The Life of Electra Heart
1 Can we go back to the start?
Notas iniciais

Atualmente
Electra Heart estava sentada a beira de uma árvore num bosque escuro. Pela primeira vez, sua mente não estava a agitada, a beira de um colapso. Ela respirava calmamente e fitava o vazio, seus pensamentos estavam longe, o piscar dos olhos era sereno e ela não tinha pressa de ir, mesmo sabendo que seu tempo havia chegado.
Mais cedo naquela manhã a beira da grande janela de seu quarto, ela havia se perguntado o que mais poderia querer. Assistira o sol nascer, mas não sentia-se cansada pelo sono perdido e sabia disso. Há muito tempo a sua vida já não mais fazia sentido.
A chuva tornou-se mais frequente, mas ela não importou-se em molhar o seu vestido preto de cetim. Não incomodou-se com a lama que começava formar-se a sua volta. Houve uma época em que ela jamais admitiria que isso acontecesse. Imersa na escuridão do bosque, o qual a luz da lua não brilhava mais sobre. Electra começou a divagar sobre a sua vida.
Começo dos anos 2000
A televisão estava ligada e os videoclipes de cantoras pop como Britney Spears estavam passando no volume máximo. O quarto estava mal iluminado com apenas a luz fraca que vinha da janela semi-aberta, que era parcialmente tampada por cortinas rosas choque de muito mal gosto. O chão do quarto estava coberto de pilhas e mais pilhas de roupas que deveriam estar no closet — ou na máquina de lavar roupas. A porta fechada como sempre, carregava recortes de revistas sobre moda à cultura pop.
Electra estava deitada em sua cama, bagunçada e envolta por travesseiros. Sua cabeça encontrava-se em outro lugar, escrevia em seu diário os dramas que a perturbavam vinte e quatro horas. Quando se dava conta, olhava a sua volta e suspirava. As bordas da folha em que escrevia estavam cobertas de pequenos corações. Ela sentia-se cansada, apesar de ser duas da tarde de sábado e ela havia acordado há apenas meia hora. Vestia o de sempre, a sua camiseta favorita com a bandeira dos Estados Unidos estampada e uma saia xadrez, seu cabelo estava preso com uma trança de cada lado. A barriga roncava de fome.
Ela ouviu três batidas na porta de seu quarto e logo depois a voz de seu pai anunciando que alguém esperava por ela, na varanda da casa.
— Diga que eu já vou. — Ela revirou os olhos e com muita preguiça levantou-se da cama.
Caminhou até o banheiro de seu quarto e olhou-se no espelho. Na televisão, Britney Spears aparecia deslumbrante no tapete vermelho de alguma premiação sorrindo. Electra olhou para seu reflexo no espelho novamente e não estava contente com o que via. Lavou o rosto e passou mais um pouco de delineador nos olhos. Abriu a gaveta e do fundo tirou um frasco de anti-depressivos, do qual ela tomou três pílulas. Voltou-se para o espelho e sorriu, embora ainda sentia-se morta por dentro.
A caminho da porta ela encontrou uma suéter qualquer e vestiu-o, respirou fundo e alegre foi até a frente da casa. Ela sabia quem a esperava e com um sorriso abraçou o garoto que estava observando o jardim de sua casa.
— E aí, gata. — foi tudo o que ele disse, depois a beijou. Ela sorriu pra ele, seus olhos brilhavam. — Vamos com a galera na lanchonete fazer uma bagunça mais tarde?
— Sim, claro! — Jogou as tranças loiras para trás e sorriu. — Quer dizer... Eu tenho bastante coisas pra fazer aqui. Que horas você vem me buscar?
— Às sete. — Ele a beijou novamente, o coração dela acelerou mais um pouco. — Ah, e faça algo mais... apresentável no seu cabelo.
— Como assim, o que há de errado com o meu cabelo? — Ela segurou a trança do lado direito e olhou para o rapaz.
— Não, nada... Só, faça algo diferente. — Ela olhou pra ele desapontada. — É, então te vejo às sete.
— Às sete, então. Tchau Brad. — Ela o deu um beijo rápido e entrou.
Aos quinze anos tudo parece o fim do mundo. E não foi diferente com Electra. Enquanto passava pela sala de estar, em que seu pai estava assistindo a um jogo de baseball, ele olhou para ela. Ela sabia o que estava por vir e não demorou para que acontecesse.
— Você não vai sair de casa esta noite. Tem que estudar para ter notas mais altas... Ou você pensa que vai ser uma advogada da noite para o dia? — Ele estava na porta de seu quarto.
— Pai, eu já disse que vou ser uma estrela! Todos me adoram.
— Ela estava vasculhando o chão do quarto, procurando por algo para vestir esta noite.
— Você não vai ser uma estrela, você mal tem talento. E não sairá de casa esta noite. Tenho dito. — Virou-se e voltou a ver o jogo na sala de estar.
Ela bateu a porta do quarto o mais forte que pode. Trancou-a e correu para o banheiro. Ela olhou-se no espelho por alguns minutos e começou a desfazer as tranças. O rímel escorria pelo seu rosto junto com as lágrimas. Quando as tranças estavam desfeitas, ela pegou mais três pílulas do frasco de anti-depressivo que escondia no fundo da gaveta. Tomou banho e lavou o cabelo. De maneira alguma seu pai a manteria presa em casa esta noite.
Vestiu o suéter rosa que ia até o umbigo e a saia de cintura alta cinza e aumentou o volume da televisão. Pegou o telefone e discou o número de Brad, para avisa-lo que deveria chegar em silêncio e pegá-la pela entrada dos fundos. Ela respirou fundo e olhou em volta, ainda precisava fazer alguma coisa com o seu cabelo. A raiz de seu cabelo castanho natural já estava aparecendo e ela precisava urgente retocar o louro platinado. Como seu pai não a deixara pintar o cabelo de verdade, ela usou um spray que havia encontrado em um brechó por aí. Fez mais cachos no cabelo e colocou uma fita para segura-lo. O rímel já estava mais forte e o batom estava mais claro.
Ela sentou-se na cama e começou a escrever em seu diário: "Querido diário, eu conheci um garoto. Ele faz meu coração bater mais rápido..." Ouviu alguma coisa acertar a sua janela e quando olhou, era Brad. Acenou para que esperasse e jogou a corda de colchas improvisada. Passou o perfume rápido, aumentou mais um pouco a televisão e certificou-se de que a porta estava trancada. A janela do quarto dela ficava em frente aos fundos da casa, que já estava bem escuro. Ela não preocupou-se com a altura e mesmo um pouco dopada com o remédio que tomou conseguiu descer sem causar problemas.
Esperando no carro de Brad sozinha, ela se olhou no espelho e sorriu para o seu reflexo. Vasculhou o porta-luvas do carro e encontrou alguns chicletes, pegou alguns e guardou, um ela colocou na boca. Ela já estava lá dentro sozinha há vinte minutos e se perguntava o que seu "namorado" estava fazendo que tanto demorava dentro da casa de seu primo. Quando decidiu descer, o viu vindo mais dois rapazes e uma garota loura. "Finalmente!" pensou fazendo bolinhas com o chiclete.
A lanchonete do centro da cidade não era muito longe dali e por todo o caminho Brad fumou um cigarro que fazia Electra tossir a cada dez segundos. O rádio do carro tocava "Oops!... I Did It Again" de Britney Spears, Electra já perdera a conta de quantas vezes havia escutado aquela música — ou Britney — naquele dia. Enquanto ela parecia perfeita para as pessoas a sua volta, estava extremamente vazia por dentro.
— Ei, Electra. Fiquei sabendo que está concorrendo para rainha do baile este ano, parabéns! — disse a garota loura no banco de trás com um sorrisinho um pouco falso, o que pensou Electra. — Espero mesmo que ganhe desta vez... Depois de tantas tentativas.
— Obrigada. — Foi tudo o que conseguiu responder.
Chegando na lanchonete, ela esperou com que Brad abrisse a porta do carro para ela. E quando o fez, ela estourou mais uma bolinha de chiclete. A noite estava fria e Electra ainda estava com fome. Mal havia tocado em seu milkshake e forçava-se a rir das piadas que os amigos de Brad faziam na mesa em que estavam sentados. Ela pediu um minuto e foi para o banheiro, onde vomitou tudo o que havia tomado... e o que não.
— Hey, baby. Vamos dar uma voltinha? — Brad já havia se levantado e a puxava para fora da lanchonete. Ela agarrou seu braço e jogou os cabelos para trás.
Ele a levou para o fundo da lanchonete, um beco escuro onde um gato preto miava sem parar. Eles encostaram na parede de tijolos e se beijaram. Brad já não estava mais neste mundo, influenciado por algum tipo de droga que havia provavelmente tomado naquele tempo que ficou na casa. Os amassos ficaram mais intensos e ele a levava para o canto mais escondido do beco. Ela estava preocupada mas ao mesmo tempo não estava ligando. Eles continuaram e ele a puxou para o seu colo. Electra olhou para a lua e sabia que se lembraria daquela noite para sempre. Foi então que perdeu a virgindade.
Assim voltaram para dentro da lanchonete, Electra sentia-se viva, mas ainda morta por dentro. Brad fumava mais um cigarro, foi quando subiu em cima da mesa e gritou que a noite "estava apenas começando." Electra pediu um bolo de chocolate e sentou-se num canto sozinha. Comeu e pediu mais um milkshake enquanto via a lanchonete ser destruída pelos amigos de seu namorado. Depois que terminou tudo, foi mais uma vez ao banheiro.
Mascando outro chiclete, ela viu a polícia chegar a lanchonete. Olhou a sua volta e todo o lugar estava quebrado, fedia a cigarros e drogas, a música tocava alto. As funcionárias de lá estavam todos em um canto, uma delas Electra reconheceu, era Jennet da sua classe de Matemática e ela sorriu simpática. O resto da noite foi um borrão.
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