felicidade. Naquele momento eu poderia morrer feliz.
Repentinamente sua feição mudou para espanto e medo. Uma fração de segundos que passaram lentamente aos meus olhos, e que minha mente parecia não acompanhar.
- Cuidado!!! – Ela projetou o corpo em minha direção iniciando uma corrida.
Sua voz foi a primeira a me alcançar, mas ainda sim não foi rápido o suficiente. Eu senti uma pontada nas costas seguidas de uma leve dormência com formigamento. Foi arremetido por um frio estranho, mas podia sentir algo quente e viscoso em meu abdômen. Automaticamente olhei para baixo para poder avaliar o que era. Minha mente sequer processava as informações que recebia. Muito do que disse aqui só foi percebido quando comecei a relatá-lo. Minha visão focou-se diretamente no chão onde uma pequena poça avermelhada aos meus pés era bombardeada por gotas de um líquido vermelho. Segui o trajeto das gotas para ver de onde vinham e vi a ponta de uma lâmina de uma espada coberta por tal líquido. Vi que tal lâmina partia de minha barriga. Vi que o líquido avermelhado, viscoso e quente que estava no chão e que senti escorrendo por meu abdômen era sangue. O meu sangue.
A lâmina foi removida e eu permaneci imóvel. Apenas olhando minhas vestes serem tingidas de vermelho. Minhas pernas falharam e caí de joelhos com as mãos sobre o ferimento. Esse que tinha por entrada as minhas costas e saída no lado direito superior do abdômen. Provavelmente um dos soldados inimigos não gostou muito de ver seu general caído aos meus pés e, aproveitando-se de minha distração, partiu para se vingar de mim. Na verdade, ele poderia ter partido para cima de mim gritando a plenos pulmões que eu sequer perceberia. Sequer vi o rosto de meu assassino.
Ergui minha cabeça vislumbrando meu anjo novamente. O desespero em sua face enquanto corria em minha direção... Seu belo sorriso, que pude desfrutar-me por pequenos segundos, havia sumido sem deixar vestígios. Como queria vê-lo novamente. Seria mais fácil suportar a dor. A dor da morte. A dor dos meus últimos momentos.
O sangue continuava a escorrer. A dor deveria ser insuportável, mas eu a suportava. Depois de anos de luta aprendemos a suportar. Já me feri diversas vezes, claro. Mesmo dotado da sorte que tinha, era impossível sair de uma batalha sem ferimentos. Já tive ferimentos leves e graves. Tenho marcas, cicatrizes, ferimentos mal curados e experiência de sobra para provar isso. Felizmente a Dama da sorte sempre me sorriu.
Hum! Pensando bem. Quão irônico é o meu destino. A sorte sempre esteve ao meu lado. Seguindo-me. Acompanhando-me. Protegendo-me. A dama da sorte sempre esteve perto, sorrindo pra mim, mas eu jamais enxerguei isso. Sempre tive olhos apenas para ELA. Sempre desejei ver, no lugar das lágrimas de sempre, seu sorriso. E quando finalmente fui agraciado com tal belo sorriso, foi a vez da sorte me dar as costas. O que posso fazer ou dizer a respeito disso? Nada. Apenas:
- Sinto muito minha dama, mas infelizmente meu amor é todo d’ELA. A você, minha doce e fiel sorte, só posso deixar meu mais sincero obrigado. Obrigado por me proteger. Por permitir que continuasse a viver até hoje. Obrigado por ser minha única amiga. Obrigado.
O resto de meu corpo pesou. Minhas pernas falharam por completo sucumbindo a morte eminente. Meu corpo tombou para traz, mas não foi com o duro chão que me choquei. Fui amparado por um corpo macio, quente, cheiroso e vivo. Abri meus olhos e a vi. Seus belos olhos verdes mergulhados em lágrimas que gotejavam em meu rosto. Cada gota carregava uma profunda tristeza do qual seus olhos transbordavam. Seu cheiro lembrava um campo florido. Repleto dos mais variados perfumes. Aromas que dançam ao vento e enchem nossas narinas com seus perfumes com um equilíbrio perfeito. E sua pele era macia e quente. Todo seu corpo era quente. Porém ela tremia. Eu sentia isso. Seu peito, pernas braços. Tremiam levemente como pequenos espasmos. O que ela estaria sentindo?
Bem... Mas ali, em seus braços, nada mais me assustava. Nada tinha relevância suficiente. Nem o fato de que eu estava morrendo. Agora, sentindo seu cheiro. Seu toque. Seu calor. Seu delicioso e quente hálito contra meu rosto. Suas úmidas lágrimas. A certeza absoluta que ela era um ser real, um ser vivo, era concreta. Ela existia de verdade em minha vida. Sempre existiu. E continuará a existir em meus desejos, que jamais desaparecerão, mesmo com minha morte próspera.
- Yo! – Queria ser cordial, mas depois de observá-la por tanto tempo, acabei por me dar uma certa liberdade.
- Yo! – Repetiu o cumprimento. Sua voz saiu falha devido ao choro ainda com causas misteriosas para mim.
- É um imenso prazer e uma tremenda alegria finalmente poder lhe falar. – Estava sendo sincero.
- ...
Sem respostas. Sem perguntas. Foi rápido o diálogo, mas valeu cada palavra. Cada letra. Cada uma das duas letras. Não necessitava de mais nada. Só queria permanecer em seus delicados braços e esperar meu fim. Só isso me deixaria profundamente feliz.
- Por quê? – Sua voz saiu ainda mais rouca. Quase inaudível.
Por um momento pensei que talvez ela houvesse perguntado apenas para si mesma. Olhei em seus olhos e percebi que ela esperava por uma resposta. Ou talvez não. Mas achei melhor responder mesmo assim. Infelizmente me perdi em sua pergunta. Não sabia exatamente a que ela se referia. Se era ao meu comentário, ou ao fato de eu poder vê-la.
- As pessoas são idiotas... Fazem guerras apenas para passar o tempo... A paz trás monotonia... Para aqueles que governam. A guerra... Trás diversão para aqueles que não lutam... Que apenas mandam que outros lutem... As batalhas que eles iniciam. E... Aquelas que lutam por tais pessoas... São ainda mais idiotas por obedecerem a covardes... Que só conhecem as batalhas de shogi. – Minha voz falhava muito. – E infelizmente, não sei o motivo de um humano como eu poder ver, cheirar, ouvir e tocar um anjo como você.
- Não foi exatamente isso que perguntei. – ELA deu um breve sorriso ao falar. – Por que você diz que é um prazer finalmente falar comigo? Desde quando você pode me ver.
- Eu a vi pela primeira vez quando lutei minha primeira batalha a mais de cinco anos. Encantei-me por você no primeiro momento que a vi. E é uma alegria tremenda descobrir que você é real. E não uma alucinação. Fruto de minha imaginação como pensei por anos... – Ela ficou levemente surpresa. – Posso lhe fazer uma pergunta? – Creio eu que ela pensou em alguma piada, pois deu um sorriso debochado, mas ainda sim acenou positivo com a cabeça. – Afinal, o que você é? – Ela sorriu de forma meiga como um adulto tentando consolar uma criança.
- Eu sou uma Shinigami.
- Shinigami, hã?! Bem apropriado! – Fechei os olhos e respirei fundo. – Exatamente como havia imaginado. É realmente impossível.
- O quê?
- É impossível para um mortal ser tão linda quanto você Shinigami. Você é dona de uma beleza verdadeiramente divina. – Ela corou novamente.
A conversa parecia tranqüila e calma, mas não estava. Meu tempo estava se acabando. Eu sabia disso e ela também. Mesmo com o calor do corpo dela, eu sentia-me esfriar cada vez mais. E quanto a ela, aumentava cada vez mais as lágrimas. Agora, que sei quem ela é, parece estranho ver um “Deus da Morte” chorar por alguém que está morrendo.
O sangue não parava de escorrer por mais forte que eu apertasse o ferimento. Mesmo com as mãos d’ELA tentando estancá-lo, era impossível fazê-lo. Meu caminho já estava traçado. Restava-me pouco tempo. Seria minha despedida dessa vida de tristezas e uma alegria. Conhecer essa Shinigami. E havia uma ultima coisa que restava fazer.
- Eu poderia lhe fazer um ultimo pedido Shinigami? – Seu olhar parecia ainda mais triste. Talvez ela soubesse o que aconteceria comigo. Que provavelmente me transformaria em um demônio como o anterior. Ainda assim ela assentiu. – Você... Poderia... Dar-me... Um... Um beijo?
O espanto em sua face já era esperado. As lágrimas, antes fartas, pararam. Ela parecia bastante espantada. Mas eu não a culpava. Seria... Foi pedir demais querer um beijo a dela. Mas... Eu tinha que tentar. Não poderia ir com esse desejo contido em mim. Mesmo que fosse para receber uma negativa, ainda era melhor que ficar a imaginar o que aconteceria caso houvesse me atrevido a perguntar, assim como fiz. Se há algo de bom que aprendi com o meu pai foi ser fiel ao meu amor. E eu fui. E sempre serei.
- Por quê? Por que me pede isso? – Ela ainda parecia um pouco espantada.
- Poderia argumentar de uma forma mais convincente e dizer simplesmente: “Quero saber qual é o sabor do beijo da morte.” Mas eu não sou assim, e você não parece alguém que se enganaria por isso.
- ... – Ela tentou dizer algo, mas não formulou nada e voltou a se calar.
- Mas a verdade é que eu estou desejoso disso desde que coloquei os olhos em você, a cinco anos, naquela guerra. Eu estive apaixonado por você desde sempre. E acho que é normal um homem apaixonado querer um ultimo beijo da mulher que ele tanto amou. E... Eu te amo Shinigami.
Ela não tinha argumentos, nem eu tinha mais nada a dizer para convencê-la. Ela corou violentamente. Meu coração, apesar de fraco, parecia bater mais forte do que nunca. Trocamos olhares. Ela parecia ainda mais espantada. Porém, ela estava na verdade chocada. Sei que foi muito repentino aquilo, mas eu não dispunha de tempo para ser mais cordial. Mesmo que ela merecesse cada ato que demonstrasse que a amava, o tempo não me deixava demonstrar meu amor. Somente meus olhos transmitiam o que meu coração sentia. Esperava que meus sentimentos a alcançasse.
Hesitante, levantei a mão esquerda lentamente. Meus dedos tocaram timidamente sua pele acima do colo. Da forma mais carinhosa possível permitir meus dedos subirem lentamente por sua pele. Percorrendo de seu colo ao pescoço. Meus dedos, pouco frios, pareciam transmitir uma espécie de energia ao corpo quente dela. Meus dedos estavam sendo atraídos de encontro à pele dela e pareciam ser incapazes de se separar. Subi por seu pescoço fino até alcançar seu queixo. Passei o polegar sobre seu lábio inferior acariciando-o. Estava desejoso daqueles lábios. Ela estava extremamente corada. Desde meu toque o tom rubro de sua face fora aumento à medida que meus dedos subiam. Delicadamente limpei o caminho deixado pelas lágrimas de antes. Permaneci com a mão em sua face acariciando-a maçã do rosto.
- Eu... Realmente... Shinigami... Eu te amo.
Uma lágrima solitária rolou por seu rosto até pingar sobre o meu, de onde rolou até pingar ao chão. Ela pousou sua mão por sobre a minha que acariciava seu rosto. Ela parecia segurar um choro que estava pronto para explodir, ainda assim ela sorriu a mim. E com um radiante sorriso, deixou que as lágrimas voltassem a rolar. Fartas e incessantes. Ela olhou-me nos olhos e acenou com a cabeça um:
- Sim! – Ela disse-me.
Meu coração subiu até minha garganta. Fui obrigado a engolir em seco para fazê-lo voltar ao lugar. Senti seu pulso também aumentar. Sua respiração ficou descompassada. Pesada. A minha provavelmente estava igual. Nunca havia me sentido assim antes. Ignorei por completo a dor do ferimento, o sangue escorria dele e o frio que aos poucos me alcançava. Ergui um pouco o corpo para poder encará-la de frente. Mantive minha mão esquerda, sempre coberta pela mão dela, o tempo todo em sua face sempre a acariciando levemente com o polegar.
Aproximamo-nos vagarosamente. Aproveitando o tempo que não tínhamos. Mas juntos construímos um tempo só nosso. Ela me tomava em seus braços em uma embaraçosa inversão de papeis.
Passei a concentrar-me em seus olhos. Seus belos orbes verdes pareciam brilhar. Cintilar. Como verdadeiras esmeraldas. Jóias maravilhosas as quais eu tanto admirava. Estávamos tão próximos quanto eu um dia sonhei estar. Quanto um dia eu tanto desejei estar. Ela abriu levemente a boca em expectativa. Seu hálito quente golpeou-me enchendo minhas narinas, se misturando ao perfume de flores que exalava de todo o seu corpo. Involuntariamente deixei um leve gemido escapar. Seus olhos começaram a fechar-se lentamente apenas esperando o grande momento em que finalmente nos conectaríamos. Ela encostou sua testa a minha. Nossos olhos miravam os lábios um do outro. Avancei lentamente eliminando o ultimo centímetro que nos separavam. Beijei-lhe o canto da boca primeiro e ela suspirou ao meu toque. Rocei sutilmente meus lábios nos dela, provocando-a, queria deixá-la ansiosa. Toquei seu lábio inferior com a ponta da minha língua. Daí, foi impossível não sugá-lo. Seus olhos completamente fechados aproveitando, provavelmente, as mesmas sensações que percorriam meu corpo. Então finalmente selei seus lábios com os meus em um verdadeiro beijo. Deixei que meu desejo me guiasse quando nossos lábios começaram a se mover. Minha mão passou para sua nuca onde meus dedos entrelaçaram com seus cabelos. Prendi sua cabeça contra a minha como se tivesse medo de que a qualquer momento ela fugisse. Sua mão tocou levemente meu rosto como se eu fosse quebrável, e seu toque gentil e quente fez-me arrepiar levemente. E assim aprofundei o beijo. Um beijo que começou calmo agora se tornava mais quente. Enfiei gentimente, minha língua dentro da boca dela, que sugou-a meio desajeitada, ainda sim gostoso. O beijo que antes era suave se tornou intensso quando comecei a suguar sua lingua. A boca dela era adocicada, quase virginal, e isso me fez gemer outra vez. Um turbilhão de sensações invadiu meu corpo. Sentia-a tremer levemente cada vez que mordiscava seu lábio inferior. E isso me fazia imaginar se ela sentia o mesmo que eu com aquele beijo incinerador. Meu corpo estava quente, quanse em chamas por dentro, apesar do meu momento crítico. Sabia que a qualquer momento meu coração poderia falhar e minha vida se acabar, mas no momento ele batia em uma velocidade insana e eu nunca me senti mais vivo do que agora. Na verdade, me sentia como se toda a minha vida até hoje não passasse de um sonho e agora eu finalmente estava disperto e vivo. Renascido. E esse beijo havia finalmente me trazido a vida. Era como se algo tivesse explodido dentro de mim.Todo meu corpo estava reagindo de forma inesperada, era como se tivesse tomado alguma droga. Decidi tomar o controle da situação e impedir que meu corpo reagisse de forma inapropriada e constrangedora. O beijo voltou a ser suave e então, para me despedir das estranhas sensações, mordisquei pela última vez, o lábio inferior dela, fazendo-a arrepiar-se por completo.
Aquele beijo foi tão divino quanto à mulher a quem beijei. Não sentia mais frio, agora estava completamente aquecido como em uma tarde de verão. Não sentia meu coração fraco, sentia-o bater firme e forte como o de uma criança. Não sentia mais dor, sentia meu corpo leve e bem quase como se não tivesse um arranhão sequer.
Ela abriu os olhos lentamente. Eles pareciam ter um brilho especial que irradiava mais luz que o próprio sol. Toda a sua pele parecia brilhar com ainda mais intensidade. Como se tivesse luz própria. O seu sorriso era sincero e feliz. Destacava-se em meio aquele conjunto da partes perfeitas que formavam aquela mulher. Ela estava mais linda do que jamais havia visto igual. Sorri a ela também. Admito que eu, provavelmente, também estava radiante de felicidade. Mas ela não duraria muito. Logo eu morreria, mas agora eu queria aproveitar aquele momento perfeito junto dela. A Shinigami de meus sonhos. A dona do meu coração.
- Levante-se! – Ela ordenou de forma doce e gentil como sempre.
Fiquei completamente estupefato com o que ela disse. Apenas uma palavra teve um impacto desse porte. Ela não falou nada demais, só exigiu de mim algo que estava absolutamente fora de meu alcance físico.
- Levante-se! Eu te ajudo. – Ofereceu-me a mão esquerda. – Venha!
- Eu não posso. Já não tenho forças para ficar de pé.
- Confie em mim. Por favor.
Ela pedia minha confiança. Não havia como negar um pedido dela, e a ela eu havia entregado meu coração. Eu confiava minha alma a ela. Sem dizer uma palavra peguei em sua mão e forcei minhas pernas a se mexerem. Incrivelmente elas obedeceram, e não só isso, elas foram capazes de suportar-me erguido. Olhei-as incrédulo e percebi que o ferimento já não sangrava mais. Na verdade sequer parecia que eu estava fatalmente ferido. Examinei-me confuso foi quando eu vi. Foi quando eu me vi.
Na verdade, prestando um pouco de atenção, eu parecia melhor do que jamais estive em toda a minha vida. E, olhando-me melhor, vi algo que antes não tinha. Uma corrente presa em meu peito. Eu já estava morto. Por isso já não sentia frio, já não sentia dor, já não sentia medo da morte. Eu era agora um espírito.
- Quando? – Não consegui dizer nada que fizesse muito sentido. Apenas perguntei.
- Logo após sua declaração. – Ela disse simplesmente. Por alguma razão, ela ainda segurava minha mão.
Tornei a olhar-me. Eu estava deitado no chão, com a mão direita sobre o ferimento e a esquerda caída ao chão. E incrivelmente, com um sorriso nos lábios. Não sei bem como explicar o porquê de não ter percebido isso antes, mas era verdade. Porém outro detalhe chamou minha atenção.
- Espere. Por que eu não me tornei um demônio como o outro?
- Aquela coisa é o destino daqueles que desprezaram seus sentimentos e fizeram coisas perversas e hediondas antes de morrer. – Ela olhou para meu corpo ao chão. – Você não é como ele. Você é uma boa pessoa. Aqueles que conseguem manter seus sentimentos até o fim têm um destino diferente. E você manteve o mais forte deles. – Ela corou um pouco. Juntou suas mãos a minha e colocou junto ao peito sob o coração. – O amor.
Meu peito se encheu de felicidade. Então, a dama da sorte me sorriu uma ultima vez. Serei eternamente grato a ela. Agora ela irá sorrir a outro que precise dela. Eu já tenho minha dama.
- E agora? – Aproximei meu corpo do dela juntando nossas mãos.
- Agora você deve ir. – Como? Justo agora que nós poderíamos ficar juntos eu deveria partir? Não.
- Para onde? – Não queria me separar dela.
- Para o local de descanso de todas as almas. A Soul Society.
Então era isso. Depois de tudo, eu não poderia ficar junto dela. Passaria a eternidade no paraíso enquanto ela continuava com seu trabalho de Shinigami aqui. Afastei-me lentamente dela, desvencilhando minhas mãos das dela. Mas antes que minhas mãos a soltasse, ela segurou-as forte. Antes que pudesse ter qualquer reação de dúvida, ela se jogou em meus braços e me beijou. Um beijo como o ultimo. Cheio de sentimentos e sensações incríveis que faziam todo o meu corpo reagir.
- A Soul Society não é um lugar tão ruim assim. Dizem que é melhor que o mundo real. Além do mais, eu estarei lá para você.
- Mas e quanto ao seu trabalho aqui Shinigami? – Seus olhos transmitiam a sinceridade de suas palavras.
- Assim que essa guerra humana terminar, e eu enviar todas as almas para a Soul Society, eu vou retornar a mesma. E irei te procurar.
- Por que você se importa tanto assim comigo Shinigami? Eu sou apenas mais uma alma. – Eu a segurava firme em meus braços.
- Você foi a primeira pessoa... A dizer que me ama! – Ela corou novamente.
Beije-lhe novamente deixando claro todos os meus sentimentos por ela. Se ela disse que estaria lá por mim, eu iria aonde ela quisesse me enviar. Ela sacou sua espada e se preparou para começar o ritual, chamado Konsou, para me enviar ao outro mundo. Eu ainda a mantinha em meus braços. Não estava pronto para deixá-la, mas...
- Eu te esperarei do outro lado Shinigami. – Ela ergueu a espada e tocou minha testa onde uma forte luz azul envolveu meu corpo.
- Eu prometo que logo irei e vou lhe procurar e encontrar.
- Estarei esperando por você Shinigami. – Ela selou seus lábios aos meus antes que eu desaparecesse.
- Eu não sou Shinigami. Eu me chamo Maya Natsume.
- Um belo nome. Eu sou Aoryuu Edge. É um prazer Natsume. – Sorri feliz e zombeteiro, como jamais sorri na minha vida inteira. Mas tenho certeza que sorrirei muito assim na minha nova vida.
End
Notas finais
E por fim... Hoje, dia 16 de janeiro, dia em que postei a fic, é o dia do meu aniversário. Uebaaa. Parabéns pra mim.
rsrs. ^^
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Flws cambada.
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