The Last Secret
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Pensando bem era até fácil entender o ódio do avô pelos Dickson, eles eram desprezíveis, a julgar pelo jeito que Scott agia, pensava Mary Kate, lembrando do sorriso sexy e dissimulado do rapaz. Ele não queria que ela soubesse seu nome verdadeiro, nem sequer assinara a redação, claro que tinha um plano. Mary Kate sentiu raiva, se havia algo que a irritava eram planinhos maquiavélicos que incluíam mentir, enganar e usar pessoas. Mesmo Langdon tendo lhe pedido para não fazer nada, nem se aproximar de Scott — ele pode ser perigoso, dissera Robert — Mary não aguentava olhar para ele e não fazer nada, a vontade que ela tinha era de...
— Mary Kate?! — Blair gritou, dando um tapa no ombro da amiga. — O que há com você? Planeta terra chamando!
— Desculpe, Blair, do que você estava falando?
— Grupo de estudo hoje à noite, o seu amigo Robert Langdon não está pegando nem um pouquinho leve. — Blair percebeu que Mary Kate continuava alheia, sem lhe dar atenção; olhou na mesma direção que a amiga estava olhando, e descobriu o motivo. — Talvez a gente possa chamar o Scott.
— O que?
— Agora eu tenho a sua atenção?
— Do que você está falando, Blair?
— Você está a fim do Scott?
— Não! É claro que não — disse Mary Kate com determinação, mas Blair achava que a voz da amiga tinha aquele tom de insegurança típicos das garotas que não querem admitir que estão gostando do cara mais idiota da escola.
— Ou da universidade, no nosso caso.
— Eu não tô a fim do Scott, Blair, que maluquice é essa?
— Maluquice é você não tirar os olhos dele.
— Isso não tem nada a ver.
— Nada a ver, sei, esse olharzinho não me engana. — Mary Kate franziu o cenho e fez uma cara séria pretendendo mostrar a amiga o quanto se importava com suas teorias malucas.
— O que você sabe sobre ele? — perguntou, podia aproveitar o fato de Blair ser alguém que sabia sobre a vida de todo mundo no campus, e além disso, não importava o quanto negasse, a amiga não desistiria da ideia de que ela estava apaixonada por Scott, afinal, as amigas americanas não paravam de lhe arranjar pretendentes.
— Além do fato dele ser um idiota riquinho?
— É, além disso, isso é muito óbvio não é mesmo?
— Não sei muito, só que o pai dele é um magnata do petróleo, tem refinarias em vários estados e no exterior, claro; se mudaram há pouco tempo para cá, para ficar mais perto do filho enquanto ele está na faculdade. Eu li no jornal.
— Que fofo.
— Foi o que eu disse. Meu pai nem lembra que eu entrei na Harvard.
Enquanto Blair falava sem parar sobre sua relação emocional distante com o pai, Mary Kate voltava a olhar para Scott, sentindo novamente vontade de ir até ele e tirar aquela história a limpo.
— Bem, eu tenho uma aula agora, a gente se vê à noite.
— Ok, te vejo à noite.
Mary Kate tinha o horário livre e resolveu ir à biblioteca fazer algumas pesquisas. Mesmo nos livros mais antigos de arte e simbologia não encontrou nenhuma referência ao seu medalhão ou ao brasão da família Dickson. Nada daquilo parecia fazer sentido; frustrada, devolveu o enorme livro à prateleira e voltou para a mesa onde tinha deixado suas coisas. Tirou o medalhão do pescoço e ficou olhando para ele, passando o polegar sobre a superfície, lembrou do dia que sua mãe lhe deu.
Ela estava no quarto terminando de se arrumar para a escola; amarrou o laço da gravata, depois passou a mão pela saia xadrez, se virando para se ver no espelho; pegou a escova em cima da penteadeira e começou a escovar os cabelos, foi só então que viu sua mãe parada na porta.
— Assim você me assusta, mãe. — Margareth sorriu e entrou, antes de falar qualquer coisa pegou a escova de Mary e fez um gesto para que ela sentasse, e começou ela mesma a pentear os cabelos da filha como fazia quando Mary Kate tinha quatro anos.
— Me desculpe por não ter aparecido ao nosso jantar ontem à noite — disse ela, olhando para a filha através do espelho.
— Tudo bem — Mary Kate respondeu, mas sabia que não era verdade, não estava tudo bem, porque simplesmente passou a noite toda acordada esperando a mãe para jantarem juntas, acordou cheia de olheiras e precisou gastar bastante tempo se maquiando para disfarçar; estaria tudo bem se fosse a primeira vez que isso tinha acontecido, mas não era, e depois de tantas vezes e tantos imprevistos era difícil não ficar chateada.
— Eu sei que você está chateada, Mary Kate, e tem razão para estar, eu deveria ser uma mãe um pouco melhor.
— Mãe, não tenta bancar a vítima, você é uma ótima mãe, apesar de tudo.
— Apesar de tudo, você sabe que eu te amo não sabe? — Mary Kate sorriu com sinceridade. — Eu sei que o meu trabalho tem tomado muito tempo, mas eu estou prestes a fazer uma descoberta importante, Mary Kate.
— E depois que você fizer essa descoberta, você vai tirar folga do trabalho e nós vamos para os Estados Unidos, para eu poder conhecer meu pai, não é?
— Mary Kate...
— Você prometeu, mamãe.
— Eu sei, Mary Kate, eu já pedi para você ter paciência.
— Você já falou com ele? Já ligou, contou sobre mim?
— Mary Kate, nós já tivemos essa conversa, eu já expliquei, você vai conhecer o seu pai quando for o momento apropriado. — Mary Kate levantou-se e encarou a mãe, há quanto tempo mesmo ouvia aquela conversa de momento apropriado? — Ah, querida, não vamos brigar outra vez, não é?
— Queria que você me dissesse a verdade. Fala a verdade. O meu pai nem quer saber de mim, não é?
— Mary, eu não vou ter a mesma conversa que nós já tivemos centenas de vezes.
— Você nem deve saber quem é o meu pai e inventou essa história de Robert Langdon.
— Cuidado como você fala comigo, mocinha. — Mãe e filha de encararam por um instante; Margareth era normalmente muito paciente, mas Mary Kate passava dos limites de vez em quando e a mãe não suportava falta de respeito.
A garota sabia que magoava a mãe ao falar daquele jeito e se arrependia logo depois. Margareth sabia disso, e também entendia a filha; Mary Kate era uma adolescente, tinha seus momentos de rebeldia, por isso substituiu a expressão irritada por compreensão.
— Oh querida, eu sinto muito, por tudo, eu prometo que vou te compensar por tudo isso, ok?
— Ok. — Mary Kate relaxou, era mesmo melhor não brigar com a mãe antes de ir para a escola.
Deixou que Margareth lhe abraçasse e passasse a mãe em seus cabelos; com a cabeça apoiada no ombro da mãe, Mary Kate revirou os olhos; as duas viviam alternando momentos de amizade com brigas, eram carinhosas, mas também magoavam uma a outra, aquilo era o normal na relação das Dashwood.
— Melhor eu ir para a escola, mamãe.
— Hum, ok. Espera, um presente. — Margareth colocou a mão no bolso e tirou uma corrente com um medalhão pendurado. — É muito importante, eu quero que você fique com ele. — Mary Kate arqueou a sobrancelha, olhando desconfiada para o que parecia uma moeda de uma libra bastante antiga; ela pegou e passou o dedo polegar sobre a superfície, fazendo uma careta para a estrela de três pontas gravada nela.
— Vale grana, tipo, se eu vender no eBay?
— Não, vale mais que grana, Mary Kate.
— Hum... Tem alguma chance de trocar por uma das suas Tiffanys? Brincadeira. — Margareth balançou a cabeça e riu; pegou de volta o medalhão e colocou no pescoço da filha; Mary não estava achando que a joia combinasse com alguma coisa, mas sua mãe parecia fazer questão que ela usasse. — Retrô tá na moda, né?
— Não o perca, Mary Kate. — Mary Kate sentiu-se meio como Frodo quando Gandalf pede que ele guarde o anel em segredo e a salvo. — E não pense em vendê-lo no eBay. — Margareth sorriu e deu um beijo na cabeça da filha. Mary Kate colocou o medalhão para dentro da roupa, poderia usar, mostrar as outras garotas é que seria difícil.
Mary Kate voltou do flashback; ainda segurava o medalhão, correndo o dedo polegar pela superfície tal como fizera na primeira vez que o viu; nada parecia fazer sentido ainda, mas algo lhe dizia que aquela joia estranha poderia ter alguma relação com a pesquisa da sua mãe, e isso, de alguma forma lhe dava esperança de descobrir o que estava acontecendo.
Olhou o relógio e viu que acabara se atrasando para a aula, soltou um palavrão, irritada por não ter tempo de ir falar com Robert imediatamente sobre o que estava pensando; juntou o material e foi para a sala de aula. Quando saiu foi direto procurar Langdon, mas Blair a acompanhou no corredor e como sempre, começou a falar como se nada no mundo fosse mais importante.
— Você não vai acreditar, Mary Kate! Eu convidei o Scott para estudar com a gente, e ele aceitou.
— Você o que? Qual é o seu problema, Blair?
— Pensei que você fosse gostar da ideia!
— Vê se entende que eu não estou a fim do Scott Summers, Dickson, seja lá qual for o nome dele, eu tenho coisas importantes para me preocupar — Mary Kate falou, sem querer ser grosseira com a colega, mas já estava impaciente, embora, a culpa disso não fosse de Blair, era sua cabeça que estava a ponto de explodir. Pelo menos Blair não pareceu ofendida, Mary Kate se perguntava se afinal, haveria alguma coisa que fosse capaz de deixar Blair ofendida.
— Você está um pouco estressada, amiga, talvez a ideia de dar uns beijos na boca do Scott não seja de todo ruim — disse ela, com uma de suas risadas, Mary Kate revirou os olhos, precisava se acostumar com aquilo, ou enlouquecer.
— Eu preciso ir falar com o Robert, professor Langdon.
— Ok, te espero a noite, então. — Mary Kate balançou a cabeça e saiu.
Blair ficou olhando a garota se afastar, achava mesmo que Mary dava atenção demais ao professor de Simbologia, definitivamente aquilo não era normal, assim como não era normal imaginar a inglesinha de caso com um cara mais velho.
— Isso seria viagem total.
Mary Kate não reparou na cara de espanto que Sally fez quando a viu chegar e perguntar se poderia falar com o professor Langdon; a secretária do Departamento de História disse que Langdon estava ocupado e perguntou se ela não queria deixar um recado, ou talvez marcar um horário quando o professor estivesse disponível para receber os alunos.
— Não, obrigada, eu falo com ele depois. Obrigada.
— Tudo bem, então. — Sally viu Mary Kate sair, e ficou pensando consigo mesma, era muito suspeito aquela garota sempre procurando Robert. Duvidava sinceramente que o professor fosse capaz de se envolver com uma aluna, já conhecia Langdon há bastante tempo, sabia do caráter dele, mas era estranho o jeito como ele tratava Mary Kate Dashwood. — Se houvesse alguma coisa, ele não deixaria tão óbvio, não é?
— Falando sozinha, Sally? — Sally sobressaltou-se ao ouvir a voz de Robert que acabara de entrar; imediatamente Sally viu as pastas que o professor trazia. — Os diários. — Sally sorriu, se todos os professores entregassem os diários de sala em tempo hábil como o professor Langdon, seu trabalho seria imensamente mais fácil.
— Ahm, professor Langdon...
— Sim, Sally.
— Uma aluna esteve lhe procurando ainda há pouco. — Langdon não entendeu o motivo de Sally parecer escolher as palavras com cuidado, afinal, sempre tinha um aluno procurando ajuda depois das aulas. — Aquela garota, Mary Kate Dashwood. — Sally tinha certeza que algo mudou na expressão de Robert ao ouvir o nome da garota. — Robert, me desculpe, eu não quero me meter na sua vida, mas...
— Do que você está falando, Sally?
— Desculpe, Robert, mas, essa garota, e você parecem tão... — Sally falava com cuidado, e Robert pode sentir o embaraço da secretária. — próximos... Você sabe, eu te conheço, mas, as pessoas comentam, e... — Claro que Robert sabia; sabia que em algum momento as pessoas começariam a falar sobre aquele relacionamento, e infelizmente não podia se dar ao luxo de dizer que não devia satisfação de sua vida a ninguém, afinal, tinha uma reputação a zelar, e, em se tratando de Harvard, um mal entendido daqueles poderia significar o fim da sua carreira acadêmica.
— Sally, eu não sei exatamente o que as pessoas estão comentando, mas não... — Robert sentiu-se envergonhado, não sabia como dizer que não havia nada entre ele e Mary Kate, era tão constrangedor precisar explicar algo daquele tipo. — A mãe da Srta. Dashwood foi uma grande amiga minha — disse apenas, mas Sally assentiu, e para ela aquela explicação era bastante para voltar a confiar em Robert Langdon. Ela deixou os diários que Robert lhe entregou na mesa, e deu os novos para ele. — Obrigado, Sally. — Robert deu um sorriso diplomático e voltou para a sala dos professores; pegou o celular e ligou para Mary Kate, convidou-a para tomar um café e poderem conversar.
Mary o encontrou na Starbucks, como sempre fez cara feia para o café americano, mas ao invés de reclamar dessa vez, concentrou-se em falar sobre o que tinha descoberto, ou imaginado descobrir, afinal, tudo não passava de suposições.
— Então você acha que isso pode ter relação com a pesquisa da sua mãe? Faz sentido.
— Eu deveria ter pensado nisso antes não é?
— Nós dois poderíamos ter pensado nisso, Mary Kate.
— Se você tiver acesso aos documentos que a minha mãe estava estudando vai poder descobrir o que isso significa. — Mary Kate tirou o medalhão do pescoço e deu a Langdon. — E principalmente saber por que Lorde Dickson parece disposto a matar por ele.
— É possível que a sua mãe tenha deixado alguma pista sim.
— Eu vou pedir ao meu avô para mandar tudo, o mais rápido possível, direi que preciso como fonte de pesquisa para a faculdade, em todo caso, acho que ele não vai se incomodar, nunca deu importância ao trabalho da mamãe mesmo, mas infelizmente é o único que pode pegar os documentos para nós.
— Você prefere deixar passar isso antes de falar com o seu avô?
— Tudo bem para você?
— Claro, claro, é só que, você deve ter ouvido... ahm...
— Sei, sei, entendo o que você está falando, Robert, eu sinto muito, espero que isso não lhe prejudique.
— Bem, não vamos nos preocupar com isso agora, quanto antes descobrirmos o que está acontecendo, melhor. — Langdon estendeu o medalhão para devolvê-lo a Mary Kate, mas ela fez um gesto com a mão, para que ficasse com ele.
— Talvez seja mais seguro, em todo caso.
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