The Last Tear

1 Capítulo 20 - Eu sou


Notas iniciais
Depois de muito tempo, voltei! Esse é o último capítulo que estou postando... Estou dando uma pausa para os que chegaram até aqui. ESPERE! NÃO! NÃO É O ÚLTIMO CAPÍTULO. Eu estou dando uma pausa, apenas uma pausa, porque eu estou revendo os outros capítulos, melhorando os textos e algumas descrições. Paciência que eu chego no CAPÍTULO 21! Beijos e desculpa a demora!

O carro incomodava tanto e a luz do sol não estava ajudando. Isso era agonizante e eu não conseguia dormir. Era só eu e o Keith no carro, em direção a Moscou. Tudo virou palhaçada desde que saímos de casa, minha nova casa, aquele prédio em Manhattan. O prédio dos elfos, ridículo.

Nada estava dando certo, nem meu simples desejo de dormir. A droga da minha vida só estava piorando...!

– Odeio isso, por que eu preciso ir com você?! — Gritei inconformada com a minha falta de informação. Eu nem sabia para onde estávamos indo, fora que era na Rússia, ou o porquê de estarmos na Rússia! — Eu simplesmente fui acordada às seis da manhã para ser jogada em um carro, em direção à Moscou e você não diz nada?! — Joguei meus braços para o alto. — Por que eu preciso ir com você? Não tinha outra pessoa para escolher ou torturar como companhia?! — Resmunguei.

O elfo se irritou com o meu desabafo e parou o carro. Graças á Deus que eu estava com o cinto, ou o meu rosto estaria colado no vidro da frente.

–Sai do carro. – Disse seco e frio, me ignorando.

Eu fiquei de boca aberta com a arrogância, a estupidez e a falta de senso desse ser. Eu não aguentei, eu estourei.

–Mas por que eu tenho que sair do carro?! — Gritei com ele, franzindo o cenho. — Eu nem sei porque eu estou aqui! — Fiquei mais nervosa ainda. — Você não tem o direito de me...

–Agora. — Ele me cortou totalmente bravo, franzindo o rosto e apertando os olhos, parecendo com dor de cabeça. Ele indicou para que eu saísse, destrancando o carro e apontando para a minha porta.

–Merda de elfo! — Saí do carro e bati a porta com força, chutando o pneu e me afastando dele. Ainda bem que eu estava usando uma bota bem dura, ou o meu pé estaria quebrado. — Nunca devia ter confiado nesse infeliz! — Falei alto e andando para longe do keith, seguindo a estrada em direção a lugar nenhum. Aquele deserto gelado, inferno!

Eu andei um pouco, o suficiente para ver o carro um pouco longe. Ele era insuportável, não dava para compreendê-lo. O elfo era terrível, se irritava comigo a maior parte do tempo, brigava comigo sempre e ao mesmo tempo me protegia. Era complicado o modo como ele me tratava.

Alguns dias atrás eu desmaiei quando estava no quarto, nos braços do Keith, tentando falar para ele como que eu desapareci do quarto. Acordei com a minha mãe ao meu lado, segurando a minha mão.

–Eu sei quem eu sou, mãe. — Falei para ela, depois de recordar várias coisas, ou no caso, sonhar várias coisas.

Minha mãe sorriu triste, incomodada com algo.

– Eu me chamo Katherine Stella Caelum, a irmã mais preciosa dos anjos, a que caiu e nunca mais voltou. — Apertei a mão dela. — Você sabia disso! — Estreitei os olhos para ela, que os desviou de mim.

–Eu sei. O anjo que reencarnou no corpo da minha filha. — Ela sorriu e voltou a me encarar. — Você é minha filha, não um anjo e nem uma elfa, mas a minha pequena Kate. Não esqueça nunca que você é minha filha e eu sou sua mãe, não importa se você é um anjo ou um alienígena.

–Papai também dizia isso. — Sorri meio sem jeito e ela se espantou por eu mencionar o meu pai. — Eu lembrei quase tudo. Eu sabia que ele escondia alguma coisa quando eu não conseguia lembrar as coisas que fazíamos juntos quando eu era pequena. Ele apagou a minha memória para que eu não descobrisse nada. — Tentei sorrir, fazendo-a chorar.

–Seu pai não fez isso porque ele quis, mas porque era o certo. Nós estávamos em risco de te perder, ele sempre soube. Eu sempre soube. Não tínhamos escolha a não ser apagar tudo, todas as memórias de quando você era elfa, de quando você tinha a marca, de quando você era pequena. — Ela deu um sorriso frouxo. — E eu pedi para ele apagar as minhas memórias de elfa. Eu não conseguiria viver lembrando você, das perdas, dos seus avós e das mortes. — Ela limpou uma lágrima. — Eu pedi para ele apagar a minha memória e fazer de nós humanas. — E sorriu meio que chorando. — Desculpa Kate. – Estendeu os braços e me abraçou. — Eu não tive tempo de me redimir com você, com o tempo que perdemos e com o que você perdeu. Mil desculpas, eu não quis tirar o que era seu. — Ela continuou a chorar e eu não sabia o que fazer, até os meus olhos ficarem embaçados, depois as lágrimas caírem e tudo virar uma cachoeira.

Esvaziei a tristeza que senti quando descobri que meu pai foi quem apagou as minhas memórias, que me amava tanto e que a minha mãe não tinha forças para continuar a viver sem ter que se culpar pelo que pediu ao meu pai. Eles me amavam tanto e não queriam que eu fosse embora. Eu entendo agora, eu entendo. Eu era a chave para a desgraça de todo mundo. As mortes dos que eu nunca conheci e os que eram inocentes e os que me amavam. Eu estraguei a vida de todos. Grande merda que eu fiz, deixando o céu.

O que eu fiz para ter que reencarnar como uma elfa e estragar a vida de todos? Sério, eu mereço todo o sofrimento do mundo. Eu devo ter feito uma boa escolha para ficar aqui, ou isso não teria valido a pena.

–Mãe, por que você não me disse antes? — Perguntei finalmente quando ela parou de chorar. — Por que você não disse que o papai foi quem apagou as minhas memórias?

–Não era necessário. Você recordaria tudo, todas as lembranças, todas as memórias, tudo sem que eu precisasse dizer nada. — Ela respondeu. — O feitiço só é desfeito por quem o fez, ou no seu caso, depois da morte de quem o fez.

–Então eu vou lembrar tudo? — A confusão já estava sendo normal, acredite, eu me acostumei. — Tudo mesmo?

–Sim. — Ela respondeu. — Tudo, até a sua outra vida.

–Eu deveria ficar feliz ou triste com isso? – Fiquei pasma com o que ouvi. — Sério, a minha vida só vai fica pior? — Coloquei a mão na testa e bufei, sentindo um alivio por estar na cama, deitada, ou as minhas pernas não teriam aguentado o chute e o soco que levei com as palavras da minha mãe. — Preciso de tempo. Preciso de muito tempo, muito mesmo, mas acho que é impossível. Eu não posso acordar direito que eu ganho uma notícia horrível, uma pedra a mais no meu sapato. Não acredito que vou acabar vivendo um inferno! — Falei baixo, só para mim mesma, mas então não aguentei minha frustração e comecei a rir.

–Eu sei que é difícil, eu entendo o que você está sentindo. — Minha mãe disse tentando me confortar de alguma forma porque o que eu estava passando agora, ninguém deveria experimentar.

–Mãe, você não entende o que eu estou sentindo e pensando ou passando. Você não tem noção de como isso é um inferno! Você não sabe o quanto eu aguento para ficar em pé todo o dia. — Lamentei, rindo sarcástica com a minha vida. — Eu vivo por algum motivo, que a cada dia está sumindo do meu caminho. Você não sabe o que eu estou passando. — Bufei para ela, pois nada ou ninguém entenderia o que eu estava sentindo nesse momento. — Eu queria ter uma vida normal, queria ser normal, eu queria viver como uma humana ou pelo menos uma elfa normal. Normal, nada de anjos ou elfos ou pôneis. Cara, pôneis existem? — Minha frustração não acabava e resolvi sair da cama. – Esquece. — Balancei a cabeça e sorri um pouco forçado. — Vou comer ou beber alguma coisa, com o mínimo de tempo que eu tenho, pouco tempo, e ninguém pode tirar isso de mim! — Saí do quarto deixando minha mãe sozinha.

Fiquei um bom tempo encostada na porta do quarto e pensando no que fazer e ouvi a porta do Keith abrir. Ele saiu, ignorando-me para variar. Estava ficando difícil ter uma conversa amigável com ele, ou ter uma conversa no mínimo com mais de quarenta segundos.

Eu o segui em direção ao elevador. Fiquei observando-o caminhar, andando igual a um modelo, sem ser desastrado ou indelicado. Ele era perfeito. De costas era muito atraente, com a camisa preta colada no corpo, mostrando os músculos definidos e a calça estilo militar, deixando-o com um ar de guerreiro, soldado, ou um predador. Ele era de tirar o fôlego e fazer as pessoas esquecerem se de respirar, o que eu estava fazendo? A minha cabeça girou, sério, eu perdi a noção de espaço e caí, acabando nos braços do Keith, não sabendo como.

–Você está bem? — Ele me olhou engraçado, muito calmo e ridiculamente lindo. — Kate?

–Ah, sim... Estou. – Falei meio sem jeito. — Só um pouco podre, mas logo me recupero.

–Tem certeza? — Ele pôs a mão na minha testa, vendo se eu estava com febre. Droga. Era confuso o que ele fazia comigo. De um momento para o outro ele está me ignorando e depois verificando se eu estou com febre. Impossível de entender.

Não dava para entender. O único ser mais complicado que eu era o Keith. Podia ter certeza que ele veio de uma linhagem de animais carnívoros, violentos, misteriosos, atraentes e confusos. Gente, ele era um ser de outro mundo. O cara era difícil de entender e ainda mais complicado que eu. Dá para acreditar? Eu simplesmente não me entendo por sentir atração por um cara assim. Ele só vai atrapalhar mais a minha vida, como se ela já não estivesse um caos Kate.

O não-tão-cavalheiro Keith me levantou igual a uma princesa e me carregou até o elevador, levando-me até a cozinha e fazendo eu esperar, sentada, enquanto ele fazia algumas coisas para eu comer.

Incrível, estou sendo mimada por um cara que dei um fora e que continuo a babar por ele. Merda, eu tenho que parar de sentir essas coisas pelo Keith e parar de ser boazinha, deixando ele se aproveitar da situação. Odeio ser mal interpretada e isso só vai acabar confundindo-o.

–Keith, eu estou bem. – Avisei enquanto ele colocava o prato na mesa, com bacons, ovos mexidos e panquecas. — Eu estou bem, não precisava de tudo isso.

–Não, eu sei que você não está. — Ele respondeu sério, terminando de pôr o copo e os talheres. — Coma tudo, ouviu? — Ele sentou ao meu lado e cruzou os braços, encarando-me com aqueles olhos cinza.

Eu observei a comida na minha frente, perguntando-me se tinha algum veneno, então o Keith respondeu.

– Não tem veneno. — Avisou, sorrindo galã e fazendo o meu coração palpitar.

–Tem certeza que você não confundiu algum tempero com veneno? — Sorri meio torto e cutuquei o ovo com o garfo.

–Não sei, é melhor você experimentar. — Ele continuou com o sorriso. — Talvez esteja um pouco salgado, mas eu acho que é só sal mesmo. — Eu tive que rir.

A comida estava muito boa e minha barriga ficou satisfeita, porém eu não terminei minha refeição com os olhos cinza me encarando. A Karen chamou o Keith para eles conversarem a sós e eu fiquei degustando do meu café da manhã sozinha.

Fui até a sala de treinamentos e encontrei o Gabriel lá. Ele estava limpando uma adaga toda sanguentada.

–Hey, Gabriel. — Caminhei até ele, perto de um armário cheio de armas.

–Eu sabia. — Ele disse aleatório, sorrindo largo e temível. — Eu sabia que era você.

–Eu o quê? — Perguntei estranhando a acusação. — O que sou eu?

–Você é o anjo. Você é o que eles procuram, o que os anjos procuravam. Sempre foi. — Ele respondeu continuando a sorrir, terrivelmente maligno. — Você é o desastre para os elfos. Sempre foi e sempre será.

–Mas, o que... — Eu fiquei pasma sabendo que tudo o que ele disse era verdade. — Mas, como... — E o Keith apareceu totalmente ofegante, atravessando a porta como um flash e impedindo-me de terminar a frase.

–Você precisa vir comigo! — Disse puxando o meu braço com força e fazendo eu me mover depressa, tão depressa que não consegui olhar para o Gabriel e me despedir dele.

Nós estávamos praticamente correndo até o elevador.

–O que foi?! — Perguntei desesperada, entrando e esperando ele dizer alguma coisa.

Nada. Ele me olhou bravo, muito bravo. Era confuso como ele mudava de humor tão rápido. Era até engraçado, tirando o fato de que eu o deixava irritado a maior parte do tempo.

A porta do elevado abriu e o Keith me levou até a sala, indo direto para o quadro pregado na parede, aquele que eu adorava. Os anjos caindo e se abraçando? Perfeito. Eu acho que era um puxando o outro.

–Você sabe o que esse quadro significa? — Ele perguntou, olhando ansioso e meio bravo para mim.

–Humm, dois anjos se arrastando para o inferno? — Sorri sarcástica.

Ele não gostou, pode ter certeza. A indiferença no seu olhar me deu calafrios e eu fiquei séria.

–Sim, eu sei. O Gabriel me contou. – Observei atentamente o rosto do Keith. — Por quê? — Eu não estava entendendo nada, mas os olhos dele estavam medonhos.

–Por quê? — Ele fechou o punho e chegou até mim, sussurrando frio. — Você não tem noção do que esse quadro representa. — Eu jurei que ele ia me socar, sério. Eu jurei.

–Não é alguma coisa com um anjo e um elfo? — Perguntei dando um passo para trás, evitando que ele me batesse pela pergunta.

–Sim, mas não é só isso. — Ele se afastou e recostou-se na parede, ao lado do quadro, cruzando os braços e fechando os olhos, tentando se acalmar. — Você não sabe de nada. — Ele bufou e depois me encarou, querendo encontrar alguma coisa, esperando que eu falasse algum segredo. — Como você se chama?

–O quê? — Perguntei só para saber se eu tinha escutado certo.

–Como você se chama? — Ele repetiu e isso confirmou o meu pensamento.

Eu não tinha entendido errado, ele sabia.

– Não sei aonde você quer chegar. – Falei olhando-o feio e levantando minha guarda.

–Você sabe, Stella Caelum. – Arrepios passaram pela minha carne quando o Keith pronunciou o meu nome.

–Como que você... — O choque foi profundo, muito intenso, e fez meus neurônios pararem. Era aquilo, o quadro. Ele estava se referindo ao quadro.

–Eu sabia. — Ele sorriu e compreendi o raciocínio dele. — O quadro. — Ele falou indicando com os olhos. Virei-me para analisar a obra. — É o nome do quadro, Stella Caelum. — E continuou a observar os anjos. — É o seu nome, Kate. — Ele voltou a me olhar.

–Como? — Perguntei confusa para o Keith.

–Você é o anjo. Você é o anjo que o artista pôs o nome no quadro e pintou. — Ele estreitou os olhos, furioso. — Você é a que caiu, a que destruiu os elfos. — E parecia irritado, terrivelmente irritado, fechando os punhos, de novo, e desviando os olhos de mim e do quadro. Centrado em algo, muito além daqui.

–Eu não sabia. — Encarei meus pés. — Eu não sabia, mas tudo faz sentido agora. Eu sou uma praga. – Murmurei, voltando a olhar o Keith que agora me encarava intrigado. — Ainda bem que nós nos odiamos. – Sorri frouxo, pois ele sabia o que eu estava falando.

Eu e ele não fomos destinados a ficar juntos. Eu nunca deveria ter escolhido ficar, nunca.

Eu voltei para o elevador e andei até o meu quarto, querendo desmoronar com a descoberta macabra da minha vida. A vida que não era para ser minha.

Eu não deveria ter reencarnado, menos ainda ter deixado o céu. A escolha de ficar com o Keith, o meu amante, isso não era para ter acontecido. Eu não tinha que causar uma guerra, não tinha que ter matado tantos por causa da minha teimosia, não tinha que fazer os elfos odiarem os anjos e nem viverem fugindo.

Isso tudo fui eu, por isso que não vou mais falhar, nunca mais. Eu vou voltar. Vou voltar para o céu e nunca mais sair de lá. Esse é o meu castigo, viver presa.