The Last Soul On Fire
10 Desolação
– Felícia? — A voz de Devy me despertou, afastando momentaneamente a escuridão. Era estranho que Devy pudesse representar algum tipo de salvação.
Abri os olhos lentamente, o Azul invadiu meus sentidos e me senti tonta novamente, mas dessa vez eu podia ver o contorno de Devy e as formas vagas ao redor dela.
– Muito bem, consegue focar na luz? — Ela disse fazendo algo brilhar em frente aos meus olhos, dessa vez fui capaz de acompanhar a luz, mas as formas continuavam vagas.
– Vou ficar cega para sempre?
– Estamos fazendo algum progresso, só precisa ser paciente.
– Como ela está? — Uma voz masculina ecoou pela sala, mas não qualquer voz... aquela voz. Primeiro pensei que estivesse sendo arrastada de volta ao sonho, mas então percebi que Dayon estava realmente ali.
A presença dele fez meu coração disparar e as imagens nubladas da lembrança retornarem, recuei bruscamente caindo da cama, os poucos contornos que eu era capaz de ver se misturaram novamente ao azul e por fim ao negro, Devy estava tentando falar comigo, me chamar de volta, mas só o que eu via era Dayon à minha frente.
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– Você não precisava ter batido com tanto força D. — O homem chamado Marcus falou enquanto acariciava meu rosto.
Senti o metal frio das algemas contra meus pulsos e parede às minhas costas. Minha cabeça latejava e demorei um pouco para focar no homem sentado perto de mim, pelo corte de cabelo reconheci como Marcus.
– Ele vai voltar para buscá-las, ao menos assim ela não dá trabalho. — Dayon andava de um lado para o outro enquanto falava. — Agora que ele já despertou, precisamos ser cuidadosos, deve estar instável... Talvez nem se lembre dela...
Dayon era um homem alto, cerca de 25 anos, cabelos castanhos acobreados na altura dos ombros com ondas suaves, olhos azuis muito claros, barba bem aparada até de mais para quem estava em nossa perseguição a semanas. Ele havia tirado o sobretudo, a camisa branca que usava por baixo estava rasgada na gola e deixava parte do tórax e os músculos bem definidos a mostra. A calça preta estava presa na cintura por um cinto cheio de objetos metálicos. Armas. A tatuagem de Dragão dele não estava a vista.
– Ele não vai voltar. — Falei com toda a convicção de que era capaz, eu sabia que ele não estava em condições para isso.
Nenhum dos dois se deu ao trabalho de responder, quando a noite caiu Marcus juntou pedaços de madeira velha que conseguiu arrancar das uma porta e acendeu uma fogueira no chão empoeirado, me arrestei para mais perto do fogo, agora que não tinha mais sol aquele lugar úmido gelava até os ossos. Os dois me olharam, mas não fizeram nenhum movimento para me impedir de ficar mais perto do fogo.
– O que faremos com ela? — Marcus perguntou me olhando com aquele sorriso estúpido no rosto.
– Levamos para a base... Afinal ela vai acabar despertando também, se o chamado for para os Corvos, só precisaremos cortar as asas.
Marcus pareceu concordar e também veio para mais perto do fogo, a chama iluminava fantasgoricamente as paredes, eu podia ouvir os ratos correndo pelos canos vazios na parede, apenas tentei não pensar muito neles. Dayon abriu a própria mochila e tirou uma lata de sopa de dentro, jogou uma para Marcus e pegou outras duas, eles abriram as latas e esquentaram na fogueira, cada vez que Dayon olhava para mim eu tinha a impressão de que ele segurava o impulso de me matar, por isso mesmo seu próximo gesto me surpreendeu.
– Não quero que me acusem de matar uma prisioneira de fome. — Ele se sentou ao meu lado e colocou uma colher de plástico dentro da lata, pegando o conteúdo e levando até a minha boca. — Pela primeira vez no dia seja boazinha, está bem?
Eu estava faminta, então reprimi o impulso de jogar tudo no rosto dele, além do mais, se eu pretendia fugir ia precisar das minhas forças. Como cada colherada de sopa que ele colocou na minha boca sem dizer uma palavra, quando finalmente terminei a refeição, ele se dedicou a própria comida, nenhum de nós disse nada e não posso me lembrar de quanto tempo se passou até que o caísse no sono. De uma maneira absurda e contraditória, quando Dayon se aproximava eu me sentia segura... Segura a ponto de cair no sono.
Acordei abruptamente com o estalar das máquinas na sala ao lado, Marcus e Dayon já estavam de pé e armados, Droga Bryan... Por um lado um sentimento de felicidade me invadiu, eu sabia que ele não abandonaria, mas por outro a falta de discrição dele podia acabar com nós dois.
Nenhum dos dois trocou nenhuma palavra, embora a presença de Bryan fosse muito forte, era impossível saber exatamente onde ele estava, já que sua energia emanava de todos os lugares.
Marcus arrancou o pino de uma granada e jogou na direção da porta que levava até as caldeiras agora inexistentes, como se aquele local precisasse de mais devastação, apenas torci para que a antiga estrutura do prédio aguentasse. Recuei até encostar na parede atrás de mim e me abaixei preparada para a explosão, o impacto do metal da granada batendo no chão fez ecoou pelo salão das caldeiras, como uma pedra atirada em uma caverna. Naquele momento tive certeza de que tudo viria abaixo, mas nada aconteceu.
Demorei para perceber que não era a granada que tinha falhado, as armas dos Dragões sempre foram bem conservadas. Quando Bryan passou pela porta arrebentada pela explosão anterior, ele segurava o objeto envolto em um manto de luz vermelha, uma espécie de bolha que continuou a flutuar mesmo quando ele a soltou, ela se expandiu quase meio metro como se fosse de elástico e as chamas dentro dela se contorceram destruindo o objeto de metal em que foram aprisionadas, ainda assim a bolha não cedeu.
O olhar de Bryan percorreu todo o cômodo, parou demoradamente em Marcus e em Dayon, mas nem se deu ao trabalho de prestar atenção quando as chamas finalmente cessaram dentro da bolha de luz vermelha que se desfez e libertou os restos de metal contorcido no chão.
"Felícia..." A voz dele chamava de dentro da minha cabeça e abandonei minha posição encolhida no chão com um salto na tentativa de passar por Dayon e Marcus para chegar até ele, mas Dayon foi rápido e puxou meu cabelo com tanta força que a dor fez meus olhos lacrimejarem. "Felícia... Felícia... Felícia" Bryan repetia meu nome em ondas baixas e continuas, eu tinha certeza que Dayon e Marcus também podiam ouvir, cada célula do meu corpo tremia como por vontade própria para atender ao chamado, mas eu estava firmemente presa ao corpo de Dayon, ele travou um dos braços ao redor dos meus ombros me prendendo a ele por trás e com a outra mão segurava um punhal contra o meu pescoço, por mais que eu tentasse me soltar, ele era mais forte e estava em melhor posição. Odiei aquelas malditas algemas de metal que limitavam os movimentos das minhas mãos.
Marcus se adiantou disparando contra Bryan com um modelo de arma que eu nunca tinha visto, mas as balas nunca atingiram o alvo, a última explodiu ainda no gatilho e mandou o portador pelos ares. Bryan nem mesmo olhou duas vezes para o homem que havia acabado de matar.
Dayon não vacilou nem mesmo por um segundo e então nós dois fomos jogados longe por uma onda de energia, a mesma que conteve a granava e ligou as máquinas da antiga fábrica. Os braços de Dayon me envolveram com tanta força que quase me sufocaram, mas ele teve o cuidado de largar a faca que antes estava contra o meu pescoço. Senti o corpo de Dayon bater na parede antes do meu, caímos juntos embora ele tenha sentido duas vezes mais o impacto da queda, só então ele me soltou, rolei para longe dele e tentei alcançar Bryan uma vez mais.
Aquele segundo, aquele último segundo... Os olhos verdes de Bryan eram um escudo impenetrável, as ondas soavam baixo emitindo meu nome, mas quando pude me ater a elas notei que eram frias e automáticas, vindas de um lugar muito distante da mente de Bryan e que a onda de ódio que a presença dele emanava era ainda mais forte.
Tateei pelo chão em busca da faca de Dayon e quando a encontrei tentei usar a ponta para abrir as algemas, ouvi o impacto do corpo de Dayon bater novamente contra a parede, dessa vez os olhos de Bryan estavam fixos nele, ele não estava tentando incapacitar Dayon, não estava tentando tirá-lo do caminho, ele o estava torturando! Bryan, o meu Bryan que mesmo podendo bater em todos os garotos que implicavam como ele no orfanato e sempre fugiu ou se deixou apanhar para não ferir ninguém, estava torturando um inimigo fora de combate desde a primeira queda. E Bryan Sorria. Aquele sorriso nunca saiu da minha mente.
– Eu estou aqui Bry! Volte-para-mim. — pronunciei com cuidado as últimas palavras, o punhal ainda estava em minhas mãos embora não tivesse feito progresso algum em meu livrar das algemas. Ele nem sequer olhou na minha direção, mas fui arremessada contra a parede oposta, meu braço bateu com força e deixei a faca escapar, quando cai senti o fecho do meu colar se romper, ele havia ficado preso a um parafuso meio solto de um cano na parede, o brilho azul da pequena pedra refletiu as chamas esquecidas da fogueira, tentei alcançar em vão a corrente, meu corpo foi forçado para baixo, a energia vibrava por cada uma das minhas células e então já não era o meu corpo, os olhos dele estavam sobre mim. — Volte para mim... — Repeti em vão, senti minha mão buscar o punhal mais uma vez, senti a textura da bainha de couro bem trabalhada e quando senti as lágrimas inundarem meus olhos, não tentei contê-las.
Não resisti, não tentei afastar Bryan da minha mente, tudo o que eu era capaz de ver eram aqueles olhos verdes, olhos que já refletiram tudo o que eu sou, o que fui e todos os sonhos que já ousei ter. Não houve dor, nem mesmo quando o punhal atravessou meu peito guiado pelas minhas próprias mãos. Naquele momento eu desejei que o fim fosse fogo, que a chama da fogueira fosse forte o bastante para consumir a todos nós. A lâmina em meu coração ardia como o próprio desejo, me agarrei aquele momento, para mim era o bastante.
"If this is to end in fire
Then we shall burn together
Watch the flames climb higher into the night
Calling out father, oh, stand by and we will
Watch the flames burn on and on
The mountain side
Desolation comes upon the sky
Now I see fire
Inside the mountains
I see fire
Burning the trees
And I see fire
Hollowing souls
And I see fire
Blood in the breeze
And I hope that you remember me"
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